Luz e Sombra

Saturday, July 09, 2005

A Dúvida, por Rosa Oliveira

Pois aqui vai mais um texto da nossa sempre presente e estimada Rosa Oliveira,

Sentia-se extremamente enfraquecido; as forças iam diminuindo de cada vez que acordava daquele torpor em que mergulhara nas últimas horas. O cérebro recusava-se a mânte-lo acordado e, quando, contra vontade, fechava os olhos, entrava numa guerra desigual, cujo vencedor era aquela auréola dourada que ia aumentando de tamanho e que, se colocara no tecto da sala de observações do hospital, onde, nos últimos meses, entrava frequentemente, quando o seu estado de saúde se agravava. Mas não...tinha regressado da guerra há muitos anos e a sua mulher estava sentada à cabeceira da cama, estremecendo sempre que ele abria os olhos, apertando-lhe as mãos num afecto tranquilo, pedia-lhe, com suavidade, que adormecesse.
Como poderia deixar de viver? Morrer assim sem glória... deixar aqueles que mais amava e ir para debaixo da terra sem nada mais lhe restar.... Não acreditava nessa patranha da continuação da vida noutras dimensões e, muito menos, na existência de Deus. A evidência da sua inexistência para si, era um facto incontornável desde o momento, em que, os homens, em quase todas as latitudes do Globo, durante séculos, numa atitude de um teísmo redutor, se matavam mutuamente, para afirmar a superioridade do Deus a que prestavam culto.
A recordação mais antiga que tinha de Deus, era de um Ser ameaçador e colérico. Ainda muito criança, quando assistia às tremendas trovoadas que desabavam sobre a pequena cidade rodeada serras onde vivia, a família, ajoelhava-se diante de um enorme oratório que se encontrava no quarto dos pais, pedindo a Santa Bárbara protecção da ira divina. Nunca entrava naquele quarto sozinho; o oratório colocado por cima de uma cómoda de enormes gavetas, ia quase até ao tecto, onde Jesus, pregado de pés e braços numa grande cruz, com a cara ensanguentada motivado por uma coroa de espinhos colocada na cabeça, o assustava, embora, tivesse dó dele. Mas, os santos que o rodeavam, apresentavam um aspecto ainda mais lúgubre; tinha-lhes um verdadeiro pavor, passava defronte deles sempre a correr, não fossem arrebanhá-lo para dentro daqueles gavetões que nunca se abriam, e ficar sem a ver a mãe.
A primeira vez que fora obrigado a confessar-se, andava na escola primária; tivera que revelar as suas mais recônditas “maldades”. As mais punitivas, consistiam, em ir à dispensa às escondidas comer o mel às colheres; a outra, era, a indesculpável curiosidade que tinha em espreitar as primas ou a serviçal da casa quando estas se despiam. Além de cumprir a penitência imposta pelo confessor, tivera que prometer não voltar a cometer aqueles “pecados”, sob pena, de ir para o inferno. Durante muitos anos pensou que seria esse o seu fim, visto que não conseguia cumprir o prometido.
Um dos paradigmas da religião que lhe provocava uma total descrença, era a ideia absurda, de um Deus Pai, justo e misericordioso, dar apenas uma oportunidade aos seus filhos de escolherem o caminho do bem, tendo no final de uma única vida, como certo, a morada eterna do céu ou do inferno; era uma prepotência que não fazia sentido, se os pais pecadores na Terra, ofereciam aos filhos várias oportunidades para que se tornassem homens melhores. Além disso, aquela ideia misógina que a Igreja sustentava, acelerara a sua conversão ao ateísmo.
Sempre o intrigara e atraíra o dom feminino, de no seu interior, conceber e transportar novas vidas; um poder mágico que as mulheres partilhavam entre si impossível desvendar; talvez por isso, as pessoas que mais amara, tivessem sido: a mãe, a esposa e a filha. A mulher com quem casara, em certos aspectos, continuava a ser um mistério indecifrável. Conhecera-a ainda adolescente, cativara-o o seu ar sonhador como quem acredita em fadas. Teimosamente, conseguira persuadi-la de que a amava bastante para esperar que correspondesse com a mesma intensidade. Isso nunca aconteceu. Ela cumpria o casamento como se fosse um sacerdócio; atenta, solícita, fiel, como quem possui um segredo que lhe fora transmitido num passado longínquo e, aquela união, fosse um dever que tarde ou cedo teria de consumar. Por incompreensão a esse devotado destino, nunca fora capaz ultrapassar a bruma que se lhe reflectia no olhar; nem mesmo nas horas de maior intimidade, naquela fusão onde todos os seres procuram completar-se, conseguira tocar-lhe na alma.
Talvez, por uma necessidade psicológica, devido à precariedade da sua saúde nos últimos tempos, a mulher interessara-se afanosamente por entender a doutrina mais interna de várias religiões; há dias atrás, sentenciara com voz solene: - “Compreendi... a Divindade Última, é o Espaço visível e invisível que está muito além daquilo que os nossos sentidos podem alcançar; que abrange desde a mais distante galáxia até às vidas microscópicas que vivem debaixo de uma pedra, em cuja humidade brotam, vivem e morrem; que os homens como todos os entes na imensidão da Natureza são movidos pela busca da perfeição. Depois da morte, todos, periodicamente, embora muitos o ignorem, ressurgem um pouco mais completos, procurando sintonizar-se com um Propósito, onde cada um vai aperfeiçoando o som que lhe é próprio, para que um dia, em conjunto, executemos uma sublime, perfeita e única Sinfonia”.
Fora uma boa companheira, mas apesar da idade, continuava a ser uma imaginativa sonhadora. Estava em grande sofrimento e, sentia-a chorar silenciosamente; percebia que encontrara consolo naquelas ideias bizarras. Era impossível acreditar em semelhantes devaneios espirituais, embora, por vezes se interrogasse, que força sábia era aquela, que mantinha um vastíssimo universo, em tão miraculosa ordem!
Terminara a hora da visita, despediu-se dos familiares semi-inconsciente, mas reparou, que o aro dourado já cobria todo o tecto; instantaneamente, entrou no mesmo torpor. Quando “acordou”, a sala estava imersa numa suave e brilhante luz; uma absoluta tranquilidade vinda do mais íntimo de si comungava com aquela luminosidade que sussurrou: - Vem... Penetrou naquela profunda Paz sem saudades do que deixara.... A plenitude do Amor, da Bondade e da Eternidade de quem era jorrou numa incandescência indescritível.... a dúvida da Origem volatilizou-se... tinha reencontrado Deus.


Junho 2005

2 Comments:

  • Impressionante...

    Revejo-me em muitas partes deste texto, umas pela positiva, outras pela negativa... mas deixo essa visão para mim mesmo.

    Mais um conto demasiado real desta nossa amiga

    beijinhos,

    D.U.

    By Blogger Der Überlebende, at 2:37 AM  

  • Muito bom, muito bem escrito. Trespassa uma melancolia que me agrada, um mau-estar que se procura reencontrar, apesar de tudo.
    Apetece-me deixar aqui um excerto de um blog amigo que, para mim, diz muito...

    "I really believe that if there's any kind of God, he wouldn't be in any one of us -- not you, not me, but just this space in between. If there's some magic in this world, it must be in the attempt of understanding someone else, sharing something. Even if it's almost impossible to succeed, but who cares, the answer must be in the attempt."

    By Blogger redbackspider, at 11:23 PM  

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