Luz e Sombra

Monday, May 23, 2005

DP2: Pressão... (Parte II), por SweetSerenity

Ora viva

Não caibo em mim de contente! O DP2 está a correr maravilhosamente bem! Estou extremamente entusiasmado com a vossa resposta, embora em nada me sinta verdadeiramente surpreendido, pois já estou acustumado à enorme qualidade dos textos destes e de outros autores da blogosfera mais próxima.

Por motimos maisomenos óbvios, não irei comentar publicamente nenhum dos vossos textos, pois não pretendo causar quaisquer tipos de desvios ou indiciar nenhuma espécie de favoritismo. Por muito que me custe não expôr a minha opinião, vou-me conter, tentando manter uma distância ética mínima.

E, sem mais demoras, aqui vai mais uma resposta a este 1º DP2, agora na voz da SweetSerenity
Obrigado pelo teu entusiasmo!

saudações entusiastas a todos vós,

Der Uberlende


Pressão... (ParteII)


Sei-o apenas. Agora está tudo em silêncio, o estrondo foi ensurdecedor e o efeito nos meus ouvidos demorou uns longos minutos a desaparecer. O choro da bebé continua, prolongando-se em gritos estridentes e incomodativos. Começou a pancada na porta num barulho um pouco abafado acompanhado da campainha. Sei que é a vizinha. Sempre se preocupou muito comigo e eu sempre achei que era pura cusquice. Sabia tudo de toda a gente e aborrecia-a o facto de eu ser muito calado. Explodia em perguntas de cada vez que me via regressar do trabalho. Respondia-lhe às duas primeiras e apressava-me a subir as escadas e a entrar em casa. Não suportava o interrogatório. No entanto, nunca fui antipático; a simpatia sempre me correu nas veias e não gosto de desrespeitar ninguém, portanto, respondia-lhe com um sorriso na cara e com um beijo rápido numa das suas bochechas pálidas e rugosas que a silenciava por momentos. Porém, os seus frescos, mas experientes 76 anos adivinhavam-me o cansaço no sorriso e mal ouvia a minha porta bater, fechava a sua logo de seguida. “Que velha chata e coscuvilheira!” – disse eu várias vezes depois de entrar em casa estafado do trabalho com a paciência a roçar o chão. Enganava-me redondamente, felizmente havia alturas em que me apercebia disso.
E lá estava ela do outro lado da porta a gritar o meu nome. Sentia-lhe uma preocupação enorme e uma tristeza aterradora na voz, interpelada por soluços e inspirações mais fundas. Resolvi-me a abrir-lhe a porta antes que lhe acontecesse algo. Era uma senhora fresca e cheia de energia, mas a saúde de alguém daquela idade nunca é para brincadeiras. Mal abri a porta vi-a a descer as escadas agarrando-se fortemente ao corrimão. A polícia tinha chegado e ela foi-lhes mostrar o caminho. Sai do apartamento e decidi esperar no hall do meu piso, encostado ao corrimão a olhar as escadas enquanto ela conduzia dois polícia à minha casa, tentando explicar-lhes o que ouviu e tentando não tropeçar nos degraus.
Chegaram e nem me viram. Após alguns segundos a olharem a porta, a velhota, como que iluminada, começou a esgravatar num vaso que tinha ao lado do meu tapete de entrada. “Ela sabe onde eu tenho a outra chave!” – surpreendi-me. Entraram rapidamente no apartamento e limitei-me a olhá-los com espanto por nem sequer me dirigirem o olhar. “A preocupação era assim tão forte para não repararam em mim?” Sentei-me nas escadas à espera que saissem do apartamento. Não entrei porque não tinha a mínima vontade de ver dois estranhos mexer nas minhas coisas. Sabia que também não os poderia impedir, por isso, esperei. Demoraram o que me pareceu serem 20 minutos, até que por fim sairam com a caçadeira num saco e um cartucho vazio igualmente embalado. Aí lembrei que há uns minutos tinha primido o gatilho. Levei, instintivamente, a mão à cabeça e senti algo molhado e mole. “Não pode ser sangue. Não pode ser sangue.” – repetia constantemente na ansia de fazer com que a sensação desaparecesse. Olhei a mão com receio, mas não vi nada estranho. Admirei-me e levei repentinamente a mão à cabeça novamente. Sentia apenas o cabelo (ainda que pouco), mas nenhuma superfície molhada e mole. Estupefacto, pensei tratar-se de excessivo cansaço e, esquecendo aquelas três presenças que, agora, desciam as escadas, de olhar posto no nada, entrei lentamente em casa e os meus pés conduziram-me mecanicamente até ao sofá onde me deixei cair. Fechei os olhos e adormeci.
Acordei de sobressalto de um pesadelo. Sonhei com aquele estrondo ensurdecedor e sonhei ter morrido. Porém, no sonho, só me apercebi de tal quando um grupo de pessoas desconhecidas vieram ter comigo dizer-mo. Foi assustador e tudo muito confuso. Mas rapidamente essas imagens se dissiparam da minha mente mal acordei, deixando apenas uma sensação muito estranha. Tentando esquecer todo este episódio esquizo, levantei-me e com determinação sai do sofá, do apartamento, do prédio... Estava na rua. Parei a olhá-la. Uma brisa fresca arrepiava-me a pele, mas as folhas das árvores permaneciam imóveis. Achei estranho, mas nada comparado com a quantidade de pessoas desconhecidas que passeavam na rua. Costumava pensar que conhecia praticamente toda a vizinhança nem que fosse de vista. Puro engano. Comecei a caminhar em direcção ao parque. Necessitava estar perto da Natureza. Tinha a esperança de encontrar alguma calma. Atravessei a estrada e quase fui atingido por um carro, cujo condutor nem se dignou a olhar para trás. Lembrei-me de imediato da Elisa. Aquele carro, aquele verde do parque, aquele ar de fumo misturado com o perfume das flores que costumava estar impregnado no pêlo dela, tudo me fez viajar nas memórias. Sentei-me no banco mais longe da estrada, bem no centro do parque. Queria um sítio propício ao divagar. Onde ninguém me interrogasse, onde pudesse respirar, onde os sons do quotidiano não me atingissem. As lágrimas, uma a uma, lentamente começaram a formar-se e a descer pela minha face. Os momentos felizes e infelizes passeavam na mente a uma velocidade estonteante. Via e revivia a minha vida em pouco tempo. As emoções acumulavam-se no meu peito. Um ardor subia-me até à garganta. Era uma dor forte. Muito forte! O peito parecia quebrar-se. “Basta!” – gritei interiormente. Levantei-me e numa corrida meia dissimulada dirigi-me ao apartamento. Entrei no prédio e achei deveras estranho a Dona Amélia não abrir a porta de casa para me interrogar. Era fim-de-semana, mas isso nunca a impediu de o fazer. Não pensei mais nisso e comecei a subir as escadas. Uma fita amarela, própria da polícia, vedava a porta da minha casa. “Como é que isto veio cá parar e como é que não me apercebi quando sai?!”