Luz e Sombra

Monday, August 15, 2005

DCP- Os corredores

Olá, viva!
Tenho andado muito arredada, meio tolhida e sem inspiração. Não tenho o mínimo jeito para escrever sobre crimes...hesitei muito em mandar este texto para o desafio. Está acabadinho de fazer...duvido que interesse, sinceramente. Foi a inspiração de momento. Não li ainda os outros para não me sentir influenciada...vou ler logo que publique o meu texto. Bem, aqui vai...não há-de ser nada.
A música, "Waves become wings"-This Mortal Coil. É o que estou a ouvir desde que comecei o texto.
Foi sem querer! Foi sem querer. Eu amava-a mais do que a mim própria. Foi sem querer! Repito estas palavras para mim mesma, vezes sem conta. Arrasto-me por estes corredores sempre iguais, impecavelmente assépticos. São o lugar mais impessoal do mundo. Tudo aqui é distância.
Não sou só eu que digo foi sem querer. Os médicos, os enfermeiros e todos os que por aqui se arrastam, sussurram-me ao ouvido foi sem querer, foi sem querer.Não te martirizes, Antónia, foi sem querer. Eu sei que foi sem querer. Vão por-te boa aqui, vais ver. Vão por-nos boas aqui, vais ver, diz Carolina, uma rapariga muito nova que envelheceu e se cansou nda vida. Após inúmeras tentativas de suicídio falhadas, passou a arrastar-se por estes corredores com aquela camisa de dormir quase tão branca como a sua esquálida pele. De olhos vazios, rosto magro, lábios gretados, ela sussurra a todos os que encontra pelos corredores : foi sem querer, eu sei que foi sem querer.
Sento-me exausta num dos bancos, algures num dos corredores todos iguais. Solto os ombros, atiro a cabeça para trás. Sinto-me tonta, a desfalecer.
Estes corredores, estes sons arrastados. Sinto dor. Sinto que morro, aqui, aos poucos. Carolina procura, deseperadamente, todos os dias, alguma coisa com que se possa trespassar, definitivamente, enquanto sussurra, de forma absurda a quem passa: eu sei que foi sem querer, eu sei que foi sem querer.
Não sei há quanto tempo estou aqui. Nunca ninguém apareceu. Também nunca tive ninguém. Arranquei ao mundo, com as minhas próprias mãos, quem eu mais amava. Não há mais nada. Oh, meu Deus! Foi sem querer, foi sem querer, repito, repito, repito....
- Segure-a bem, enfermeira Andreia. Tenho de lhe dar outra injecção, bem mais forte. Ela tem de descansar- disse uma das médicas que aparece no meu quarto de vez em quando com uns papéis, uma caneta e aquele ar de quem sabe ler pensamentos. Mas não sabe. Não sabe nada. Ela não sabe.
Eu amava Ana. Amava-a mais do que a mim própria. Ana não compreendeu nunca. Eu não podia permitir que ninguém e, muito menos Ana, brincassem, zombassem com o que eu sentia. Naquela noite eu estava furiosa. A Ana tinha saído para ir tirar umas fotocópias que precisava para terminar um trabalho que tinha de entregar na faculdade. Disse que não demorava nada. Até já!, disse. Regressou 6 horas depois, nos braços de uma colega com quem tinha ido beber "qualquer" coisa. Estava completamente embriagada. Riu-se às gargalhadas quando me viu. Zombou da minha preocupação. Insultou-me. Chamou-me tarada, esquizofrénica e desequilibrada. Disse-me que eu tinha de arranjar urgentemente um namorado. Fiquei transtornada, desvairada. Controlei-me. Tratei dela. Ela precisava de mim. Pu-la no chuveiro, ajudei-a a vestir o pijama enquanto ela continuava a dizer aquelas coisas. Fiz-lhe um chá de ervas. Abri-lhe a cama. Ajudeia-a a deitar-se. Ajoelhei-me ao seu lado. Levei a palma da sua mão esquerda ao meu rosto e beijei-a delicadamente, enquanto sussurrava o seu nome e as lágrimas rolavam silencisamente pela cara abaixo.
De repente, Ana sacudei a mão. Afastou-me bruscamente e chamou-se louca e desequilibrada.
Não sei o que se passou. Algo aconteceu dentro da minha cabeça, do mei peito...enchi-me de uma fúria ofendida, desaveinda, de um orgulho humilhado, de um amor que não conseguia conter e atirei, furiosamente, as minhas mãos para o seu pescoçoe apertei, apertei, apertei, apertei e chorava, choraa, chorava....apertei até o pânico esguichar dos seus olhos vermelhos. Debateu-se, mas não tinha forças. Continuei a apertar, a apetar...larguei. Ana sussurrou qualquer coisa. Fui a correr à secretária, ao fundo do quarto, buscar a minha faca de abrir a correspondência e espetei cada bocadinho do seu corpo. Precisava de sentir o sangue dela na minha pele. Ana! Ana! O que é que eu fiz? Ana! Ana! Desatei a gritar...não sei quanto tempo isto durou..lancei-me a correr pelas escadas abaixo até ao exterior do prédio...lembro-me de correr, correr...o sangue da Ana estava quente, na minha pele...mais nada...Ana, Ana...
Amor, meu amor...foi sem querer...Ana, meu amor...
O tempo parou. Não sei. Quando me lembro de mim, já aqui estou nestes corredores. Não sei o que mais se passou. Não sei onde enterrarram a minha Ana. Não sei onde ela está. Entre o momento em que corri pela rua fora cheia do sangue no meu corpo até ao dia em que acordei aui, não há nada.
Foi sem querer, foi sem querer. Repito incessantemente para mim própria estas palavras. A dor do olhar de Ana, o seu pavor, turvam-me os olhos e as lágrimas pingam sobre o meu orgulho ferido. Não podias, Ana. Não podias ter feito aquilo...Ana, Ana...
- Deixe estar, enfermeira. Está bom. Ela já fica. Amanhã dá-se mais.
- Está bem, Dra. Eu vou ao outro casal.
Ana, Ana...tu sabes que foi sem querer...foi sem querer...

