Luz e Sombra

Saturday, October 22, 2005

DT Outubro - Boleia; por Der Uberlende

Ora viva,

Aqui vai o meu contributo para o Desafio Temático de Outubro - egoísmo, ignorância, maldade.

boas escritas

Der Uber.



Boleia

De certeza que já vos aconteceu... irem a andar descansados da vossa vida e, subitamente, sentirem um enorme calafrio espinha abaixo. Sabem o que é? Eu também não sabia, ou melhor, julgava que sabia. Seria uma corrente de ar, uma gripezita a pegar, falta de sono, um pressentimento...
Um dia, há já vários anos atrás, descobri tudo, o que queria saber e o que desejava nunca ter conhecido.
Estávamos no primeiro ano da década de 80, num Portugal ignorante e desorientado que não sabia o que fazer com o bebé da democracia que agora lhe berrava aos ouvidos com fome. Eu já tinha experimentado de tudo quanto o PREC tinha para oferecer, desde a aventura fácil com as subalternas da repartição até às novas alternativas para inebriar a mente e confundir os sentidos. Sexo, drogas e rock & roll, yeah, era isso mesmo. Curtir os Stones, Genesis, Floyd, o Zeca e os cantares do Rancho folclórico de Arganil, isso é que era vida. Os russos tinham a sua olimpíada, onde passeavam o fervor soviete pelas pistas e estádios livres de americanos capitalistas. Nesse ano o mundo perderia o Sartre, o Vinícius, o Piaget, o Lennon e o Hitchcock. Nós por cá descobríamos uma nova receita de borrego assado quando o nosso então Primeiro Ministro caia das alturas sobre os céus de Camarate. Também morreria o Caetano, mas não seria a última vez que os Portugueses teriam que aturar um Marcelo com queda para falar na TV. Algures nos mares do sul nascia uma estranha nova nação chamada Vanuatu, e no Brasil nasciam dois monstros do princípio do Séc. XXI: o PT de Lulla da Silva e a Gisele Bündchen. Em Portugal haveria de nascer muita gente da qual eu nunca iria ouvir falar.

Era madrugada de dia 12 de Novembro, e a tenaz da ressaca ainda me recordava uma piela em nome de um general romano que supostamente cortou a capa em dois para abrigar um pedinte. Eram 6 horas da madrugada quando saia da casa de uns amigos lá para os lados de Sesimbra. Esperava-me uma viagem tranquila, umas curvitas para sair da vila e uma longa recta até chegar à ponte rebaptizada que era então a única a atravessar o Tejo dos lisboetas. A cabeça cambaleava e os olhos ameaçavam fechar. Piscava-os numa tentativa vã de comunicar em morse o que a boca já não tinha coragem de proferir: estou morto de sono. Tinha andado poucos quilómetros quando fui surpreendido por uma luz forte que me fez guinar o carro para a berma. Travei a fundo, ao mesmo tempo que o despertar violento da iminência de acidente me lembrava as palavras do filósofo. Eu era de facto mortal.

