Luz e Sombra

Friday, September 30, 2005

Cristal - O Novo Desafio Parte 2 (DP2), por Der Uberlende

E não resisto a voltar a lançar o Desafio Parte II
Este modelo é já bem conhecido de (quase) toda a gente, todavia o bom senso manda-me ditar as regras, que são as seguintes:

1. O texto que se segue representa a Parte I de uma estória em dois actos (apenas dois)
2. O que eu sugiro é que cada um de vós escreva a Parte II, que tem que ser a parte final
3. Cada pessoa escreve a sua versão da Parte II, ao seu estilo, à sua maneira, com o final que entender.
4. No dia 31 de Outubro (Halloween) eu publico a minha versão, apenas por devoção. Não se trata da versão correcta nem da melhor versão. Será apenas isso, a minha versão!
5. Ai, na noite de Halloween, termina a submissão de textos.
6. No dia 2 de Novembro será publicada uma mensagem onde, através dos vossos comentários, será votada a vossa versão favorita.
7. No dia 10 de Novembro é publicada a versão integral, com a Parte II escolhida por todos
8. Para publicar a vossa versão da Parte II enviem um e-mail para hopematches@portugalmail.pt ou para ngoli12@yahoo.com.br
9. Posso contar convosco?

Boas escritas,

Der Uberlende




Cristal

Os primeiros dias de Novembro fustigavam a aldeia com chuvas fortes e ventos castigadores. Era o Inverno, que deixava bem claras as suas intenções de ser longo e tenebroso. Era tempo das pessoas recolherem nas suas casa, nos seus abrigos, longe das tormentas da estação. E longe dos olhares dele.
Era uma criatura peculiar. Alguns diriam pacato e recatado, outros chamavam-lhe “avozinho dos bonecos”. E também haviam aqueles que o olhavam com desconfiança... e medo, muito medo.
A loja era de facto extraordinária, uma delícia para os olhares curiosos, um passeio entre o maravilhoso e o macabro. Centenas de pequenos bonecos de cristal, todos diferentes uns dos outros. Muitos, a maioria, eram para venda. Dizia-se que uns vinham da Bohemia, outros eram recordações do Brasil colonial, enquanto que muitos eram italianos ou mesmo chineses. Vinham de todo o mundo, e desfilavam nas prateleiras de carvalho antigo da loja do Mestre Fausto.
Mestre Fausto vivia naquela aldeia desde sempre, nem mesmo os mais velhos se lembram da chegada dele. Era um homem alto e magro, de feições vincadas e pele encortiçada, olhar fundo e encovado, e tanto era capaz do sorriso mais cordial como da expressão mais esfíngica. Tinha o dom de encantar as crianças com as histórias dos seus bonecos de cristal. Entre tantas que foram contadas, houve duas que ficaram particularmente famosas: a do Tigre e a da Traça Aqueronte, a Caveira-da-Morte. Ninguém sabe todos os pormenores, pois foram as duas contadas há muito tempo e a várias pessoas, que ouviram de maneira diferente, a cada um a música que lhe encanta o ouvido.

O Tigre
O Tigre veio da Índia, de onde mais. Dizia-se que teria feito parte da coleção luxuosa de um rico capataz inglês, dos tempos em que a Índia era a jóia da coroa do Império Britânico. Não tinha preço, era uma peça única, de detalhes fora do comum, um cristal deliciosamente fino e leve, sem uma única marca de entalhe, como se tivesse sido o próprio Shiva a esculpi-lo com o seu fogo. Mas tanta beleza tinha o seu lado negro. Não era possível contemplar o Tigre demasiado tempo, não mais do que um ou dois minutos de cada vez. Quem deixasse o seu olhar perscrutar o valioso espécimen com demasiada demora caia num transe profundo, onde era visitado por pesadelos violentos e claustrofóbicos, em que imaginava ficar perdido na selva, sem saber para onde ir, e em que o Tigre o perseguia... até à morte! Se conseguisse sair do transe antes do Tigre o apanhar, ficava apenas marcado para o resto da sua vida com terrores nocturnos, mas se o Tigre o reclamasse, ficaria remetido a um estado vegetativo, com o corpo contorcido pelo pânico e a cara deformada com a máscara da morte.

A Aqueronte
Uma peça de classe incomparável. Uma enorme traça Aqueronte, mais vulgarmente conhecida por Caveira-da-Morte, dado o padrão que exibia no seu dorso, uma assustadora caveira de expressão fria e cativante. A Aqueronte era uma antiguidade que havia passado de geração em geração, sendo que o último dono, o Conde de Chambourcy, a deixou em legado ao Mestre Fausto, em honra da sua inigualável colecção de seres de cristal. A lenda rezava que a Aqueronte vinha da Grécia dos heróis e dos deuses. Constava que a infame pertencia à Pitonisa, que no seu Templo de Delfos, o Oráculo de Apolo, adivinhava o futuro e via para além do tempo. A Aqueronte era uma das suas duas companheiras, sendo a outra o Grifo Assírio, que se terá perdido numa das inúmeras trocas de dono ao longo dos séculos. Consta então que a Pitonisa ouvia o que a Aqueronte e o Grifo lhe diziam sobre o visitante que vinha à consulta do oráculo, e que eram portadores das vozes dos condenados, os esquecidos do reino profundo de Hades. A Aqueronte seria a voz do barqueiro que levava o mortos para o submundo. Ela sabia sempre o que as pobres almas tinham para pagar neste mundo... e no próximo. O que o Mestre Fausto dizia era que nunca fizessem nenhuma pergunta à Aqueronte, a não ser que estivessem seguros que queriam mesmo saber a resposta. Não, o boneco de cristal não se iria mover e desatar a falar. A resposta viria mais tarde, após o segundo sono da noite. Por vezes, quem obtinha a resposta da Aqueronte durante o pesado repouso acordava insano, tresloucado, profundamente apático ou simplesmente se suicidava em poucos dias.

Mas não lhe vou contar mais histórias de bonecos assustadores, ou de velhas lendas sem tempo. Vou-lhes contar a história de Angela, e de como ela procurou descobrir o segredo de Mestre Fausto e dos Cristais malditos.

Wednesday, September 28, 2005

DT - Setembro: Umas parcas palavras sobre Solidão, por booklover

Estamos incrivelmente sós no mundo. Por mais amigos que nos rodeiem continuamos sós. Bem nos tentamos enganar do contrário, procurando estar sempre com alguém (mesmo que esse alguém seja um grande chato) ou então usamos o velho truque comum: ligamos a televisão e as vozes iludem-nos por breves instantes que estamos acompanhados. Conheço inclusive pessoas que dormem com a televisão ligada! Mas a dolorosa verdade acaba sempre por chegar: estamos SÓS tanto nas pequenas como nas grandes coisas.