14 Comments:

  • Bolas!
    Para além de tudo "compactado", sem espaços, ainda abundam as gralhas...xiiii...mais um pedido de desculpas...

    By Blogger redbackspider, at 1:52 AM  

  • Só tenho a dizer...
    WOW
    como é que podes ter dito que duvidavas que interessasse... O.o
    "apertei até o pânico esguichar dos seus olhos vermelhos"
    que ganas que da as vezes de lhe seguir o exemplo ;D
    *suspira*
    ta FANTASTICO

    muuuitos parabens, esta de facto fantastico!

    *

    By Blogger Perséfone, at 2:08 AM  

  • Oh, muito obrigada! Gostaste mesmo? Sobre crimes tenho muito dificuldade de escrever...talvez porque os ligeu a policiais, não sei.
    Fico contente! Que bom! Muito obrigada, Perséfone!!
    Muitos beijinhos!!!

    By Blogger redbackspider, at 2:12 AM  

  • Oh de nada, o mérito é todo teu, exploraste uma das situaçoes mais extremas a que a emotividade e afectividade humanas podem levar, levaste muito bem a tua personagem a loucura
    és uma "assassina" nata :P

    beijinho* ^^

    By Blogger Perséfone, at 3:21 PM  

  • confusão sexual, demência, violência, amor, sangue...!

    Isto está a aquecer! Este desafio ainda vai fazer correr muuuita tinta... ou sangue!!!

    Grande cena psicho redback! benvinda de volta das tuas ferias

    sugestões musicais:
    The Gathering - Monsters (do album Souvenirs)
    Marilyn Manson - Sweet Dreams
    Black Tape for a Blue Girl - Fin de Siecle

    mais uma vez, estou disponível para partilhar convosco qualquer dos temas que sugiro

    bon travail et bonnes vacances

    d.u.

