Luz e Sombra

Friday, September 16, 2005

DT - Acreditar; por Der Uberlende

Acredito em mim
(mentiras sem fim)

Uma bela manhã de Sol banha-me a face
(odeio a luz, doem-me os olhos)

os pássaros chilreiam ao chapinhar no fontanário
(criaturas malditas, racham-me os tímpanos com tanto alarido)

as flores desabrocham e presenteiam toda a gente com mil aromas e um festival de cor
(venha a seca, a geada, o ardiloso inverno, e leve estes abortos da natureza para longe de mim)

Sinto a relva com os meus pés descalços
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

e alegro-me com o toque molhado dos restos do orvalho
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

e deixo que a brisa me acaricie a face
(...nada...)

vejo as crianças que jogam à apanhada
(rio-me dos seus corpos frágeis, ...tão frágeis...)

os cães que deliciam os seus donos com joviais brincadeiras e corridinhas
(obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedec...)

os jovens casais, trocam beijos e carícias, envergonhados ou sorrindo maliciosamente
(fornicai como porcos que sois, procriai e enchei o planeta com as vossas larvas)

vejo meninas que volteiam nas suas bicicletas, cheias de fitas que ondulam ao vento
(todas as mulheres são patéticas, ridículas, execráveis e umas grandes putas)

enquanto os garotos se entretem a jogar à bola
(nunca me convidaram, nunca me deixaram jogar, nunca me deixaram sequer aproximar...)

conheci outros como eles, à tantos anos atrás, lá no antigo bairro
(um dia verei também os vossos cadáveres)

como eles, miudos e miudas, andavamos todos no primeiro ano de escola
(anormal, atrasado, monga, anormal, anormal, anormal, ...)

enquanto durante a hora de lição a professora nos ensinava a dança das palavras e o ritmo dos números
(D. Isaura, tenho medo do anormal! D. Isaura, ele cheira mal e é feio! D. Isaura, não quero ficar ao lado do monga...)

ficava para a mágica altura do recreio a troca de brinquedos, toques e afectos, coisas simples entre as crianças
(não mexas ai não fales comigo não me toques sai daqui isso não é teu apanhas nos cornos se não desapareces!!!)

agora me lembro, das horas felizes
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

agora me lembro de como era o grupo
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

e de tudo quanto vivi com eles
(...nada...)

e deixo as memórias vogarem como barcos ao vento
(leva a mão ao bolso, obedeceaodono)

enquanto o conforto das recordações me afaga a alma
(já, faz o que te digo anormal!!)

entrelaço a melancolia de viver com a esperânça de um novo dia
(já a sentes, na tua mão?)

e deixo que o beijo quente do Sol me conforte
(ouviste o click? Está engatilhada...)



14 de Setembro de 2005,

Der Überlende

11 Comments:

  • Tu superas-te mesmo de texto para texto, sacana!
    Para mim, o teu melhor post neste blogue e uma das melhores coisas que tenho lido últimamente.
    Muito inteligente a maneira como contrabalanças o ódio, a náusea, a autocomiseração, a crueldade, a revoltante necessidade de se fingir feliz.
    Sabes o que é creepy? Pode viver-se uma vida inteira de uma mentira assim.
    Muitos parabéns! Estavas inspirado.

    By Blogger Earworm, at 1:48 AM  

  • Grande texto! A tua inspiração não tem fim, pois não? Um texto tão diferente dos comuns... Também concordo com a Earworm, sem dúvida o teu melhor texto neste blog. Não páras de nos surpreender... A crueza, o fingimento, a hipocrisia, a vida dupla que todos levamos...

    By Blogger Eduarda Sousa, at 10:57 AM  

  • Sim, efectivamente brilhante! Gostei mesmo muito, do formato, das palavras que escolhes sempre muito bem, com imenso cuidado e uma extrema sensibilidade para as pequenas ironias deste mundo. Estes teus textos estao-se a tornar quadros vivos, personagens que pulsam de vida, e que nao sao definitivamente semideuses (agora voltando ao poema escolhido ha uns dias pela Booklover). Adoro a realidade que lhes imprimes. Embora a sugestao de banda sonora fosse para o outro desafio, gostava de saber qual a banda sonora que escolherias para este texto!

    By Blogger smallworld, at 3:04 PM  

  • Está... excelente! E já experimentaram só ler uma das "versões", toda de seguida? A segunda fica genial!

    E já agora, gostava de deixar uma sugestão!
    Hoje foi oficialmente o primeiro dia das actividades lectivas deste ano, uma mera "apresentação" com o director de turma. Durante essa apresentação pus-me a ecrevinhar na agenda sobre as primeiras impressões que as escola me estava a dar neste primeiro dia do 12º ano e depois lembrei-me: era engraçado desafiar todos os amantes da escrita a fazer um pequeno relato das memórias do seu primeiro dia de escola. Da escola primária, digo.

    Entretanto entrei no Fórum do Bookcrossing.com e vi que já alguém teve uma ideia parecida, mas enfim...

    Não sei se é uma coisa viável, ou se terá interesse, mas aqui fica a sugestão!;)

    Beijinhos!*

    By Blogger Filipa, at 3:35 PM  

  • o verbo gostar não me sai. há alturas assim, há.
    já o verbo sentir é, na gramática dos medos, o mais utilizável.
    senti muito.
    e por isso o escrevo. aqui.

    By Blogger Sílvio Mendes, at 3:36 PM  

  • Oh Parabens mais uma vez D.U. :D

    beijinhos*

    By Blogger Perséfone, at 3:04 PM  

  • Incrivelmente real... Retrata lindamente a antagonia entre o que dizemos e o que pensamos.. A necessidade de fingir ser feliz, quando não o somos...

    Excelente!!!

    By Blogger Synne Soprana, at 2:29 AM  

  • Como sempre, sois demasiado gentis comigo.
    Agradeço profundamente as vossas palavras, prometendo, como sempre, o meu empenho para que continue a merecer a vossa atenção e companhia.

    Agorta, em relação ao pedido da Stela, aqui vai a minha sugestão musical para este texto. Desta vez, há aqui uma nuance, pois sugiro um tema para cada "voz" do texto:

    Mundo cor de rosa
    Joe Hisaishi - Feel (OST Dolls)
    Voz que segreda...
    Marilyn Manson - Count to 6 and die

    boas escritas,

    d.u.

    By Blogger Der Überlebende, at 12:50 PM  

  • Muito bom. Muito, muito bom. A técnica das duas vozes funciona na perfeição ao serviço da ideia de fundo do texto e consegues (como sempre) trazer-nos palavras daquelas que deixam rasto, que ecoam dentro de nós após a leitura e que nos fazem olhar à volta e constatar que essa situação é mais real do que queremos acreditar.

    Parabéns, D.U.! Sempre em alta! :D

    Beijinhos doces*

    By Blogger rita, at 4:06 PM  

  • Impressionante o texto.

    E mt bem pensado. *

    By Blogger Unknown, at 8:43 PM  

  • muito bom, muito original!

    By Blogger aquelabruxa, at 11:15 AM  

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