Luz e Sombra

Wednesday, May 18, 2005

Pressão...(Parte II)

A inépcia de sempre. Sem querer (como aliás me acontecem as coisas na vida!), disparo. Acerto em cheio num vaso que está num canto da sala. Lá se vai o vaso. Terra, flores no chão e gritos histéricos no prédio. De repente, um frio percorre-me o corpo...era junto daquele vaso que Elisa costumava tirar uma preguiçosa sesta. Eu poderia ter morto Elisa!! Eu poderia ter morto Elisa!!
O barulho da caçadeira pôs tudo em alvoroço. Agora não é só a bebé da vizinha que chora, mas também a empregada do sr. Costa, do 3ºDto, aos gritos e a gesticular de forma perfeitamente ridícula. Continuo aturdido pelo pensamento da gata...a ideia de que eu a poderia ter morto por pura inépcia, descontrolo, falta de atenção...como o puto asqueroso do tunning?? Não! Recuso tal comparação!!! Jamais!
A polícia chega naquele alarido que as circunstâncias exigem. Galgam as escadas. Sim, já chegaram tarde e não vá o elevador tecê-las. Vêm quatro agentes!!Tantos?! O que será que eles julgam que vêm fazer?
Sinto-os nas escadas...galgam-nas de forma espalhafatosa. Eu fico quase imóvel, de caçadeira nos joelhos, sentado no sofá e com a cabeça entre as mãos. Bolas! Agora vão-me aborrecer! Batem à porta. Esperam que eu vá abrir. Não era suposto, era? Batem outra vez! Será que não sabem para que serve a campainha? O que será que eles estão a pensar? Inimaginável!
Abro a porta. Questionam-me sobre o tiro, escrevem, escrevem ( o relato da ocorrência, como gostam de chamar a essa delicada operação!), entram, olham à volta, vêem a caçadeira, olham para mim e, em vez de perguntarem alguma coisa de útil, ajustada à situação delicada (sim, não é suposto andar-se aos tiros dentro de casa, certo?), pedem-e a licença de porte de arma. Não tenho.Nunca gostei de licenças. Detesto pedir autorização para o que quer que seja. Considero isso um atentado à minha liberdade. Gosto de trangredir.
Esboçam um sorriso vitorioso e algo irónico acrescentando que vou ter de pagar uma multa. Aconselham, também, para uma "próxima vez", a não incomodar os vizinhos...fabuloso. Uma multa. Estou mais preocupado com o vaso. A Elisa adorava dormir à beira daquele vaso. A Elisa, essa, ninguém a traz de volta. A multa não tem importância nenhuma.
3 dias depois...
Não me reconheço no espelho. Estas olheiras e este aspecto desleixado não são eu. Não são. Bem, já me habituei a este aspecto meio esquisito e é mesmo com ele que agora vou sair para ir pagar a multa.
Desço as escadas. Sinto a cabeça latejar a cada degrau. Continuo sem dormir. As dores de cabeça são quase insuportáveis. Mal consigo abrir os olhos e sinto a pernas a fraquejar...fecho a porta da rua atrás de mim, meto as chaves no bolso e tento ajustar os olhos à luminosidade. Está um sol intenso. Vou a pé. É relativamente perto, apesar da eternidade que no outro dia os polícias levaram a chegar ao prédio!!! Também não me sinto em condições de conduzir.
O sinal para os peões está vermelho. Não suporto estar aqui à espera. Sinto-me um palerma de pé a olhar não sei para onde, de modo a evitar os olhares de reprovação que me chegam do lado de lá da passadeira. Olho de soslaio para ambos os lados. Atravesso. Não vou ficar aqui à espera do verde...o barulho dos travões é estridente, as pessoas que estão no passeio gritam...sou arremessado para o ar...uma dor imensa alastra da cabeça às costas...sinto o sabor do sangue na boca, a sua textura...os olhos turvam......caio uns bons metros bem mais à frente, no chão.O barulho torna-se longínquo...cada vez mais, cada vez mais...
Não foi um puto asqueroso do tunning. Não foi o assassino de Elisa. Foi uma comum mãe de família, pelos seus trinta e picos que ia (apressadamente, diga-se!) levar o filho ao colégio. Não pode parar a tempo. Ia depressa demais e, afinal, o sinal estva verde para ela.
Sim, sou eu que ainda vos falo. Vejo Elisa...Elisa! Elisa!, grito. Vejo o meu corpo estirado no chão, cheio de sangue...amontoam-se as pessoas, chega a polícia (será que me vão querer multar?!), INEM, que confusão...
Eu pairo e afasto-me lentamente...vejo Elisa, a minha Elisa junto de mim a lamber-me o rosto cheio de sangue e logo a Elisa, que não era menina para tantos mimos! Dá-me as boas vindas- Aconchega-me. Mostra-me que sempre estivera lá sem eu a ver, sem eu dar por ela. Deita-se ao meu lado. Aconchega o seu focinhito altivo no meu pescoço.
A cabeça deixou de doer...tudo se tornou inexplicavelmente límpido...sinto-me leve. Sinto-me vivo agora. Sim, agora sinto que estou vivo...com Elisa, como Elisa...
4 dias depois...
O meu apartamento é "profanado"...virado do avesso. Os meus sobrinhos acotovelam-se para levar os meus pertences para suas casas. Ficam as fotos. Duas minhas e uma da Elisa. Sim, eles não as querem. Os mortos, para eles, não existem. Agarram nelas e deitam-nas ao lixo, mas eu e Elisa estaremos sempre lá...Elisa está junto do vaso a dormir a sesta...eu estou no sofá a ler. A noite cai. A preguiça estica-se. O sono embala-me.

5 Comments:

  • Começamos bem! :))
    neeeeeeeeext!
    vá, don't be shy....

    ... isto promete!

    D.U.

    By Blogger Der Überlebende, at 2:12 AM  

  • Vi o texto mas ainda não li, senão fico sem ideias para a minha versão, fico completamente seca :) só depois de fazer a minha é que me atrevo a ler...
    Mas claro que deve estar espectacular, escrita por quem foi...

    By Blogger Eduarda Sousa, at 9:54 AM  

  • temos um novo colaborador ;)
    ai ultimamente é-me dificil comentar todos os textos que por aqui passam, este blog sofreu uma grande crescida nao foi? :D fico contente que assim tenha sido ;)

    Ja tava com saudades de ler alguns dos teus textos D.U.

    Parabens ao [ou a] redbackspider ;)

    Beijo*

    By Blogger Perséfone, at 9:10 PM  

  • Agora que comecei a ler o Metamorfose de Kafka, esta segunda leitura do teu texto fez-me lembrar um pouco ele. Pelo absurdismo; referente quer aos procedimentos da polícia, quer à atitude dos sobrinhos. E também é interessante apreciar o que é importante para cada pessoa. Vivemos todos num mesmo planeta e todos em mundos separados. Por vezes achamo-nos muito semelhantes e, no entanto, damos valores a coisas completamente diferentes. Temos um mundo a parte, o nosso mundo. Para o personagem um simples vaso era importante. E com poucas coisas também se respira bem como demonstra o final.
    Beijo*

    By Blogger SweetSerenity, at 9:15 PM  

  • Maravilhoso o texto. Sem dúvida completa o mote, está à altura dele, bem escrito, a fugir do óbvio. Adorei.

    By Blogger maria l. duarte (secret), at 5:39 PM  

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