Luz e Sombra

Friday, May 29, 2009

Electróide

É nesse momento que tudo ocorre
É quando a pele se despega da dormente carne
Quando o meu ventre arde e o mundo me abafa
Quando o meu olhar de esperança enfim morre
Deixo que o eu que sente por fim hiberne

E é quando eu sei que estou frio e só
Quando a boca cerrada me sabe a pó
Lanço a mão para te alcançar
A minha voz soa muda, sem ar
Sei que é hora de me entregar

Vago no olhar contemplo a sorte
Beijos secos na pele definham vazios
Anseio que explode, aperta o momento
Agarras a vida e desejas a morte
Relembras teus sonhos distantes e frios

A vida passa pelo estreito da ampulheta
Como areia fina do deserto esquizóide
Procuras consolo no fundo da valeta
Danças perdido a valsa electróide

Passo a passo, degrau a degrau
A cada passo respirar o fedor a pânico
Passas mais um passo, assomes a porta
Já não te interessa se é bom ou mau
Apenas a antecipação do delírio orgânico

O som da mala pesada a cair no chão
Enche a sala de caos e horror
Agora chegou o momento a sós
A cabeça que estala como um trovão
O coração que dispara como um tambor

É quando te sentas e contemplas o horizonte
Assumes o papel de lacaio debilóide
Lá em baixo fervilha sequiosa Sodoma
Rasgada no ventre pelo Aqueronte
Que imana vibrante um fulgor electróide

Os olhos pesados como as plúmbeas vagas
Do turbilhão dos céus que ora nos cobre
As horas perdidas, as horas esventradas
Por nadas que nos rasgam e enchem de chagas
Apodrecemos defuntos das causas mais nobres

Por ti, cederei
Por mim, negarei
Por nós, matarei
Por nada, morrerei

Para ti, meu amor
Serei humanóide
Por mim, meu amor
Não sou matéria nem som
Apenas electróide

Outro dia se apaga sob o cerúleo da abóbada
Outro nascerá radiante de ultra violeta
Como um livro antigo lido e relido
Retiro-me então para outra jogada
Mais uma volta na russa roleta

Tráz uma coroa de rosas
Nos bolsos alecrim
Nos lábios belas prosas
Na minha campa jasmim

E assim avança o filme noir
Gravado em película de celulóide
Assim passamos a outra história
Sem ter que lembrar qualquer pormenor
Enquanto perdura na boca um sabor electróide

… e nada mais interessa enquanto mais um dia passa

29 de Maio de 2008

Der Uberlende

Friday, May 08, 2009

Is there anybody out there?....

- Era uma vez...
- Bem, que início mais aborrecido, não te lembras de nada mais banal!?!
- Sabes, tanto tempo sem dizer nada deixou-me com a boca seca, os olhos vidrados e as mãos inquietas.
- Queres tu dizer sem nada para contar!
- Curioso, quem não te conheça poderá ignorar o nervosismo que tens sentido com o aproximar desta hora, o frémito com que golpeias as meias palavras que balbucias sem nexo, a intolerância que demonstras pelo silêncio que te consome, consome, te abre um buraco na alma e te reduz o estômago a poeira.
- detesto quando fazes isso!
- Isso o quê, lembrar-te o que faz bater o coração e arrepia a espinha de prazer?
- Isso de me quereres controlar, insistires que estás por dentro do jogo, que vives o que eu sinto, que sentes o que já não vivo, que não vives o que eu sonho ou que sonhas delírios de morte e de angústia pela viva que insistes estar por viver. Olha para ti e diz-me o que é real.
- Eu sou real, tu também o és.
- Não sou real, não posso ser! Sou uma aberração, um sabor amargo na boca, o corte do frio na cara nua, o palpitar das sombras e o nada, eu não sou nada!
- E no entanto falas, não é curioso?
- Falo contigo, quem mais está aqui para falar?!?
- Ele.
- Ele quem?
- O que ainda dorme, mas já não por muito tempo...
- Dorme? Queres dizer, que não esta morto?
- Morto!? Morto?... realmente, achavas que seria assim tão simples, morria e era tudo o que havia para dizer.
- Então há esperança, queres tu dizer? Que posso sonhar que irei voltar a ...
- Sentir? Sim, meu caro. Sentir, vibrar, correr, respirar, viver, tocar... matar!
- Troças de mim. Estou triste e doente e gozas com os meus desejos de liberdade.
- Liberta-te aos poucos, meu amigo, não caias no pecado da gula nem da luxúria. O dia de hoje não é igual aos de outros tempos. O mundo é grande e tu és um simples verme cósmico, pequenino, ainda te pisam.
- Sou um traço de giz na negra ardósia, um borrão de tinta nas mãos do incauto, uma mancha de lama nos sapatos do viajante e, no entanto, eu sou.
- Somos!
- Somos...
- Sim, somos. Agora, está na hora.
- Sim, sinto o nervosismo do momento, a febre a subir e o sangue a pulsar violento no coração.
- É tempo...


