Luz e Sombra

Wednesday, July 27, 2005

O Grupo – Desafio parte II

Pessoal, sei que vai tarde mas não quis perder mais esta oportunidade e deixar O Berlinde ganhar por falta de comparência do adversário. :)
Está muito grande mas aqui vai: é o derradeiro esforço de uma desesperada.

Saudações literárias!

Earworm

Um segredo incómodo

Miguel...Como um São João loiro, de cabrito sacrificial ao colo, a vítima perfeita dos amores colectivos, sempre; o eterno querubim de altar barroco que Laura, Rita e Dora disputavam num excesso de zelo para com aqueles olhos de orfãozinho de afectos.
Miguel, que ía num instante a casa gamar a garrafa de wiskey manhoso do pai para as noitadas no parque infantil, quando todos se escapuliam de casa, já noite avançada, bicos de pés, cão amansado com subornos de carne, parentela na cama a ressonar sonhos de GTI’s, Totolotos e amantes.
Miguel, que recusava sempre as ganzas que lhe passavam, que saía da cama às quatro da manhã para levar Sérgio a casa, podre de álcool e amargura, a tropeçar em estranhos e soleiras de porta, enquanto chorava ao telefone. Que mentia aos pais da Dora, a dizer que tinha ido com ela ao cinema, quando na verdade a Dora atravessava o rio para ir ter com o seu Xico a Almada.
Miguel, que tratava dos dois irmãos menores e fazia o jantar, quando mãe estava de turno na fábrica. Que apesar das noites mal dormidas ainda arranjava pestanas para queimar com algum mérito, na escola. Que secava lágrimas como ninguém, com cacau quente e dois dedos de prosa, mas que chorava para dentro como as estátuas dos jardins e fingia sorrisos como ninguém.
Não havia quem o detestasse secretamente mais que Eduardo. Naquele dia na praia, quando todos se esforçavam por falar dos pontos fracos do Miguel, Eduardo tinha sido o único a permanecer calado, deixando aos restantes a tarefa oca de lhe apontarem defeitos.
“Nunca chegas cedo a nada.”
“És calmo demais! Não sei como aguentas!”
“Tens de aprender a pedir ajuda e a confiar mais em nós!”, rematava alguém, com um paternalismo nauseante.
Eduardo não. Não precisava de se esforçar por lhe ter uma raivinha de estimação, nunca partilhada com ou por ninguém, porque os anjos sempre lhe fizeram impressão. Não se pode confiar em anjos, na tonalidadezinha âmbar das suas auras de bondade, no seu aparente equilíbrio de marionetes celestiais, na sua santidade lavadinha. Custava-lhe não poder ser honesto, conviver com aquela estranha amabilidade estampada no rosto a cada encontro, sem esperar nada em troca, o que constrangia ainda mais. Mas Eduardo sabia-se incapaz de repudiá-lo. Aceitar um era aceitar todos, como uma horda de irmãos siameses. As raparigas e as suas conversas emancipadas, tolas de tempos a tempos, davam-lhe uma estranha segurança, ainda que se mantivesse em silêncio a maior parte das vezes. Acompanhava-as as compras, arrastado como um perdigueiro, sentia-se protegido com elas.
Já com os rapazes as coisas eram sempre perturbadoras. Assistia aos jogos de futebol sentado no banco, o peito a sobressaltar-se com a violência dos remates, com os gritos de guerra a anunciar passes e fintas de huno, com as pernas deles a tropeçarem umas nas outras, com a carne a tropeçar na carne. O coração a correr-lhe descompassado quando os tipos da sociedade recreativa vinham apagar as luzes do campo, nas noites de sábado, e o suor lhes corria em bica da cara afogueada, das nucas tenras a pingar, dos membros a ferver.
Tinha percebido, finalmente, havia pouco tempo. Não queria dizer que se aceitasse mas tinha entendido e só lhe apetecia espancar-se e emparedar aquele ser estranho que agora encontrava em si, prendê-lo numa cave debaixo de todas as celas e subterrâneos do mundo e esquecer-se para sempre da chave.
Miguel jogava sempre, aos sábados. Mas a carne dele era tenra demais, a aura ofuscava demais, o halo por cima da sua cabeça fazia-lhe sempre lembrar que o rapaz caíra por descuido de um coro de querubins e a voz não tinha a violência feliz da testosterona, os olhos eram demasiado inocentes e certos de alguma coisa que o irritava.
