Luz e Sombra

Tuesday, January 03, 2006

Espera...; por Der Uberlende

Espera

O dia está cortante. Sopra um vento frio que arrepia o mais intrépido viajante, mas eu não me demovo. Sei que ela vai chegar...

Foi num distante Novembro que a vi pela primeira vez, qual anjo a descer dos céus, vi-a a descer do eléctrico no Terreiro do Paço, tinha eu acabado de desembarcar. Depois das atrocidades e paisagens inesquecíveis que vira durante a minha estada em Moçambique, deparo-me com uma visão de doçura imensa e perturbante inquietude. Lembro-me de vislumbrar por instantes um branco e torneado tornozelo que espreitara por entre a alpergata e a saia negra rodada, que durante aquele efémero pedaço decidiu não a cobrir até aos pés. Ao subir os meus olhos fui devorando avidamente cada centímetro da bela criatura, com a gula de quem jamais vira tão bela donzela e a cobiça infantil pelo brinquedo proibido.

Ah, este cachecol de lã é tão aconchegante. Foi o meu neto Jorge que mo deu, num destes natais já idos. Ele sempre foi o neto que mais me apaparicou.
Oh céus, porque acena aquela senhora para mim?
O que diz ela? Que é hora de almoçar?....

Eu sei que ela vai chegar, espero não estar atrasado! Porque é que não me deixam estar aqui em paz?!?! Que raiva, dá-me vontade de os esbofetear, como os cabrões dos pretos quando não queriam dizer onde andava a Renamo. Aqueles filhos da puta, iam buscar as armas à África do Sul e depois entravam pelo mato adentro, matavam tudo o que viam da Frelimo, ou branco. Nem as impalas e as palancas escapavam, serviam de pasto aos esquadrões de ladrões e assassinos. O Cabo Pimenta é que a sabia bem, era espancar os gajos e queimar-lhes as palhotas, desatavam a palrar feito loucos, pena que não se percebesse quase nada do que os farruscos diziam...

Ela está atrasada, tal como da outra vez. Iamo-nos casar daqui a uma semana, e ficámos de ir comprar as alianças ali na Rua do Ouro, num ourives amigo do meu pai, cujo filho, o Raimundo, também estivera comigo em Tete. Mas esse desgraçado não voltou. Uma mina arrancou-lhe as pernas, a virilidade e a alma. Tinha a mulher e duas gémeas de 1 ano à espera. Não aguentou o desespero e a angústia. Dois dias depois do acidente enfiou a Mauser na boca e nem se despediu de mim...

Lembro-me de quando a Laurinha nasceu. Claro que lembro! Como me haveria de esquecer desse dia... Vinha eu a correr pela Fontes Pereira de Mello acima em direcção à Maternidade, depois da tia Aurora ter mandado o ajudante de mercearia avisar lá na redacção do jornal “O Século”, onde agora me dedicava à tipografia. Logo eu, um catraio nascido em Montelavar com ambições de ser marinheiro, fui parar ao Exército onde servi 3 anos e andava agora a montar as páginas de um jornal que nunca antes lera...

- A menina está cheia de febre, Augusto! Vai-me ali à botica e pede para falar com o Sr. Gentil. Ele que te dê o chá e que ponha lá na conta. Augusto? Augusto!?!? Estás a ouvir?? –
Não era só a menina. Volta e meia eu tinha um violento ataque de febres, era a malária, uma velha companheira que viajou comigo para além das margens do Limpopo. 3 Semanas de espera desesperante, a ser atacado por mosquitos e ‘turras’. Curioso, foi do inimigo mais pequeno que levei a maior mossa...

Ela ainda deve vir antes das 7. Já era costume atrasar-se, punha-se à conversa com as colegas no portão da fábrica de bolachas da Aliança, ali para os lados de Alcântara. Era matemático, mulheres a dar à língua, eléctrico perdido. E eu a moe-las no Cais do Sodré, a andar d’um lado p’ró outro, saltando até à Ribeira para um pastelito de bacalhau ou um pratito de jaquinzinhos. Eu chegava sempre às 6 em ponto, tinha tempo para tudo, quase que dava para ir até ao Comércio e meter-me no Cacilheiro, ir até à outra banda e voltar...

