Luz e Sombra

Wednesday, November 16, 2005

D.T. Novembro: Beleza, Equilíbrio, Harmonia; por Earworm

Olá a todos. Já tinha saudades de aqui deixar qualquer coisita. Respondendo ao desafio de Novembro, decidi dar a minha versão (pouco ortodoxa) de Beleza, Equilíbrio e Harmonia. Para a próxima sai melhor. Por enquanto, é isto que estas 3 palavras juntas me fazem lembrar.
Um abraço a todos.


ZEN

Tudo aqui é branco; as paredes, as cortinas, o edredão da cama alta e larga onde só eu durmo, as orquídeas japonesas, o tapete de lã virgem, a cama de dossel comprada num antiquário (disseram-me que pertenceu a uma raínha-por-ser, suicida).
Tenho um armário para a roupa de Inverno (que é toda preta), outro para a roupa de Verão (que é toda branca).
Tenho um jardim de Inverno com Aves do Paraíso e begónias e estrelícias e outras flores alienígenas e hera a trepar pelas paredes e aranhas a fazer ninhos entre ela.
E um gato persa que vê fantasmas.
Tenho este espaço todo só para mim. Tenho silêncio. O silêncio é branco, sempre achei, e feito da luz das manhãs de Inverno, quando te enrolas na cama e cegas de tanto sol.
Não como carne nem peixe. Só sementes, como os pássaros. Só vegetais e fruta que caiu dos ramos. Como Newton.
Mas, ao contrário dele, engano a gravidade. Engano os anos. A minha pele é alabastro. Não apanho sol. Não fumo, não bebo, não reparto fluidos, não rezo. (Deus morreu. Deus sou eu.) Prezo muito a minha espitualidade. Cultivo-a como um bonsai. (Vou podando... podando... podando...) Mil cuidados.
Os homens são máquinas movidas a raiva e sangue e sémen. Poluem tudo. Poluem o silêncio. Ocupam espaço. Por isso sei estar comigo. Por isso aprendi a amar-me. O maior amor de uma mulher deve começar nela.
A minha vida é um poema Zen.
A minha vida é caligrafia japonesa: requer todo um ritual, horas de concentração e depois faz-se num só suspiro, numa exalação apenas. O resultado final está sempre a um passo da perfeição, negro sobre o branco. Irrepreensível, organizada. Pontual ao passo dos ponteiros. Uma bailarina numa caixa de música, numa redoma. Virem-me ao contrário, agitem-me e cairá neve.
Branca e silenciosa.

11 Comments:

  • Lindo lindo lindo... Adorei ler este texto. Identifiquei-me com o branco, a minha cor favorita. Já tyinha saudades de ler um texto teu.
    beijinho

    By Blogger Eduarda Sousa, at 12:00 PM  

  • Lindo!
    Parabéns!
    Imagino tudo muito em, e os extremos têm sempre algo de poético (roupas pretas no inverno, brancas no verão).
    Adoro o gato que vê fantasmas (não vêm fantasmas todos os gatos?).
    Obrigada, gostei mesmo.

    By Blogger aquelabruxa, at 5:24 PM  

  • na cama, não consegues ser deus: apoderam-se de ti. os olhos.

    By Blogger Hugo Torres, at 5:28 PM  

  • Belíssimo!

    Gostei muito da tua personagem, é fortíssima, diria inabalável, de uma vontade férrea e psicoticamente precisa
    E no entanto, a carga ascética que ela transmite é a prenda dela para o mundo

    Achei a descrição dos limites espaciais muito vibrante, intensa e voraz.

    assim sim, não voltes a estar tanto tempo ausente!

    der uberr

    By Blogger Der Überlebende, at 5:34 PM  

  • Berlinde: assim enches-me o ego de ar quente, como os balões, e depois é dificil escrever. Means a lot...
    Booklover: mil vénias e reverências de mim para ti.
    Hugo: Verdade. Na cama como na morte. No ante-sono, no pós-amor, em todo o escuro.
    Aquelabruxa: para quando um dos teus textos iluminados, isso é o que eu quero saber.

    By Blogger Earworm, at 6:07 PM  

  • Ao fim de tanto tempo afastada, e sem saber quanto tempo levarei a regressar, chego aqui e leio este texto. Branco e luminoso. Preto e decidido. Todas as palavras (quer eu concorde ou não com elas) me transmitiram uma força que me ajudou imenso nesta fase difícil da minha vida. Há alguma coisa mais gratificante na escrita do que saber que ela atinge corações? Penso que não... por isso sente-te de parabéns, querida Earworm. Escreves lindamente. Beijinhos*

    By Blogger rita, at 9:23 PM  

  • Tambem gostei muitissimo do teu texto, ja tinha saudades de te ler. Tens um dominio das palavras fenomenal. Nao dizes de menos nem demais, dizes o que precisamos de saber para conhecer o mundo desta personagem. Adorei a esterilidade, a falta de humanidade, e ao mesmo tempo a fragilidade e o medo que rodeiam a vida desta mulher. Beijinhos :)

    By Blogger smallworld, at 11:23 AM  

  • Tudo o que queria dizer já aqui foi dito. Só mais uma coisa: obrigada! Obrigada por partilhares connosco uma coisa tão bonita.

    By Blogger Filipa, at 8:17 PM  

  • É mesmo essa a palavra certa, Stela: Esterilidade.
    Pip, Stela, Lua: obrigada pelo carinho.

    By Blogger Earworm, at 4:31 AM  

  • Muito lindo, mas muito triste

    By Blogger Joana, at 6:43 AM  

  • lindo texto! Forte e directo!
    Parabéns!

    By Blogger Disturbed Piece, at 5:32 PM  

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