Luz e Sombra

Friday, December 23, 2005

Luz e Sombra sobre 2006

Para além da óbvia mentira e do engano
da vil crueldade que nos faz sorrir
da malícia de cada carícia (in)desejada
para além do vicioso ritmo dos nossos corpos
da demência dormente da mente inconstante
de tudo aquilo que desejamos ter
dar, comer, partir, rasgar
de tudo o que temos para pedir
de tudo o que há para desejar
de toda a delícia da carne com que nos consigamos lambuzar
de todo o sexo, sem nexo, mais ou menos complexo
de tudo aquilo com que possamos sonhar
para além de tudo o que algum dia iremos, ou não, alcançar
temos tudo
crédito, débito, televisão, prato cheio
temos um mundo de ilusões partido ao meio
e de tudo aquilo que construímos
de toda a nossa vida, da nascente a jusante
só não temos amor suficiente
para que tudo isto se torne irrelevante


...e qual é o vosso desejo?

Der Überlende

Tuesday, December 20, 2005

«Daqui ninguém sai vivo»


Cheguei à música dos “The Doors” através da biografia de Jim Morrison: ”Daqui ninguém sai vivo” (Jerry Hopkins, Daniel Sugerman). Foram longas as noites em que me deixei adormecer ao som de Rider on The storm, The End, When the music’s over, Light my fire, Break on Through… Foi a primeira vez que não me preocupei com a letra das músicas, abandonei-me apenas a uma voz grossa, sensual e visceral.

“Daqui ninguém sai vivo” apresenta-nos Jim Morrison como Deus! O livro está carregado de diálogos pormenorizados e por mais entrevistas que os autores tenham feito não acredito que conseguissem chegar a tais detalhes. É uma biografia exageradamente divinizada o que não nos impede de ficar imediatamente presos ao livro, maravilhados com Jim, sempre pronto a quebrar as normas e regras vigentes… Morrison era um bibliófilo compulsivo!

Alguns dos seus autores preferidos:

- Nietzche (o supra-sumo, influenciou-o bastante)
- Plutarco
- Rimbaud
- Jack Kerouac; o mítico pelo “Pela estrada fora”
- Allen Ginsberg
- Ferlinghetti
- Kenneth Patchen
- Michael Mclure
- Gregory Corso
- Norman O. Brien; cita várias vezes “Life against death”
- Jones T. Farrel
- Colin Wilson; “The outsider”
- Lovecraft
- (…)

O livro peca, para além da desproporcionada efabulação, por uma péssima tradução.

Mas serviu para me aproximar definitivamente dos The Doors.

Curiosidade: o nome “The Doors” foi escolhido por Jim por causa do livro “As portas da percepção” de Aldous Huxley

Monday, December 19, 2005

DT Dezembro: mentira, hipocrisia, cumplicidade

"As notícias da minha morte foram amplamente exageradas" (Mark Twain, 1897)

Bela Lugosi's dead... not me!

Der Uberrrrrrrrrrr

Dead Can Dance
How Fortunate the Man With None
From album "Into The Labyrinth", Track 11. 1993

You saw sagacious Solomon
You know what came of him,
To him complexities seemed plain.
He cursed the hour that gave birth to him
And saw that everything was vain.
How great and wise was Solomon.
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's wisdom that had brought him to this state.
How fortunate the man with none.
You saw courageous Caesar next
You know what he became.
They deified him in his life
Then had him murdered just the same.
And as they raised the fatal knife
How loud he cried: you too my son!
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's courage that had brought him to that state.
How fortunate the man with none.

You heard of honest Socrates
The man who never lied:
They weren't so grateful as you'd think
Instead the rulers fixed to have him tried
And handed him the poisoned drink.
How honest was the people's noble son.
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's honesty that brought him to that state.
How fortunate the man with none.

Here you can see respectable folk
Keeping to God's own laws.
So far he hasn't taken heed.
You who sit safe and warm indoors
Help to relieve out bitter need.
How virtuously we had begun.
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's fear of god that brought us to that state.
How fortunate the man with none.

Wednesday, December 14, 2005

(des)controlo; Por Vera Fonseca

(Des)controlo

Corro, fujo,
Noite e dia,
Mergulho fundo,
E em demasia,
Nesse algo mais,
Que eu tanto queria,
Sem me importar
Se me perdia,
Ou não.

Já nada importa,
Tudo é fútil,
Porquê seguir,
Um rumo inútil,
Dar importância
A opinantes,
Bem mais errantes
E sem relevância.

Para quê lutar,
Para quê lamentar,
Se tudo anda para trás
Ao querer tentar.

Porque tento
Acreditar no mal,
Porque teimo
Em duvidar do bem,
Porque quero
Controlar o sal,
Tão natural,
Que toda a vida tem.

Quero então,
Deixar tudo fluir,
Por pouco tempo,
Quase desistir,
Para retomar
Depois a busca,
Com um novo olhar.

Vera Fonseca

A Ordem do Povo; Por Vera Fonseca

A Ordem do Povo

Somos frutos
De uma mentira conturbada,
Ao longo dos tempos cultivada,
Para nos multiplicar.

Uma eterna
Cumplicidade secreta,
Entre o natural e o recriado,
Constituem o corolário
Para a génese da nossa vida.