Está cada vez mais frio, começo a enregelar. Ah, valha-me este cachecol de lã quentinho. Foi o Jorge que mo deu, o meu neto Jorge, o filho da Laurinha. Por falar nela, por onde anda?... Nunca mais me veio visitar! Aquela menina, eu que esfarrapei a cuidar dela, a pô-la na escola comercial para ela aprender a ser Secretária. Agora, que é chefe de repartição ali nos Fanqueiros nunca mais teve tempo para o velhote. O que diria a mãe dela se fosse viva! A minha Eugénia, a mulher mais boa e generosa deste mundo,... Nunca me hei-de esquecer de quando a vi a sair do eléctrico, naquela manhã de Novembro, um sorriso de fazer os anjos da Sé roerem-se de inveja, linda que ela era. Chegava sempre atrasada, abençoada. E eu ali a moe-las, a passarinhar de um lado para o outro...

Ela deve estar mesmo ai a chegar, está quase na hora. Depois vamos até ao Rossio comer castanhas e dar um pulo à Ginjinha antes de ir para casa. Como eu gosto do mês de Novembro, mesmo com o frio e a saudade. Resta-me esperar por ela, aqui encostado ao varão da paragem do eléctrico. Tenho que ser paciente. O Doutor está sempre a recomendar-me paciência, para eu tomar os comprimidos, para eu não estar sempre a fugir para a rua, que eu tenho que fazer um diário, que me ajudava a combater a doença. Ele diz que o meu cérebro está a morrer e que eu vou perder a memória, e por fim a mobilidade, até à morte. Perder a memória, como se eu me fosse esquecer da Laurinha, da Tia Aurora, do Raimundo, de Moçambique, do Jorge, e da Eugénia, da minha querida Eugénia.

Que frio que está aqui fora, mas porque é que o malvado eléctrico nunca mais chega?!?!


3 de Janeiro de 2006,

Der Uberlende

PS: dedicado à minha amiga 'rebaptizada' Bicho do Mato. Obrigado pela inspiração e pelas estórias de África.

5 Comments:

  • A tua amiga Bicho do Mato agradece este texto, do fundo do coração e da recém-adquirida pelagem de lobo (ou antes, de chacal) e diz que não merece que lhe dediquem uma coisa assim tão doce. Curiosamente, são as memórias mais antigas, mais marcantes, que um doente de Alzheimer nunca perde. Está tão fiel, tão à flor da pele, tão comovente. Fizeste-me lembrar o Lobo Antunes sem os maneirismos. E o meu avô, que tinha Alzheimer. Nunca lhe ofereci um cachecol.

    Obrigada, sim?...

    By Blogger Earworm, at 5:03 PM  

  • Depois sou eu que ando ai com pincas de relojoeiro e mais nao sei que. Esta um texto lindo. A personagem eh tao real que quase lhe vejo o rosto, sinto a textura da pele, o cheiro a velhice e hospital... Comoveste-me, raios te partam... Nao sabes que isso eh perigoso?

    By Blogger smallworld, at 9:43 PM  

  • Ola. So para deixar uma marca. beijinho:

    By Anonymous Anonymous, at 1:33 PM  

  • está lindissimo o texto, ja o tinha lido a uns dias atras, mas acabei por nao deixar comentario, mesmo porque o que eu vinha aqui fazer nao tinha nada a ver e apanhou-me de surpresa. o que eu vinha perguntar era que como fiquei com a ideia de que há aqui alguem que não come carne/peixe se alguem me podia dar umas luzes em relaçao a cozinha vegetariana lol

    desculpa D.U. não comentar o teu texto, mas prometo voltar com tempo e aprecia-lo novamente com menos stress [é que tou na hora de almoço e tenho de acabar um trabalho de filosofia e modificar um de portugues para daqui a uma hora lol]

    beijinho muito grande :*

    By Blogger Perséfone, at 2:00 PM  

  • Parabéns mais uma vez... és versatil, não acredito que não haja tema sobre o qual não consigas escrever... beijinho

    By Blogger Eduarda Sousa, at 9:50 AM  

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