Luz e Sombra

Saturday, June 11, 2005

Recomeçar, por Rosa Oliveira

Mais um texto que me preenche a alma e torna o estudo para os exames menos doloroso :)
Olhou-se no espelho e, maquinalmente, pegou no batôn, para avivar os lábios de rosa carmesim como habitualmente fazia quando saia à rua, dando-lhe a segurança enganadora, que assim atenuava a sua habitual palidez. Tinha 34 anos, mas aparentava ter mais de 40; rugas profundas à volta dos olhos, a boca emoldurada por acentuados vincos, e o corpo antecipadamente envelhecido. Era o nefasto resultado da destruição sistemática, e sem piedade, da “maldita”, a sua inseparável companheira durante dez tormentosos anos. Mas, mais que o aspecto exterior debilitado, o que lhe provocava uma interna e profunda dor era ter ficado estéril.
Reparou que os olhos de um verde desmaiado, tinham um brilho que não era habitual, um leve estremecimento de felicidade percorre-lhe todo o corpo: - Após largos meses de perseverança tinha a autorização definitiva para ir buscar os filhos adoptivos que já tinham completado três anos; um menino e uma menina gémeos, cujos pais tinham morrido de overdose, e que a Instituição, que cuidava deles, exigia que fossem adoptados juntos, e, por isso, punham muitos entraves às famílias em condições de os receber. Olhou-se com coragem de olhos nos olhos, e murmurou mentalmente: - “Apesar de tudo és uma vencedora”.
Começara aos 16 anos por experimentar o “inofensivo” haxixe, dois anos depois deixara a casa dos pais e foi viver com o namorado numa relação a três; eles e a heroína, a amante a que ambos sucumbiram, e que, diariamente, os espezinhava e maltratava, mas cuja fixação doentia era cada vez mais cruel e dolorosa, e da qual não se conseguiam libertar. Convencera-se que resvalara para a toxicodependência devido ao opressivo ambiente familiar. De uma forma sub-reptícia a ambiência da casa era-lhe há anos insuportável; não havia discussões nem maus-tratos, mas, pairava no ar, a humilhação da mãe, a saudade do pai, e a inadaptação do irmão.
Nascera no início dos anos setenta, na altura da guerra colonial, quando o pai estava destacado em Moçambique; quando regressou, já tinha dois anos. Nunca lhe prestou atenção como se fosse culpada de uma melancolia que diariamente o consumia roubando-lhe a alegria de viver. Um dia, a mãe já grávida do irmão, através de uma carta, descobriu que o pai mantinha correspondência com uma enfermeira que o tratara num hospital em Lourenço Marques quando fora ferido na guerra, por quem se apaixonara e com quem passara a viver maritalmente; e onde, de coração dilacerado, confessava que era infeliz, mas que não tinha coragem de voltar, devido às obrigações familiares, principalmente, a obrigação de acompanhar o crescimento da filha.
Entre os amigos chamava à sua casa “A Casa dos Disfarces”; a mãe disfarçava que nunca tinha lido aquela carta, mas no seu olhar estava sempre presente a traição e a desilusão que sofrera; o pai disfarçava que era feliz, embora ao seu lado vivesse permanentemente aquela mulher distante para quem, por falsa honradez, não tivera a frontalidade de voltar; o irmão, uma criança cheia de tiques, disfarçava a incompreensão perante a infelicidade dos pais; e ela, durante anos, disfarçou que não a afectava a involuntária indiferença do pai. Fazia tudo para lhe agradar, na escola esforçava-se por ter boas notas como forma de o compensar; ao princípio quando que lhe apresentava os resultados escolares na expectativa que desse conta que ela existia, tristemente constatava, que ele não reparava nem nas notas, nem nela, soltando um “Ah, sim” inexpressivo. Desistira. Entrou naquela vida desgarrada. Colou-se a ela um pegajoso e peçonhento monstro, quatro vezes mais horrendo que o de Loch Ness, porque este só surgia quando algum incauto, passeando nas suas margens, projectava os seus medos sobre as águas escuras do Lago, fazendo com que o mostrengo emergisse momentaneamente, simbolizando os seus próprios pensamentos. Aquele que a atormentava estava sempre ao seu lado, tinha quatro horrendas cabeças apontadas aos quatro pontos cardeais, estando desfocada a que estava dirigida a norte. Percebia que três delas, representavam o medo, a angústia, e a frustração, diante da infelicidade do pai, da mãe e do irmão; mas a quarta era um enigma.
Entretanto a “peçonhenta” passou a comandar a sua vontade, obrigando-a a proceder desonestamente, ficando desempregada; todos os dias, ao acordar, o seu primeiro pensamento era: -“Onde vou buscar dinheiro para comprar a dose de hoje?”. Venderam tudo, inclusivé o colchão onde dormiam; já não havia onde arranjar sustento para alimentar o vício. As dores no corpo e a dependência psíquica eram insuportáveis. Propôs aos “fornecedores” que fiassem o “pó”, que logo, logo, pagariam. Foi-lhes negado; só se também entrassem no esquema das vendas, e aliciassem outros para o consumo. Recusou, era-lhe repugnante tal ideia, vivia no entulho, mas isso não a impedia de que ainda lhe restasse alguma dignidade. Durante dois dias esteve deitada no soalho da casa sem mobílias, completamente imóvel, assolada pelas mais horríveis dores e pesadelos. Ao entardecer do terceiro dia, levantou-se, despediu-se do namorado, cujo procedimento diferira do seu, atravessou as ruas ziguezagueando como quem decifra um labirinto, e, finalmente, chegou a casa dos pais. Quando a porta se abriu e deparou com os rostos do pai, da mãe e do irmão, onde se espelhava a mais genuína expressão de boas-vindas, num ápice, vislumbrou o que representava a quarta cabeça do monstro: eram os seus próprios erros não assumidos, atribuindo à família a sua incapacidade perante as dificuldades que a vida lhe destinara. Compreendeu que só os cobardes culpam os outros dos seus próprios desmandos, percebeu que se nascemos para trilhar um Caminho, somos responsáveis por tudo que de bom e menos bom possa acontecer; que nessa caminhada interagimos com os familiares, com os amigos e com desconhecidos, mas, essa grande “viagem” até ao retorno à Origem, imersos num amor de natureza universal que é, intrinsecamente, justiça e bondade, a aprendizagem, a responsabilidade, é forçosamente individual. Quando a família a abraçou, o monstro despegou-se do seu corpo e da sua mente, estrebuchou, soltou um rugido medonho e evaporando-se no ar transmudou-se numa brilhante estrela que sempre estivera ao seu lado, norteando-lhe a vida; entendeu, que o espesso véu da ignorância sobrepondo-se á transparência da verdade, não consente que os homens se apercebam que são portadores da força formidável da Vontade.
A desintoxicação foi muito difícil e dolorosa, aproximou-se um amigo de infância que trilhara por outros caminhos, cuja constância apaixonada e contínua a cativou, acabando por se tornar seu marido. Comovia-a a atenção que todos lhe dedicavam, como a sua dor fosse a dor de todos, e o seu sucesso a todos pertencesse; emocionava-a a felicidade do irmão, a dedicação da mãe, e a atenção do pai tocava-a particularmente. Fora um cruel sofrimento para todos.
A voz confiante do marido interrompeu-lhe os pensamentos: -“Estás pronta? Sim, estou pronta”- respondeu com firmeza. Iam, finalmente, buscar os filhos adoptivos; a Estrela que sempre estivera dentro de si, brilhou mais intensamente, era como se lhe depositasse nas mãos o futuro da humanidade.