Tuesday, September 27, 2005

DT - Setembro: CORACAO INDEPENDENTE EU NAO TE ACOMPANHO MAIS, por Joana

Recebemos mais um contributo para o Desafio Temático de Setembro, vem directamente daqui. Um beijinho cheio de saudades.


Eu dormia numa caminha de grades ao lado da cama dos meus avos,a minha avo segurava a minha mao no escuro ate eu adormecer. Lembro-me tambem de a ouvir cantar a noite, mas nao tenho a certeza que essa recordacao seja verdadeira.
A minha avo era uma mulher pequena e magrinha, tuberculizou quando era nova e por causa disso sofreu de falta de ar a vida toda. Talvez porque ela soubesse tao bem o que era ser pequeno e vulneravel, quando saimos a rua apertava a minha mao com muita forca para que nao me perdesse. Nas fotografias da altura eu olho para a camara de frente e sorrio; se calhar porque sei que a minha avo nao vai largar a minha mao nem de noite nem de dia, se calhar porque estou a espera de ver sair o passarinho.
Os meus avos tinham um canario amarelo que so cantava quando o sol batia na gaiola. Um dia o canario morreu e a minha avo explicou-me que o coracao dos canarios e muito fraquinho, que as vezes para morrerm basta um susto ou sentirem-se tristes.
O meus avos compravam o Comercio do Porto a meias, quando o meu avo acabava de o ler eu levava-o ao vizinho de cima. O sr Assuncao falava pouco e muito baixinho, passava as tardes num terraco envidracado a apanhar sol e a recortar noticias do jornal para colar num album. Morreu numa terca-feira por volta da hora do almoco enquanto lia O Comercio. A minha avo contou-me que ele tinha uma angina de peito, e eu fiquei a cismar se ele teria morrido de susto, por estar triste, ou se por causa de alguma fraqueza de coracao.
Depois foi a vez do meu avo e passado uma ano a minha avo teve um enfarte enquanto enfeitava a campa dele com um ramo de crisantemos brancos. O guarda do cemiterio de Agremonte disse-me que ela morreu como um passarinho, e eu acredito nele porque os canarios morrem de tristeza.
O primeiro rapaz por quem me apaixonei nasceu com um sopro no coracao e nenhum medico deu fe. Morreu durante uma partida de hoquei em patins,o Sport estava a ganhar por 21 a 19 ao Nau Vitoria do Monte Aventino e o Manel jogava a defesa lateral esquerdo.
Morrer nao deve ser triste de todo se voltar a encontrar os meus avos, o sr Assuncao e o meu primeiro namorado. Tambem gostava de voltar a ver o canario, mas isso e capaz de ser pedir muito.

Friday, September 23, 2005

DT Setembro: Um olhar sobre a calma; por Vera

E surge outra contribuição para o DT - Setembro!
Mais um post da Vera, que está em alta!

d.u.



Um olhar sobre a calma


O suave baloiçar embalava-a, com a suavidade da brisa de verão, mas o silêncio inquietava-a. Aquele escuro misterioso que a envolvia era triste e assustador. Lembrava-se ainda de, naquele dia, ter sentido aquela forte luz branca, tão intensa que feria, mas era uma felicidade, uma grande excitação de cores, um outro mundo por explorar. Hoje porém as cores esbatiam-se numa única cujo nome ela não sabia nem poderia reconhecer.
Quem seria aquele ser tão doce, cuja voz era bela e cristalina? Não o via...
Como era possível não o ver? Se ele estava ali... Tão perto e tão presente.
Bastava-lhe chorar, ou manifestar-se e ele vinha. Mas em vez de lhe mostrar as cores, a luz, tentava sempre acalmá-la alimentando-a ou limpando-a.
“Será que ninguém percebe que algo não está bem? Porque não me mostram as cores, e
me fazem feliz? Em breve perderei a esperança, desesperarei e algo terrível acontecerá...”
Porque estava ela a imaginar semelhante discurso para um bebé recém nascido?
Hoje com vinte anos tentava uma iluminação interior. Sempre se sentira assim? Conformada? Não, decerto que desde aquele primeiro momento em que vira a forte luz que questionara tudo e se sentira injustiçada. Era inútil, triste e desamparada. Não se podia considerar infeliz, mas...
Gostava que hoje todas aquelas perguntas ainda fizessem sentido, que ainda se importasse. Que o mundo das cores ainda lhe parecesse mágico. Mas não.
Ela conformara-se.
Os sons e as formas eram o mundo que ela conhecia. Dependia da ajuda de estranhos para se guiar, mas conseguira também alguma independência.Poderia haver pior pesadelo? Uma vida frágil e inútil, sem sonhos, objectivos ou sentido...
Vivia não por querer viver, mas porque estava viva. Era doloroso sair de casa todos os dias e viver a triste rotina. Queria Ter razões para ser triste. Queria chorar, importar-se, ouvir alguém troçar para poder indignar-se, tropeçar para poder levantar-se, ter uma razão para viver defendendo-se, já que (para ela) não lhe parecia ser possível ter uma melhor razão para viver.
Mas não tinha, então para quê viver?...


Vera

DT - Setembro: Cair, por SweetSerenity

Mais uma resposta ao DT de Setembro, desta vez por SweetSerenity



Cair
É o sono e a confusão
O nevoeiro e o cansaço
O pesar e o turbilhão
O frio de aço

O gelo no coração
O tapar da visão
A pedra na mão
A amarga desilusão

O cair do corpo
O desistir da alma
O olhar morto
A estranha calma

É um fechar
Cerrar
Calar
Ficar

A agonia e a dor
Do fingir sentir
O perder do amor
Do que é existir

Um morrer
Perder
Falecer
Esquecer


17 de Novembro de 2004

SweetSerenity

Wednesday, September 21, 2005

DT: "O Monólogo da Praia do Inefável" por Joaquim Gilvaz

Caros familiares do Luz e Sombra,

Recebemos mais uma contribuição para o
Desafio Temático do mês de Setembro - solidão/sofrimento/dor - vindo directamente do nosso vizinho BLOG DE UMA MORTE ANUNCIADA
Deliciem-se...

