Luz e Sombra

Friday, September 02, 2005

No Parapeito – Desafio Crimes Imperfeitos

Aqui vai. Longo, mais uma vez. Eu sei...
Mais vale tarde que nunca!


No parapeito

Escusa de pôr água na fervura, doutor advogado. Percebi muito bem o que quis dizer. Nunca fui mesmo muito esperto, nunca dei para a escola. Mas se fizer o favor de me explicar o que é isso do “ónus da prova”, eu até lhe ficava agradecido. Se me está a perguntar se fui eu que matei o Dr. Contreiras, só tenho a dizer que sim. Lidei sempre com cabrõezinhos pedantes como ele, mas desta foi de vez. “A lâmpada do gabinete do Sr. Vasconcelos precisa de ser mudada, Alves. Se isso amanhã não está pronto, escusas de cá passar. Vais directo para a fila da Segurança Social!”. “Alves, o esgoto da casa de banho rebentou. A merda chega à porta de entrada! Quando voltar do almoço quero esta espelunca a cheirar a rosas!” De certo modo, ainda bem que aqui estou, doutor, porque me fartei de apanhar trampa para os lordes; cansei-me dos risos de escárnio daquelas putas cromadas a ouro das mulheres deles, afogadas em estolas de raposas empalhadas e chinchilas de capoeira. “Ó Senhor Alves, que linda camisa! Havia para homem na loja onde a comprou?”.
Havia um gato amarelo, nas traseiras da empresa, que vinha ter comigo ao fim da tarde e de manhãzinha, quando ninguém tinha ainda chegado. Era cego de um olho e tinha uma pata partida e pendurada. Chamei-lhe Capitão Gancho. Acho que o bicho se afeiçoou logo a mim porque percebeu que éramos iguais. Vinha pôr-me os pardais de pescoço partido e as ratazanas esgoeladas que caçava, no parapeito da janela onde eu fumava um cigarro. Deixava-as ali, como presentes, acho eu. Comprava-lhe comida, dava-lhe uma malga de leite de vez em quando e o bicho procurava-me as festas, dava-me marradinhas no braço, como quem diz “Vá lá! Preciso de mimos...”. Achava-lhe piada.
Sabe, eu não falo muito com aquela gente. Quer dizer... não falava. Não me parece que estivessem interessados em serem vistos a trocar prosas com um empregado de manutenção aleijado. O Capitão Gancho era o meu único parceiro. Cheguei a pensar levar o bicho para casa, para me fazer companhia naquelas noites em que a voz da apresentadora dos concursos da televisão se transforma em ruído branco e que a humidade se esgueira pelas frinchas das janelas para me gelar os ossos.
Um dia, o Contreiras (pronto... o Doutor Contreiras, se isso o satisfaz, doutor) chegou de manhã e tinha um rato morto pousado no cadeirão de chefe onde ele se sentava. Não sei como é que aquilo lá foi parar, doutor, palavra! Chamou-me ao gabinete e começou a gritar comigo. “Alves, que merda é esta? Não estou farto de te dizer para fechares as janelas antes de saires? És um sacana incompente!” Depois, foi um chorrilho de humilhação que me agoniou: que me estava a fazer um favor e daquilo ser a paga da caridade dele, de estar pelos cabelos comigo.
O sacana do gato devia ser a minha alma gémea porque lhe tinha um pó ainda maior que o meu e, a partir daí, dia sim, dia não, o Contreiras tinha um presentinho no gabinete: urinava-lhe no teclado, deixa-lhe mais bichos mortos na secretária. Chegou a apanhá-lo em flagrante, a cagar-lhe no cadeirão de chefe, doutor, veja-me lá a esperteza do bicho! Mas se eu lhe disser que não sei por onde o sacana entrava, o senhor acredita?! Trancava tudo antes de sair e cabrãozinho parecia continuar a vir de noite, como uma assombração, para lhe deixar surpresas. Isto passou-se durante umas três semanas, até que uma manhã, o gato não apareceu. E na manhã seguinte a mesma coisa, tal como em todos os dias da semana que se seguiu, e a malga de leite a azedar no parapeito e eu cada vez mais sozinho.
Numa segunda feira, depois do expediente, saltei pelas traseiras para procurar o gato. Pensei que pudesse estar ferido das lutas e se estivesse a esconder a um canto, como os gatos e os homens acossados fazem. Fui dar com ele morto, de patas esticadas, o bucho inchado, sobrevoado por varejeiras, um cheiro de morte, de podre, de negro. Envenenado, doutor.
O cabrão do Contreiras veio à janela, rir-se, o traidor. “Então, Alves? Morreu-te o Tareco? É pena... Sempre tinhas um aleijado como tu para te fazer companhia.” Eu voltei para dentro, cego. Só me lembrava do bucho inchado do bicho, de não lhe conseguir olhar para a cara; de me passar a mesma imagem, vezes sem conta, pela retina – como quando se é pequeno e se vê um morto, como quando se é pequeno e se está sozinho e se tem medo e o que a gente mais teme aparece na primeira curva da estrada. Só me lembro da raiva a crescer e da espuma a inchar-me como o veneno no bucho do animal.
Entrei no gabinete, peguei no canivete trabalhado de marfim que o doutorzeco usava para abrir cartas e abri-lhe a goela como um sorriso de palhaço rico.
Agora me lembro, doutor advogado, que ainda lá está a malga, a azedar no parapeito.
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Sim, o meu nome é Isaura Gonçalves, senhor doutor. Fui eu que encontrei o corpo do Dr. Sérgio Contreiras. Tinha acabado de lhe tirar um café quando ouvi o grito. O senhor desculpe, que isto custa recordar... Sempre tão simpático, o Dr. Sérgio. Tão boa pessoa, tão bom patrão! Perguntava-me sempre pelas melhoras da minha mãezinha! Acabar daquela maneira, tão novo, com um filhinho pequeno e uma mulher tão linda, tão requintada! Mas como lhe ía a dizer, doutor, cheguei lá dentro para encontrar aquele monstro, o coxo, parado e de olhar vazio como uma assombração. O Dr. Sérgio ainda se debatia, agarrado ao pescoço. Perdi os sentidos e a minha colega chamou o 115. A partir daí ficou tudo negro.
Quanto ao coxo, era um tipo triste. Nunca lhe conheci companhia, tirando um gato amarelo e zarolho, imundo, que trazia ratos para dentro do escritório e que sujava tudo de fezes. Era uma praga tão grande, aquele animal! Uma vez, tentei apanhá-lo e ele arranhou-me toda. Vê como eu ainda tenho o braço? Não me orgulho de o dizer, mas tive que tomar medidas. Um perigo daqueles, que até tive de apanhar a vacina do tétano e da raiva e mais uma data de outras coisas que não me lembro!... Com o filhinho do Dr. Sérgio a brincar por ali tanta vez, sabe-se lá o que podia acontecer à criança! Comprei uma caixa de raticída e despejei tudo para dentro de uma lata de comida.
Nunca gostei de gatos, sabe? Há lá raça de animal mais traiçoeiro e ingrato?! Como o coxo, doutor. Almas gémeas.

