Luz e Sombra

Wednesday, May 25, 2005

DP2: Pressão... (Parte II), por Paulo

Blah Blah Blah, mas o tipo não se cala?

É impossível ficar calado, estou mesmo 'todo satisfeito' com as vossas participações!! :D

Aqui vai mais uma, de um amigo d'outras guerras,
apresento-os a versão DP2 do Paulo


um adrenalítico e entusiasta cumprimento a todos,

Der Uberlende



Pressão... (Parte II)


O som do disparo ainda ecoa no meu cérebro, enquanto me prostro de joelhos em frente à televisão estilhaçada. As lágrimas escorrem pela minha face, levando no seu sal a pouca dignidade que me resta. Quantas vezes tentei eu acabar este tormento? Quantas vezes falhei no momento crucial de completar o hara-kiri desta minha alma perdida?

Amparado na caçadeira ainda fumegante, levanto-me, seco as lágrimas e despejo mais uma dose de whisky. De volta ao modo “senta-bebe-esquece”, ao esforço patético de continuar vivo, mesmo sem qualquer razão para isso. Depois da Elisa ter saído deste mundo debaixo dum pneumático careca de tantos quilómetros, nada mais faz sentido. As cores parecem esbater-se em tudo o que me rodeia. O tempo corre mais devagar. Devagar demais…

A morte da Elisa não deveria ter sido uma surpresa para mim. Afinal de contas, ela escolheu-me. Posso pensar que foi um acaso do destino tê-la encontrado, uma coincidência. Mas não, ela assim o quis. Ela escolheu mostrar-se apenas a mim e não a qualquer outro. Ciente de que eu a levaria para casa e trataria dela como mais ninguém.

Nunca pensei nisto até ao momento em que ouvi o guinchar dos travões e a pancada surda contra o seu corpo esguio. Só quando já era tarde demais. Aqueles 11 anos resumem a única felicidade que conheci, mas estavam envenenados desde o começo. Agora apercebo-me disso. Finalmente vejo aquilo que sempre esteve à vista, as saídas eram uma forma de preparação para o agora. Maldita sejas por não poderes falar e avisar-me. Maldita sejas por me matares…

Pego na chave do carro, deixo o prédio à pressa e arranco com as luzes da polícia no meu retrovisor. Guio a uma velocidade proibitiva pelas ruelas desta cidade que me consome dia após dia. O barulho ensurdecedor do motor ensombra-me os sentidos, transforma-me num ser amorfo, apazigua a dor. Nem tive tempo de chegar com o pé ao travão…

O som da fechadura da cela a desarmar desperta-me para a realidade…

25 de Maio 2005,

Paulo

2 Comments:

  • O último paragrafo (a partir do momento de sair de carro), fez me lembrar uma daquelas séries americanas de polícias... embora não tem muito a ver, mas ao lé-lo estava mesmo a ver um fragmento de preseguição de qq série tipo CSI.

    By Blogger Dasha, at 7:08 PM  

  • Muito bem escrito. Uma versão muito original, sem final feliz, porque a vida é uma realidade e não um sonho. Fiquei presa em cada parágrafo. Muito, muito bom.

    By Blogger maria l. duarte (secret), at 4:28 PM  

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