Luz e Sombra

Tuesday, January 11, 2005

Natacha

A Comunidade S. Francisco de Assis, em Coimbra, acolhe crianças desde os 2 anos e por aí adiante, vítimas de maus tratos: abusos sexuais, espancamento, fome e outras atrocidades que nem nos passam pela cabeça... É uma mini aldeia global. Têm oito casinhas de madeira onde vivem as crianças (juntam os mais velhos com os mais novos). Durante a semana cada casa tem uma empregada que vai fazer a limpeza e a quem os miúdos frequentemente chamam mãe. São crianças muito agressivas sem regras e normas de conducta absolutamente nenhumas. A madre Teresa (uma senhora de 74 anos que é a directora) contou-nos que demoraram um ano e meio para conseguirem que um menino ficasse 1 min sentado numa cadeira, imaginem!. Existem psicólogos, assistentes sociais e professores que ocasionalmente vão lá. São ao todo 79 crianças mas quando eu lá fui (abril de 2004) estavam poucos, só aqueles que não conseguiram enviar para campos de férias porque não havia espaço e/ou dinheiro para eles, como a madre disse ficaram os que “sobraram”. Metade das crianças são africanas. E isto foi mais ou menos as informações que nos deram, a seguir fomos (eu e o meu grupo de voluntariado) ao encontro deles.

De repente começaram a saltar crianças das janelas, a voar sapatilhas, alguns no telhado a passear!!! Estavam a acordar e curiosamente não costumam utilizar a porta para sair de casa. Até que os mais pequenos (5,6,7,8 anos) ganham coragem e aproximam-se de nós. Em menos de 1 minuto estava com duas meninas agarradas ao meu pescoço, miúdos a darem-me a mão... Queriam o nosso colo, abraços, atenção, miminhos... tanta carência afectiva, corações vazios, por preencher, sedentos de amor... Fiquei emocionada, petrificada, nunca imaginei tal situação... até uma rapariga de 17 anos não me largava o pescoço! Estava imobilizada por estas crianças... correspondi imediatamente distribuindo beijinhos, abraços, carinho, afecto... crianças de 4 anos!!! Sem ninguém para à noite lhes dar um beijinho, aconchegar-lhes a manta e dizer-lhes que os amam. A madre contou-me que há pais que se dirigem aos filhos pequeninos e lhes dizem directamente que os odeiam, que não querem mais saber deles...

Foi então que apareces-te Natacha... tens 14 anos, eu dava-te 6 anos! Quando te tiraram dos teus pai, apenas à cerca de 1 mês (estávamos em Abril) estavas a morrer à fome... Tens o maxilar para a frente, estás subdesenvolvida... Tinha medo de te tocar, tu afastavas-te e olhavas para o chão. Nunca, desde que nasci, estive frente a frente com alguém assim... a madre disse-me que tu e o teu irmão Ivan desde que foram acolhidos ainda não tinham ido a casa devido à infestação de pulgas. Pensei que isto só existisse na televisão, não queria acreditar no que estava a ouvir... Ainda te consegui dar a mão e falar algumas vezes mas foi difícil porque fugias como um coelhinho assustado. De repente senti-me uma pessoa muito má, egoísta, mesquinha... Sempre a queixar-me por problemas superficiais e irrelevantes... enquanto tu passavas fome!
Usavas um camisolão porque evidentemente tinhas frio, não tens gordura no corpo (nem sei se tens sequer carne!) e por isso sentes frio, muito frio... O teu irmão Ivan está quase como tu, embora ligeiramente melhor, e enquanto as outras crianças ainda se rissem de vez em quando, tu Ivan és um menino muito triste, apático, com uns olhinhos que tentam esconder o sofrimento por que passas-te. Puxámos por ti, penso que te conseguíamos divertir de vez em quando mas depois regressavas ao teu mundo de tristeza e solidão...
Minha querida Natacha resolves-te tirar a camisola, pregaste-me um susto de morte quando te viras-te de costas e vi escancarado na t-shirt que vestias, a letras gigantes "Life is a fun". Não sabes inglês e por isso não imaginas o que trazes nas costas. "Life is a fun" Natacha, no mundo não existem só pessoas más...Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun.... Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is...Life is a fun... Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is...Life is a fun... Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is...Life is a fun... Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is a fun...Life is...Life is a fun...

