Luz e Sombra

Wednesday, June 01, 2005

Faxina, por Earworm

Mais um texto para o nosso (vosso) blog pela Earworm

Repetindo o procedimento (como é mesmo?...): vou cortar aos pedaços, regar com gasolina, queimar no quintal. Não! Cortar aos pedaços, regar com ácido, limpar tudo com soda caústica no fim. Deixe-me só limpar o sangue, que já falo consigo, mãe, o sangue estorva-me a vista. Não mãe, ele não vem almoçar hoje. Ponha só dois pratos. Vou fazer um churrasco de memórias. Hoje a tarde é nossa e eu... que posso dizer?, acordei cheia de genica! Decidi despejar as minhas gavetas do lixo acumulado de anos e atear fogo aos despojos. Vou esquecer tudo, tudo, tudo. Um matrimónio feliz, mãe. Ele nunca me chamou porca, puta, gorda. Nunca me disse que eu era incompetente, nunca se queixou de mau sexo, nunca não me chamou atrasada mental. Quem era esse? Não, não conheço. Deve estar enganada. Ele nunca me disse que me ía deixar porque eu não tinha mudado nada em dez anos, porque não emagreci, não destapei as costas em vestidos de noite, não enfiei as pernas em meias de seda, não fiz o up-grade à personalidade. Nunca disse que me ía rebentar a cara à porrada, que me traía porque eu era tão lamentável em tudo. Tem a certeza, mãe? Está a fazer confusão. Não eram as mãos dele a gesticular marcialidades de Führer.
Deixe-me só limpar o sangue, mãe, que já falo consigo. Que trapalhada, esta casa, hein mãezinha?! Perdoe a desordem. O sangue atrapalha, não é? Patina-se nele, não tenho feito mais nada senão patinar nestes dez anos, um lodaçal enorme, a minha cabeça nestes dez anos, já só consigo ver a vermelho, mãe. E doi me a cabeça, sabe? Doi-me a cabeça um bocadinho, como me doi a alma um bocadinho, por fases, mãe. Às vezes doi-me o lado esquerdo da alma, por causa do ventrículo direito atafulhado, das artérias carregadas de molho e fritos (já lhe falei dos perigos do colesterol, de como essas porcas gordas e incompetentes que aindam por aí não mudam para os maridos, não se esforçam como eu me esforcei para mudar, mãe?). Ele só está preocupado que eu me fine. Só está preocupado porque não consegue viver sózinho, é frágil, precisa de mim, mãe. Não aguenta sem os meus cuidados, sem a minha preocupação com agasalhos e fadiga, precisa de mim para tratar das coisas: enerva-se em repartições de Finanças, enerva-se a falar com o vizinhos. Já eu, aguento-me bem sózinha, a senhora sabe que sim. Trato de tudo, faço a comida, espero pelas teias de aranha das horas sentada no sofá da sala, desfaço-me bem em tempo, mãe, sou levezinha. A vida é levezinha. Eu safo-me, espero o que tiver de esperar por ele, até vir a hora de me levantar com um buraco do lado esquerdo do peito, até vir a hora de ir para o trabalho e ele ainda não ter chegado porque trabalha muito, muito. Eu entalo bem as lágrimas debaixo da cama dos olhos, no metro, em frente a estranhos. Seguro-me bem, mãe. É só olhar em frente, para o vazio, e pensar em coisas bonitas, no jantar de hoje, nas contas de telefone e luz por pagar. Eu sobrevivo bem áqueles repentes de mau humor porque ele precisa de mim, eu sei que precisa.
Só que agora estou confusa. Tem de me dar uns minutos. Às vezes estala-me um bocadinho o cérebro, tenho uma dor aqui deste lado, onde se abriu o buraco, à esquerda. Não terá uma carteirinha de Nimed consigo, por acaso? Cuidado para não patinar. Eu já volto. Ora bem... como era, então? Vou cortar aos pedaços, regar com ácido, limpar tudo com soda cáustica no fim. A casa vai ficar num brinquinho, mãe. Vai ver.

por Earworm

9 Comments:

  • Estamos na senda das mulheres à beira de um ataque de nervos... E que bem que estamos. Adorei o texto. Está verdadeiramente sublime! Muitos, muitos parabéns e um grande obrigada!

    By Blogger smallworld, at 5:51 PM  

  • Obrigada?! Porquê?
    Eu é que agradeço o comentário. Tive (acho que ainda tenho) sérias dúvidas em mandar este texto para o ciberespaço.

    By Anonymous Anonymous, at 6:20 PM  

  • gostei muito do texto!! Como expressa o que por vezes temos vontade de fazer e dizer, e os etcs que ficam engasgados na garganta, na alma, no coração... em tudo.
    Adorei!!!!

    By Anonymous Anonymous, at 10:03 PM  

  • Gostei da maneira crua como a realidade é colocada. Há uma demência subjacente que me agrada...

    By Blogger redbackspider, at 12:45 AM  

  • Não sei porque da tua hesitação em publicá-lo! eu cá adorei, está muito directo, frontal, intimo, profundo... por vezes também escrevo umas coisas que me soam estranhas, que parecem não ter muito sentido, mas claro que a minha marca pessoal está indubitavelmente marcada nesses textos

    By Blogger Eduarda Sousa, at 1:16 PM  

  • Obrigada pelo teu talento, mulher! Ora, porque eh que havia de ser? :) Quanto as tuas duvidas, ainda bem que nao lhes ligaste e publicaste o texto a mesma.

    By Blogger smallworld, at 1:25 PM  

  • Achei que devia acabar com a cobardia de escrever e guardar na gaveta. Nunca vamos saber se prestamos para alguma coisa, nunca aprendemos nada, se não partilharmos o que escrevemos. Tive dúvidas porque, enquanto escrevi isto, senti uma revoluçãozinha de sentimentos cá dentro. E isso às vezes não é nada bom.

    By Anonymous Anonymous, at 1:58 PM  

  • revoluçãozinha de mudança de sentimentos? e isso não é bom? que algo dentro de ti se está a transformar :)

    By Blogger Eduarda Sousa, at 9:06 PM  

  • ups... major fault
    então n é q, depois de ter lido este texto 2 ou 3 vezes me esqueci de o comentar?!? ai a minha cabeça...
    Gostei do ritmo frenético da personagem, da paranóia que suda de cada poro, do horror que se desenvolve na cara de quem a contempla

    5 stars!

    D.U.

    By Blogger Der Überlebende, at 9:53 PM  

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