Luz e Sombra

Sunday, April 17, 2005

Já agora, mais 500 palavras de urbanismo incauto: Sodomia, parte I. Desta vez também pequei: vai em duas partes... e não está isento de polémica

Sodomia, parte I

O rosto de Tiago, esmagado no sofá, flutua entre o prazer e a agonia no risco do entardecer, ensandecido pelo sexo que preencheu o dia inteiro as suas veias. Tadeu engata parceiros pela Internet. Combinaram o encontro no centro comercial. Tiago resolveu desistir, enquanto caminhava lentamente de encontro ao devaneio virtual, de encontro a Tadeu. Tiago decidiu não ir mas as suas pernas desobedeceram.
Tiago tem 36. É casado com Felícia.
Tiago e Felícia já não fazem amor.
Tiago tem um emprego certo, uma rotina.
Todos os dias, a mesma sevícia. Leva de casa dinheiro trocado, para dar ao drogado que esbraceja e arruma o carro no parque cheio de lugares livres. Tiago não gosta do arrumador, mas tem medo.
Todos os dias, a mesma sevícia. Aperta o nó da gravata, comprime a traqueia até à asfixia. Não gosta da gravata, mas habituou-se à ideia da submissão, da sodomia.
Habituou-se aos ensejos da rotina, aos bocejos de Felícia. Todos os dias, depois das sete, Tiago entra na Internet anónimo e despe a gravata, o fato de homem.
Tiago não é gay, “but in that day” o pénis virtual de Tadeu penetrou o seu lado escondido. Tadeu vislumbrou aquele imago de adulto engravatado e comprometido. Era Tiago.
- Vamos para minha casa?
Tadeu vivia num prédio da Alameda, 2º andar. As paredes do patamar já tinham sido brancas e pareciam tão ocas quanto as escadas de madeira, carcomidas e gretadas, impregnadas de bolores negros, de onde brotavam viscosamente vozes de vizinhos. A chave ferrugenta roda na porta. Tiago e Tadeu não se conhecem. E estão finalmente sós.
- Põe-te à vontade! Estás muito calado…
- Sou de poucas palavras – disfarça Tiago, com a boca seca, cambaleante no meio da sala, onde vê a mesa de vidro que Tadeu usou para almoçar, a avaliar pelo guardanapo usado e os restos sebosos de alimento.
Num canto está uma secretária onde cabe o computador e se adivinha Tadeu na internet, a teclar com os dedos húmidos de excitação num teclado embebido de cheiros e semeado de alguns pêlos púbicos. A curiosa prospecção de Tiago é seguida pelos olhos de Tadeu, a quem agrada o jeito desconfiado e tímido da sua presa.
Tiago olha para o sofá, onde imagina os selváticos actos revelados no tecido descorado e roto. Sente-lhe a textura áspera, quando Tadeu o ataca por detrás e morde-lhe o pescoço com a lascívia das mãos cravadas nas suas nádegas.
- Então, Tiago, em que ficamos? - Sussurra-lhe - é mesmo esse o teu nome? Tiago?
Tiago sente-lhe o pénis erecto e grosso. Um vórtice de sémen, sede e horror suga-o para o interior das calças do amante. Sente-lhe a carne viva e húmida do pénis. Sente-lhe o desejo no tremor do corpo. Pensa em Felícia. Despe-lhe as calças, de onde salta o pénis hirto e vigoroso. Pensa em Felícia. Felácio. Felícia, felácio, Felícia…
Tiago desliza no sofá, em decúbito ventral, provocando o seu parceiro. Invade-o o desejo, agonia, a sodomia.

6 Comments:

  • Crú e contagioso. Não é fácil escrever sobre isto sem cair na vulgaridade, no anacronismo ou num estilo demasiado rebuscado. Parabéns. Venha a segunda parte!

    By Anonymous Anonymous, at 5:20 PM  

  • Tiago? Sempre pensei que fosses escolher outro nome, começado por outra letra... entretanto mudaste de ideias foi?
    Adorei a dicotomia Felicia/Felácio, grande cartada!

    venha o resto...

    By Blogger Der Überlebende, at 5:25 PM  

  • Que pena, postei o meu texto antes de ver o blog, senao tinha esperado para que as partes I e II ficassem juntas. Muito sensual...

    By Blogger smallworld, at 5:49 PM  

  • Excelente! Através de vocês, estou a gostar de ler outra vez, assim, aos poucochinhos. Adorei a nudês sem floreados, os cheiros, a Felícia e o felácio. Muito bom!

    By Blogger aquelabruxa, at 6:12 PM  

  • Estou um bocado "chocada", não acredito que existam relações destas tão carnais, mecanizadas, desligadas do amor, do sentimento, tudo centrado apenas no pénis e no prazer carnal. quer dizer devem existir mas serão muito poucas senão estava o mundo perdido. Já pareço a minha avô a falar :) não me refiro propriamente à relação homossexual em si, se entre um homem e uma mulher ocorresse assim continuaria a perturbar-me profundamente, todo este sentido.
    Quanto ao texto em si, que escrita meu, apetecia continuar a ler... não nos faças esperar muito pela segunda parte :)

    By Blogger Eduarda Sousa, at 11:59 AM  

  • Der Uberlende: Nunca pensei nem rascunhei outro nome para a personagem. Até pode existir esta pessoa, e ser até bem real, mas não aqui. Aqui é o espaço das personagens e do imaginário. Nunca escreveria contra ninguém, sou incapaz de o fazer...

    Cru... sim, sempre :)

    By Blogger Der Igel, at 12:34 AM  

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