Luz e Sombra

Wednesday, May 25, 2005

DP2: Pressão... (Parte II), por Earworm

E não param de chegar respostas ao DP2! :))

Ainda tou para perceber como é que há tanta gente imaginativa e inspirada?!
....afinal, para um País que tantos dizem ser atrasado, inculto, iletrado e semi-analfabeto....
É verdade que temos problemas estruturais, educativos e pedagógicos terríveis e altamente complexos.
Mas a esperança aumenta quando se "lê" a capacidade, destreza e inteligência dos escritores que contribuem aqui para o nosso/vosso blog!

Sem mais 'politiquices' (isto de estar a ver o Socrates a dizer que vai aumentar o IVA para 21% para combater o défice deu-me azia :S )

Aqui vai a versão do nosso bichinho-d'orelha, a Earworm

o meu sincero agradecimento pelo vosso fascinante empenho,

Der Uberlende

Pressão... (Parte II)

É sempre mais fácil ver as coisas a duas cores: preto e branco, anjos e demónios, bons e maus, certo e errado. Em 10 anos que levo nisto de ser polícia, aprendi que me poupo se vir as coisas deste modo. Porque ir para a cama a sonhar com miúdos que sabes irremediavelmente condenados, sonhar com a espuma da raiva e os olhos opacos dos loucos, não me ajuda a passar as noites. Tenho sempre medo de me encontrar lá, longe da redenção e iluminada a vermelho. Não quero perceber o lado de lá, não quero desculpar.
Mas hoje, o treino monocromático que me divide o mundo e a consciência não funcionou, a razão não me entrou em piloto automático. Ia no carro patrulha com o Celestino, quando fomos chamados aos Anjos. Uma velha telefonou para a esquadra em pânico por causa de um vizinho armado. Corremos ao local a tempo de ouvir gente aos berros, o medo nas caras dos vizinhos a espreitarem entre as cortinas de renda, um cão a uivar à esquina da rua. Cinco homens discutiam à entrada do prédio, com vontade de entrar mas com medo de não saírem de lá vivos.
– O que se passa, senhora agente é que o tipo do 3º direito se passou. Está no telhado com uma caçadeira há mais de meia hora. – diz um com cara de magala, pausado.
– Já telefonámos para o 112. Há um rapaz ferido na perna, no segundo andar, o neto da velhota. Acertou-lhe numa perna quando o rapaz tentou desarmá-lo. – informa outro, assustado, de olhos esbugalhados.
Ninguém sabia o nome do homem. Morava por ali há muito mas, espantosamente, ninguém lhe conhece o nome. Um tipo calado, diziam. Tinha ou tem um gato, parece.
Ainda não tinha ouvido um disparo. Atravessei a estrada e olhei para cima, em direcção ao telhado do prédio. À distância, consegui perceber um vulto lá em cima, sentado perto de uma clarabóia aberta.
– Sniper ou suicida? – pergunta o Celestino com voz de aposta nos cavalos.
– Naa! Se fosse sniper já tinha feito estragos. Vou lá acima tentar falar com o homem.
– Não. Tu controlas a situação aqui em baixo, eu chamo reforços e, depois, subo. Não te armes em valente. Os valentes duram pouco.
– Celestino, não discutas! Tenho um feeling com este gajo. Acho que ele não quer fazer mal a ninguém. Além disso, com uma mulher eles acalmam-se mais.
O Celestino mandou toda a gente para casa e evacuou a rua. Dez minutos depois, quando os primeiros colegas chegaram, subimos. À porta dos apartamentos, nos patamares das escadas, portas entreabertas e rostos a aparecer entre eles. Mulheres de bata e chinelos, homens de roupão. Uma figura pequena e magra sai da escuridão para me perguntar:
– Já apanharam o Fernando? Já falaram com ele?
Tranquilizo a velha de voz mansa.
– É assim que se chama o seu vizinho? Fernando? A senhora não se preocupe e feche a porta de casa. Estamos a tratar da situação. Vai resolver-se tudo, vai ver.
– Sim, mas não façam mal ao Fernando – pede a velhota de olhos tristes – tem andado muito em baixo, ultimamente, sabe?
Continuamos em direcção ao último andar. Comecei a trepar pela estreita escada de ferro que leva ao telhado. Celestino agarrou-me a bota.
– Onde julgas que vais, rapariga!? Desce daí que eu vou lá falar com o homem.
– Celestino, eu resolvo isto. Eles têm mais calma com mulheres, vai por mim. Tenho…
– … um feeling, já sei.
Abro a clarabóia. Sentado a dois metros, de costas para mim, está um homem de meia-idade agarrado a uma caçadeira. Nem dá por mim, meia fora e meia dentro. Iluminada pela luz da escada devo parecer uma assombração.
– Amigo... Vamos descer?
Silêncio.
– Amigo… – repito – passe-me a sua arma. Vamos descer. Está toda a gente preocupada consigo lá em baixo… a senhora do 2º Esq….
– Amélia. A senhora do 2º Esq. tem nome: é a dona Amélia. Para vocês a pessoas continuam a ser só números, figurantes, informadores.
– A Dona Amélia está preocupada consigo. Está a assustar as pessoas. Facilite as coisas, vamos! Eu acompanho-o e ninguém lhe faz mal, acredite.
O homem voltou ligeiramente a cara para o lado esquerdo, sem me encarar.
– Acredito. Mas não vou descer. Não tenho nada nem ninguém à minha espera, ao contrário do que diz. Vá-se embora. Volte dentro de meia hora. Talvez daqui a meia hora já tenha alguma coisa para si.
– Não vou fazer isso. Facilite, amigo! Vamos evitar problemas e mais confusão. Vim buscá-lo de propósito. Ninguém lhe toca num fio de cabelo, acredite.
Então ele voltou-se completamente e olhou-me nos olhos. Tinha os olhos mais doces, e desiludidos do mundo. Já não era um homem: era um fantasma por acontecer.
– Como é o seu nome?
– Elisa.
Não, não me apresentei como ‘Agente Machado’. Não sei porquê. Senti-lhe as asas brancas a crescer das costas, soube de repente que ele não ia descer mesmo. Ia subir. Sorriu um sorriso largo e, de repente, ardeu-me tudo por dentro, uma combustão repentina de tristeza há muito não tinha.
– Elisa… Estava à tua espera. Ainda bem que chegaste. Vais me levar para casa.
Levantou-se, atirou a caçadeira, que resvalou e ficou presa no rebordo entre as telhas e o parapeito, encarou o abismo, estendeu-me a mão e disse.
– Anda…
Deu dois passos em frente. Dois passos em falso.
Espero que tenha subido mesmo.

