Luz e Sombra

Friday, July 08, 2005

O lado lunar

Nos 10 tópicos que escrevi a respeito de mim própria penso que não foi "revelado" o meu "lado lunar"...penso que vai agora aparecer sob estas linhas, num excerto de Savater, muito verdadeiro para mim, muito acutilante:

Sobre a felicidade a única coisa que conhecemos ao certo é a vastidão da sua demanda. (...) Não somos capazes de defini-la, não a confundimos com nenhum dos sucedâneos que pretendam substituí-la; mas supomos que seríamos capazes de a reconhecer se finalmente nos acontecesse. O que, no mínino, não parece certo. Talvez o que se passe com a felicidade é que somos incompatíveis com ela. Felicidade é aquilo que brilha onde eu não estou, ou ainda não estou ou já não estou. Para ser feliz teria de separar-me do meu eu. E, contudo, é o eu que quer ser feliz, mesmo que não se ateva a proclamá-lo aos gritos nas ruas do mundo, mesmo que finja resignação ou acomodação à simples sobrevivência, à obrigação da morte. Dizer "quero ser feliz" é uma ingenuidade ou algo de ridículo, excepto quando se trata de um desafio, de uma declaração de independência, de uma forma de proclamar: "afinal de contas, não vos devo nada". Quando deixa de ser um engodo ou uma reconciliação piedosa, a felicidade- por inacessível, por incessantemente furtada- começa a libertar.
F. Savater

7 Comments:

  • Obrigada por este pedaço tão brilhantemente escolhido.

    By Blogger Earworm, at 1:26 AM  

  • :-))
    Ainda bem que gostaste. Sei este extracto de cor. Acho-o simplesmente fabuloso...

    By Blogger redbackspider, at 1:51 AM  

  • muito bom!

    By Anonymous Anonymous, at 2:32 AM  

  • para mim a felicidade sao momentos, há-os em que me sinto verdadeira e totalmente feliz, rodeada de amor e bem estar, num extase mágico que me estonteia, mas já sei que essas marés de harmonia enchem e vagam novamente, assim como as da tristeza. tudos e processa em ciclos.

    By Blogger aquelabruxa, at 11:33 AM  

  • este excerto fez-me lembrar este aforismo (que já não sei de quem é :)

    "Se ao acordares de manhã e não sentires dores é porque estás morto".

    Os momentos de felicidade existem mas são tão efémeros, passageiros. Por vezes são de tal intensidade que me arrebatam completamente, mas a dor, a tristeza não demoram a chegar. Não será a dor o que nos permite realmente chegar ao amâgo das coisas, dos seres, das pessoas? Quantas vezes não prefiro estar sorumbática e carrancuda do que uma "pateta alegre"!. É porque de facto sinto e vejo para além de um simples óculos de sol escuros!

    No ínicio de Stembro do ano passado li "Ética para um jovem" de F. Savatar. De que excerto é este livro?

    By Blogger Eduarda Sousa, at 3:40 PM  

  • Que giro, também li Ética para um Jovem, mas quando estava no secundário. Era obrigatório para a disciplina de Filosofia. Pensei que ia ser uma seca (mesmo pensamento à teenager inconsciente) e depois gostei muito, fez-me pensar. Este trecho fez-me outra vez pensar. Felicidade. Às vezes acho que sim, somos incompatíveis com ela. Como disse o D.U. acerca dele próprio, há uma insatisfação constante.
    Talvez seja a nossa ideia de felicidade que é incompatível com a vida, pelos dissabores que ela naturalmente nos traz.
    Um amigo uma vez disse-me que era feliz por perceber que eu estava triste só de olhar para mim, sem eu dizer nada. Parece uma ideia um pouco cruel, mas o que ele queria dizer é que o laço invisível existente entre nós o fazia feliz. Talvez seja essa a forma suprema de felicidade, a ligação entre o nosso «eu» isolado e um outro «eu», seja sob que forma for. Por mim, viver para esses momentos de comunhão com outras pessoas, amigos ou amantes, parece-me suficiente razão para continuar. I can live with that.

    By Blogger smallworld, at 12:44 PM  

  • Este excerto é de um livro não menos brilhante que "Ética para um Jovem", chamado "O conteúdo da Felicidade". E já que é agora, há um outro, muito bom também: "As perguntas da Vida".
    Quanto ao que aqui foi dito sobre a Felicidade, penso que todos temos a experiência dos picos e sabemos o que é a dor ou a felicidade por puro contraste. Todavia, se me pedissem para fazer um desenho sobre a felicidade, eu desenharia um burro com uma vara amarrada em cima do dorso que se prolongaria à frente da sua cabeça uns dois metros e que, no topo, teria uma cenoura pendurada, amarrada com um fio ao pau . O burro caminha, ávido de conseguir comer a cenoura, sem saber que jamais a conseguirá agarrar. por outro lado e, curiosamente, não anda longe dela, não a perde de vista, mas agarrá-la, ah, isso ele não consegue. Contudo, é porque a vê que caminha. Se não a visse, certamente acabaria por parar. Quase me apetece substituir o clássico herói do absurdo, Sísifo, por este persistente e encantador burro!Mas nesta longa caminhada da vida, há burros e burros. Uns mais burros do que outros; cenouras maiores e mais pequenas, mas sempre a uma distância constante que não se elimina. Para mim, os momentos de felicidade que aqui referiram são aqueles momentos em que, por motivos vários (ou porque o burro acelera o passo, ou porque o piso é irregular e se presta a pouca estabilidade do burro e da cenoura...)a cenoura abana mais do que o normal e, em certos solavancos do passo se aproxima mais, à imagem de um pêndulo,do focinho do burro. Mas é só isso...a física encarrega-se de lever a cenoura um pouco mais para longe e assim sucessivamente. Em momentos mais ou menos estáveis, o burro caminha ao mesmo ritmo, num piso relativamente estável e a cenoura mantém lá...direitinha.
    Bem, peço desculpa por estes devaneios...espero que não tenha sido uma grande burrice da minha parte!...(cenouras? cenouras? Onde? onde? Sou fanática por cenouras...verdadeiras, a sério!)

    By Blogger redbackspider, at 11:04 PM  

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