Luz e Sombra

Tuesday, May 03, 2005

Silêncio (Parte II); 500+500 palavras para um blog

Silêncio (Parte II)

Pisco os olhos com enorme dificuldade. Sou sacudido violentamente de um lado para outro pela equipa de urgências. Curioso… num momento destes só me consigo lembrar da minha velhota a olhar para a TV a ver o E.R. só pelo entretenimento, pois mal sabia ler e “a mania de só dar séries estrangeiras à hora que a gente quer descansar” (entenda-se, recuperar das tareias que o cabrão do marido lhe dava para despejar as frustrações de mais um dia a varrer ruas e a desentupir esgotos).

Num momento mágico reparo que tenho uma companhia ao meu lado. Era ela!

Enfermeira 1: Atenção aos sinais, estamos a perdê-lo!
Enfermeira 2: Doutor, rápido, a pulsação está a disparar!

Ela não se moveu. Olhava para mim e sorria, sorria calmamente, tão tranquila quanto aquela tarde no lago, tão grande como o céu que me cobria de azul anilado… Vinha agora à memória um filme que o meu primo me emprestou um mês antes de eu ter vendido o vídeo e o ouro da velhota. “As Asas do Desejo”, era esse o nome. O puto tinha adorado aquele filme, “uma obra divina” dizia ele… Só anui em ver porque ele garantiu-me que entrava o Nick Cave, a tocar num bar fumarento de Berlim Oriental. Não podia resistir…
A cena da Biblioteca ficou-me marcada para todo o sempre: Num enorme edifício sólido e cinzento como o regime dos Sovietes deambulavam dezenas de pessoas. Era a biblioteca central. Toda a gente meditava sobre algo, os pensamentos surgiam como papoilas num campo em pousio após as primeiras chuvas de Março. E foi aí que a vi pela primeira vez. Ela e outros anjos deslocavam-se tranquilamente entre os mortais, acompanhando-os nos seus sonhos, medos e momentos de humanidade. Escutavam e liam os pensamentos, amparavam os doentes, davam esperança aos desesperados, tranquilizavam as crianças que se assustavam com o lobo que perseguia Alice, davam asas à imaginação dos leitores, registavam as estórias de um ancião cansado de ser o narrador da História dos Homens…

O russo fizera um trabalho de primeira qualidade. O aço frio da navalha eslava tinha dançado alegremente no meu corpo devidamente espancado pelo meu parceiro farmacêutico de esquina. Ninguém viu nada como sempre, embora o filme tenha passado na casa de banho do bar, atascado de gentalha e putedo como sempre. Mas cada um tem a sua vida e rotina, e eu era mais um verme a soldo que tinha saltado fora do anzol.

Enfermeira 1: Estamos a perdê-lo…
Médico: Fizemos tudo o que podíamos…

Cassiel, as tuas asas sopram serenidade e paz no meu rosto esfacelado. Os teus olhos azuis e profundos como o tempo infinito conduzem-me a novas paragens. Seguro a tua mão, e sinto na face o toque dos teus cabelos dourados e rebeldes, quais serpentes de Medusa domesticadas. As velhas gregas cegas cortam o fio que ainda me prendia a alma. Agora sou livre, e tu conduzes-me para fora deste mundo, calmo e decidido. Seguimos viagem. Em silêncio.

22 de Abril de 2005,

Dedicado a Kleine Cassiel, a enfermeira-voadora

Der Uberlende

7 Comments:

  • Como ja te disse, gosto muito deste final... Tranquilo, pacifico. Fico contente por ele ter perdido o medo de morrer, por ficar finalmente em paz. Tarefa dificil, no entanto, essa de ser anjo aqui na Terra.

    By Blogger smallworld, at 10:42 AM  

  • Estou sem palavras. Adorei. Transformaste um final triste num final feliz. Mágico. ***

    By Blogger rita, at 11:58 AM  

  • "As velhas gregas cegas cortam o fio que ainda me prendia a alma. Agora sou livre.."

    :)

    hoje nao foi um bom dia, nao sei bem como expressar a minha opiniao sobre o teu texto, muito menos como comenta-lo, mas deixou-me um cheiro a paz e um sabor doce na boca :) gostei*

    By Blogger Perséfone, at 11:18 PM  

  • Como adorei este reinventar... perfeito. Ocorre-me chamar-te argumentista porque desejaria ver um filme escrito por ti. Fazes o mais difícil, conjugas a existência de uma estória forte, com ritmo, personagens não estereotipadas, diálogos que prendem, sons, cores, ambientes. Foi um enorme prazer poder ser conduzida nas linhas da tua escrita. O teu talento é enorme, deve ter a medida da tua alma, e só uma alma rica escreve as palavras que de ti fluem, aqui, ou quando as diriges generosamente a outrem. Beijo na alma

    By Blogger maria l. duarte (secret), at 11:21 PM  

  • Bem tenho que me reunir com os outros bloggers e começar a formar um clube de Fãs :)
    Ainda não consegui perceber muito bem quem é Cassiel? penso que já a referiste num outro texto! algum arcanjo? personagem mítica?
    Não esperava por este fim, esperava por algo mais triste mas não, de facto até sorri e acho que acabou bem.
    Sim de facto não são personagens estereotipadas, sinto-as reais, verdadeiras, como se as tivesse a ver à frente.
    beijinho

    By Blogger Eduarda Sousa, at 2:16 PM  

  • ps- não paras de me surpreender e ensinar...

    By Blogger Eduarda Sousa, at 2:17 PM  

  • Kleine Cassiel
    http://www.blogger.com/profile/8563890

    ;)

    Beitchicos

    By Blogger Der Überlebende, at 12:08 AM  

Post a Comment

<< Home


 

referer referrer referers referrers http_referer