Luz e Sombra

Monday, April 18, 2005

500 palavras bem adoradas by aquelabruxa

Segundo email que recebi com mais um contributo para o Desafio das 500 palavras. Vem directamente da rosa-louca que nos visita frequentemente. Obrigado!

"Olá, gostei do vosso desafio, assim como do blog, e adoro escrever, hoje em dia mais do que de ler"

Uma vez e não cinco ou sete, apenas daquela vez, devia eu ter uns quinze anos, sonhei com conspirações, mais de vinte-e-duas, amarelas, verdes, encarnadas, todas muito bem fechadas, em envelopes dourados. Eram conspirações luzidías, algumas, outras opacas, e ao fim de quarenta-e-três dias ainda eu pensava nisso. Aquelas conspirações eram frutos proíbidos não sei porquê, amores que as marés não se permitem comentar, espigas por criar, tantos apetrechos do entardecer. Setenta-e-duas vezes tentei esclarecê-las, e quase que pensei que eram manteiga sem tesouros nem cristos nem nada. Papagaios aos bandos invadiram o meu sonho, e o Serginho deu-me um beijinho. Não me lembro de muito mais. Abri os olhos e o relógio marcava 1:15 duma manhã roxa e sem lua, e eu nua, sem saber que idade tinha. Podia ter, tanto quanto sabia, centro-e-trinta-e-cinco. Já dormia novamente quando vieram as borboletas, mais de cento-e-quarenta-e-três... quatro... cinco, esvoaçavando entre muros de cimento que não intervinham, e cavalos corriam por cima da água brilhante e explosiva, com fachos de luz eléctrica a trovejar por ali. Um amigo meu colava os sapatos, pretendia qualquer coisa, e a avó dele dizia-me, no quintal, que ele era surreal. Ri-me muito, dei gargalhadas, e hoje em dia sei que já o fiz duzentas-e-seis vezes. Como não tinha dinheiro nem roupa, andava sempre nua, mas tocava às campainhas com uma amiga e pedia camisolas interiores. Aquela minha amiga tão parecida comigo, de longos cabelos negros, com quem inventei duzentas-e-quarenta-e-uma brincadeiras diferentes, reboliças, pois a outra minha amiga era ainda, talvez, mais parecida comigo. Havia duzentas-e-cinquenta-e-sete molas da roupa enguiçadas, coitadas, não sei porque sofrem tanto assim. A minha própria avó achava que eu devia andar nua, mas a roupa insistia, em frente ao espelho, em colar-se ao meu corpo. Queria libertar-me, e sabia que mais tarde ou mais cedo iria chover. No relógio, como sempre, já pulavam 3:10 horas vermelhas, e eu tarde para as aulas. Todos os dias. Mas os meus cabelos cresciam, cresciam, e vesti-me de Verão e de Inverno, simultaneamente, feliz por ser quem era, amarela, culpada, e amiga das formigas. Não havia baratas, não existiam, apenas a alcatifa do meu quarto se encontrava no meio. Lá parti. Tinha tanto que fazer! Já tão tarde e ainda nem sequer tinha ido à praia. Convidei um amigo a vir comigo, pois dava tempo. Desta vez as ondas não invadiriam tudo, altas e compostas, estalando câmaras lentas, como nas outras quatrocentas-e-quatorze invenções que sobrevivi, ora voando, ora deixando amigos na areia. Encontrei o gato nas escadas, feliz, e a minha avó mais nova tinha saído. O meu avô sempre foi inventor, e da cama puxava-se uma cortina para vermos Elis Regina, de cabelos curtos cantando, encantando, mas o meu avô não percebeu. Eu era miúda, a minha prima também, na colcha entusiasmadas com pouco, desenhos animados de sol, cabelos cortados, vestidos encarnados. Quatro horas e oitenta e sete desejos - acordei assim. Dormir para quê? Fiquei ali, a pestanejar sorrisos até às quinhentas.

7 Comments:

  • O teu texto estranho
    é um texto que se entranha,
    setenta-vezes-sete vezes,
    Com relógios moles num quadro de Dali.
    O surrealismo passou mesmo por aqui.
    ;-)

    Boa.

    By Anonymous Anonymous, at 9:31 PM  

  • Escreveste isto a ouvir Tori Amos?

    By Anonymous Anonymous, at 9:32 PM  

  • Realmente, é desconcertantemente surreal. Amiga das formigas, as tuas palavras pareciam um ditirambo de formigas coloridas no fundo negro do ecrã.
    "Dormir para quê?" Fiquei aqui, a ler "até às quinhentas"...
    ...palavras :)

    By Blogger Der Igel, at 11:59 PM  

  • O texto está de facto belíssimo.

    By Blogger joana lee, at 8:59 AM  

  • ai ai gostei tanto que ate suspirei quando cheguei ao final, enfim :) adorei*

    By Blogger Perséfone, at 8:18 PM  

  • obrigada pelos comentários fico toda feliz :)
    earworm: nao estava a ouvir tori amos, mas gosto dela, sobretudo porque toca em dois pianos de uma vez só ;)
    estava a ouvir breathers...

    By Blogger aquelabruxa, at 8:57 PM  

  • Pois fica sabendo, enquanto lia o teu excentrico e maravilhoso texto o que tocava na minha cabeça era "Burning of the Midnight Lamp" do Jimi Hendrix ou "See Emily Play" dos Pink Floyd, ou até para o "White Rabbit" dos Jefferson Airplane (porventura na versão electro-goth dos Collide). Remeteste-me para as delícias delirantes do psicadelismo com o teu ritmo e cadência alucinantes!

    Que sorte, adoro uma boa guitarra eléctrica em fuzzy-feedback ;)

    Mas a Tori Amos também me toca "nalgumas" cordas :)

    Bem Vinda, agora como "desafiadora"

    Der Uberlende

    By Blogger Der Überlebende, at 12:46 AM  

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