Quatro cães que viajam juntos carregam a bagagem do vento e as pernas do mar. – pensou o Sr. José enquanto mergulhava a mão direita na fina areia da Praia do Inefável. Esta seria uma óptima frase para iniciar um romance - aquele que anda há anos para escrever- ao passo que iniciar uma conversa com ela seria tremendamente absurdo. Talvez, porque nunca existe ninguém ao nosso lado, quando no final de uma tarde cinzenta vemos passar quatro cães no fundo da praia.
É nesta ausência que o Sr. José tem vivido. Mas hoje seria o último dia que a sua vida seria guiada pelas suas condutas delineadas do quotidiano.

Sim! Amanhã vai escrever uma carta a alguém que tire à sorte da lista telefónica. Vai contar-lhe de como gosta de Schumann, do arrepio que estrutura nas mudanças de andamento e na impossibilidade humana de ouvir todos os sons numa sinfonia… Escreverá também, acerca daquele livro que leu no Verão passado que falava de um homem só. Um desenganado que só escutava o mundo pelas suas torturas intelectuais, sempre no arredor do sentimento - um académico dos silêncios e da prosa imaginada. Certo dia, todos os seus quadros se confundiram com um sentimento - a perda. A perda de si em si mesmo, a ilustração do que era numa vida que não lhe é; mas principalmente a perda de sensações por tudo. Por certo, o Sr. José identificou-se com esta personagem daí a sua exaltação por esse livro – mas isto são os devaneios de quem apenas podará narrar ou especular acerca do que vai na cabeça dos outros.

Do nome que sair da lista telefónica, espera-se que feminino, nascerá a nova companhia do Sr. José, nem mesmo que seja por ficção. Apenas para dar um rosto a um amor que nunca teve…Tornar o sofrimento mais digno. Ter a quem dirigir os seus pensamentos; adormecer a imaginar histórias para lhe contar; estar sozinho na praia e dizer-lhe coisas antigas da sua infância:

- O meu avô foi pescador...- dizia o Sr. José. - É estranho pensar que todos podemos escolher os nossos caminhos na vida, mas no fim todos se afunilam no esquecimento.

- José, esquece os existencialismos e vem correr comigo na areia fria..- responderia a rapariga da lista telefónica.

- Espera! Gostava de te contar um ensinamento que o meu avô partilhou comigo quando era pequeno. Os pescadores apenas têm duas mortes possíveis: no mar por afogamento; ou na terra por trombose. Os corações desses homens pertencem ao mar, na terra deixam de ser precisos...
- E como morreu o teu avô? – Interrogaria a rapariga da lista telefónica.
- Foi atropelado por um autocarro... – diria o Sr. José.

- Então, não morreu afogado, nem de trombose, logo essa teoria está refutada!

- Era a minha avó que ia nesse autocarro… Queria fugir do meu avô por não aguentar o sofrimento de o ver partir todos os meses para o mar. Ele quis impedi-la de partir, pondo-se à frente da carreira das 5. E ali morreu atropelado. Não morreu do coração, mas pelo coração...
O Sr. José, deixou de poder distinguir os quatro cães que por ele passaram, de súbito também ele deixara-se de reconhecer. Desenterrou a mão direita da areia fina, voltava para casa, onde o refogado o esperava no micro-ondas. E o imenso silêncio da solidão que escorria das paredes de sua casa. Para trás deixava o mar e os barracões quase teatrais dos profundos pescadores…assim como, o gesto perdido de procurar alguém.


Ass: Joaquim Gilvaz

Monday, September 19, 2005

E se....

E se amanhã já não estivesses aqui?

E se, afinal, tudo não passou de uma visita rápida?

E se a morte te levasse nos seus braços, o que é que terias deixado ficar para trás?....

E se hoje fosse amanha, e tu não mais existisses aqui, de que serias recordado?

E se o amanhã for uma incerteza, que vais fazer hoje para que amanhã não sintas falta deste dia?....


E se acordasses.....


AGORA!!!



Der Uberlende

Friday, September 16, 2005

DT - Acreditar; por Der Uberlende

Acredito em mim
(mentiras sem fim)

Uma bela manhã de Sol banha-me a face
(odeio a luz, doem-me os olhos)

os pássaros chilreiam ao chapinhar no fontanário
(criaturas malditas, racham-me os tímpanos com tanto alarido)

as flores desabrocham e presenteiam toda a gente com mil aromas e um festival de cor
(venha a seca, a geada, o ardiloso inverno, e leve estes abortos da natureza para longe de mim)

Sinto a relva com os meus pés descalços
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

e alegro-me com o toque molhado dos restos do orvalho
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

e deixo que a brisa me acaricie a face
(...nada...)

vejo as crianças que jogam à apanhada
(rio-me dos seus corpos frágeis, ...tão frágeis...)

os cães que deliciam os seus donos com joviais brincadeiras e corridinhas
(obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedec...)

os jovens casais, trocam beijos e carícias, envergonhados ou sorrindo maliciosamente
(fornicai como porcos que sois, procriai e enchei o planeta com as vossas larvas)

vejo meninas que volteiam nas suas bicicletas, cheias de fitas que ondulam ao vento
(todas as mulheres são patéticas, ridículas, execráveis e umas grandes putas)

enquanto os garotos se entretem a jogar à bola
(nunca me convidaram, nunca me deixaram jogar, nunca me deixaram sequer aproximar...)

conheci outros como eles, à tantos anos atrás, lá no antigo bairro
(um dia verei também os vossos cadáveres)

como eles, miudos e miudas, andavamos todos no primeiro ano de escola
(anormal, atrasado, monga, anormal, anormal, anormal, ...)

enquanto durante a hora de lição a professora nos ensinava a dança das palavras e o ritmo dos números
(D. Isaura, tenho medo do anormal! D. Isaura, ele cheira mal e é feio! D. Isaura, não quero ficar ao lado do monga...)

ficava para a mágica altura do recreio a troca de brinquedos, toques e afectos, coisas simples entre as crianças
(não mexas ai não fales comigo não me toques sai daqui isso não é teu apanhas nos cornos se não desapareces!!!)

agora me lembro, das horas felizes
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

agora me lembro de como era o grupo
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

e de tudo quanto vivi com eles
(...nada...)

e deixo as memórias vogarem como barcos ao vento
(leva a mão ao bolso, obedeceaodono)

enquanto o conforto das recordações me afaga a alma
(já, faz o que te digo anormal!!)

entrelaço a melancolia de viver com a esperânça de um novo dia
(já a sentes, na tua mão?)

e deixo que o beijo quente do Sol me conforte
(ouviste o click? Está engatilhada...)



14 de Setembro de 2005,

Der Überlende

Thursday, September 15, 2005

Sobrevivência; por Vera Fonseca

Olá a todos,

este é um texto que já deveria ter publicado à algum tempo, só que infelizmente ... falhei!
Redimo-me agora, espero que me perdoem, especialmente a Vera, claro!

boas escritas,

Der Uber.

