Luz e Sombra

Monday, April 18, 2005

A Cova

Estive o fim de semana sem computador e daí a demora em publicar os dois textos que recebi! Aqui vai o primeiro da Earworm (e que seja o primeiro de muitos... :)) Obrigado!

O Velho comprou-a num leilão de servos. Coisa pouca... Dez reis de mel coado e uma permuta de velhas bagatelas a perder o ouro, achadas nos baús do casebre velho onde morava.
Quando ela foi lá para casa arranjou-lhe um espaço no cercado, onde antes se empinavam os cavalos apenas com a menção a tempestades. Aquilo agora era um ermo vazio, de traves caídas e ervas daninhas que disputavam alturas. O único sítio para ela, pensou o Velho. Nem quartos de fundos nem celeiros em ruínas para aquele animal de andrajos que se dava com lagartos e insectos e os tratava com a cumplicidade dos gémeos siameses. Pôs-lhe dentro uma barraca feita de pedaços de jangadas e um telhado de canas secas. Era preciso domá-la primeiro, como se faz às bestas de carga, porque a rapariga era muda e insondável como uma idiota de aldeia, mas de uma bestialidade felina e inteligente, percebeu ele.
Balthazar, o anjo caído, era visita habitual do Velho e veio nessa primeira noite da rapariga. Ela, a uivar terrores nas traseiras do casebre, a convocar companheiros quadrúpedes para lhe aliviarem a dor com lambidelas de ferida.
– Fizeste-a bonita, Ezequeel! Para que queres aquela anormalidade, se nem alma tem para corromper?
O Velho cofiava a barba com as unhas enormes e sujas, sem olhar para a danação de asas.
– Não pensa, não fala, não exige. Quero-a para as limpezas e para os campos.
Balthazar arregalou um sorriso.
– Claro que sim, velho abutre! E para seviciar, quando a carne te pesar...
– O Diabo pode seviciá-la! As carnes já não me fervem, bandalho. Se a comer será no tacho, quando não me servir mais para o trabalho.
O anjo negro riu e deu-lhe as costas, abriu a grande janela rachada e num abater de asas fez-se convidado.
– Chama-me, então, para a almoçarada.
Quando as monções lhe levaram a barraca de náufraga, o velho arranjou-lhe um canto no silo dos cereais, prendeu-a com correntes e grilhões perto de um monte de milho com a altura dela. Pôs-lhe freio nos dentes e reabilitou a vergasta dos alazões para lhe vergar os ímpetos caninos de hiena acossada. Ensinou-a temer-lhe a mão e a comer do mesmo prato dos cães. Habituada ao cheiro do próprio sangue e a cerzir cicatrizes na pele cinzenta, A Coisa, como o Velho lhe passou a chamar, nunca chorava. Quando ela deixou de morder e passou a mostrar-se semi-dócil, meses depois, quando já estava mais esquálida que os perdigueiros, começou a levá-la para os campos e a ensinar-lhe os gestos certos para as mondas e regas, para colher e matar pestes. A Coisa aprendia depressa para quem não tinha alma, pensava o Velho. Um dia, quando voltou do mercado, encontrou a casa varrida e as coisas nos lugares coerentes que nunca tiveram, sem que nada tivesse sido pedido à rapariga.
Balthazar felicitava-o.
– Fazes falta lá em baixo, abutre sem penas. Tenho-te o posto guardado. Não encontro outro com a tua competência para dobrar almas danadas.
Isso não era novidade, pensou o Velho. Olhava pela janela enquanto a noite caía. Agora, que rapariga se mostrava mais mansa, deixava-a lá fora, ao entardecer, presa à corrente enorme, livre para cirandar 10 metros em todas as direcções, a olhar para a lua com a fixação feliz de quem se descobre lobo. Não dizia uma palavra e no entanto ria, observou o Velho com estranheza. Ria, como uma criança, dos estranhos fógos-fátuos no céu e das luzinhas bizarras que agora a rodeavam. “Talvez a solte um dia, só para ver onde vai e se regressa”, pensou o homem.
Dez noites depois fê-lo. Acendia-se no azul escuro o inevitável luar prenhe de esconjuros.A rapariga meteu-se no milheiral, deixou as canas arrepanharem-lhe os andrajos, cortarem-lhe a carne como a finura do papel, sem se importar. Seguia devagar, com o Velho sempre atrás dela. Quinhentos metros mais à frente, quando o campo acabou para começar a várzea deserta, ela parou e despenhou os joelhos no chão. De longe, ele pode ver as pequenas luzes aparecerem, subitamente, de todo o lado.
– Que raio!...
Viu-a cavar um buraco no chão, cada vez mais fundo, pontilhada de pequenas estrelas.
– Que raio....
Aproximou-se e agarrou-lhe os braços por trás. As luzes dispersaram em volta, como uma revoada de pássaros. Ela gritou, assustada. Sorriu ao reconhecê-lo.
– Ris de quê, cadela?
Espreitou para dentro do buraco. Uma garganta na argila, preta, e lá dentro um trapo dos dela que envolvia qualquer coisa. Desembrulhou com sofreguidão para encontrar um tesouro de hiena: penas brancas de arcanjo ferido, fadas cristalizadas em açúcar, duas pedras de âmbar com brilho próprio a vir de dentro, um infanticídio de ossos pequeninos à mistura com búzios da praia. Então, o Velho sentiu a garganta de argila no solo a escancarar-se, a puxá-lo para dentro com a força de um vórtice. Olhou a rapariga, que abriu a boca para ele pela primeira vez: a língua a desprender-se-lhe da caverna preta do peito, bífida e sibilante, um espasmo de riso na cara.
– Anda. – disse ela – Vou ensinar-te a caçar.

by Earworm

9 Comments:

  • Azkeel (=Ezequiel, Ezkeel, etc)

    Um dos líderes do exército de 200 anjos caídos. De acordo com o Livro de Enoch, rebelou-se contra o Demiurgo (=Deus) e jurou aliar-se a Samiaza, o Príncipe Senhor dos Anjos Caídos. Azkeel é também um dos Observadores (Watchers) de que fala o Génesis.