25 de Maio,

Earworm

7 Comments:

  • Uau. Uau. Uau... Não tenho palavras. Uau.

    By Blogger smallworld, at 11:03 PM  

  • conseguiste transformar a tragédia-monólogo interior da primeira parte numa ficção-multipersonagem na segunda parte. uma volta inesperada, mas que não se enquadra no estilo da primeira parte, na minha opinhão. as duas partes não estão muito ligadas, embora o objectivo do desafio não era manter o estilo inicial.

    By Blogger Dasha, at 7:13 PM  

  • Sim, concordo contigo Dasha. Não tem muito a ver. Foi um bocado impulsivo mas, de repente, vi uma personagem nova a contar o outro lado da história dele. Segui e já nem pensei muito nisso.
    O estilo não é nada semelhante à primeira parte e isso pode tirar alguma coerência à história. Mas, por outro lado, quando tens outra personagem a tomar as rédeas da narrativa, podes ter outra maneira de falar e de pensar. Outra cabeça. É uma espécie de 'muleta', de certo modo, porque é mais fácil começar de novo, num segundo take, do que entrar inteiramente dentro da cabeça da personagem que já existia.
    Obrigada pelo teu comentário. E parabéns pelo teu texto e domínio do português! :-) Benvinda! Fico às espera das tuas próximas contribuições.

    PS- Valeu a força, Stela. :-)

    By Anonymous Anonymous, at 9:55 PM  

  • nao sei o que dizer.. sinto-me um tanto ou quanto "estupida" porque acabei de nó na garganta e lagrima no canto do olho.. raios mulher esta magnifico! :D quando ela disse Elisa.. acho que senti tudo o que a personagem constatou e sentiu.. como ja foi dito a ideia de teres dado a continuação pelos olhos de outra pessoa so tornou a personagem inicial mais humana, o seu sofrimento mais real, não era so aos seus olhos que era uma pessoa triste e desiludida, era visivel aos outros tambem.. era real.. em nada exagerado...
    oh porra pus-me a fazer aquilo que nao gosto muito.. falar falar falar.. mas enfim.. ta lindo :D

    muitos muitos parabens**

    By Blogger Perséfone, at 12:19 PM  

  • Muito obrigada, Perséfone.
    hehehe, é a primeira vez que alguém me diz que ficou em Bonga Mode(com uma lágrima no canto do olho...) depois de ler alguma coisa minha. Bolas, obrigada!

    By Anonymous Anonymous, at 1:44 PM  

  • É a minha vez de comentar. Só li o texto agora e, como todos o já demonstraram, está fabuloso. Gosei muito. Apesar de se desfazar um pouquinho do outro,no sentido de ser narrado por outra personagem, foi muito bem escrito com emoções muito bonitas. Gostei da descrição do olhar dele. E achei engraçado teres associado também o nome de Amélia à senhora do 2ºesq. :)
    Beijinho*

    By Blogger SweetSerenity, at 7:25 PM  

  • Eu comecei a ler pelos últimos publicados... agora cheguei aqui. Este texto é lindo, intimista. Pela primeira vez o nosso homem tem um nome, Fernando, o texto é todo ele ternura e arte. Parabéns ao Autor pela sensibilidade que me fez chorar, parabéns ao responsável por esta ideia. Tenho lido obras de arte por aqui.

    By Blogger maria l. duarte (secret), at 4:46 PM  

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