DP2: Pressão... (Parte II), por Dasha
É oficial!
Temos a nossa primeira participante (que eu saiba...) estrangeira! :) (ok, acho que já tivemos um amigo brasileiro, mas esses são 'portugueses do lado de lá do Atlântico' ;)
Apresento-vos a resposta da Dasha, uma estudante russa de Coimbra :)
Esta primeira fornada está quase quase no fim, mas creio que haverão mais oportunidades (já sei de quem esteja a preparar inclusivamente um novo desafio...hehe) para dar asas à criatividade, emoção e imaginação...
Poka!
Der Uberlende
Pressão ... (Parte II)
“O sonoro estrondo ecoou dentro da minha cabeça e senti o cheiro da pólvora invadir as narinas... Não sou capaz ou não quero? Larguei a caçadeira e olhei para o monte deformado que antes era a televisão... os últimos feixes de sol encheram a sala e senti que... de acordo com BI já não existo, deixei de existir há muito tempo... Sou parte destes feixes luminosos que enchem a minha casa no final da tarde, sou o som dos passos silenciosos da minha gata, sou aquilo que me tem inspirado e ajudado viver estes anos todos...
De repente apercebi-me de que estava um corpo estendido no chão da minha sala. Um homem que vagamente me lembrava alguém... Um reflexo... Tentei concentrar-me, recordar, mas os feixes da luz continuavam a encher a sala e a minha cabeça, cada vez mais e esta Luz já estava se tornar insuportável, tal como o som de passos da minha gata que ecoava estrondosamente preenchendo todo o meu ser.
Tenho que sair daqui, mas os vizinhos estão atrás da porta, curiosos e barulhentos, ansiando pela notícia que iriam saborear nos próximos dias, alimentando futilmente as mentes vazias. Tenho que sair... Só me resta um caminho. E deixando para trás o corpo que me recordava alguém, subi o parapeito da janela e vi... a Elisa??? Olhava para mim como se estivesse a sorrir e a dizer: ainda não percebeste? Vim te buscar, despacha-te!
Sorri-lhe e... acordei... um dos gatinhos da Elisa, já crescido, mas ainda sem juízo na cabeça, subiu-me a cama e estava tentar arrancar a minha orelha, pisando-me a cara com pequenas, mas afiadas, garras. O meu espirro fe-lo rebolar para o chão e miar furiosamente. Os seus irmãos ouviram-no e desataram a correr para o meu quarto. Sorri a vê-los juntar-se num monte com riscas e manchas, garras e dentes, brincando e empurrando-se uns contra os outros.
Graciosa e silenciosa entrou a Elisa Segunda e parou, observando o monte vivo de patas e caudas. Olhou para mim e senti que os pesadelos que me têm perseguido são apenas o eco do passado, os medos e memórias enterrados no meu cérebro. Senti que o fio da vida não acaba há milhares de anos e o nosso medo do fim não altera a eternidade dos momentos que vivemos. E parecia que a Elisa estava a sorrir para mim, embora sei que as gatas não sabem sorrir Ou nós não sabemos vê-lo ou não temos paciência para compreender o sorriso deles? A Elisa estava sorrir!”
24 de Maio de 2005,
Dasha
Temos a nossa primeira participante (que eu saiba...) estrangeira! :) (ok, acho que já tivemos um amigo brasileiro, mas esses são 'portugueses do lado de lá do Atlântico' ;)
Apresento-vos a resposta da Dasha, uma estudante russa de Coimbra :)
Esta primeira fornada está quase quase no fim, mas creio que haverão mais oportunidades (já sei de quem esteja a preparar inclusivamente um novo desafio...hehe) para dar asas à criatividade, emoção e imaginação...
Poka!
Der Uberlende
Pressão ... (Parte II)
“O sonoro estrondo ecoou dentro da minha cabeça e senti o cheiro da pólvora invadir as narinas... Não sou capaz ou não quero? Larguei a caçadeira e olhei para o monte deformado que antes era a televisão... os últimos feixes de sol encheram a sala e senti que... de acordo com BI já não existo, deixei de existir há muito tempo... Sou parte destes feixes luminosos que enchem a minha casa no final da tarde, sou o som dos passos silenciosos da minha gata, sou aquilo que me tem inspirado e ajudado viver estes anos todos...
