Luz e Sombra

Tuesday, April 04, 2006

Der Uberlende's End - parte II, by Stela

A recepcionista encaminhou-a para o bar. A distancia, ela reconheceu o seu alvo, apesar de nunca o ter visto antes. Nem era por nenhuma caracteristica que lhe conhecesse ou um sinal que tivessem combinado. Reconheceu-o porque ele era a unica pessoa em todo aquele hotel que era a sua alma gemea. Por momentos fraquejou, e sentiu algo semelhante a ansiedade, mas rapidamente recuperou o seu porte altivo, e voltou a caminhar com passos decididos e sensuais, cruzando as pernas no seu andar. A medida que ela atravessava a sala, sentia olhos gulosos a segui-la, e a cabeca dele girou, guiada por um qualquer instinto.
Ela sentou-se no banco ao lado dele e dirigiu-se ao barman. "Por favor, de-me um", mas foi interrompida pela voz do homem sentado ao lado dela. "Black Russian". O barman olhou para ela, depois para ele, e confuso, voltou a olhar para ela. Parecia-lhe estar a ver a mesma pessoa em duplicado, mas de sexos opostos. Para minimizar a sua confusao, decidiu olhar apenas para a mulher. Mas a morena tinha finalmente encarado Der Uberlende, com um sorriso felino nos labios. "Prazer, Der Uber", disse ela. "Eh todo meu, Mafalda", disse ele. Sem desviar o olhar dos olhos escuros e insondaveis de Der Uberlende, ela confirmou o seu pedido ao barman. "Um Black Russian, por favor, num copo curto com pouco gelo".
O barman apressou-se a satisfazer-lhe o pedido e rapidamente recuou para o lado oposto do bar, certo de que distancia era a melhor coisa a tomar naquele instante. Havia algo de arrepiante a envolver aquele casal.
"Fizeste boa viagem?", perguntou Der Uber, agora num tom casual. "Sim, nada de mais... Eh uma viagem longa e aborrecida", respondeu ela, tomando um sorvo da sua bebida. Perto do casal, o
rapaz magro continuava a dissertar sobre pianistas pseudo pop-jazz, sem qualquer interesse aparente na chegada da exotica morena mas a electricidade estatica que se elevava de si nao parecia perturbar mais Der Uberlende, que focava agora toda a sua atencao em Mafalda.
"Porque eh que me chamaste ate aqui?", perguntou Mafalda, intrigada. "Eh tempo...", respondeu ele, e o seu cansaco evidenciava-se com estas palavras.
"Hmmm...", murmurou ela, inclinando para o lado a cabeca e olhando-o atraves de palpebras semicerradas. "Estas um pouco chocho... Mas para mim ainda parece que tens muito para dar. Ja para nao falar de receber." Ele pegou repentinamente na mao dela, sobressaltando-a. "Sentes?", perguntou ele. "Frio...", sussurrou Mafalda. "Sim. Eh tempo, como te disse. Vamos?"
Encaminharam-se para o elevador, e subiram ate ao setimo piso, onde se encontrava o quarto de Der Uberlende. O corredor estava vazio quando sairam do elevador e eles caminharam ate ao quarto, cuja porta se encontrava entreaberta. De repente, a porta abriu-se e uma
empregada de limpeza baixa e rolica apareceu, arrastando atras de si um carrinho com produtos de limpeza e toalhas. Quando viu o casal, estacou, embaracada. "Ah, peco desculpa... Ninguem me disse que o quarto ia ter hospedes esta noite", tartamudeou a mulher. "Na realidade, estamos so de passagem...", respondeu Der Uberlende. Como o barman anteriormente, a mulher ficou confusa na presenca do casal, e pensou para si que provavelmente estariam apenas a gozar com ela, como outros hospedes faziam. Achou por bem ignorar e seguir o seu caminho, arrastando o carrinho atras de si. "Boa noite, senhores", disse ela, sem esperar resposta. Der Uberlende parou na ombreira da porta e sorriu. "Muito obrigada, Mercedes", disse. A empregada virou-se, surpreendida por ter obtido uma resposta e por aquele homem estranho saber o seu nome. A porta, contudo, ja se fechara silenciosamente, escondendo da sua vista o misterioso casal.
"Deixa-me ver a Lua...", disse Der Uber, dirigindo-se a janela. Abriu as cortinas e uma vista excepcionalmente deslumbrante de Lisboa apareceu, banhada pelo luar. "Aqui era o meu sitio preferido para pensar, tanto de dia como de noite", disse ele, melancolicamente. "Daqui veem-se todos os pecados, todas as imoralidades, e as pequenas justicas que ocasionalmente se fazem. Se olhares com atencao, ves tudo... Olha..."
Mafalda aproximou-se da janela. Viu um
homem idoso na rua por baixo deles, a cambalear e a falar sozinho. Parecia confuso, e dividia-se entre um riso tolo e lagrimas tristes a rolarem-lhe pela cara. "Que achas?", perguntou Der Uberlende. "Acho que podes dar o teu trabalho por terminado. Agora sigo eu sozinha...", respondeu Mafalda, ainda olhando para o homem.
Ele fechou a cortina. La fora, ao mesmo tempo, o velhote tropecava na calcada e caia, batendo com a cabeca num degrau. O sangue comecou a escorrer lentamente nas pedras da calcada.
Os caracois escondiam o rosto de Mafalda. Com a mao, Der Uberlende fe-la virar o rosto para si. "Isso eh tudo tristeza?, perguntou ele. "Isso eh tudo arrependimento?", perguntou ela. Percorreu com os dedos magros e delicados a gravata vermelha, da mesma cor da sua bolsa, da mesma cor do sangue que escorria da cabeca do homem. Der Uberlende sorriu, um sorriso maquiavelico e inocente ao mesmo tempo. Mafalda puxou-o para si e abracou-o. Ficaram envolvidos naquele abraco por segundos que pareceram horas, e depois beijaram-se com urgencia. O abraco tornou-se mais e mais forte.
Mais tarde, Mafalda saiu do quarto sozinha. Desceu ate ao bar e foi-se sentar no mesmo banco onde estivera anteriormente. O rapaz magro continuava ali, mas agora calado. O silencio nao melhorava a estatica. 'Um Black russian", pediu Mafalda ao barman. "Vodka com licor de cafe, certo? Copo curto ou alto?", perguntou o barman. "Curto, com pouco gelo, por favor".
Mafalda focou a sua atencao no rapaz. Sentia-se perturbada pela sua presenca. Interpelou-o. "Como se chama?", perguntou com voz meiga. "Xavier", respondeu ele, mal erguendo os olhos da sua bebida. "Xavier, vamos fazer um brinde... Aos dessintonizados! Que um dia finalmente desistam...", disse Mafalda, num tom candido.
Na manha seguinte, o corpo de um homem de trinta e picos foi encontrado num quarto do setimo andar. Pelo estado avancado de decomposicao, e por nao haver indicios do corpo ter sido trazido de outro lado, a policia determinou que estaria ali ha ja uma semana. Em resultado disto, Mercedes foi despedida, por lhe ter escapado o pormenor obvio de haver um cadaver a apodrecer num dos quartos que ela deveria limpar diariamente. Sentindo-se injusticada, Mercedes resolveu voltar a servir o seu veneno de eleicao, juntando cianeto a uma garrafa de vinho do porto guardada para a celebracao do aniversario do Hotel Cristal, agendada para dai a uma semana.
Quanto a identidade do homem... apesar de todos o ja terem visto, ninguem o soube reconhecer.

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