Survive isn’t the fight for live, is a fight for happiness.

A felicidade talvez não suprema mas elementar…
Travamos uma luta paralela à da natureza mas não necessariamente igual. Não vivemos pela vida mas pela busca da felicidade… Quantos não lhe põem termo por desesperar ao procurar ser feliz!
A sociedade é a nova selva onde a lei do mais forte é a simples busca do elementar “ser feliz” e só aquele, (o mais forte), , cuja força sabe recuperar o inevitável, é que sobrevive ao desafio. É rei o que consegue chegar além da incompreensão da sua meta… sendo mais que medianamente feliz.
Engana-se quem diferencia o Homem do animal pela fisiologia… afinal não somos todos diferentes? Ou aquele que os distancia pela racionalização, quando por tantas vezes connosco comunicam. A diferença reside na mais simples e velha batalha do animal pela vida e na constante busca da felicidade pelo Homem contemporâneo, ou seja no sentido que cada um dá a vida…


Vera Fonseca

Wednesday, September 14, 2005

DT: Final feliz, by Stela

Peço muitas desculpas por não ter participado nos desafios anteriores. Apetecia-me escrever sobre isto, e acho que se encaixa bem no tema lançado pelo Silent Child. Prometo ser mais participativa nos próximos desafios!!



Pegou no lápis de khol e traçou com mão firme uma linha escura por baixo dos olhos. Imediatamente o olhar mortiço ganhou nova luz. Aplicou cuidadosamente o rímel, primeiro por cima das pestanas, depois por baixo. Abriu e fechou os olhos, num código morse só dela. Baton… Escolheu o vermelho escuro. Olhou para o resultado final. Magra como um esqueleto, cara chupada e cabelo flamejante vermelho com caracóis rebeldes. Lá estavam os olhos, brilhantes agora, de inteligência e sedução. Nenhuma pergunta se via contudo neles. Estavam vazios de curiosidade pela vida, antes afirmavam claramente o desprezo que devotava a este mundo.
Ia todos os dias à faculdade, apesar de tudo. E mesmo sem nunca estudar afincadamente, tirava notas brilhantes, mas nada lhe parecia ser digno de orgulho. «Podes ser tudo o que quiseres, Marta!» Mas não havia nada que quisesse de facto ser. Encontrava algum apaziguamento nas aulas de Matemática, mas tudo lhe era tão fácil… Até ser a melhor da aula, a melhor da faculdade, a aborrecia e cansava. Nada a fazia vibrar e por isso a única coisa que queria era ausentar-se. O sentimento de ausência de qualquer forma sempre a tinha acompanhado. Onde quer que fosse, sentia-se de fora. Então, porquê não concretizar essa ausência? Usou e abusou de tudo o que tivesse o potencial de a fazer sentir-se finalmente longe, a flutuar, muito acima da vida e da morte. Afinal havia outros mundos para explorar, nos braços do álcool e da droga. Por fim, só lhe sobravam amigos tão desligados e desinteressados neste plano existencial como ela. Mas mesmo esses se afastavam quando começavam a sentir o enorme peso da sua tristeza interior. Era como um manto negro de escuridão que se estendia suave e inexoravelmente sobre as suas almas, sugando-lhes o pouco de alegria que conseguiam esconder dentro de si. Rapidamente começaram a dar desculpas para não estarem com ela. «Desculpa, Marta, mas hoje não dá… A minha mãe já anda a estranhar.»
A mãe de Marta não estranhava nada, porque passava metade do tempo fora do país em trabalho e a outra metade dentro do país em trabalho. Mas amava muito a filha e demonstrava-o dando-lhe todo o dinheiro que ela lhe pedisse. Isso facilitava a compra das suas substâncias de distanciamento planetário.
Nessa noite, Marta estava sozinha, vestida e maquilhada a preceito. Nos pés os seus novos sapatos D&G, nas suas mãos uma miríade de comprimidos multicolores. Tomou-os acompanhada de uma garrafa inteira de vodka. Sentiu o seu corpo desistir, aos poucos. “Vou morrer”, pensou. Até aí, não tinha nunca formulado em palavras ser esse o seu desejo, mas agora que a possibilidade de morrer se lhe afigurava muito possível, não era uma ideia que lhe desagradasse… E à medida que a luz se apagava dos olhos de cigana, sentia ter sido este o único momento dos seus 19 anos em que percebera que afinal, estava viva.

And the winner is...

Pessoal,
passo a anunciar os resultados do Desafio Crimes Imperfeitos.

Booklover (a.k.a. Curte-Livros) – "Pintaínho": 1 ponto
Dasha – "A Galinha": 1 Ponto e uma menção honrosa (isto conta como 1 ponto e 1/2?)
Der Überlende (a.k.a. O Berlinde):
"Modelo" – 4 pontos/ "Prémio" – 1 ponto/ "Predador" – 1 ponto
Earworm (a.k.a. O Bicho do Ouvido) – "No Parapeito": 3 pontos
Lua de Inverno – "Palácio Eterno": 2 pontos
Redbacksipder (a.k.a. Aranhiço) – "Os Corredores": 3 pontos
Sweet Serenity – "Hoje Matei-me": 1 Ponto

O vencedor é "A Modelo", por Der Überlende.

Muito obrigado a todos e ... venham mais desafios!

Monday, September 12, 2005

Melancolia; Um contributo da PiP

Estimada 'minitribo',
É meu enorme prazer e honra dar-vos a conhecer o primeiro contributo da nossa mais recente probacionária ;)
PiP

sem mais palavras (a não ser nos comentários)

Der Uber



Melancolia

A melancolia estende, lenta e silenciosamente, os seus múltiplos braços para me agarrar. Muito de mansinho. Penso poder recusar o seu abraço mansamente feroz, mas é apenas uma doce ilusão da mente. Não há maneira de lhe resistir. Os seus braços agarram-me, penetram-me, possuem-me, esmagando-me com uma força imprevisível. Deixo-me à sua mercê.

E como é suave, esta melancolia, tão doce e triste, tão cómoda, afinal! Aqui posso refugiar-me, erguer, no aperto forte dos seus braços, grossas muralhas que me permitem virar costas ao Mundo. Não quero ver e nada sentir, para além da dor, da minha tristeza sem fim. Injustificada, talvez, mas será preciso justificação? Os porquês dos sentimentos ficam muitas vezes fora do nosso alcance e não será melhor assim?

E assim me deixo, nestes braços negros em que me apoio e descanso, sabendo que neles estou segura, ninguém me pode fazer mal.