por Rosa Oliveira
Maio/2005

6 Comments:

  • Bem... que posso eu dizer?? este texto tocou muito, fiquei maravilhada ao lê-lo e relê-lo, gostei muito, a forma que expressas o que os toxicodependentes sentem, a forma como vêem antes e o depois da"cura" é inacreditável. muitos parabéns.
    Sublime

    Beijos understandable

    By Anonymous Anonymous, at 10:29 PM  

  • Fascinante...

    By Anonymous Anonymous, at 1:46 AM  

  • Gosto da mensagem positiva de esperança que este texto deixa. Tem qualquer coisa de fábula moderna (sabes que vai ter um fundo moral), mas ao mesmo tempo esse fundo moral é totalmente "não moralista": começar de novo e dar a hipótese a uma ex-drogada de ser mãe adoptiva, responsável por dar amor e exemplos a alguém. Acho muito positivo.
    Parece que escreveste sobre uma anónima que conheces muito bem.
    Faz-me lembrar aquela música do Ivan Lins: "Começar de novo/ e contar comigo/vai valer a pena/ ter amanhecido..."

    By Anonymous Anonymous, at 2:15 AM  

  • Adorei!
    E boa sorte para os exames...
    Beijinhos

    By Blogger Delírio da Loirinha, at 10:55 AM  

  • arrepiante...quando pensamos que tudo isto pode ser real! :)

    parabéns!

    By Anonymous Anonymous, at 5:34 PM  

  • Este texto é daqueles que nos enriquece, que nos ensina, que nos lembra que há sofrimentos e vidas que todos os dias se refazem e que estão no limiar da existência... Senti verdadeiramente cada palavra, apenas lamento que infelizmente todos os dias o monstro ganhe batalhas, a batalha de infectar mais seguidores, a batalha de conduzir à marginalidade e à morte muitas vidas. Felizmente a nossa protagonista provou que é possível vencer o monstro. Beijo na alma

    By Blogger maria l. duarte (secret), at 9:59 PM  

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