Luz e Sombra

Tuesday, February 01, 2005

Espelho; 500 palavras para um blog by Der Igel

Espelho

É mais um dia em que me arrependo de ter acordado com vida. Penso nisto todos os dias que acordo e fico às voltas na cama, envolto no costumeiro tédio que brota das estalagmites da almofada. A fada fria, jaz no pranto seco sonâmbulo dos cantos dos olhos com que não vejo mais que a morte. Mas todos os dias também penso que “é hoje que me levanto”, “hoje levanto-me com a determinação de ser alguém”. Mas logo esmoreço, imobilizado pelo colete-de-forças de todas as manhãs. Todas as manhãs transformo a frustração em luxúria. Acaricio-me com ódio e fúria, pensando em todas as mulheres que não existem por trás dos anúncios dos jornais, dos cartazes nas paredes que insultam e apoucam os venais caminhos que não tracei para mim próprio. Acario-me sem estima, torpe e frio, sabendo que sou a prostituta em cima de mim próprio. Fujo dos pensamentos presos no meu corpo, para longe das recordações inertes nos pensamentos, da morte prematura que me chama do interior dos pulsos. Mas a luxúria é efémera. O tédio é maior e prevalece. Perpetua-se nas veias, tece cefaleias, sintomas dos metabolitos secundários dos meus próprios julgamentos.
Mas hoje, quem sabe, é um novo dia. “É hoje que me levanto” e deixarei de ser a personagem patética que inventei para me defender do mundo. A personagem mal construída sobre uma infância mal resolvida. Deixarei aquela sombra de mim próprio que tanto alimentei sobre esse eu que nunca alcancei nem nunca estive perto de alcançar. Deixarei de ser o quem teria sido e nunca fui, esmagado entre a criança que nunca floresceu e o velho eremita que definha e atrofia na caverna onde nunca o encontrei.
E é então que me levanto. “Que vai acontecer?”. Ouso por fim, olhar-me ao espelho, procurando em mim quem me procure, olhando o olhar daquele alguém que lá me olha e vejo uns olhos que desconheço. Eles parecem conhecer-me, pois olham-me fixamente. Serenos, tristes. Alguém mais sábio e tolerante que vive dentro de mim e no entanto não conheço, é um estranho. E aqueles olhos, daquele estranho, parecem querer ajudar-me mas não sei dizer-lhes qual é o meu problema, embora eles já o saibam. E no entanto não entendo o que me querem dizer. São os olhos do estranho que nos meus olhos vive dentro, um estranho que me olha, sem ódio, sem opressão, sem julgamento. Perscruta-me como que me afaga o rosto desfocado, delicado e indulgente para com a minha fraca figura.
É um estranho que viveu comigo todos estes anos e eu sempre o silenciei, oprimi, sempre o ofendi, repudiei, reconstruindo-me por cima dele, matando-o de asfixia, de inanição. E no entanto ele ainda vive e olha-me por dentro do meu olhar, disposto a perdoar-me por tudo, tão disposto a ser tudo o que me resta. Eu que julguei que o tinha morto. Eu é que estou morto, ele veio para me ressuscitar. Sustentando-me, do fundo do olhar onde que me olho. Hoje, vou-me levantar.
2 de Fevereiro de 2005
Der Igel

7 Comments:

  • Então LEVANTA-TE!!!!
    Afasta a poeira que deixaste despositar-se na tua vida e levanta-te! Honra os dois braços e as duas pernas que tens e levanta-te! Afasta esse cobertor de chumbo que te esmaga, e levanta-te! Escancara a janela e dá uma oportunidade ao sol de entrar! Olha-te ao espelho e espera que esses olhos te sorriam! Porque eles estiveram sempre lá...à espera que tu hoje te levantasses!

    By Anonymous Anonymous, at 8:49 PM  

  • Então anota bem a data de hoje... Nunca mais a esqueças... Para que daqui em diante a possas celebrar como o dia em que te levantaste! O dia em que saiste de dentro de ti próprio e te redescobriste!
    Agarra este dia e a tua vida! Descobre esse estranho que está dentro de ti e verás como ele te vai ajudar a descobrir quem és!

    By Anonymous Anonymous, at 12:36 AM  

  • Eu sei, já começa a ser hábito eu comentar os textos com letras de música... mas não resisto à força, dinâmica, ritmo e intensidade das palavras magistralmente escritas! E por vezes perdemos tanto tempo a ler livros de m....

    Dedicado a ti, meu amigo, e a um mundo que já não volta;
    Levanta-te e ofusca o sol com o teu sorriso de criança!

    Anathema - Electricity (A Natural Disaster, 2004)

    Seems like you never really knew me
    seems like you never understood me
    seems like you never really knew how to feel
    but electricity it drew you near to me
    what you needed was to be rid of me

    there were times you really made me smile
    and there were times you really made me cry
    and there were times i never really knew how to feel
    but electricity it drew you near to me
    what you needed was to be rid of me
    and the fear made you so unsure of me
    what you needed was to be rid of me.

    but electricity it drew you near to me
    what you needed was to be rid of me
    and the fear made you so unsure of me
    what you needed was to be rid of me.

    By Blogger Der Überlebende, at 1:21 AM  

  • Ola Booklover
    tenho andado afastado da blogosfera mas voltei.
    Fui a um meet up da bookcrossing mas tinha gente a mais.
    Quase umas 20 pessoas.

    By Blogger Hugo Garcia, at 7:40 PM  

  • Parabéns pelo seu blogue. Adorei esta visita.

    By Blogger Elvira, at 12:35 AM  

  • Seria uma pena o mundo perder a tua contribuição artística. Portanto, espero que te levantes da cama de vez, sem arrependimentos.

    By Blogger smallworld, at 4:03 PM  

  • Também eu sei o que é acordar de manhã e ficar presa à cama pela inércia. E custa tanto, dar o primeiro passo, tanto mas tanto! mas depois de o dar a vida parece-nos tão mais bela e compensadora... Come on... Wake Up!

    By Blogger Eduarda Sousa, at 10:43 AM  

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