    Baal (=Bael, Balthazar,...)

    De acordo com o Lemegeton, Baal é o Comandante das Legiões do Inferno. O próprio nome 'Baal' significa 'Senhor' em sírio e antigas linguas da região palestino-jordana. Baal era também visto como o deus da fertilidade pelos Canaanitas, que lhe sacrificavam crianças.
    No Médio Oriente, Baal tornou-se um nome ou prefixo comum entre várias personagens de diversos cultos e seitas.
    Também os Semitas o reconheciam como o deus da fertilidade e deboche. Entre os Fenícios, Caldeus e Canaanitas ele era a entidade masculina suprema.
    Nos tempos bíblicos encontram-se referências de que em determinada altura os Israelitas recorreram a Baal e o adoraram.

    Enfim, belas personagens estas trazidas por Earworm!

    Já sei que vou ser chato, e por favor não me levem a mal, mas tenho pena que este texto não tenha sido adaptado ao Desafio 500, neste caso poderia ser adaptado ao formato 500+500

    ... isto promete! :)

    By Blogger Der Überlebende, at 1:26 PM  

  • Adoro o fim tao selvagem e inocente e desprovido de ódio.

    By Blogger aquelabruxa, at 3:18 PM  

  • ou ela matou-o?????

    By Blogger aquelabruxa, at 3:19 PM  

  • Olá pessoal!
    Desculpa, Peregrino. Mea maxima culpa... Mas eu nem estava à espera que a Booklover me publicasse já! Eu só lhe disse "lê e vê o que achas"... Sim, tinha noção que era comprido demais para o Desafio 500. Mas como é a primeira vez, e aos tolos se desculpam as primeiras faltas... mil perdões! Prometo não ser tão chata para a próxima.
    Muito obrigado pelas "belas personagens". Não costumo escrever assim, mas queria saber se era capaz de um conto pseudo-fantástico. Já o corrigi depois disso... but now it's too late, I'm afraid! :-)
    Aquela Bruxa: Muito obrigada pelas tuas palavras também. Eu própria não sei o que é que ela lhe fez, sabes? Caiu, simplesmente, para uma outra dimensão com ele. Acho que o vai ensinar mesmo a caçar. Ou a conhecer a verdadeira dimensão da maldade, quem sabe?...
    Um abraço a todos.

    By Anonymous Anonymous, at 3:32 PM  

  • Hey! Obrigada. Já não escrevia nada com cabeça tronco e membros há muito tempo, por isso é bom voltar à carga. Para a próxima será mais visceral, mais humano.
    A qualidade das coisas que já li aqui ultrapassa, de longe, todas as minhas tentativas. Por isso, riqueza já tem o Luz e Sombra de sobra.
    Obrigada pelas boas-vindas.

    By Anonymous Anonymous, at 2:53 AM  

  • Arrebataste-me por completo, li de fio a pavio a Cova. Também gostei muito do final aberto, que nos transporta para os confins da imaginação...
    beijinho

    ps- queremos mais Textos teus!! :)

    By Blogger Eduarda Sousa, at 2:28 PM  

  • Booklover;
    Muito obrigada. Já estou a trabalhar nisso! E prometo ficar-me pelas 500 palavras (desculpa, Der Uberlende...) :-)

    By Anonymous Anonymous, at 2:40 PM  

  • Por favor, não me peças desculpa! Eu jamais ousaria culpar-te do que quer que fosse! Não façam de mim o "mau da fita", muito menos o "revisor oficial do blog"!! Não suporto a ideia de policiar ninguém...
    O teu texto é aterradoramente belo, e a ultima ideia que eu tenho é descaracterizá-lo! Mas que me excitou a ideia de o ver no formato D500 n te minto, estou muito entusiasmado com o decorrer do desafio, e tudo o que se enquadrar nele dá-me enorme gratificação! Daí a atitude um pouco "anoying" de te pedir (e nada mais do que isso, um pedido, jamais uma imposição, JAMAIS!!!) que entres na "onda" e enriqueças esta nossa "experiência"

    Agora, que fique bem claro, toda a gente é ABSOLUTAMENTE LIVRE de achar adequado/interessante, o q seja, de publicarmos no blog textos, passagens, citações, poemas que não entrem no D500! Só nos enriquecem!

    agora, ai de quem vier outra vez pedir-me desculpas ou acusar-me de os querer formatar! :)

    Pensar, Sentir, Agir... e Escrever!

    um enorme agradecimento e um sentido abraço a todos,

    Der Uberlende

    By Blogger Der Überlebende, at 4:16 PM  

  • É verdade: valeu a explicação sobre anjos caídos, Uberlende. Gostei de saber que Baal (=Balthazar) era o deus semita do deboche. Muito apropriado...

    By Anonymous Anonymous, at 6:57 PM  

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