Na véspera da partida de Miguel houve lágrimas e bebida a mais. Estiveram todos no parque infantil, na casinha de madeira onde os putos brincavam aos pais e às mães. Dora chorava agarrada a Miguel; Sérgio, Tiago e Paulo passavam uma garrafa de Macieira entre si, sem se olharem, sentados lado a lado, rostos no chão. Laura não parára de repetir, irritantemente, durante toda a noite, que em Abril os pais lhe tinham prometido uma viagem a Paris, que ía ter com o Miguel em pouco tempo, trazendo saudades de todos.
Eduardo não sentira nada. Constrangia-o não sentir nada. Mas, quando as quatro da manhã bateram, quando todos trocaram abraços e lágrimas e voltaram para casa com o coração apertado e o sentimento de terem deixado para trás uma perna, um orgão vital, um pedaço do passado perdido para sempre numa fotografia de infância esquecida, os últimos a ficarem para trás, estranhamente, foram Miguel e Eduardo.
– Bem... vou andando. Fica bem lá por França, vai dando notícias. – tentou Eduardo, estendendo um aperto de mão.
– Não vás já. Tenho uma coisa para te dizer.
Eduardo estancou e olhou-o, temendo um confronto de anjo para danado.
– Há crise? Passa-se alguma coisa.
– Não há crise nenhuma. Acho que não quero perder a oportunidade de te dizer uma coisa que já tenho entalada há uns tempos.
Eduardo encostou-se ao muro do parque e cruzou os braços. Aquilo prometia. O querubim começou:
– Pensas que passas ao lado de todos, sempre tão discreto, sempre tão calado.... Andaste sempre no meio de nós como um fantasma. Conheço-te há três anos e só há uns meses é que dei conta: ninguém te conhece a sério, pá. Ninguém sabe quem tu és. Ninguém foi a tua casa, ninguém sabe qual é o teu grupo preferido, ninguém conhece os teus pais, não sabem o que fazes longe de nós, se sofres por alguém, ninguém te conheceu namorada...
– Escuta aí, Miguel.... não me parece que deva grandes satisfações e, sinceramente, não faço questão de publicitar a minha vida privada.
– Não vás por aí. Não é um confronto. É para te dizer que sei o que sentes. Sei exactamente o que é isso e também sei que não é fácil.
Eduardo riu, perturbado e confuso.
– Sabes o quê pá? Não inventes!
– Sei o suficiente para perceber que não vibras com mamas e tranças, amigo.
Eduardo ficou em silêncio. Agora o anjinho mostrava as garras de abutre, pensou.
– Estás a chamar-me paneleiro, é?
– Não percebes, pois não?! Não estou a chamar-te nada, estou a dizer-te que sei e percebo o que sentes. Bem demais, até.
– Não sabes nada! NADA SOBRE MIM, CARALHO! Como te atreves a insinuar sequer... Meu filho da puta!
E no meio da raiva, antes mesmo do aperto que já cerrava o punho esquerdo ao Eduardo, antes da espuma do sangue lhe virem à boca, Miguel encostou-o à parede, segurou-lhe a cara contorcida entre as mãos.
– É que eu também gosto de gajos. É fodido, não é? Queria esperar por hoje para te dizer isto, especialmente, por ser o último dia. Não sei se te vejo mais. Podes alardear e contar a quem quiseres para te vingares, caguei para isso. O meu objectivo não é com eles. Não estás sózinho nem és um anormal. Nem sequer tens o previlégio de sofrer mais por isso.
Miguel largou-o e afastou-se dois passos olhando-o de frente.
– Para onde eu vou agora, pode ser que me safe bem sem viver com dez velhos jarretas em cima a chamarem-me bicha, pode ser que viva bem com as minhas escolhas. Se queres que te diga até é um alívio para mim sair daqui. Seja como for, não queria perder a oportunidade.
Miguel agarrou na mochila e pôs-lhe mão no ombro.
– Adeus.
E enquanto o querubim, agora menos âmbar, agora menos etéreo, se afastava, Eduardo ajoelhou-se na areia suja do parque. O choro de uma criança ouvia-se da janela das traseiras de um apartamento. Um carro chiou pneus ao longe.
– Esse não sou eu – repetiu baixinho.

