Luz e Sombra

Wednesday, April 06, 2005

Querido Avô, 500 palavras chegarão para ti?

Meu querido avô, deixa-me dizer-te que és um grande casmurro, lá tens a tua ideia sobre determinado assunto e não a mudas nem por nada! Dizes que de todos os teus netos eu sou a única que estou sempre contra ti, que refilo contigo, pois claro, todos os outros são ainda muito pequenos! Eu, a tua neta herege, que desde que começou a pensar por si própria, abandonou a salvação e o caminho redentor para o paraíso.
Como te amo e respeito profundamente querido avô, como gosto de conversar contigo e estar na tua companhia, não sei como conseguirei continuar a viver quando partires.... Umas das recordações mais queridas que guardo foi quando te perguntei – “avô acha mesmo que o homem já foi à lua?” e tu me respondes-te “eu acho que não, desconfio muito... então como é que era possível?” e eu “mas então já não viu na televisão imagens deles lá na lua? devem ser montadas, não é?” e tu “claro que sim...”. Lembro-me desta conversa como se fosse hoje. Andava no sétimo ano, tinha dado os planetas na aula de ciências e a professora Painço tinha-nos contado que muita gente do interior, de zonas rurais ainda não acreditavam que o homem tinha ido à lua! Eu fiquei incrédula, como era possível? Por isso te interroguei sobre este assunto. É estranho mas até a tua ignorância nalgumas coisas me invade interiormente de amor e carinho por ti! Como gosto de te abraçar... podes não saber nada de ciência mas eu continuo a aprender contigo todos os dias! E lembras-te quando decidiste apanhar melros com uma armadilha e meté-los numa gaiola? Pois não perdeste por esperar, passado uns tempos fui lá e abri as portinholas para os devolver à liberdade! Respondi-te que estava a deitar-lhes de comer e eles fugiram! Começaste-te a rir e a dizer-me que não tinhas nascido ontem, claro que o tinha feito propositadamente! Lá no fundo bem sabias que eu tinha razão, por isso não refilas-te muito e não voltaste a fazer armadilhas para apanhar melros! E agora, como tudo mudou, como a minha alegria de estar contigo se transformou em preocupação e medo, sim medo, muito medo de te perder. O cancro consome-te infatigavelmente aos poucos, e vejo-te cada dia mais debilitado. Estás a definhar fisicamente e o meu coração explode de dor e raiva contra este modo degradante e injusto de acabares a velhice! Imaginava-te enrolado numa manta, quentinho, junto à lareira “a ler as letras gordas do jornal” como costumas dizer e não atirado desta forma violenta para uma cama do hospital, agonizando com tratamentos intensos de quimioterapia. A razão entende que partir pode ser o melhor para ti, que o ciclo da tua vida terrena está a acabar, que não posso ser egoísta, mas o coração NÃO! Ontem de manhã tinhas os diabetes a 57 e à noite a 200. Está tudo descontrolado, está tudo mal, a vida está errada, é injusta e má... . Como continuarei a vida sem ti?

12 Comments:

  • é mto complicado irmos perdendo uma pessoa q amamos..
    a ideia de q assim temos mais tempo para nos despedirmos é falsa a meu ver..
    a minha avó tb foi desfalecendo assim aos poucos.. felizmente manteve grande parte da sua consciência, caso contrário teria sido muito mais complexo..
    n sei que dizer nestes momentos.. são complicados.. não há uma resposta honesta que resolva a situação..
    lembra-te que a vida continua..
    e o teu avô faz parte de ti.. habita no teu coração..
    beijo grande amiga!

    By Blogger Phoebus Lazurd, at 12:49 PM  

  • como eu te compreendo :(

    By Blogger mim, at 12:49 PM  

  • OLá querida! fiquei comovida, acreditas? Oxalá eu estivesse a ler apenas um romance de ficção.... mas sei que não é. só kem sente de verdade pode escrever algo tão profundo. FORÇA!!!!!
    beijinho

    By Anonymous Anonymous, at 1:52 PM  

  • gostei muito deste teu texto!
    a fragilidade da vida é aqui exposta, por ti, de uma forma triste mas de certa maneira conformada! Vês o teu avô como alguém que amas e que por mais que o queiras ter ao pé de ti para sempre sabes e tens consciencia que não consegues, que não te é possivel...
    esse homem que não acredita que a lua ja foi visitada, certamente acredita que habita o coração de uma neta "herege"! :)

    By Anonymous Anonymous, at 2:31 PM  

  • lembro-me que quando a minha avó morreu, eu devia ter 12anos e seria o meu primeiro contacto com uma morte próxima. Foi o meu pai a anunciar a sua morte, apesar de os meus olhos ja o terem sentido antes... disse-me que quem sabe eu a veria no futuro numa nave espacial que descesse à Terra... (a minha paixão pela ciência, serviu de consolo e esperança...a fé cruzou-se com o cinetífico, e eu acreditei nisso)

    acho que ainda hoje acredito.

    By Blogger JoaquimGilVaz, at 3:08 PM  

  • Força, Booklover! É difícil quando o coração diz NÃO à razão. Porque há razões tão difíceis de aceitar...

    Espero não ser de mau tom, mas deixo-te uma canção de Lou Reed, de um albúm inteiramente dedicado àquilo que sentes e que estás a passar...