7 Comments:

  • Há muitos anos, estive em um orfanato... onde conviviam crianças de várias idades... algumas "especiais"...
    Me vi na mesma situação... Uma agarrada ao pescoço em minhas cosatas... uma em cada braço... uma em cada perna... Sequer podia andar... Lembrei disso... lembrei da tristeza que encontrei nas favelas por onde andei... Da falta de esperança... Lembrei da pobreza que eu só vi... Da loucura que ela trás... Lembrei da esperança radiante nos olhos de tão poucos... Lembrei de uma propriedade onde conviviam pessoas se rehabilitando da dependência química... ao lado de crianças sem pai... sem mãe...
    Lembrei que fui capaz de esquecer... Lembrei que sou fraco... Lembrei que está na hora de mudar...

    By Blogger Du, at 10:52 PM  

  • Lembrei-me que sou egoista... :(

    By Blogger Joana, at 10:55 AM  

  • é nestas alturas que nos sentimos que o que damos e tão pouco que não chega a ser nada.
    gostei muito do que escreveste...

    beijo

    By Blogger Ana, Dona do Café, at 5:00 AM  

  • Há cerca de 5 anos, numa das poucas visitas que fiz a Portugal antes de ter regressado no final 2001 para trabalhar aqui, entrei em contacto com o caso de uma miúda que tinha sido abandonada no Hospital dos Capuchos pelos pais, ambos toxicodependentes, através de uma amiga minha que era enfermeira nesse Hospital. A miúda apresentava uma enorme inteligência e seria entregue aos serviços sociais daí a dias. Tive que ir buscar a minha amiga ao Hospital e acabei por conhecer a miúda, na altura com 13 anos. Apresentava todos os desvios típicos dos sobredotados com desvios comportamentais, vivia num mundo de fantasia, apesar de não ir há escola há 3 anos estava muito avançada a nível da matemática e esperava saber o suficiente sobre números para um dia fazer uma equação para endireitar o mundo. Dado que eu n tinha condições para tomar conta dela (dado que na altura trabalhava e estudava nos EUA), apresentei uma candidatura como tutor da miúda mas ela ficaria com a minha amiga enfermeira. Assim foi até hoje e neste momento essa miúda, agora com 18 anos, está já no 3º ano de Matemática aplicada na Universidade de Otawa, onde foi aceite com 15 anos. Ás vezes no fim das conversas online pela webcam com ela fico a pensar qual teria sido o futuro dela, e a pensar no facto de estar nas nossas mãos, individulamente ou associativamente, re-escrever estas histórias tristes... muito tristes. MAs lá está, como bons portugueses que somos, quase sempre passámos o tempo a culpar o Estado, os Outros, toda a gente menos nós próprios, ou até admitimos culpa mas logo nos lembramos de quem podia fazer tanto mais... Todos podemos fazer alguma coisa, todos podemos fazer a diferença, todos podemos ser significativos, desde que aceitemos muitos sacrificios e algusn sorrisos como moeda e troca.

    Abraço pra todos

    By Blogger noiseformind, at 1:54 PM  

  • Ola,
    também trabalhei com crianças carenciadas quando tinha 22 anos.
    Mas o que a mim me choucou mais foram as crianças que ainda viviam com os pais que as tratavam assim.

    muita gente não compreende a posição que eu tenho um pouco radical sobre o papel do ministério da educação seer mais importante que o papel das famílias.

    Por mim, cada criança que fosse hiper-activa devia ser investigada para se perceber a origem dos seus problemas.
    Na maioria dos casos são maus-tratos vindos dos pais e a criança devia ser retirada. um professor até sabe o dia em que a criança foi agredida.

    Mas o silêncio vence tudo.

    Sou Humanista, pacifista e contra a pena de morte mas:

    Quando vejo pais com crianças a pedir esmola, apetece-me atropela-los e levar as crianças.
    Quando vejo pais a bater na cabeça de uma criança o meu desejo é empala-los deixando-os apenas meio-vivos e carrega-los pelas ruas como avisos para todos os outros.

    Só uma coisa me faz perder a calma e é ver uma criança a pagar as frustações dos pais.

    By Blogger Hugo Garcia, at 4:27 PM  

  • fantastico!
    adorei o que escreveste.
    ás vezes o virtual (ou que nos parece virtual) é de facto real,ou melhor por vezes a realidade transcende a imaginação.
    cada um de nós deveria conhecer uma Natacha ou um Ivan, talvez só assim nos apercebamos do quanto podemos ser felizes e nem sabemos...

    By Blogger Ana João, at 1:07 AM  

  • Obrigada por todos estes testemunhos que vou guardar
    abraço

    By Blogger Eduarda Sousa, at 1:43 PM  

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