Luz e Sombra

Friday, June 03, 2005

Desafio BI - A Dor

Aqui vai a minha história...era para publicar mais tarde, mas não resisti!!

Lembro-me bem, muito bem, como se fosse hoje. É impossível não lembrar aquele rosto petrificado pelo medo e tingido de uma misteriosa esperança. Pergunto-me se alguém terá reparado em mim desta maneira quando, também eu, passei por estas cadeiras.
Era de estatura média, um pouco forte, algo robusta, com uma estrutura quase atlética. Perto dos 40 anos, talvez, um pouco menos. Tinha um cabelo castanho-escuro que lhe caía sobre os ombros, algo revolto. Sei, agora, que o seu cabelo não poderia ser de outra forma, ter outro aspecto. Esse ar indomável, selvagem era o que restava de uma vida contida e esmagada por uma dor oculta, um presença ausente. Tinha os olhos negros e grandes, uns olhos que perscrutam a alma. Algumas sardas espalhadas aleatoriamente pela tez clara do seu rosto, davam-lhe um ar arisco e algo infantil. Chamava-se Fernanda, vim a saber. Era arquitecta.
Costumava vê-la por ali, sempre que ia ao hospital visitar a Cândida. Lá estava ela, sentada naquelas cadeiras à espera da sua sessão de quimioterapia. Folgo em nunca a ter visto a sair daquela porta. Antecipo umas sardas mais esbatidas e um olhar vazio. É quase inevitável olhar para aquelas cadeiras e me ver ali, a mim, há cerca de dois anos. Será que alguém reparara em mim, como eu reparara nela? Não, não acredito. Quem iria reparar num homem de meia-idade, careca e de estômago dilatado por anos e anos de vida desregrada, marcada pelo álcool?...Agora tudo isso não passa de uma lembrança amarga. A doença levou-me o estômago dilatado. O álcool já me havia “levado” três esposas que não aguentaram. A vida recomeçou.
Sorvo este café em pequenos tragos. Fecho os olhos sentindo aquele líquido quente e algo amargo, descer pela garganta. Por cada trago, bebo a vida, sinto a vida. Procuro desviar a atenção para outras notícias do jornal, mas aquela fotografia dela e o texto frio e longínquo, remeteram-me para aquelas cadeiras de hospital.
Cândida chegou a conhecer uma parente dela – uma prima - que, por sua vez, era amiga de uma cliente lá do cabeleireiro. De quando em vez, aparecia lá com a amiga e, para não parecer mal de todo, arranjava as unhas. A Cândida foi conhecendo algo acerca da Fernanda (essencialmente depois de ela ter partido) enquanto cortava cabelos. Sim, a morte trágica de alguém evoca memórias enterradas, ressuscita pormenores macabros e alimenta a mesquinhez de muitas vidas. Talvez eu tenha conhecido mais da Fernanda quando atentava no seu rosto perdido e no seu corpo robusto que se aninhava naquelas cadeiras.
Há catorze anos lutava contra uma memória…

Paula. Paula era uma enfermeira do serviço de Oncologia. Nova. Muito simpática.
-Vá lá…o Sr….como se chama? Não tenho ali a sua ficha! – disse.
-Ah, desculpe…chamo-me João Costa, disse meio atordoado.
-Bem, preciso que me acompanhe até ao guiché. Preciso do seu BI e cartão do utente. Desconfio que a ficha está noutro serviço, disse Paula.
Assim acompanhei Paula, a enfermeira que me deu luz e tornou aquelas cadeiras menos dolorosas. Ela própria tão frágil e insegura…mas era ela que dava alento. De uma vez, enquanto eu procurava esticar a vida naquelas cadeiras, disse-me:
- Sr. João, outra vez a dormitar? Não temos tempo! É preciso lutar pela vida! Temos de cuidar da máquina !, disse.
Eu sorria. Aquela analogia entre a luta pela vida e o que eu fazia na oficina com os caros era, no mínimo, curiosa. Ela perguntava-me, muitas vezes, como é que eu era capaz de por como um novo um carro que havia chegado destruído à oficina e não era capaz de compreender que um homem, cheio de vida, como eu, venceria esta batalha para desafiar o tempo?
Paula, a enfermeira incansável, na sua profunda solidão, transportava a mágoa e histórias de todos os seus doentes. Uma mãe ausente e displicente e um irmão bastante difícil que se perdia nas ruas da cidade, eram o que a esperava, todos os dias, quando regressava a casa transportando a dor dos outros, esquecendo a sua.