    What's good
    (From the album Magic And Loss)

    Life's like a mayonnaise soda
    And life's like space without room
    And life's like bacon and ice cream
    That's what life's like without you

    Life's like forever becoming
    But life's forever dealing in hurt
    Now life's like death without living
    That's what life's like without you

    Life's like sanskrit read to a pony
    I see you in my mind's eye strangling on your tongue
    What's good is knowing such devotion
    I've been around - i know what makes things run

    What good is seeing eye chocolate
    What good's a computerized nose
    And what good was cancer in april
    Why no good - no good at all

    What good's a war without killing
    What good is rain that falls up
    What good's a disease that won't hurt you
    Why no good, i guess, no good at all

    What good are these thoughts that i'm thinking
    It must be better not to be thinking at all
    A styrofoam lover with emotions of concrete
    No not much, not much at all

    What's good is life without living
    What good's this lion that barks
    You loved a life others throw away nightly
    It's not fair, not fair at all

    What's good?
    Oh, baby, what's good?
    What's good?
    What's good? not much at all

    Hey, baby, what's good? (what's good?)
    What's good? (what's good?)
    What's good? (what's good?) not much at all

    What's good? (what's good?)
    What's good? (life's good)
    Life's good (life's good)
    What's good? (life's good) but not fair at all

    By Blogger Der Igel, at 11:27 PM  

  • Cara amiga,
    Nós somos apenas uma fugaz poeira que se levanta durante berves instantes na estrada longa e dura da eternidade. Erguemo-nos no ar para rodopiar e cair de novo mais além, noutro lugar dessa estrada poeirenta. Um dia levanta-se de novo uma brisa e ai vamos nós, abraçar outra vez o indigo do céu antes do amanhecer, e nascer de novo, algures entre outros grãos de poeiram que se entrançam numa infinita dança cósmica...
    Não devemos temer a impermanência, pois ela é a chave para (começar a) compreender toda a complexidade do Universo, e manter sempre a perspectiva de que são as partes que fazem o todo, e esse todo também sou eu e tu, o teu avô e a minha filha, todos os grãos de pó deste mundo, que compõem esta enorme estrada sinuosa e esburacada que é a eternidade e o paradoxo nascimento/morte
    Desejovos muita coragem e serenidade para que o amor vença o medo e a incerteza, e que a aparente crueldade do ciclo da VIDA não te impeça de VIVER!!!

    By Blogger Der Überlebende, at 1:10 AM  

  • E aí book!!!!!!!

    Saudades! :)
    Ainda com os 500???

    Isso me lembra os 500 anos do "descobrimento" do Brasil...

    Em pleno século 21 e ainda somos tão pobres...

    Mas o amor vai mudar o mundo...
    Ah... Isso vai!!!

    Te garanto!!!

    Mas quanto ao resto...

    Aceitar a natureza da vida e da morte é uma coisinha insignificante... Muito simples...
    Ou seja... Quase impossível...

    Se fosse diferente, as coisas seriam diferentes...

    O óbvio...
    Mas o óbvio as vezes nos passa despercebido...

    Beijos... :)

    By Blogger Du, at 2:00 AM  

  • quando era miúda adorava a minha avó. ela era a minha pessoa preferida, e o meu maior medo era que o barco que nos transportava de lisboa ao barreiro e de volta fosse ao fundo, pois ela nao sabia nadar. quando ela morreu, eu já tinha 12 anos, e passava por uma fase de independência púbere, e ainda hoje penso que ela até morreu na altura em que eu já nao precisava tanto dela. se ela tivesse morrido antes, eu teria passado muito mal. hoje, com 36 anos, continuo a sonhar com ela, muitas vezes. ela está viva, nos meus sonhos, e eu fico muito admirada de nao o ter sabido durante todos estes anos. fico sempre muito feliz de a ver. mas também na minha vida acordada ela continuou a existir. ela sempre desejara que eu fosse feliz, que tivesse "uma casa e um marido bom", e coincidentemente o contracto da minha casa data de 1 de outubro, que foi o dia em que ela morreu, e o meu namorado de 7 anos chegou a amesterdao para viver comigo no dia 1 de outubro também.
    gostei muito de como gostas do teu avô. :-)

    By Blogger aquelabruxa, at 10:59 AM  

  • a casa parece vazia...é muito triste e doi muito...mas nesta maré de dor, tens de ter forças para continuar..deve ser muito dificil ler isto, mas o teu avó não quereria que te fosses abaixo...faz com que ele se orgulhe de ti...foi o que pensei para mim...e penso. espero que te ajude edu.além disso, sabes que tens quem te apoie, o que é um pequeno conforto apesar de tudo...adoro-te amiga. estou contigo..Joana

    By Anonymous Anonymous, at 7:39 PM  

  • Isto não é uma frase, é uma lágrima.

    By Blogger Sílvio Mendes, at 4:29 PM  

  • O meu pai morreu-me há cerca de sete meses num processo quase galopante de cancro do pulmão e compreendo muito bem a revolta e a dor. O fim é certo mas parece-nos sempre longe e viver sem qualidade não é viver. Um abraço muito grande.

    By Blogger Leonor, at 11:53 PM  

Post a Comment

<< Home


 

referer referrer referers referrers http_referer