Luz e Sombra

Thursday, April 21, 2005

500 palavras by Conkilha

Recebi mais um texto para o D500 da Conkilha.
O problema é que o texto não tem de facto 500 palavras mas 613. De qualquer maneira achei por bem publicá-lo,

Fiquei por ali à espera do sol. Que ele se fosse embora primeiro e depois ia eu sem despedidas ou choros. Lamechices são para quem nunca ousa chegar ao fim do livro e perceber que a dor não é má e que o choro, certamente, não alivia a dor. O sol olhava-me, de frente, azul. E eu piscava os olhos como faço às gatas mas ele talvez estivesse demasiado longe para entrever o sinal, a tentativa em comunicar que ao sol sou feliz.
Havia um rapaz sentado ao meu lado que lia um livro. Tentei ver o titúlo mas só apanhei o autor. Fernando Caveiro. Nome estranho pensei. Caveiro não é coveiro, nem caveira. Tão pouco cave ou carteiro. É nome de quem quer ser e não é. O rapaz lia tranquilo, de respiração moderada mas fumador.
O sol ali estava. Aquecia-me a cerveja que é o mal de beber cerveja ao sol. Bebe-se rápido e mesmo assim ela morre-nos nas mãos. É um desconsolo.
O Teixeira, nadador-salvador daquela praia desde que me lembro, gritava – quer sombra tem de pagar minha senhora. Nós não andamos aqui só para olhar para o mar. Temos que ganhar o nosso. Você sabe que a vida não tá fácil para ninguém. Vamos lá ver isso.
É preciso ter lata. Logo o teixeira. Nunca o vi salvar ninguém e venho aqui desde criança. O que ele gostava (e gosta) era de sacar dos binóculos que tinha roubado nos seus tempos de marinha e de ver as meninas em top-less. De comer peixe, ou se ele gostava do peixe, e das cervejinhas à tarde no pontão. Sempre achei que o Teixeira sabia viver mas agora que já sou gente e trabalho tenho a certeza. No verão na praia, junto à areia molhada de calças arregaçadas à pescador, e no Inverno no mar ao peixe que a vida não tá fácil para ninguém, não é verdade?
O sol pendia de cansaço. Ser sol também não deve ser fácil não. O dia todo a girar para nos dar calor e luz e ser justo com todos numa certa forma de ser natural e neutral.
Saquei do meu caderno e escrevi:

Tenho os amigos no peito a sufocarem-me o coração. Querer dar espaço a todos e ficar com a casa cheia. Aprendi a contar as pedras da calçada em miúda por passar muito tempo a olhar para o chão. A professora de Ballet dizia-me – como é que é possível saires da aula e logo pores essa postura de quem carrega o fardo do burro? O que se aprende na aula não é para esquecer lá fora percebes? A postura é muito importante. Queres ser bailarina vais ter de sê-lo a tempo inteiro que caso contrário não chegas lá.
E não cheguei. Fiquei com a ideia de que era um lugar lindíssimo ao qual tinha recusado por estupidez. Mas às crianças não se atribuí estupidez. Nem tão pouco ignorância. Só mesmo falta de experiência e díscíplina tá claro.
De qualquer das formas as pedras da calçada ensinaram-me muito. Uma dessa coisas foi a guardar os amigos no peito junto ao coração. Que se não o fizermos os perdemos para sempre e que só cá dentro podemos amar as pessoas verdadeiramente. Parece treta mas foi o que ela me disseram na altura. Que os amigos são como as pedras da calçada. É para ter muitos e que todos tenham um motivo diferente como peças de um puzzle que é real e serve ao mundo para que todos juntos sejamos passeios e nos vejamos a andar.
O sol acabou por ir. Ser justo noutras paragens e deixar-nos, a mim e ao rapaz do livro, dormir.

8 Comments:

  • Excelente texto! Muito honesto e supremamente bem escrito. Muitos parabéns.

    By Anonymous Anonymous, at 4:52 PM  

  • obrigada earworm e obrigada por terem publicado o texto mesmo com as tais 613. Por acaso, até gosto do número. 6.1.3. Thanks.

    By Blogger joana lee, at 5:27 PM  

  • sim, eu tambem gostei :D
    parabens :)*

    By Blogger Perséfone, at 7:40 PM  

  • :)

    By Blogger aquelabruxa, at 11:57 AM  

  • conkilha, gosto mesmo muito daquilo que escreves, como já te disse antes. aquelas coisas fortes que dizes, aquelas catrapumbas na cabeça. e das tuas divagaçoes em azul claro de tarde de sol na praia.

    By Blogger aquelabruxa, at 9:19 PM  

  • Nem sei o que dizer :-) sem ser obrigada!

    By Blogger joana lee, at 6:14 AM  

  • Fernando Caveiro. Nome estranho pensei. Caveiro não é coveiro, nem caveira. Tão pouco cave ou carteiro. É nome de quem quer ser e não é. O rapaz lia tranquilo, de respiração moderada mas fumador.

    ** meu sobrenome ( apelido)é Caveiro :o) procure pelo google, vc não achará mais estranho .

    By Anonymous Anonymous, at 7:56 PM  

  • Meu sobrenome tb é CAVEIRO
    risos

    lrcaveiro@hotmail.com

    By Anonymous Anonymous, at 1:11 AM  

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