9 de Setembro de 2005

PiP

'Poema em Linha Recta' de Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso, arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas do hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,


Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste mundo que me confesse que uma vez já foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos


Quantas vezes também eu fui reles, vil, parasita, ridícula, absurda, grotesca, mesquinha, submissa, arrogante, cobarde, errónea, infame…

E vocês também nunca foram? Ou são todos Semideuses?

Saturday, September 10, 2005

Chuva; por Dasha

Meus caros, abram bem os olhos e deixe a vossa alma respirar.
Textos destes não aparecem todos os dias...
cumprimentos entusiastas,

Der Ü.



Chuva

Agua escorre me pela face… Após meses de seca, sinto o renascimento e o sabor da vida… Ontem senti me morrer, e anteontem, e durante estes meses todos…

A raiva e a fúria acumulados dissolvem-se nos riachos da chuva, sinto a dor e a solidão sairem com as lagrimas que me escorrem pela face e misturam-se com a chuva.

Água do céu, céu de água, som de gotas a bater nos telhados e nas folhas de árvores. Pássaros molhados a procura do abrigo, um gato a fugir para a cave.

Cinza que se mistura com a água que a leva para longe daqui. O meu corpo todo estica-se, espreguiça-se, sentindo a frescura do vento, da chuva, do nascimento da natureza. Ouro do outono que a Natureza põe nas suas vestes douradas e se exibe e se gaba perante todos. Os felizardos são os que sabem apreciar este esplendor do nascimento antes de um adormecer do inverno. Poucos são os que se sentem em bem tanto com o sol, tanto com a chuva, tanto no meio da neve. Eu sou ums indecisa. Ora faço pazes e rio com o sol do verão, ora canto com a chuva, ora adormeço com a neve. Gosto de me dissolver na chuva, chapinhando pelas poças a caminho da casa, sem chapeu de chuva. Chegar encharcada a casa e enfiar-me debaixo de um cobertor a frente de lareira. Olhar para o fogo e sentir que a minha angústia e dor estão la fora a caminho do mar, dissolvidos na chuva.



Dasha

Friday, September 09, 2005

DCP - a vez da Dasha (sempre a tempo!!)

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“-Olha para isto! Estes gajos não se cansam de sacar dinheiro em troca de nada… Passaros “inteligentes”??? Acreditas nisto? Passaros que sabem ler???


Eu passei ao Charlie o folheto que tirei da caixa de correio. Este anunciava a nova estreia do circo que chegou a nossa cidade. O Charlie olhou com despreso e ligou a televisão. Eu estive em mais uma das minhas estratégias de como ganhar o dinheiro: jogar cartas? Pedir algum donativo para a minha empresa inexistente? O meu cerebro, cansado de tantas ideias brilhantes, gerava cada vez ideias mais surreais, mas eu conhecia esta sua faceta e deixava o andar a inventar…


Na manhã do dia seguinte ouvi um barulho estranho do quarto do Charlie, e encontrei a porta fechada, o que já era estranho, tendo em conta que o Charlie nunca, mas mesmo nunca fechava a porta do seu quarto. Como eu não costumo deixar as coisas por descobrir, facilmente abri a porta do quarto dele com um gancho e o que é que eu descubro? Num cubículo separado com as cadeiras e placas de cartão estava uma galinha! Dentro do meu apartamento! Isto é muito estranho, mas decidi fingir que não vi nada e voltei a trancar a porta.


A noite Charlie voltou com um ar misterioso e fechou se logo no quarto. Todo este suspence não me deixava sossegado, mas o que é que eu poderia fazer? Pus me a rever a correspondencia e jornais do dia, ainda a gerar as ideias brilhantes de “como ganhar muito dinheiro num dia” e encontrei um anuncio estranho: “Desapareceu a galinha inteligente do circo! A quem encontra-la a recompensa de 200 euros”. Um raio luminoso passou no meu cerebro! É isto! O Charlie está tramar uma sem me dizer nada! Ele roubou a galinha ao circo e agora vai devolve-la recebendo a recompensa! Não o posso permitir! Vou dar a volta a questão.


Da manhã Charlie disse me que vai partir no comboio das 10 e não sabe quando volta. Tem coisas a tratar na sua cidade e estas irão levar um certo tempo. Reparei no seu quarto as malas feitas e a galinha do outro dia numa gaiola grande.


-Charlie, para que a galinha?

-Para a minha mãe. Tem uma quinta e precisa de uma galinha desta raça.

-Mas Charlie, esta galinha não tem raça nenhuma, é uma galinha vulgar, não precisas dela, só te vai complicar a viagem, queres 10 euros por ela?

-10 euros? Por uma galinha desta raça rara? Só podes estar a brincar. Isto é uma galinha procriadora de futuros campeões na luta de galos la na minha terra!- disse o Charlie, segurando orgulhosamente o chapeu velho a frente do peito. Parecia mesmo orgulhoso da sua galinha, mas eu sabia o que é que eles estava a tramar e não desisti.

-Charlie, eu dou te 50 euros por esta galinha!

-50 euros? Mas para que queres pagar tanto por esta galinha? Tu nem tens onde guarda-la! Vives num apartamento! Não, uma galinha tem que viver no campo, no meio de outras galinhas e um galo!

-Charlie, eu dou-te 100 euros! E isto é o meu preço final! - disse eu fazendo cálculos de cabeça de que sempre vou ganhar outros 100 euros de recompensa.

-Oh meu amigo… Uma galinha não custa 100 euros! E eu gosto dela, a sério! Desde ontem que estou sentir uma certa afinidade com este passaro! Não posso vende-lo! Ainda por cima não tenho tempo para ir comprar uma outra para a minha mãe! Tenho comboio daqui 15 minutos!

-Oh, Charlie, pensa no dinheiro que te estou oferecer! Dizes bem, uma galinha não vale este preço, mas eu quero comprar esta galinha! Sinto que a tenho que comprar! Nunca sentiste isto? Com o dinheiro que te dou tu compras 10 procriadoras para a tua quinta! - eu fiz um ar muito convincente e até consegui uma gota de lagrima a sair pelo canto e olho… Para quem não sabe, é muito dificil fazer sair uma lagrima! É uma arte, qual eu domino muito bem! (modestia a parte)

-Pronto… - Charlie parecia mesmo abalado, mas eu sabia que está se fazer, e talvez estava mesmo com pressa para apanhar o comboio e decidiu contentar-se com 100 euros em vez de 200, mas bazar da cidade o quanto antes - Pronto… parece que tu precisas mesmo desta galinha. Vou aceitar a tua oferta e com este dinheiro compro outra quando chegar a casa…


Radiante, eu dei-lhe os meus últimos 100 euros e peguei na gaiola com a galinha que olhava assustada a sua volta.