8 Comments:

  • Tricky - Vent

    "madness is an extended form of normality after something small and nearly insignificant just gives in"


    valeu a espera, adorei o teu texto!
    Ainda bem que não te coibiste de participar, era uma pena perder uma página negra da nossa ala colectiva como esta. A cena do gato está brilhante, muito bem fisgada!

    keep on wormin'up our minds

    d.u.

    By Blogger Der Überlebende, at 3:19 PM  

  • Eh eh, tá genial, sempre pensei até às últimas frases que tinha sido o Contreiras a matar o gato!

    As semelhanças entre o gato e o coxo também tão cinco estrelas.

    Muito bom, isto vai ser difícil votar!

    By Blogger Eduarda Sousa, at 8:50 PM  

  • É tãoooo isso, D.U. !... Tão pequena e significante que, num estalar de dedos, tu passas-te de vez.

    By Blogger Earworm, at 2:19 AM  

  • Bem, nem sei bem o que dizer...
    Adorei o texto. Está muito bem escrito e tem uma ideia muito boa. Bastante criativo.
    E as personagens estão muito bem caracterizadas pelos diálogos. Até parece que ouvia a voz de cada uma delas. Gostei do gato e da amizade entre ele e o Sr. Alves que, a meu ver, independentemente do Contreiras ter matado o gato, estava mortinho por lhe tratar da saúde.
    Parabéns, está fantástico :)

    Beijinho*

    By Blogger SweetSerenity, at 8:16 PM  

  • é isso mesmo, Sweet Serenity. O gato foi só a hiperbólica gota de água. Uma desculpa kármica.

    Beijos.

    By Blogger Earworm, at 2:08 AM  

  • Earworm, este teu texto está fabuloso. Como já nos tinhas habituado, aliás. Não me importa que seja longo - até podia ser maior, desde que continuasse com a qualidade do que escreveste. Para além de tudo o que já foi dito, acho que esta história é mais real do que possa parecer à primeira vista. Quantos Sr. Alves e quantos Dr. Contreiras com as suas mulherzinhas desprezíveis há neste país?! Quanta raiva acumulada e quanto desprezo?!
    Está fantástico, a sério. Os meus parabéns!
    Beijinho grande*

    By Blogger rita, at 9:16 PM  

  • Já me esquecia da banda sonora... sugiro "Insanity's Crescendo" de Dark Tranquillity =)
    Beijinhos*

    By Blogger rita, at 9:20 PM  

  • Um texto muito bem escrito... mas... táo triste... vi mesmo o Alves e o gato e o tal doutor... a escrita é tão fluida que ficamos mesmo na pele da personagem partilhando as susas recordações...

    mas acaba muito mal... será que sou única deste blog que prefere que as coisas acabam bem, que as personagens sejam felizes e contentes com a vida? Que a tortura e perda sejam substituidas com a alegria e prazer? Acho que a vida por sí já é tão dificil, que torna-la mais triste com um texto tão bom mas triste que até faz chorar, seria um crime "imperfeito":)?


    beijinhos e aguardo por um texto cheio de alegria e luz:)

    By Blogger Dasha, at 4:28 PM  

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