Luz e Sombra

Tuesday, June 28, 2005

“A oeste nada de novo” por Erich Maria Remarque

Vou eu com o desígnio de comprar determinado livro no alfarrabista cá de Braga e já sei que venho com uma saca cheia deles, quase todos por 1€, como foi o caso.

Não conhecia Remarque e o que me motivou a ler foi um simples pormenor: o de Hitler ter mandado queimar todos os exemplares de “a oeste nada de novo” quando chegou ao poder.

Percebe-se porquê logo no início, “É cómico como os males do mundo vêm tão frequentemente de pessoas pequenas. São muito mais enérgicas e insuportáveis que as pessoas altas. Sempre procurei não fazer parte de destacamentos comandados por chefes de pequena estatura; são uns patifes a maior parte das vezes.”

Paul Baumer é um jovem de 18 anos que é alistado, juntamente com os seus amigos, na infantaria do exército alemão durante a primeira guerra mundial. Rapidamente descobrem os horrores, o sangue, a carnificina, a dor, o desespero, a fome, a miséria, a morte… da batalha. Paul vê os companheiros desaparecerem um a um, conhece a amargura e desespero dos hospitais de guerra que tornam os soldados inaptos e aleijados para toda a vida. Mas mais terrível que isto será mesmo as cicatrizes psicológicas e espirituais, a loucura, a alienação e a insanidade (“Houve mesmo um que tentou cavar, continuamente, o solo com as mãos, os pés e a boca, para lá se enterrar.”) que a guerra acarreta aos jovens guerreiros. Paul vê-se subitamente num combate que nem ele mesmo compreende (“Vejo que os povos são atirados uns contra os outros e se matam sem nada dizerem, sem nada saberem, loucamente, docilmente, inocentemente.”)

“A oeste nada de novo” não é um clássico de guerra mas sim um clássico de anti-guerra.

“… reconhecemos que não é o espírito que deve preponderar, mas sim a escova do calçado, que não é o pensamento, mas o «sistema», que não é a liberdade, mas a domesticação.”
Como seria possível sobreviver nestas condições?

8 Comments:

  • Excelente análise, fiquei com água na boca. Acreditas que tenho o livro em casa desde pequena e nunca o li?
    Como mote para a pergunta com que encerras este post, digo-te que foi exactamente isso que me passou pela cabeça ao ler um dos mais fascinantes livros sobre a II Guerra Mundial, "Se Isto é Um Homem", do italiano Primo Levi. Não resisto a recomendá-lo. Trata-se do relato da experiencia real dele no campo de concentração de Auschwitz, de 1944 a 45. Levi foi um dos poucos milhares de pessoas a sobreviver à Fábrica da Morte.
    O melhor deste livro é que, sem maniqueísmo, relata o dia-a-dia num campo de concentração e a sua luta para não perder o pouco que lhe resta de dignidade, escrúpulos e esperança. Lá dentro, os bons e os maus são os presos, que não estão lá todos pela mesma razão, que se atraiçoam, matam, roubam, vivem no meio do nojo e cometem as piores atrocididades de modo a chegarem vivos ao dia seguinte. Melhor: lá dentro não há bons e maus. Ali, os nazis são quase figurantes.
    Sempre que abres uma página, sentes o frio e a chuva e a lama constantes, mesmo que o leias a meio de Agosto, como eu.

    By Blogger Earworm, at 1:17 PM  

  • Também gostei muito da tua análise, Booklover. Agora livros sobre campos de concentração afectam-me muito, não consigo ler. Imagino demasiado vivamente tudo que aconteceu porque o meu avô sobreviveu a Auschwitz de 1942-1945 e eu senti um bocadinho as sequelas que estes campos deixam numa pessoa. É impossível descrever, e ler... não sou masoquista... nem pela cultura geral...

    By Blogger Dasha, at 2:28 PM  

  • gostei desta tua análise! :)

    é um tema que sensibiliza muito... é impossivel um distanciamento, é impossivel não sentir...e depois ha bons livros que transmitem tudo, deixamdo-nos os sentidos à flro da pele...talvez este seja um deles!!!

    By Anonymous Anonymous, at 12:49 AM  

  • estou com impressão que o blog está a dormir... ninguem manda histórias para o BI. :) Então? está tudo em exames, ou a fazer praia? Hoje é último dia do desafio BI!!! Despachem-se!
    Abraço

    By Blogger Dasha, at 5:12 PM  

  • Pois Dasha... Tens razão.
    Mas, cá por mim, nem a dormir, nem em exames e muito menos na praia. Estou é atafulhada em trabalho, em casa e no emprego. Já fiz um rascunho para o DBI, inventei mil enredos mas, infelizmente, nada de coerente me sai.
    Achei este desafio foi muito difícil. Os meus esboços de história não têm grande lógica. Provavelmente não vou entregar nada até à meia noite.

    By Blogger Earworm, at 6:34 PM  

  • a minha solução para isto é sentar-se e começar a escrever, sem ter rascunho nenhum. A história vem sozinha, só tens que acompanhar as personagens.:)
    Também não foi bom teres lido primeiro os outros porque assim é mais dificil. Eu só li depois de escrever o meu...
    boas escritas:) Um desafio suplementar: fazer DBI com 500 palavras:)
    Abraço

    By Blogger Dasha, at 9:57 PM  

  • Eu também tentei criar mais do que uma história para o desafio DBI mas nada me saiu em condições :( mas mesmo que já tenha passado o prazo vou continuar a tentar...

    Earworm já ouvi falar muito do Primo Levi mas nunca li nada dele. Fica registado para uma leitura futura.

    beijinho

    By Blogger Eduarda Sousa, at 10:29 AM  

  • Percebo o que queres dizer com 'Não ler os textos dos outros antes de fazer o nosso', Dasha. Eu própria pensei em fazer isso a princípio, nos outros desafios. E continuo a achar que, se calhar, é a melhor ideia.
    Mas a verdade é que, ler as contribuições dos outros não me afectou ou influenciou a escrever, não ajudava nem piorava, nos outros casos. Tive este problema com este desafio desde o início. Queria respeitar as caracteristicas que a Redbackspider deu das personagens tão diferentes que criou, entrosando-as. Mas ainda não me saiu nada de coerente e de que goste a sério.
    O prazo acabou ontem, não foi?
    Fica para a próxima!

    By Blogger Earworm, at 4:59 PM  

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