Luz e Sombra

Sunday, May 22, 2005

Pressão... (parte II)

Aqui vai a minha versão da parte II. Obrigada, Der Uberlende, por mais um desafio interessante! E meteste toda a gente a escrever!



Não sei porquê tanto alarido… A única coisa que fiz foi eliminar alguém que não merecia estar vivo. Claro, o mesmo também se pode aplicar a mim, mas eu tenho a mania que cada coisa tem o seu tempo, e que a hora da nossa morte é algo que não nos cabe decidir. Tal como Elisa não decidiu encurtar a sua vida, mas alguém a ceifou inesperadamente. Injustamente, sim, mas é assim a vida. Aceito agora essa ideia. Mas então quero contribuir com a minha parte de injustiça neste mundo. Por isso apontei a arma a um desses putos do “tunning”. Passam a vida a roçar o cú pelos assentos do automóvel, sem um único objectivo na vida que não seja acelerar, e melhorar o carro para acelerar ainda mais. Enquanto ele polia o “chassis” da sua amada viatura, enfiei-lhe um balázio certeiro na cabeça. Acertei-lhe na bochecha, vejo daqui da janela, ficou totalmente irreconhecível. Acodem pessoas desesperadas, a namorada histérica, a mãe lívida, desmaia ainda à porta do prédio, ao ver de longe o seu filho ensanguentado. Os traunseuntes estão chocados, verdadeiramente chocados, e olham para cima, para tentar perceber de onde veio o tiro. O bébé da vizinha continua a chorar, talvez também ele com pena do puto do “tunning”, ou simplesmente incomodado no seu sono. Sei que a polícia vem aí. Não faço nada para esconder as provas do meu crime, isso já não me importa. A prisão não me assusta, sempre seria uma novidade relativamente ao rumo que a minha vida estava a tomar. E pelo menos sei que a minha existência serviu para alguma coisa. Menos pessoas perderão as suas “Elisas”, porque há menos um “tunner” à solta. E tenho a certeza de que arranjei assunto para a vizinhança comentar durante umas boas semanas. Talvez meses. Quem sabe não aparece aí também um repórter da TVI, para registar a ocorrência. Então é que era a maravilha para esta gente.
Oiço os agentes da PSP baterem-me à porta. Desloco-me lentamente, parando primeiro para acabar a minha bebida, antes de abrir a porta, tal como estou. De caçadeira na mão.
«Boa tarde…» As boas tarde ficaram-se por ali. Um olhar para a caçadeira e imediatamente puxaram das armas que trazem ridiculamente à cintura e que devem usar uma vez cada década. «Vire-se contra a parede! Pouse a arma no chão!! Pouse-a!» Que caralho aconteceu às boas maneiras, pergunto-me? Obedeço, no entanto. Estou dócil, reparo, como um cordeiro estúpido que sabe que vai morrer e ainda assim bale alegremente no caminho para o matadouro. Domesticado. Será que Elisa se sentia alguma vez assim? Domesticada… Não creio. Nem quando me saltava às pernas para que lhe desse de comer, e eu me ria condescendentemente daquela brincadeira, ignorando a dor atroz das unhas dela fincadas na minha carne. Ela no fundo sabia que era selvagem. Com este pensamento, deixei que os polícias me conduzissem para o carro, sob o olhar reprovador e enfurecido dos meus vizinhos. Não acredito que nem um esteja verdadeiramente triste com a morte do idiota, porque todos se queixavam da barulheira que o carro dele fazia. No fundo, estão aliviados porque fui eu que perdi as estribeiras e não eles. Aqui nos subúrbios, somos todos bombas à espera de explodir.
O carro da polícia arranca, com a sirene ligada, e eu sinto-me feliz. Adeus, vida minha. Não deixas saudades.

5 Comments:

  • Uau, que continuação... nunca me passou pela cabeça esta possibilidade de continuação: dar cabo do moço do tunnig. Interessante. Gostei também do realce da parte selvagem da Elisa e da domesticação
    beijinho

    By Blogger Eduarda Sousa, at 1:28 PM  

  • Está fantástico ;D alem da pericia na escolha das palavras, está incrivelmente original :)

    "Aqui nos subúrbios, somos todos bombas à espera de explodir."

    Parabéns ;)*

    By Blogger Perséfone, at 1:05 PM  

  • Curioso. Um texto ex-cêntrico. Arrevezado. Mordaz.

    By Blogger redbackspider, at 11:17 PM  

  • De suicída a assassino. É corajoso!
    Gostei da tua versão. De repente ele já não tem uma aura assim tão sofredora e só e boazinha, não é? Excelente conclusão para um início intrigante do Der Uberlende. Parabéns.

    By Anonymous Anonymous, at 12:39 AM  

  • Adoro a forma como todas as palavras estão tão encadeadas, como tudo está tão compacto. Adoro o carácter forte da personagem que demonstra determinação. Gostei bastante :)

    "No fundo, estão aliviados porque fui eu que perdi as estribeiras e não eles. Aqui nos subúrbios, somos todos bombas à espera de explodir." - tão verdadeiro. Recrimina-se, mas no fundo somos todos iguais com a vontade de fazer o mesmo, só que uns controlam-se mais que os outros.

    Beijo*

    By Blogger SweetSerenity, at 4:41 PM  

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