De repente apercebi-me de que estava um corpo estendido no chão da minha sala. Um homem que vagamente me lembrava alguém... Um reflexo... Tentei concentrar-me, recordar, mas os feixes da luz continuavam a encher a sala e a minha cabeça, cada vez mais e esta Luz já estava se tornar insuportável, tal como o som de passos da minha gata que ecoava estrondosamente preenchendo todo o meu ser.
Tenho que sair daqui, mas os vizinhos estão atrás da porta, curiosos e barulhentos, ansiando pela notícia que iriam saborear nos próximos dias, alimentando futilmente as mentes vazias. Tenho que sair... Só me resta um caminho. E deixando para trás o corpo que me recordava alguém, subi o parapeito da janela e vi... a Elisa??? Olhava para mim como se estivesse a sorrir e a dizer: ainda não percebeste? Vim te buscar, despacha-te!
Sorri-lhe e... acordei... um dos gatinhos da Elisa, já crescido, mas ainda sem juízo na cabeça, subiu-me a cama e estava tentar arrancar a minha orelha, pisando-me a cara com pequenas, mas afiadas, garras. O meu espirro fe-lo rebolar para o chão e miar furiosamente. Os seus irmãos ouviram-no e desataram a correr para o meu quarto. Sorri a vê-los juntar-se num monte com riscas e manchas, garras e dentes, brincando e empurrando-se uns contra os outros.
Graciosa e silenciosa entrou a Elisa Segunda e parou, observando o monte vivo de patas e caudas. Olhou para mim e senti que os pesadelos que me têm perseguido são apenas o eco do passado, os medos e memórias enterrados no meu cérebro. Senti que o fio da vida não acaba há milhares de anos e o nosso medo do fim não altera a eternidade dos momentos que vivemos. E parecia que a Elisa estava a sorrir para mim, embora sei que as gatas não sabem sorrir Ou nós não sabemos vê-lo ou não temos paciência para compreender o sorriso deles? A Elisa estava sorrir!”
24 de Maio de 2005,
Dasha
4 Comments:
Exacto. Um sorriso não se faz de lábios e dentes. Um sorriso é muito mais que isso.
Deliciei-me com a descrição do "monte vivo de patas e caudas" :) Muito fofa. Gostei.
Beijo*
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SweetSerenity, at 9:36 PM
Gostei do pormenor de terem sido os gatos a salvá-lo, mais uma vez, da ideia de continuidade dada pela geração seguinte. Concordo com a Sweet Serenity: o "monte vivo de caudas e patas" é uma imagem muito fofa.
"de acordo com BI já não existo, deixei de existir há muito tempo... Sou parte destes feixes luminosos que enchem a minha casa no final da tarde, sou o som dos passos silenciosos da minha gata, sou aquilo que me tem inspirado e ajudado viver estes anos todos..."
Este parágrafo é soberbo!
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Anonymous, at 12:19 AM
Uma versão enternecedora e feliz que me aqueceu o coração. Adoro a ideia da bola de gatos :) está muito bem escrito... oh yeah. os meus parabéns.
beijinho
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Eduarda Sousa, at 11:37 AM
Viva!
Muito obrigada pelos comentários, escusado será dizer que tenho vindo várias vezes por dia a ver os comentários (meus e dos outros):) Estou viciada:) Também queria acrescentar que foi a primeira experiência da minha vida de escrita não poetica (escrevi muita poesia mas nunca prosa). E também, se voltasse agora a pegar no texto escrevia de forma diferente, mais pensado, mais profundo, com mais tempo. Este texto escrevi num suspiro: em 15 min, li a primeira parte, reli, e de repente decidi participar e passado 15 min já estava pronto o meu texto... Talvez, com mais treino chegarei a fazer textos tão bons como os dos outros participantes. Acho que o que consegui transmitir bem, embora de uma forma pouco elaborada e que agora fazia de outra forma, foi a sensação de leveza, optimismo e ternura que há em todos nós e em qualquer situação por mais desesperante esta pareça. A depressão, pensamento suicído e desespero são produtos do nosso pensamento e por isso podem ser evitados e substituidos pelos sentimentos da luz:) É como tenho tentado viver e o que tentei transmitir. E os gatos.... estes rodeiam me durante toda a vida, juntamente com cães, hamsters, periquitos, peixinhos, tartarugas, enfim... um zoo caseiro:) Por isso as bolas vivas de caudas e patas são o meu dia a dia:)
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Dasha, at 4:43 PM
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