A tarde vesti a minha roupa mais presentável e dirigi-me para a administração do circo com a galinha na mão. Bati a porta e encontrei um homem mal disposto a frente de uma secretária:

-Boa tarde, venho por causa de anúncio que foi publicado ontem no jornal. Trago a galinha desaparecida, ai este passaro inteligente, já me leu todos os livros em casa!!! Agradecia que me passassem o cheque de recompensa!- fiz o sorriso mais doce que se pode imaginar…


O homem olhou para mim, a sua má disposição ficou substituida por uma surpresa:

-O senhor está me dizer que esta galinha que tem na gaiola sabe ler? – senti ironia na sua voz estridente

-Oh, claro que sabe! Ela lá em casa leu já todos os livros que encontrou! É a galinha que desapareceu do circo anteontem!

-Caro senhor – o homem estava ficar irritado – no nosso circo só temos corvos e papagaios! E digo lhe já que ainda não se conseguiu ensinar uma galinha a ler! Não demos anúncio nenhum sobre o desaparecimento de nada! O seu passaro maravilhoso devia estar num museu! Mas aqui ninguem engole esta treta! Adeus!


Eu sai confuso… Reli o anúncio e decidi ir falar com o velho Dick do jornal que me deixava sempre uma cópia gratis nas alturas em que eu não tinha um tostão


- Boa tarde, senhor! O dia está lindo, não está? - disse eu com o ar feliz.

- Não me venhas com esta… aconteceu te mais alguma coisa? Diz logo, não comeces com floreados!

- Ahh… não é nada, só queria saber quam deu este anúncio ontem no jornal!

O velho Dick olhou para anúncio, depois fez um ar de pensamento, embora eu duvide que aquilo ainda pensa. E depois pronunciou:

- Olha, este anúncio deu o teu amigo, que está viver contigo no apartamento! Aquele alto, que anda sempre de chapeu de feltro!


A terra fugiu-me dos pés… então o meu amigo Charlie enganou-me? Ficou com todo o meu dinheiro e aproveitou-se da minha fase de procura de ideias para enriquecer?


Arrastei-me lentamente pela rua… Um único pensamento apoderou-se de mim… Era um crime sangrento que a minha cabeça planeava sem querer... Alguem vai morrer antes de por de sol! Decidido dirigi-me para a casa…


A noite comi galinha assada…”

Dasha

Wednesday, September 07, 2005

DT: A Queda

ANYONE, ANYWHERE
No one seems to care anymore(as)
I wander through this night all alone
No one feels the pain I have inside
Looking at this world through my eyes
No one really cares where I go
Searching to feel warmth forever more
The wheels of life they turn without me
Now you are gone... eternally
No...
Don't leave me here
The dream carries (me) on
Inside
I know...
Its not too late
Lost moments blown away
TonightChorus.
Mankind, with your heresy
Can't you see that this is killing me
There's no one in this life
To be here with me at my side*

Caí novamente no inferno, a amargura, a aflição e o desanimo apossaram-se de mim. Sinto uma força destrutiva brutal dentro do meu peito, apetece-me gritar até perder a voz, deitar-me e não acordar nunca mais. A dor é tão grande tão grande que as lágrimas brotam incessantemente dos meus olhos. A cabeça anda à roda, não me apetece falar com ninguém porque ninguém jamais compreenderá a dor de eu ser eu. À velocidade da luz, esta angústia inquietante percorre-me velozmente o corpo e tal como a seiva bruta ascende na árvore, o desespero escorre violentamente por mim e entranha-se nos sítios mais recônditos e inimagináveis do meu corpo. Os braços esbracejam violentamente na tentativa vã de me tirarem deste sufoco. Os ouvidos recusam-se a ouvir e bloqueiam, só suportando o barulho do silêncio. Os olhos, esses mergulham num livro, detêm-se num parágrafo qualquer para me abstraírem desta dor. São momentos preciosos que me permitem descansar… de uma guerrilha que a autodestruição trava com a minha vontade desmesurada de viver…
Estou cansada de me sentir assim, dia após dia, noite após noite…
Não sei o que busco…
Não sei o que procuro…



ps - esta letra foi-nos enviada pelo Silent Child e como eu tinha este texto para publicar no desafio DT achei que podia servir de introdução... Espero que não te importes Silent Child :)


*Letra de Anathema ( www.anathema.ws ) do álbum "Judgement" (1999) ANYONE, ANYWHERE

Tuesday, September 06, 2005

Votem no Crime (Im)Perfeito

Pessoal;

Vamos lá a votar no vencedor do Desafio Crimes Imperfeitos!
And the nominees are...

. Booklover: O Pintaínho
. Der Uberlende: A Modelo/Predador/Prémio
. Earworm: No Parapeito
. Lua de Inverno: Palácio Eterno
. RedbackSpider: Os Corredores
. Sweet Serenity: Hoje Matei-me
. Dasha

Bons votos!

PS: Espero contribuição de última hora... ouviste Stela?

Sunday, September 04, 2005

"Ilusões" de Richard Bach


Li este livro pela segunda vez num espaço de dois anos. Devo confessar que da primeira leitura não apanhei quase nada. Vivia então a minha fase de devoradora sequiosa de canhenhos sem lhes dispensar o mínimo de atenção, movida pela vil aspiração de aumentar a minha listinha ridícula de livros engolidos e não pensados ou sequer lidos verdadeiramente!
Well… foi o meu estádio negro de leitora, afinal quem não passa por ele?

A vontade de o ler (nem digo reler porque da primeira vez não o fiz) surgiu na semana passada quando um amigo me chamou a atenção para um trecho sobre a Verdadeira Família:

“O elo
que une a tua verdadeira família
não é de sangue, mas
de respeito e alegria pela
vida uns dos outros.

Raramente os membros
de uma família crescem
sob o mesmo tecto”


E assim comecei a ler Ilusões com “Ouvidos novos para uma música nova” e “Olhos novos para as coisas mais longínquas” (in “O Anticristo” de Nietzsche).

A base do livro é esta: R
ichard, um piloto de aviões, encontra Donald Shimoda, mestre espiritual e Messias aposentado :) E há medida que começam a construír uma amizade, Shimoda ensina a Richard as coisas que um Messias deve saber... Seguem-se longas conversas sobre A Liberdade, o Futuro, o Poder dos nossos Pensamentos, as Decisões, as Opções que escolhemos tomar…

Somos transportados ao longo do livro numa viagem espiritual até ao fundo de nós próprios.

