Luz e Sombra

Sunday, April 24, 2005

Cutting: it’s feel so Good; 500 palavras by booklover

Comecei a escrever este texto inspirada por "Chatfriend" de Der Igel e "Lavender" de Silent Child.

Todos os dias ao acordar penso que estou a viver no inferno. A Dor é cada vez mais real, intolerável, dilacerante, cruel. Faltam-me forças para levantar, queria continuar inebriada na ilusão do sono. Os cacos de vidro jazem na cabeceira, entre o diário e livros. Junto-os num montículo e escondo-os na gaveta das meias, onde a mãe jamais os encontrará. Abro as portadas e vejo que vai estar um dia de calor, visto uma camisa preta onde as gotas de sangue se confundirão com a escuridão do meu espírito. Penso se algum dia conseguirei sair desta lobreguidão, desejo que alguém me olhe e ampare, me dê a mão e caminhe comigo. Tento subir alguns degraus dos meus colegas mas rapidamente derrapo por ali fora… A verdade é que não tenho muita paciência para vos aturar as frivolidades da vossa existência. Se tento entrar no âmago do vosso ser não encontro nada. A diferença entre nós é que vocês conseguem disfarçar o vazio de que são feitos e eu não. A loucura da vossa normalidade consome-me a esperança. Enquanto tomo o pequeno-almoço mordisco as pernas com um garfo escondido por debaixo da mesa. Gostava de ser diferente de mim, amada, desejada, apreciada. Por isso me castigo, mereço sofrer. E é no emudecimento das primeiras lágrimas de sangue que alcanço a paz e sossego da viveza. Oxalá conseguisse encontrar a mesma plenitude e prazer nos outros. Sinto-me uma carta fora do baralho. Quando caio no precipito não existe ninguém para me apanhar. Só a solidão, a mudez e a Dor. Como posso batalhar se há muito me sinto vencida? Quando a chuva toca no meu rosto não me reconhece, quando as portas se fecham, não se abre mais nenhuma. Não ando enganada, as coisas são como são e não há nada a fazer! Não existem bases para o meu castelo, como poderei continuar a construí-lo se a cada nova peça de vitalidade se desmorona? Sou um acidente da vida, um erro da natureza, porque raio afinal vim cá parar? Adormeço com a vontade de não mais acordar, acordo com a certeza que tudo isto é um pesadelo e depressa passará. Porque será que alguns homens chamam à Terra casa? Observo as pessoas na rua, tão fingidas e enfezadas, sempre preocupadas com o próprio umbigo, não conseguirão ver mais nada para além dele? Por isso deixei de ter esperança em vocês, de acreditar que me poderiam ajudar a sair deste precipício. Olho ao espelho e não vejo ninguém, não sei quem sou, de onde vim nem para onde vou. Sinto vergonha do meu corpo quando me vejo nua, as feridas ardem-me ao tomar banho. A vida é apenas a doença que nos conduz à morte. Se a ordem natural da vida leva à morte para quê lutar para viver? Não faz sentido! Nunca tive oportunidade de ser eu, hoje sou aquilo que fizeram de mim e talvez por isso me deteste tanto. “As vezes ficar louco é a única maneira de permanecer são”.

Texto dedicado à J.R.; M.J. e R.V.

9 Comments:

  • Oh menina... se o domingo já é tão depressive, então depois de ler o teu texto, logo de manhã... devolvo-te o que me dizias há alguns textos atrás: "come on, wake up!"... :)

    Mas... está muito bonito. Tocou-me muito, está autêntico, corajoso, forte. Parabéns!

    By Blogger Der Igel, at 12:51 PM  

  • “As vezes ficar louco é a única maneira de permanecer são”: Ctrl U, Ctrl B, Ctrl I, Small Caps, Letra 72. Submetermo-nos à normalização, isso sim é sintoma de psicose colectiva. Assume que és diferente, mas não sintas ódio de seres quem és, nem vergonha do teu corpo. Há gente que te ouve e compreende... desengana-te, nunca hás-de descobrir porque aqui estás, mas hás-de conseguir viver com o vazio que temos cá dentro. Sê paciente... Acredita, há mais gente que não acredita no Além, em espíritos, em reencarnações, ou nos astros...
    Dizia o Miguel S. Tavares que a vida é apenas uma "distracção momentânea da morte". Compete-nos fazer com o tempo que temos aquilo que mais nos alivia (como diz o Adolfo L. Canibal) "esta dor de viver". Sê louca, sê livre e manda os outros à merda. Canaliza essa dor, como o fazes aqui com as tuas palavras.
    E as palavras podem ser bem mais afiadas do que vidros. Usa-as...