Esqueci-me do café. O que dele resta está frio. Perdi-me nos meus pensamentos e no rosto de Fernanda.
Preparo-me para sair quando vejo Mafalda. Ela esboça um sorriso fabricado, sem vida próprio e dirige-se ao balcão do café. Faço-lhe sinal com o braço. Mafalda aproxima-se e, perante a minha insistência, acaba por sentar-se. Senta-se. Contudo, fica meia de lado, numa pontinha da cadeira revelando, desta forma, uma pressa inusitada, uma necessidade de partir para um qualquer outro lugar.
É quase impossível não reparar em Mafalda. É muito bonita, alta. Uma jovem mulher quase da idade da minha filha mais nova, a Amélia. Antes da Amélia ir para a Alemanha trabalhar com o irmão no Hotel, ela foi colega da Mafalda no hipermercado. Mafalda ainda é operadora de caixa. Amélia também não encontrou destino melhor – lava a loiça na cozinha de um Hotel nos subúrbios de Berlin.
Mafalda, do cimo dos seus 23 anos, exala tédio, desafia a vida.
- Senta-te, Mafalda. Fala-me de ti, disse eu. Esboçou outro sorriso fabricado, sem vida, sem garra. Os traços perfeitos do seu rosto e o lindo corpo bem torneado que desafia a perfeição divina, ficam esmagados sob o sorriso artificial de fim de dia. Mafalda respira tédio. Tédio da vida. Mafalda chora uma raiva incontida: a de não ser capaz de ser coerente consigo mesma. Passa os dias a olhar para o relógio de forma obsessiva, aguardando desesperadamente pela hora de ir dormir implorando a um qualquer deus não mais acordar. Mafalda não sabe porquê, não sabe por que o espelho lhe devolve uma imagem destruída e vazia em vez de uma bela mulher. Não conta os suspiros. Suspira de tédio, de enfado. Os seus movimentos são lentos, arrastados, melancólicos.
- Estou cheia de pressa, atrasadíssima., como sempre, responde-me. Assim se desculpa e se levanta de forma paradoxalmente lenta, esboçando mais um sorriso fabricado e sussurrando: - Até amanhã. Foi isso o que ela me disse acerca de si própria. Mafalda parece que passa pela vida sem a vida dar por ela. Se calhar disse-me muito de si: estou atrasadíssima, como sempre. Sim, Mafalda esta atrasada para a vida, para o sopro. Demora-se muito. Não chega. – Como sempre, Mafalda está onde já não está, Mafalda é onde já nada existe. Tédio da vida. Mafalda exala tédio, cheira a Verão e a cansaço de fim de dia. Os suspiros são quentes e abafados. Deve estar a olhar para o relógio contando os minutos que faltam para se deitar. Não mais acordar é o sonho que embala aquele corpo bem delineado criado por qualquer artífice divino num tempo antes do tempo.
Fico mais uns minutos. O jornal continua à minha frente. O rosto de Fernanda petrificado e eternizado naquela fotografia, lava-me a alma. Mesmo agora, depois de ter deixado de lutar, Fernanda inunda-me de tristeza e força. Fernanda leva o tédio da Mafalda para aquelas cadeiras e transforma-as em amor e esperança. Naquelas cadeiras Fernanda deixou a dor da ausência de um amor que lhe faltou por 14 anos, um amor que se destruiu na sua frente, desafiando a gravidade numa varanda de um 6º andar sobre o mar. Penso que de cada vez que a Fernanda olhava o mar no conforto, do seu sofá negro, via Francisco a dar o salto no escuro, o passo para o desconhecido, para a “liberdade”, como proferira instantes antes da queda.
- Posso levantar a chávena?, perguntou o empregado de mesa.
- Claro, respondi. Desculpe. Estava distraído
Penso, finalmente em ir-me embora. Fecho o jornal, dobro-o e entrego-o a uma senhora que está na mesa ao lado que o pede para ler.
- Ora viva, sr. João! Confesso que gosto bem mais de o ver sentado nestas cadeiras!. Era Paula. Estava a trás de mim. Havia acabado de entrar. Esbocei um grande sorriso. Havia acabado de entrar a minha luz, o meu alento. Ali estava Paula, carregada com a dor dos outros, procurando esquecer a sua. O café inunda-se de luz uma brisa primaveril invade-me as narinas
-As cadeiras estão antes e depois de nós…apenas passamos por elas, respondi.

3 Comments:

  • Peço desculpa...ao passar o texto para aqui ficaram algumas gralhas...:-(

    By Blogger redbackspider, at 10:38 PM  

  • Gostei muito do entrosamento coerente que destes às tuas personagens. Um conto cheio de sensibilidade. Parabéns.

    By Anonymous Anonymous, at 1:50 AM  

  • Confesso que ainda me perco um bocadito pelo meio por causa da quantidade de personagens... mas gostei muito, está muito humano e real.

    Ai meu Zeus! a minha história está a custar a sair...:)

    beijinho

    By Blogger Eduarda Sousa, at 2:34 PM  

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