Recompus-me calmamente. Peguei no volante, dei um toque no acelerador e preparava-me para engatar a marcha quando senti um enorme calafrio e olhei pelo retrovisor. No banco de trás do meu carro, antes deserto, estava agora uma jovem magra e sorridente, tez morena e cabelo liso, que me pedia lume com a maior das tranquilidades.
- Quem é você??!?!? – disse eu num tom apavorado enquanto a garganta secava e me virava apavorado para trás.
- Sou a tua boleia. Deste-me cabo do carro agora levas-me para casa ! Dás-me lume?
- Mas como é que entrou no carro? Não me lembro de ter...-
- ... deixado ninguém entrar? Eu até me espanto que já estejas acordado, tal o bafo a pinga que vai para ai.-
- Mas o que foi que aconteceu afinal? E quem diabo és tu???-
- Sou a tua ‘pendura’, já te disse. Vinhas em contramão e fizeste-me sair da estrada. Bati com o carro num pinheiro e fiquei sem saber o que fazer. Até que reparei que estavas ainda aqui e decidi que me irias levar de volta à casa do meu namorado. Não quero ficar sozinha esta noite depois do que me fizeste.-
- Ok, ok, peço-te imensa desculpa.... mas estás bem? É preciso ir ao hospital ou...-
- Não, não vale a pena irmos para hospital nenhum. Anda lá, e vê lá se te despachas com o bendito lume!-
- Mas não preferes passar para o banco da frente?-
- Não, gosto que sejas o meu chauffer. Tens pinta de ‘marialva’ e não me apetece que te ponhas com tentativas de apalpanços.-
- Mas o que dizes tu? Não sabes nada...-
-... sobre ti? Ah, és tão transparente! Topa-se logo que és do tipo dado a brincadeiras, e por hoje já brincaste o suficiente. Agora guia, e tira-nos daqui.
- Pronto pá, também não é preciso pores-te com tretas e insultos. Mas não queres ir dar uma olhada no carro antes?-
- Não merda, anda lá com isso! E essa porra do isqueiro vem ou não?!?!?
- Calma, ‘tá aqui! Vamos lá então... Como te chamas?
- Maria.
- Simplesmente?
- Isso é alguma das tuas piadinhas? Não, Maria de Jesus.
- Meu Deus – disse com um sorriso idiota e inevitavelmente engatarão – Não sabia que levava aqui a Nossa Senhora! Hehe
Ela inclinou a cabeça para o lado, puxou profundamente por uma passa e libertou o fumo com lânguida lentidão. Olhou para os meus olhos no retrovisor e disse.
- Por acaso vês algum halo?
O mais surpreendente é que vi mesmo uma auréola verde bafienta a cobrir-lhe o alto da cabeça. Mas que bomba, aquela jeropiga....
- Então Maria, também vinhas da festa?
- Se podes chamar festa ao que faço, sim, vinha da festa.
- E o que fazes?
- Sou puta. Mas ‘tás com azar, já acabou a hora de expediente e fechou a loja.
- A sério?!? Isto é, ... desculpa, não queria ser intrometido, mas também não é preciso ‘tares a gozar com a minha cara. Não queres que faça mas conversa eu calo-me, mas respostas dessas dispenso.
- Não acreditas, hein?-
- É pá, deixa lá isso. Levo-te para casa e depois ligas-me amanhã a dizer a que oficina foi parar o teu carro.-
- O tipo não acredita, olha-me só... É uma profissão como qualquer outra. E tu, deves ser menino de escritório, todo ‘boneco’ de gravatinha, a andar a papar dactilógrafas na casa de banho da repartição... És tão puta como eu, só não cobras dinheiro, antes queres fazeres uns favorezitos a promover as tipas do que aceitares uma milena pelos teus serviços de boi de cobertura.-
- Oi, calminha ai com a conversa. Tu não me conheces de lado nenhum!
- Não? Tens a certeza?-
- Que queres dizer com isso???-
- A minha cara não te é familiar?-
- Ah?-
- Olha lá bem! –
Travei a fundo. Aquela brincadeira estava a ir longe de mais! Mas o que vinha a ser aquilo, uma gaja marada enfiou-se à socapa no meu carro enquanto eu recuperava do susto do quase-acidente e agora punha-se com merdas de me conhecer?!?... Virei-me para trás para lhe dizer das boas
- Ouve lá ó cabr...-
Desapareceu! Sem eu conseguir perceber o que acontecera, ela já não estava lá! Desapertei o cinto e enfiei-me entre os bancos para poder ver melhor. Esfumou-se. Teria sido tudo um sonho? Bem, a pinga estava boa e a noite ia longa. Coisas estranhas acontecem nas nossas cabeças. Volto para o meu posto de condutor e preparo-me para seguir viagem.
Mas está tudo calmo de mais. Não se ouve nada. Nem o barulho do vento a sussurrar na folhagem dos pinheiros. Nada. O meu estômago embrulha-se e a boca encortiça. Os olhos abrem-se desmedidamente e as palmas das mãos suam. De repente viro-me para a direita, e vejo-a sentada ao meu lado, no ‘lugar do morto’. Esta absolutamente estática. Congelam-me as veias e empalideço de horror. Estendo a mão para lhe tocar no ombro, mas a pele antes morena era agora cinzenta-esverdeada, encarquilhada e coberta de muco. Sem saber o que fazer, toco-lhe no ombro sinto-a fria como pedra. Retrai-o a mão bruscamente e grito. Lentamente, ela vira-se para mim, rodando o pescoço numa sequência de gemidos silenciosos e estalidos secos.
- E agora, já me reconheces? –
Onde antes estavam olhos viam-se cavados buracos que emitiam uma luminosidade verde e demoníaca. Os meus intestinos cederam, e desfiz-me ali mesmo num frémito de pânico e terror.
- O que és?! O que queres de mim!??! –
- Não te preocupaste com isso enquanto me fodias na casa de banho. Nem te ralaste quando o meu namorado entrou e me viu de perna aberta a levar contigo. Levantaste as calças e desapareceste como se não fosse nada contigo. Ele levou-me dali calmamente e meteu-me no carro. E ali naquele ponto da estrada onde me apanhaste, levou-me para a mata e espancou-me até à morte.
- Mas o que dizes tu? Isso é mentira, eu... -
- CALA-TE! Hoje é dia de pagares. Hoje é o dia da puta receber o que deve!
Desmaiei. Não sei o que se passou a seguir.