6 Comments:

  • É isto q torna este blog algo diferente:
    a criação literária nua crua e bruta
    a imaginação entrelaçada de medo, violência e beatitude
    as palavras ácidas que deixam marca e a generosidade das mesmas

    É aqui que devemos investir: em criar algo novo e inimaginável

    como fez a Earworm, neste texto tão dócil como um murro no nariz

    É isto que me faz voltar cá todos os dias
    É por isto que eu anseio


    para beber da vossa água da criação

    By Blogger Der Überlebende, at 10:12 AM  

  • O Berlinde... Fiquei a olhar para o nick sem perceber a evidência do que representa! E depois desatei a rir:)

    By Blogger Dasha, at 10:44 AM  

  • Aaaai como é que eu comento isto? ... Ora bem, ta lindo :D eu pelo menos senti assim aqueles apertozinhos, e aquelas pausas, como suponho que as personagens tenham sentido :D Toda a gente tem segredos, os restantes tambem devem ter as suas historias.

    Parabens Earworm, ali a descriçao do grupo "como uma horda de irmaos siameses" loool tá muito boa ;D

    beijinhooooo*

    By Blogger Perséfone, at 12:54 PM  

  • Li esta história como quem bebe um copo de água seguidinho sem respirar; foi de chegar ao fim e soltar um suspiro. Está lindíssima a história. As descrições, a reviravolta inesperada... tudo tão bem encaixado!... entre si e entre a história da primeira parte. Gostei bastante.
    Qualquer tentativa minha de escrever qualquer coisa é anulada. Foi uma ideia muito bem concebida, parabéns :)
    Beijo*

    By Blogger SweetSerenity, at 1:15 PM  

  • Muito obrigada pelas vossas palavras tão generosas, malta. É sempre bom lê-las. Dá vontade de escrever mais coisas.
    Comecei este texto pouco depois do desafio ter sido lançado mas deixei-o a meio e não o consegui terminar. Mas, há dois dias, quando reparei que já não escrevia nada de jeito para este blog há muito tempo, decidi acabá-lo mesmo, apesar de quase ter desistido.
    É estranho como as histórias e as personagens nos levam a fins e lugares inesperados. Foi o que aconteceu aqui, não era nada disto que eu tinha planeado, mas até gostei do resultado final.
    Obrigado a todos.

    By Blogger Earworm, at 10:24 AM  

  • A meio desta história realismo eficazmente contundente, lembrei-me dos escritores realistas do séc. XIX, lidos à socapa na minha adolescência (não consegui acabar de ler a “Taverna” de Zola, nem “O Crime do Padre Amaro” do nosso Eça, os personagens principais provocavam-me vómitos – bem que os pais às vezes tem razão), Mas como já sou “crescidinha” li-a até ao fim e, achei-a bem engendrada, com uma pitada de humorismo que alivia-a o problema em questão.

    Suponho que a descoberta da tendência da homossexualidade num indivíduo, deve ser bastante problemática, para o próprio. Veio-me à memória James Dean (um excelente actor dos anos cinquenta, que era belo, como um Deus grego) que auto-provocou o acidente onde morreu, porque não teve a capacidade de lidar com este problema.

    Deve ser na verdade tremendo (que etimologicamente, segundo parece, significa “de fazer tremer”), e fazer tremer mesmo, no sentido, de um indivíduo exteriormente ter uma polaridade (masculina ou feminina) e interiormente, ser o seu contrário. Deve ser tremendo... embora a sociedade aparentemente não condene o “emergente” 3º sexo, que tem como todas as minorias, todo o direito à diferença.

    Sou mesma uma tagarela... sintetizando numa só palavra: Parabéns!

    Até...

    By Blogger sea-gullsoul, at 1:53 PM  

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