. A minha cabeça começava a latejar. A confusão era tal que pensei que fosse desmaiar. O sangue subia-me à cabeça e esta latejava ainda mais. Comecei a ficar com muito calor e o suor escapava pelos poros. Arregacei as mangas da camisa e limpei o suor da cara, passando as mãos pela cabeça. “Outra vez não!” Aquela sensação da cabeça havia voltado. Um arrepio percorreu-me toda a espinha. Olhei as mãos repentinamente, mas, de novo, nada de estranho havia nelas. Porém, a sensação desta vez não passou. Na cabeça continuava a sentir uma superfície molhada e mole e as mãos pareciam estar molhadas, apesar de as ver secas. Corri a descer as escadas e a bater à porta da Dona Amélia. Não me a abria. “Mas ela está sempre em casa!”. Um gato começou a roçar-se nas minhas pernas. Era extremamente parecido com a Elisa. Peguei-lhe e acariciei-lhe o pêlo. Sempre me acalmou passar os dedos no pêlo da Elisa. O gato virou-se nos meus braços e percebi que, afinal, era uma gata. Rapidamente a olhei nos olhos. Sentia-os a lerem-me, tal como a Elisa fazia. Um conforto invadiu-me. Aquele olhar aquecia-me, acalmava-me. “Só podes ser tu, Elisa!” – dizia-lhe com uma alegria imensa na voz. Por momentos, a confusão havia-se dissipado, mas rapidamente me apercebi que não podia ser possível. A Elisa tinha morrido e eu bem tinha visto, infelizmente. Estava mais confuso que antes. Entretanto, a Dona Amélia abriu a porta, vestida para mais um dos seus passeios habituais de Sábado. Não me olhou e limitou-se a dar as 3 voltas à chave na porta. Com a gata ainda nos braços, aproximei-me dela e perguntei-lhe qual a razão de não me olhar. Não me respondeu e o seu olhar fixava-se nas caixas do correio. Continuei a tentar com que falasse para mim, interrogando-a sobre o que se passava, sobre o porquê da fita amarela na minha porta e o de não me falar... Mas ela, já de folhetins de publicidade na mão, abriu a porta do prédio e saiu sem nunca olhar para trás. Deixei-me cair no chão encostado às caixas a afagar a gata que para mim continuava a ser a Elisa. E, nem 2 minutos depois, entrou o Sr.Júlio do 2ºfrente e também ele não me olhou. Levantei-me repentinamente, pousando a Elisa no chão, e corri para ele. “Boa tarde Sr.Júlio.”. Mas nada. “Como vai Sr.Júlio?” – disse mais alto. Continuava a não me falar. Toquei-lhe no ombro com a intenção de o fazer parar, mas este apenas parou para tirar as chaves que tinham ficado presas no bolso. Num acto de desespero gritei-lhe, “É cego e surdo seu antipático emproado?!”. Este, com a mesma expressão com que entrou no prédio, entrou em casa e fechou-me a porta na cara. Sentei-me nas escadas e comecei a chorar. As lágrimas lavavam-me a cara e a cabeça começou a latejar uma outra vez. Já não aguentava aquele equívoco. Sentia-me tão perdido, tão dorido. Porque razão ninguém se dirigia a mim? Porque razão era ignorado por todos? Um aperto formou-se no peito e alastrou até à garganta. A dor da cabeça juntou-se à dor de tanto chorar. Estava um caco. A Elisa bem se roçava em mim como quem me tenta acalmar. Mas até ela estava errada em todo aquele cenário. Baixei a cabeça e fechei os olhos. “Meu Deus...” – murmurei, limpando as lágrimas da boca. Nunca fui muito religioso, mas naquela situação só me consegui lembrar dele. De repente e estranhamente, uma ideia do meu falecido avô veio-me à memória. Relembrava os momentos animados que passei com ele, as histórias que ele me costumava contar, os “peixinhos” que jogámos, as gargalhadas que as suas macaquices me causaram... Abri os olhos e olhei em frente. Parado em frente ao elevador estava ele. Olhava-me com uma ternura tal que não contive um pequeno sorriso e mais umas lágrimas. Não me assustei. A sua imagem não era propícia ao susto, apesar de a situação, aparentemente, o ser. Levantei-me e fui ter com ele. Abracei-o e ele a mim. Pareceu-me uma eternidade aquele abraço. Quando nos afastámos, depois de limpar as lágrimas, bombardeei-o de perguntas. Ele, imóvel, apenas sorria. Após uns segundos de me ter calado, fez-me um festa na cabeça e pediu-me que olhasse as minhas roupas, mas que olhasse mesmo bem. Com estranheza, obedeci. O meu coração pareceu parar de bater por uns momentos. Apalpei as roupas para lhes sentir a textura; estavam cobertas de sangue. Levei as mãos à cabeça e consegui sentir um grande buraco. As mãos estavam, agora, cheias de sangue. Entrei em pânico. Recuei e tropecei caindo no chão. O meu avô, calmamente, colocou uma mão na minha testa e com a outra ajudou-me a levantar. Abraçou-me com força para que eu não lhe fugisse dos braços e, numa voz extremamente suave, junto ao meu ouvido, confirmou que eu me tinha suicidado e explicou-me que o facto de não me falarem, da polícia ter vedado o meu apartamento, de sentir a brisa e as árvores não se mexerem, de quase ser atropelado sem ser notado, de poder ver a Elisa, tudo isso era porque estava morto. Explicou-me também que não via o sangue nas mãos e nem sempre sentia o buraco na cabeça porque aquele que está morto só vê e sente o que quer. Tudo começou a fazer sentido e comecei a acalmar. A presença dele ajudava-me. Sempre foi o meu melhor amigo e depois da sua morte, só a Elisa tinha aquele efeito calmante em mim. Afastei-me dos seus braços. “E agora?” – perguntei-lhe. “Agora anda comigo. Esperei que pedisses ajuda. Quem pede é acudido, não te esqueças. Eu fui-te enviado para te ajudar. E agora que o equívoco foi desfeito, podes afastar-te deste lugar e continuar a tua viagem espiritual.” – respondeu-me numa voz tão pacífica que me fez depositar toda a minha confiança nele. E de sorriso desenhado nos lábios, amarrei-lhe a mão e com a Elisa atrás de mim, saimos do prédio e caminhamos na rua até algum lugar que eu ainda estava por descobrir.