    By Blogger Der Überlebende, at 12:58 AM  

  • Um grande texto, redback! Uau! Adorei a maneira como entrelaçaste a loucura, a obcessão amorosa, a homosexualidade, um remorso atroz, o vazio... e em tão pouco espaço. Um texto muito humano. Não me parece que tenhas pouco jeito para falar de crimes. Aqui falas brilhantemente do pior dos castigos: a incapacidade de esquecer e o remorso.
    Muitos parabéns!

    By Blogger Earworm, at 1:41 PM  

  • Oh, obrigada..;-)
    Sabes que depois de escrever o texto apetecia-me continuar? Não sei...estranho...acho que me senti tomada pela loucura/clarividência das personagens...
    Beijinhos!

    By Blogger redbackspider, at 11:42 PM  

  • Sugestão musical:
    Pois, na minha cabeça a BSO é
    Tori Amor- Horses
    Amy Mann - Save Me.

    By Blogger Earworm, at 1:59 AM  

  • Redbackspider, acho que o teu texto está muito bom! Não percebo essas expectativas tão baixas que criaste... só posso dizer que até gostava que tivesses continuado, como disseste que te apeteceu. Continua assim!
    A banda sonora que sugiro se calhar não é muito apropriada, mas foi o que me veio à cabeça quando li o texto: Current 93 - All the pretty little horses.
    Beijinhos***

    By Blogger rita, at 9:57 PM  

  • Bem, eu em relação aos textos, ouço-os sempre no silêncio :S por isso, sugestões musicais não é mesmo comigo.

    Em relação à história, gostei. Exploraste aquele lado... talvez menos macabro. Não é um desejo de matar, é uma carência de amor e talvez uma recriminação em relação a isso mesmo. É um texto suave, apesar do tema que retrata, triste e bonito :)

    Em relação ao achares que não está muito bom, é algo que se resolve escrevendo mais, não? :) O texto está bom, mas se achas que tens mais para dar, dá! :)

    Beijinho*

    By Blogger SweetSerenity, at 12:44 AM  

  • Ui! Estive ausente por uns dias e vejo que o desafio Crimes Perfeitos que comecaram por ser Imperfeitos vai bem lancado e com excelentes participacoes! Adorei o teu texto, redbackspider... Acho que os meandros da mente feminina, quando obcecada, sao do mais terrivel que ha. Quem sabe o que vai no coracao de uma mulher que se sente desprezada? Somos capazes de tudo...
    Porque nao continuar, como disseste? Muitos pormenores ficaram por explicar, sobre as duas personagens, e podes bem fazer dessa historia um ponto de partida ou chegada para algo mais completo. You can do it! Beijinhos

    By Blogger smallworld, at 10:21 AM  

  • Obrigada Sweetserenity e Stella!
    É muito reconfortante "ouvir" isso.
    As obsessões não têm medida possível e o ser humano é um total desconhecido para si próprio. Somos capazes de escavar no nosso íntimo e encontrar os sentimentos mais improváveis...

    By Blogger redbackspider, at 12:02 AM  

  • Arrepiante. Li-o de fio a pavio sem respiração. Prendeu-me integralmente, reconheci estas imagens…

    “… diz Carolina, uma rapariga muito nova que envelheceu e se cansou nda vida. Após inúmeras tentativas de suicídio falhadas, passou a arrastar-se por estes corredores com aquela camisa de dormir quase tão branca como a sua esquálida pele. De olhos vazios, rosto magro, lábios gretados, ela sussurra a todos os que encontra pelos corredores…”

    Juro que ainda não percebi porque menosprezas tanto os teus textos… São fantássssssstiiiiccccoooooosss

    Já não imagino o Luz e Sombra sem ti ***

    By Blogger Eduarda Sousa, at 9:28 PM  

  • Oh, muito obrigada, Booklover, mesmo muito...eu acho que tb já não me imagino sem o Luz e Sombra...*****

    By Blogger redbackspider, at 7:45 PM  

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