Um cheirinho:

“ - Ele ia sugar o meu sangue!
- Que é o que fazemos a qualquer pessoa quando lhe dizemos que sofreremos se ela não viver à nossa maneira.
(…)
- O que te intriga - disse ele -, é verificar que um conceito geral se revela impossível. Esse conceito é prejudicar alguém. Nós próprios escolhemos sermos prejudicados ou não sermos prejudicados, independentemente de tudo o resto. Nós, é que decidimos. Mais ninguém. O meu vampiro disse-te que sofreria se tu não o deixasses sugar o teu sangue? Essa foi a sua decisão de sofrer, a sua opção. Aquilo que fazes perante isso é a tua decisão, a tua opção: dar-lhe sangue, ignorá-lo; amarrá-lo; trespassar-lhe o coração com um pão de azevinho. Se ele não quiser o pau de azevinho, é livre de resistir, da forma que quiser. E isto nunca mais acaba: opções, opções…
(…)
- Ouve - disse ele -, é importante. Somos livres. Livres. De fazer. O que quer. Que queiramos. Fazer.

Sem dúvida mais um livro que me há-de acompanhar eternamente…


ps - de Richard Bach já li as seguintes obras:

“Fernão Capelo Gaivota” (leitura obrigatória!);

“Ponte para a eternidade” (sobre a esperança de encontrar a tua alma gémea);

“Uma aventura do Espírito” (um excerto: “Será que Algo Notável significa que adoptas todas as crenças idiotas de todos os zés-ninguéns populares e insensíveis para fingires que tens amigos?”).

Friday, September 02, 2005

Desafio Temático: Dor, Tristeza e Solidão (Palavras Soltas, por Redbackspider)

Ora bem, isto nem sequer é, propriamente uma verdadeira resposta ao Desafio Temático...são umas Palavras Soltas, uma breve e descuidada reflexão que eu arrisco partilhar com todos vós, viajantes da alma...aí vai

A Dor é um espaço onde não nos sentimos sós. Paradoxalmente, a Dor é uma experiência intersubjectiva. A Dor é sempre dor com alguém, alguém a quem a Dor também toca.

A Tristeza é o oposto. Não há nada de mais pessoal e impossível de partilhar do que a Tristeza. Podemos levar os outros connosco, podemos até falar-lhes dela, mas a Tristeza é só nossa e, muitas vezes, completamente vazia, vazia de objecto, vazia de conteúdo. Todavia, é na Tristeza profunda que agarramos a alma e exorcisamos os demónios que nos consomem.

A Solidão é o ponto onde começamos a SER...

No Parapeito – Desafio Crimes Imperfeitos

Aqui vai. Longo, mais uma vez. Eu sei...
Mais vale tarde que nunca!


No parapeito

Escusa de pôr água na fervura, doutor advogado. Percebi muito bem o que quis dizer. Nunca fui mesmo muito esperto, nunca dei para a escola. Mas se fizer o favor de me explicar o que é isso do “ónus da prova”, eu até lhe ficava agradecido. Se me está a perguntar se fui eu que matei o Dr. Contreiras, só tenho a dizer que sim. Lidei sempre com cabrõezinhos pedantes como ele, mas desta foi de vez. “A lâmpada do gabinete do Sr. Vasconcelos precisa de ser mudada, Alves. Se isso amanhã não está pronto, escusas de cá passar. Vais directo para a fila da Segurança Social!”. “Alves, o esgoto da casa de banho rebentou. A merda chega à porta de entrada! Quando voltar do almoço quero esta espelunca a cheirar a rosas!” De certo modo, ainda bem que aqui estou, doutor, porque me fartei de apanhar trampa para os lordes; cansei-me dos risos de escárnio daquelas putas cromadas a ouro das mulheres deles, afogadas em estolas de raposas empalhadas e chinchilas de capoeira. “Ó Senhor Alves, que linda camisa! Havia para homem na loja onde a comprou?”.
Havia um gato amarelo, nas traseiras da empresa, que vinha ter comigo ao fim da tarde e de manhãzinha, quando ninguém tinha ainda chegado. Era cego de um olho e tinha uma pata partida e pendurada. Chamei-lhe Capitão Gancho. Acho que o bicho se afeiçoou logo a mim porque percebeu que éramos iguais. Vinha pôr-me os pardais de pescoço partido e as ratazanas esgoeladas que caçava, no parapeito da janela onde eu fumava um cigarro. Deixava-as ali, como presentes, acho eu. Comprava-lhe comida, dava-lhe uma malga de leite de vez em quando e o bicho procurava-me as festas, dava-me marradinhas no braço, como quem diz “Vá lá! Preciso de mimos...”. Achava-lhe piada.
Sabe, eu não falo muito com aquela gente. Quer dizer... não falava. Não me parece que estivessem interessados em serem vistos a trocar prosas com um empregado de manutenção aleijado. O Capitão Gancho era o meu único parceiro. Cheguei a pensar levar o bicho para casa, para me fazer companhia naquelas noites em que a voz da apresentadora dos concursos da televisão se transforma em ruído branco e que a humidade se esgueira pelas frinchas das janelas para me gelar os ossos.
Um dia, o Contreiras (pronto... o Doutor Contreiras, se isso o satisfaz, doutor) chegou de manhã e tinha um rato morto pousado no cadeirão de chefe onde ele se sentava. Não sei como é que aquilo lá foi parar, doutor, palavra! Chamou-me ao gabinete e começou a gritar comigo. “Alves, que merda é esta? Não estou farto de te dizer para fechares as janelas antes de saires? És um sacana incompente!” Depois, foi um chorrilho de humilhação que me agoniou: que me estava a fazer um favor e daquilo ser a paga da caridade dele, de estar pelos cabelos comigo.
O sacana do gato devia ser a minha alma gémea porque lhe tinha um pó ainda maior que o meu e, a partir daí, dia sim, dia não, o Contreiras tinha um presentinho no gabinete: urinava-lhe no teclado, deixa-lhe mais bichos mortos na secretária. Chegou a apanhá-lo em flagrante, a cagar-lhe no cadeirão de chefe, doutor, veja-me lá a esperteza do bicho! Mas se eu lhe disser que não sei por onde o sacana entrava, o senhor acredita?! Trancava tudo antes de sair e cabrãozinho parecia continuar a vir de noite, como uma assombração, para lhe deixar surpresas. Isto passou-se durante umas três semanas, até que uma manhã, o gato não apareceu. E na manhã seguinte a mesma coisa, tal como em todos os dias da semana que se seguiu, e a malga de leite a azedar no parapeito e eu cada vez mais sozinho.
Numa segunda feira, depois do expediente, saltei pelas traseiras para procurar o gato. Pensei que pudesse estar ferido das lutas e se estivesse a esconder a um canto, como os gatos e os homens acossados fazem. Fui dar com ele morto, de patas esticadas, o bucho inchado, sobrevoado por varejeiras, um cheiro de morte, de podre, de negro. Envenenado, doutor.
O cabrão do Contreiras veio à janela, rir-se, o traidor. “Então, Alves? Morreu-te o Tareco? É pena... Sempre tinhas um aleijado como tu para te fazer companhia.” Eu voltei para dentro, cego. Só me lembrava do bucho inchado do bicho, de não lhe conseguir olhar para a cara; de me passar a mesma imagem, vezes sem conta, pela retina – como quando se é pequeno e se vê um morto, como quando se é pequeno e se está sozinho e se tem medo e o que a gente mais teme aparece na primeira curva da estrada. Só me lembro da raiva a crescer e da espuma a inchar-me como o veneno no bucho do animal.
Entrei no gabinete, peguei no canivete trabalhado de marfim que o doutorzeco usava para abrir cartas e abri-lhe a goela como um sorriso de palhaço rico.
Agora me lembro, doutor advogado, que ainda lá está a malga, a azedar no parapeito.
....................................................................................................................................................................