    ... que nós trataremos das feridas. (PS: estive a falar apenas para a tua personagem, ok?) :)

    By Blogger Der Igel, at 4:05 PM  

  • The Cure - Faith (Faith, 1984)

    Catch me if I fall
    I'm losing hold
    I can't just carry on this way
    And every time
    I turn away
    Lose another blind game
    The idea of perfection holds me
    Suddenly I see you change
    Everything at once
    The same
    But the mountain never moves

    Rape me like a child
    Christened in blood
    Painted like an unknown saint
    There's nothing left but hope
    Your voice is dead
    And old
    And always empty
    Trust in me through closing years
    Perfect moments wait
    If only we could stay
    Please
    Say the right words
    Or cry like the stone white clown
    And stand forever
    Lost forever in a happy crowd

    No one lifts their hands
    No one lifts their eyes
    Justified with empty words
    The party just gets better and better

    I went away alone
    With nothing left
    But faith
    With nothing left
    But faith
    nothing left
    But faith

    Para E.

    Never loose your faith

    By Blogger Der Überlebende, at 5:40 PM  

  • não sei se tens noção de como este texto esta bom :D muitos parabens, merece-los sem qualquer duvida ;) e identifiquei-me e relacionei-me com tanto do que escreveste que nem me preocupei em evitar as lágrimas

    "A diferença entre nós é que vocês conseguem disfarçar o vazio de que são feitos e eu não."

    ...

    obrigada por partilhares :)

    beijinho grande *

    By Blogger Perséfone, at 9:58 PM  

  • a única palavra que me surge: brutal!

    parabéns!

    By Blogger joão martinho, at 1:07 AM  

  • ai meu deus... mas em que estados de espírito andam estas personagens... como pode ser? faz sol, há amigos, os corpos sao novos, a vida ainda é longa, nada é permanente... tudo muda, tudo tem uma razao, o próprio sofrimento, raios o partam, mas tem uma razao! sem ele muitas coisas nao seriam percebidas, ou nao sao os "felizes", tantas vezes, uns insensíveis que nada percebem de empatia, que se julgam os melhores, sem nada contribuirem para ajudar outras vidas menos fáceis?

    By Blogger aquelabruxa, at 11:20 AM  

  • oh! Ana que texto! que tanto que é assim com tantos! beijinho!

    By Blogger Fátima Santos, at 6:02 PM  

  • Seila: este texto nao foi escrito por mim, Ana. Os parabens sao todos dirigidos a Booklover! Um texto fenomenal, que me fez lembrar um poema da Sofia de Mello Breyner:

    Porque os outros se mascaram mas tu não
    Porque os outros usam a virtude
    Para comprar o que não tem perdão.
    Porque os outros têm medo mas tu não.
    Porque os outros são os túmulos caiados
    Onde germina calada a podridão.
    Porque os outros se calam mas tu não.
    Porque os outros se compram e se vendem
    E os seus gestos dão sempre dividendo.
    Porque os outros são hábeis mas tu não.
    Porque os outros vão à sombra dos abrigos
    E tu vais de mãos dadas com os perigos.
    Porque os outros calculam mas tu não.

    By Blogger smallworld, at 8:21 AM  

  • está muito bom! arrepiei-me, estou a falar (escrever/pensar/sentir) a sério!

    Sabes que todos nós ja nos sentimos desamparados, ja nos sentimos a mais em relação aos outros e em relaçãoa nos; ja sentimos que não fazemos parte da pintura...que somos o borrão!

    mas ha pessoas que o se revoltam contra si mesmas, esta tua personagem fa-lo, não gosta de si e acha que merece não gostar de si...no fundo acha que não merece osoutros mas quer te-los ao seu lado quer que a vejam despida, mas tem vergionah de se ver nua...entendes?
    se não nos mostrarmos jamais conseguiremos gostar de nós!

    ja nem sei o que digo, porque como se explica o sofrimento, assim , atroz, brutal, penoso e longo? ainda por cima de si para si e não para os outros?

    By Blogger Ana João, at 1:14 AM  

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