Luz e Sombra

Tuesday, February 08, 2005

Escravidão; 500 palavras para um blog

M. andava muito angustiada nos últimos tempos. Telefonava-me várias vezes durante a noite para me contar o que se estava a passar. Tudo começou quando mudou para um apartamento novo. Depois de pesquisar, M. comprou o apartamento num bloco afamado pois nele viviam pessoas de meios elevados como médicos, advogados, professores...
Desta vez não teria problemas com os vizinhos e a segurança seria melhor. Depois de se mudar para lá ficou a saber que por cima morava um empresário e a respectiva mulher, não tinham filhos. Foi logo na primeira noite que o inferno começou. Estava deitada quando ouviu um objecto a partir em cima. Seguiram-se gritos, o arrastamento de um corpo pelo chão, palavras obscenas e murros. M. ficou pálida, petrificada. Pela noite dentro ainda ouviu pequenos gemidos e um choro despedaçante. Sem perceber ainda muito bem o que se tinha passado, M. preparou-se para sair de manhã e foi tomar o pequeno-almoço ao café. Foi quando se cruzou com P., o vizinho de cima, homem corpulento, impecavelmente vestido de fato e gravata. Cumprimentou M. com a maior das gentilezas. M. ficou confusa, suspeitava que ele era um desses escrúpulos que bate nas mulheres. O pesadelo continuou, todas as noites M. ouvia gritos e choros. Como não sabia o que fazer, deixou de dormir, apavorada de medo. Telefonava-me várias vezes, eu tentava acalmá-la e chegou a vir dormir para a minha casa. Sempre que se cruzava com P., no elevador ou no café, ele era muito cordial e gentil, cumprimentando-a e dizendo-lhe que caso precisasse de alguma coisa era só dizer. Como é que este indivíduo era capaz de bater na mulher? Tão simpático, bonito, profissionalmente bem sucedido. Chegou a noite em que M. não aguentou mais, tinha que interferir, não podia continuar a ser espectadora passiva da violência contra uma mulher. No meio da gritaria subiu as escadas e tocou na campainha, P. abriu a porta e perguntou a M. o que queria? M. respondeu que não conseguia dormir por causa do barulho. Foi então que a face sempre gentil de P. se contorceu, assumindo uma forma grave com os olhos a chispar de raiva. Disse-lhe para se meter na sua vida, o barulho que ouvia era da televisão e fechou-lhe a porta na cara. M. sentiu-se fraca, desceu e telefonou-me em pânico. Passaram-se mais dias, a violência continuou. M. telefonou à polícia. Como era a meio do dia, P. estava no trabalho, M. fez de propósito para ver se assim a pobre mulher de P. desabafava com a polícia e pedia ajuda. Após alguns minutos a polícia ter descido, a mulher de P. bateu à porta de M. A senhora estava vestida de preto e com óculos de sol. M. sentiu compaixão mas a mulher de P. deu-lhe uma valente bofetada e disse:

- Que tem você a ver com a nossa vida? Cabra! Se o meu marido me bate é porque eu mereço e ponto final! Ele não tem culpa de nada!

M. mudou de apartamento.

3 Comments:

  • Realidades que preferíamos não ver, de tal forma ilustram como as fragilidades humanas se podem transformar em relações doentias... É assustador pensar que qualquer um de nós pode descer a este ponto, dadas as condições necessárias. Ao ponto do agressor, ou ao ponto da vítima.

    By Blogger smallworld, at 11:35 PM  

  • Dependência: física, psicológica, moral... Como pequenos mosquitos anémicos e subnutridos, procuramos o sangue da vida nos outros. Por vezes somos esmagados pela opressão da violência do outro dominante. Outras vezes dominamos, sugamos até à última gota, até ao dia em que o outro morre... ou sai de cena! Triste destino depender de existir nos outros quando não vivemos dentro de nós mesmos...

    By Blogger Der Überlebende, at 1:25 AM  

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    By Blogger freak, at 2:28 AM  

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