Sim, o meu nome é Isaura Gonçalves, senhor doutor. Fui eu que encontrei o corpo do Dr. Sérgio Contreiras. Tinha acabado de lhe tirar um café quando ouvi o grito. O senhor desculpe, que isto custa recordar... Sempre tão simpático, o Dr. Sérgio. Tão boa pessoa, tão bom patrão! Perguntava-me sempre pelas melhoras da minha mãezinha! Acabar daquela maneira, tão novo, com um filhinho pequeno e uma mulher tão linda, tão requintada! Mas como lhe ía a dizer, doutor, cheguei lá dentro para encontrar aquele monstro, o coxo, parado e de olhar vazio como uma assombração. O Dr. Sérgio ainda se debatia, agarrado ao pescoço. Perdi os sentidos e a minha colega chamou o 115. A partir daí ficou tudo negro.
Quanto ao coxo, era um tipo triste. Nunca lhe conheci companhia, tirando um gato amarelo e zarolho, imundo, que trazia ratos para dentro do escritório e que sujava tudo de fezes. Era uma praga tão grande, aquele animal! Uma vez, tentei apanhá-lo e ele arranhou-me toda. Vê como eu ainda tenho o braço? Não me orgulho de o dizer, mas tive que tomar medidas. Um perigo daqueles, que até tive de apanhar a vacina do tétano e da raiva e mais uma data de outras coisas que não me lembro!... Com o filhinho do Dr. Sérgio a brincar por ali tanta vez, sabe-se lá o que podia acontecer à criança! Comprei uma caixa de raticída e despejei tudo para dentro de uma lata de comida.
Nunca gostei de gatos, sabe? Há lá raça de animal mais traiçoeiro e ingrato?! Como o coxo, doutor. Almas gémeas.

Thursday, September 01, 2005

Desafio Temático: tristeza, solidão, dor (por Silent Child)

(Este é) Um Fim

Há tanto que eu guardo para mim
há tanto que me consome em mim
não sei até onde posso ir
não sei onde penso chegar
nem sei até onde posso aguentar
nesta angústia de existir
quando já nem me lembro de sorrir
quando já me custa suportar-me
quando já nem sei como aturar-me.
Entretanto continuo a falar comigo mesmo
enquanto as dúvidas se avomulam
e as respostas escasseiam.
Até onde posso alcançar?
Até onde poderei arrastar-me?
Estou tão cansado...
e mais que isso, desolado!
Talvez, do meu modo de ser
ou da minha maneira de estar.
Nada me satisfaz completamente.
Nada me entusiasma realmente.
Não posso culpar ninguém
(excepto a mim mesmo)
nem quero culpar ninguém.
Mas não posso deixar de ver
o que não gosto ou o que desaprovo,
o que não entendo ou nem consigo aceitar.
Mergulho mais fundo em mim
e já nem vejo como sair
de um turbilhão ensurdecedor
de um labirinto intrincado
de um lamento infindável
que queima esta dor além do insuportável.
No ruir do que eu julgava ser
observo atónito os destroços baralhados
na imagem crua que o espelho me devolve
na solidão que me envolve e engole
e eu... incapaz de (re)unir os destroços
do ser que me iludira ser.
Se eu pudesse adormecer e acordar
renovado, completo.
Se eu pudesse descansar e reerguer-me
satisfeito, esperançado.
Pesa-me este corpo
como se fosse um túmulo oco, selado,
donde a vida se esquivou, assustada.
Observo o mundo
e continua tanto por ver e entender
a cabeça vai andando à roda
enquanto eu olho o mundo a girar
ou serei eu que me volto a estatelar
e, claro... ninguém me ouve cair.
Mas eu não quero mesmo que me escutem
assim evito que disfarcem que se importam
que querem ajudar ou ser simpáticos...Patética representação
sem qualquer laivo de emoção.
Desprezo a mesquinhez!
Vomito a hipocrisia!
Estilhaço a indiferença!
Solta as lágrimas, meu amigo
sabes bem não estares sozinho
mesmo no abismo em que te refugias.
Liberta o coração, meu amigo,
vem acariciar o momento e partilhar
esta dor íntima, comigo.
Este é um fim.
Repara na beleza desta tristeza.
Solta as lágrimas, meu amigo.
Este é um fim.
Mergulha na imensidão desta solidão.
Abre o coração, meu amigo
e vem comigo agora
ao lado velado da dor
e à face ignorada do sorriso que vem de dentro,
do sentimento que irrompe
e dilacera o momento.
É a hora, meu amigo.
Não temo o tormento, não fujo da mudança.
Não há separação se há comunicação.
Este é um fim
e um princípio em mim.
Que em mim eu não sou capaz
de distinguir o que É.
Mas por ti e em mim Eu Sou
e através da dor eu vou ao encontro de mim.
Contigo eu cedo e (me) dou.Este é um fim.
E por fim... desperto em mim!

3-7-2002 (rev. 25-8-2005)
Silent Child

Aqui vai meus amigos, para marcar a reentré e dar ínicio ao novo ciclo de desafios temáticos. A seu tempo irá aparecer na coluna direita, logo abaixo dos mails um aviso permanete dos temas do mês assim como de outros desafios que estejam a decorrer no blog. Abraço da boss aqui do blog: booklover!


 

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