Rodeados de idióticas
Mensagens,
Que sublimares ou explícitas,
Nos distorcem a razão;
Crescemos como fantasmas
Que seguem a aparição,
Que se regem por dogmas
Impostos pela sociedade,
Que crêem ver
O que é de facto a realidade,
Mas que na verdade,
Apenas vêem,
O que tão cautelosamente
Lhes é mostrado.

São séculos de mitos,
Contos e ditados,
São milhas de História,
De heróis e dos seus fados.

Milhões de convertidos
À cultura das massas,
Inoculados à nascença
Contra a descrença
No infalível sistema.

Formam a Ordem,
Julgam-se o Povo,
E submissos e vigilantes,
Transmitem o velho ao novo,
Julgando que o estavam a combater.

Lê-se revolta em cada olhar,
Conformismo em cada acto,
Mas porém, a velha Ordem,
Cumprirá mais um “mandato”.

Vera Fonseca

Friday, December 09, 2005

DT Dezembro - Um Conto de Natal


- Mãe, conta-me outra vez do Pai Natal. É verdade que ele vem do Pólo Norte?
- Sim, querida, vem do Pólo Norte num trenó puxado por renas. É ele que traz todos os presentes para os meninos e meninas, mas só para aqueles que se portarem bem!!
- Não sei se acredito, mãe.
Carolina calou-se, pensativa. Luísa levantou os olhos do livro que estava a ler, temendo que a sua filha tivesse perdido a fé no Pai Natal, como acontece a todas as crianças um dia. A sua filha era uma privilegiada, considerava ela, porque já tinha oito anos e ainda acreditava no Pai Natal. Metade dos seus amiguinhos já sabia que o Pai Natal não existia, mas Luísa tinha conseguido convencer a sua filha de que eles estavam enganados, com a ajuda do marido João. Todos os anos se disfarçava de Pai Natal, e fingia entrar sorrateiramente na casa, deixando os presentes na sala, ao pé da árvore. Luísa fazia com que Carolina tivesse apenas um vislumbre do homem de barbas brancas vestido de veludo vermelho, deixando-a completamente convencida de que o Pai Natal existia mesmo, apesar de tudo o que os colegas lhe diziam na escola.
- Porquê, filha? Não o viste no ano passado? Olha, tiveste muita sorte, os teus amigos não o vêem porque não são rápidos o suficiente para o apanhar…
- Não, mãe, não é isso… O Pai Natal não sabe se os meninos são bons ou não… Essa é que é essa…
- Porque é que dizes isso?
- Mãe… o João Paulo recebe todos os anos presentes lindos, mas ele é mau! Está sempre a bater noutros meninos, e pensas que o Pai Natal se importa?! Não. Eu não sei se quero receber mais presentes do Pai Natal… Parece-me que ele não é justo. Porque a Matilde, por exemplo, é uma menina sempre bem-comportada, mas nunca recebe prendas tão bonitas como o João Paulo. Como é que isto pode ser?...
Luísa ouvia a sua filha discursar sobre a injusta distribuição de presentes levada a cabo pelo Pai Natal e sentiu um misto de orgulho e de piedade da sua filha. Se calhar, a bem da sua saúde mental, devia deixar Carolina descobrir a dura realidade, de que os meninos recebem os presentes que os pais lhes podem ou querem dar.
- A não ser… que não seja o Pai Natal quem dá os presentes ao João Paulo… - uma luz acendeu-se nos olhos de Carolina.
- Filha… - começou Luísa.
- Já entendi tudo!! Ele é tão mau que o Pai Natal não lhe traz presentes, por isso têm de ser os pais dele a comprar aquelas coisas todas! Por isso é que a bicicleta que a Matilde recebeu tinha um aspecto tão enferrujado… Como não, se veio do Pólo Norte até aqui??? Não é, mãe? – rejubilava Carolina, contente com a sua teoria.
- Sim, Carolina, deve ser isso… Não consigo ver outra explicação.
Só mais um ano, pensou Luísa… Qual é o mal de querer fazer magia para uma criança?

Saturday, December 03, 2005

Um texto saído do "baú"...

Este texto nada tem a ver com o actual desafio. É só um texto que encontrei por aqui, portanto, saído do "baú"...decidi partilhar convosco...


Algo de meu

Não sinto que tenha algo de meu, algo que valha a pena,
Algo que realmente fique depois de eu ser EU.
Há um divórcio entre mim e a vida, entre mim e o mundo,
Entre o que quero e o que posso ter,
Entre o que tenho e o que queria ter,
Uma angústia permanente, um loucura lúcida,
Uma estranha forma de ser.
E as paredes recontam as vezes
Em que a fúria arremessou sonhos adiados
E as manhãs se erguem para SER outra vez,
mas nada acalma, nada sossega, nada adormece.
E cada vez que toco os sonhos perdidos,
Sinto que algo se esvai e sufoca
E volto a fazer de contas que a vida
É construir tudo sobre momentos idos.
Não tenho nada de meu, apenas silêncios roucos.
Não me tenho sequer, não sou nem mesmo o que julgo ser…
Eu sou uma vontade imensa de gritar mais alto,
De gritar tão alto, mas tão alto…
De atirar para longe os silêncios roucos
Para ser apenas eu, apenas eu…no meio dos outros…


 

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