- Dr, pode chegar aqui por favor?
- Diga enfermeira, o que se passa?
- Acho que o paciente da cama 129 está com alteração nos sinais vitais, o pulso está a subir para 66 e a pressão a 120/60. Quer que o ligue ao electroencefalograma?
- Deve ser falso alarme, o paciente está em coma profundo há 2 anos, só está vivo porque ainda não chegou autorização para desligar a máquina e, além disso el...
- Dr, venha ver, acho que está a abrir os olhos!
- Enfermeira, chame depressa a equipa de neurologia, parece que o paciente está mesmo a acordar!

(O mundo é branco, estou cego de tanta luz)

8 de Maio de 2008
Der Uberlende

Tuesday, January 13, 2009

Saudade

Quanta saudade dos tempos do luz e sombra. Gostaria de o retornar das cinzas, ouvir falar dos velhos inquisidores da Alma, do Der Uber, do long lost Oliveira que marcou algumas paginas da minha escrita, da Booklover e outros com quem por aqui me cruzei :) Sempre que leio a luz e a sombra dos nossos pensamentos sobe me nostalgia ao peito.
Gostaria de voltar a ouvir falar de vós :)
Fica o desabafo.

(Vera Fonseca)

Wednesday, September 06, 2006

Não morremos: só mudamos de sítio

A ausência dói: a sombra do dia carrega o sobrolho e a luz da noite obscurece o pensamento. Palavras esquizofrénicas morrem de sede. Ecos incitam-nos a regá-las: n’ O Outro Lado da Lua. O regresso transpirado e desejosos de cuspir sementes apodrecidas na cave das ideias. Não morremos: no fundo «There is no dark side of the Moon really… matter of fact it’s all dark».


ps - o Luz e Sombra encerra aqui. A nova casa é ali: n' O outro Lado da Lua

Wednesday, August 16, 2006

... uma das maiores virtudes da Morte é que é ... Imortal.

Quando menos se espera aparece, afaga-nos com o seu manto, e leva-nos para longe, para o outro lado do Rio da Eternidade.

... e no entanto, a Vida sorri-lhe e acena-lhe do outro lado da margem, do lado onde ainda estamos sentados, confiantes de que só iremos embarcar quando assim o entendermos.

Pobres criaturas confusas...

Não há Morte nem Vida, apenas Energia, fluindo entre margens.

Não sentem a estática a sibilar?....


Hey, vira-te, estou mesmo atrás de ti!

Friday, June 30, 2006

Estatísticas do Luz e Sombra


Mesmo depois de estar “parado” continuamos a receber por dia mais de 30 visitantes.
Não se consegue visualizar muito bem o gráfico mas os resultados mensais são os seguintes:

Janeiro – 532

Fevereiro – 560

Março – 856

Abril – 787

Maio – 871

Junho – 583

Por exemplo, no mês de Março tivemos 856 pessoas que visitaram o Luz e Sombra. Estas visitas não contam as actualizações, são "unique visitors", ou seja, 856 computadores diferentes estiveram aqui...

Thursday, June 29, 2006

Para que não morra...

É...não me conformo com o facto de um lugar como este perder o seu brilho. Por isso vos deixo com um excerto de M.Duras a propósito do que nos une e traz aqui: a escrita.

Um escritor é uma coisa curiosa. É uma contradição e, tembém, um contra-senso. Escrever também é não falar. É calar. É gritar sem ruído.
M.Duras, Escrever
Redback


 

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