23 de Maio de 2005,

SweetSerenity

4 Comments:

  • Grande texto! de comprimento, conteúdo e qualidade. Parabéns! só a meio do texto é que comecei a perceber que ele tinha de facto morrido! conseguiste manter o efeito surpresa até ao final...
    gostei também muito da velhota cusca do apartamento ao lado, muito bem descrita e infelizmente comum nos dias de hoje
    beijinho

    By Blogger Eduarda Sousa, at 1:13 PM  

  • mas...mas..olha a minha kinita akiii tss tss a sweet a ficar famosa e ninguém me diz..as noticias boas nunca chegam depressa pk? :P lool bem..aproveito e deixo um besuuu pa ela e um parabens por um belo texto como sempre hehe :) ah..e o parabens a ti pelo bom gosto lol :P

    By Anonymous Anonymous, at 2:59 PM  

  • SweetSerenity...gostei muito particulramente do teu texto. Tem um fundo filosófico, é denso e misterioso. Caminho a desbravar.

    By Blogger redbackspider, at 11:21 PM  

  • Maravilhoso texto... angustiante, semeando interrogações, extremamente bem escrito e pensado. E no fim desamarrou-me a angústia que me tinha dado no peito. Adorei

    By Blogger maria l. duarte (secret), at 5:32 PM  

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