Quando acordei estava sozinho numa cama. Tentei mexer-me mas não consegui. Chamei por ajuda e lá apareceu uma enfermeira.
- Onde estou, onde estou eu?!!?? –
- Ora viva! Que bela surpresa!
- Que surpresa?-
- O Sr. finalmente acordou! Sabe quanto tempo se passou?-
- Tempo? De que fala a Sr.ª... o que é que me está a dizer!??!-
- Há uns 20 anos atrás foi dado como morto num acidente de automóvel. Aparentemente despistou-se sozinho quando vinha de uma festa ou lá o que era –
- Mas isso foi ontem! ‘Tá a gozar com a minha cara!??-
- Não, não estou. FNão morreu mas entrou em coma. Infelizmente, sabemos que o acidente o deixou tetraplégico.
- Como assim?? Onde está a minha mulher?-
- O Sr. não tem família conhecida. Aliás, já não há propriamente amigos a aparecerem aos domingos para o ver. Sabe, é o drama dos comas prolongados... é uma tristeza. Agora tenho que sair, mas volto já.-
- Srª enfermeira, não se vá embora, por favor! –
- Tenho que ir avisar os médicos que acordou. Mas se precisar de alguma coisa chame por mim –
- Como se chama? –
- Maria. Simplesmente Maria. -


22 de Outubro de 2005-10-22
Der Überlende

7 Comments:

  • Another yuppie bites the dust! Muito arrepiante... A justiça tarda mas não falha. Mas acho que só podemos contar mesmo com os nossos fantasmas para nos castigarem. By the way, recomendo um filme: «O Maquinista». Sobre egoísmo e fantasmas que nos redimem, também.

    By Blogger smallworld, at 6:43 PM  

  • Uma variacao muito interessante sobre um mito urbano
    :-)

    By Blogger Joana, at 11:53 AM  

  • Simplesmen~te fantástico..;) não sei porquê mas faz me lembrar um filme que vi ontem...~"efeito borboleta"... é bom ver que existe alguém que tal como eu não tem preconceitos de escrever aquilo que lhe passa pela cabeça, esperando até chocar alguém...;) um pesadelo tornado parcialmente realidade...misturando o hilariante com o arrepiante... Muito bem... estava relutante em ler um texto tão grande numa biblioteca universitária e com tão pouco tempo...mas valeu mesmo a pena, cada palavra aumentava a vontade de o ler...;)

    By Blogger Musera, at 10:44 AM  

  • O nosso berlinde não deixa de nos surpeender a todo o momento... No ínicio pensei mesmo que fosse uma história verdadeira, depois de descobrir que não, fiquei com a certeza (não sei muito bem porquê) que tinha sido um sonho. O terrível karma - acção com consequência no futuro. Admiro-te a coragem crua das descrições. Gostava de conseguir escrever assim tão livremente, sem medo de utilizar determinadas palavras...

    Não paro de aprender contigo!

    By Blogger Eduarda Sousa, at 1:35 PM  

  • Tu não páras de me surpreender. Um mestre do género fantástico, é o aquilo em que te estás a tornar. Genial, adorei, devorei compulsivamente a história, já não lia uma short story com tanto prazer há muito tempo.
    A Stela tem razão: o Maquinista cai que nem uma luva a um desafio como este. É uma história sobre egoísmo e sobre o que o remorso que lhe sucede faz às pessoas.
    Continua as excelentes escritas.
    Eu por mim estou sem tempo para respirar e sem cabeça para escrever. Um dia destes volto à carga.

    By Blogger Earworm, at 11:53 PM  

  • Hum... estranho, mas tem piada, tem interesse. Gosto das tuas escritas.

    By Blogger aquelabruxa, at 5:09 PM  

  • Gostei muito das memórias do primeiro ano de 80.

    By Blogger aquelabruxa, at 5:12 PM  

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