Luz e Sombra

Monday, May 30, 2005

Interludium, enquanto decorre a votação....

Ora viva,

Enquanto continua a avaliação e votação das respostas ao DP2, não resisto a publicar mais um D500 à laia de intervalo comercial.
Aproveitem para ir buscar mais pipocas e refrescar a garganta :)
Quem foi que pediu uma coca cola?.....

cumprimentos entusiastas,

D.U.

Silabas

Que mundo mesquinho. Estou farta de os aturar...
Sirvo-os à mesa, todos os dias, neste café de beira de estrada, farto de brutos e ‘meninas da vida’, de penduras, pelintras e pedintes, de cretinos, descrentes e credores em viagem. E cabe-me a mim, no meio deste inferno, aturar toda esta canalha. Dar-lhes de beber, de comer, e se eu os deixa-se, de f.....
Ninguém diz nada que valha a escuta, que preencha o vazio, que alegre o dia, que me eleve a alma, que me conforte a dor, que me faça sentir humana, pessoa, útil, amada! Nada, apenas a rudeza dos gestos e o lixo da palavra de rua, suja e bruta com todos são, do patrão à colega mais nova, da velha da caixa ao puto do posto de serviço, do miúdo que me olha para o decote com vergonha ao porco do mercedes que devora o rabo com os olhos e escorre baba dos cantos da boca.
Não consigo ser mãe, mulher, esposa, prazer, nem delito nem deleite, sou apenas a ‘tipa’ do café da beira da estrada, aqui para vos servir, aqui ontem, aqui hoje, ... e amanhã?....
Não oiço uma única expressão que mereça ser ouvida, vivo dentro de um mundo onde não se usam palavras com mais de três sílabas. Ninguém as usa, ninguém as diz. Três sílabas, é o limite do meu espaço, do meu ser, da gentalha que se move entre as mesas já gastas pelos anos, gastas pelo meu esfregar constante do pano húmido e fedendo a pop limão. Não usam mais de três sílabas para escrever nas portas da retrete: “faço bicos”, “vivó benfica”, “jovem solteiro”, “no cagar é que está o ganho”, e são essas merdas que eu tenho que aturar quando me calha a vez de limpar...
Uma. Duas. Três. É o máximo. Não existem palavras com mais de três silabas no meu mundo. Não tenho mais letras para o horror e depressão em que vivo. Não conheço fim deste limite para descrever os dias que passo entre os pedidos de hamburgers, de coca colas, de batatas fritas, de massa com molho de tomate, de carne de porco frita, de rissóis, empadas, sopas, cafés, bagaços, tabaco, trocos para a máquina de jogos, mais água por favor, traga o ketchup, a pimenta, azeite, vinagre, sal. Todo o sal que me resta está nestas lágrimas que me escorrem da face, que deslizam para a minha boca, que sorvo com tremuras, que uso como tempero de mim própria, como final amargor da minha vida vazia por entre as mesas e o balcão, por entre as mãos sujas que me deixam meia dúzia de trocos e os olhos vazios de que não me vê nem nunca verão...
Hoje mudo tudo.
Ergo-me ainda mais cedo e vou até à cozinha. Hoje aumento os limites do meu mundo, uma nova dimensão, a quatro sílabas. No vinho a granel, no azeite de prato e no café moído está o meu tributo para todos vós.
Cianeto.

30 de Maio de 2005,

Der Uberlende

Sunday, May 29, 2005

... fora de tempo... e então?!?! :) DP2: Pressão... (Parte II) por Secret

Olá a todos!

'Poizé', se pensavam que já tinhamos fechado a loja desenganem-se!

E eis que ainda surge mais uma participante com um texto de tirar a respiração!
Apresento-vos uma cara amiga, a Secret

sem mais tecladas desnecessárias

cumprimentos entusiastas

Der Uberlende


Pressão... (Parte II)

Irra! Porque é que na porcaria dos meus 51 anos nunca fui capaz de terminar nada?
E agora tropeço nisto que cai e rola. As mãos também já não têm a mesma firmeza… e não me deveria ter levantado tão rápido… mas um gajo ainda se assusta, caramba!
O que terá sido agora? Ultimamente este prédio, onde nunca se passa nada, está mais agitado do que nunca no não se passa nada para além da feira do costume.
Nestas horas é que eu desejava que a garrafa não tivesse fim. Ou que tivesse tido o bom senso de comprar outra… Sim, beber por beber que fosse o bastante para nada ouvir, para passar àquela fase de inconsciência que faz desta feira uma memória sonora longínqua. O som que embala o meu semi-sono.
Ou então, desejava não ter bebido, de todo; não ter este gosto de cortiça na boca, que antes só aparecia no dia seguinte «cabrões de adulteradores de álcool, já nem se pode confiar no veneno!» Ou talvez este seja o dia seguinte do dia de ontem; não ter esta puta dor de cabeça que faz com que as escadas imundas do prédio ondulem como dejectos inquietos à beira-mar.
E pensar que escolhi o último andar porque havia elevador… e paguei mais até! A caixa estava lá, está lá o corpo e a porta, só lhe falta espírito que o mova. Se calhar também lhe fazia bem um trago de álcool.
Continuo escada abaixo e a bebé persegue-me aos berros, ao colo generoso da mãe. Reparo pela primeira vez que a miúda pode não beber whisky mas tem bom gosto na garrafa.
A velhota que chamou a polícia lá contínua a ladainha «Ai meu Deus, oh meu Deus!…» Enganou-se. Geralmente o segundo grito é «Deus me valha» e esqueceu-se de concluir que «é o fim do mundo!» Se calhar porque é só o meu fim.

Chego por fim à porta do prédio, ou ao palco do primeiro acto, sei lá! A arena está montada. Posso ver o círculo de pessoas que se acotovelam inquietas, satisfeitas por algo acontecer.
Olho para o puto do estacionamento. Deve estar desolado por não ter descoberto forma de cobrar dinheiro aos curiosos que vieram em busca do espectáculo. O puto que todos os dias me leva as moedas por um estacionamento que não falta. Mesmo quando arrumo o carro na minha garagem. «Tem direito!», explica-me, enquanto me estende a palma da mão, de linhas negras do sujo que já não cabe nas unhas. E se aquela rua é a rua do seu direito seria de toda a justiça que os curiosos estivessem a pagar.
A multidão abre-se à minha passagem. Estranho a minha importância súbita, logo eu que nunca fui nada naquela rua, naquela praça, naquele prédio. Até a Elisa era a Gata do último andar e eu «o tipo que vive com a gata».
Se calhar afastam-se porque se apercebem da minha irritação. Não, descubro que não!
Esqueci-me da merda da caçadeira e aqui estou eu, no meio da confusão, que não percebo, armado! Sempre é melhor do que o «armado em estúpido», do costume.

De qualquer modo descobri a origem da confusão entre gritos estridentes que me apertam ainda mais o crânio, nesta dor travo de álcool rasco, meia ressaca, meia bebedeira inútil, e entre as personagens da rua que acho que estão sempre lá. Estão quando passo à noite, de dia, de manhã… se calhar os cromos são todos iguais e fazem turnos à minha espera… e eu pensava que eram os mesmos.
No meio da arena não há touro, embora haja argolas. Diante de mim está o pirata que matou Elisa. O estrondo que se ouviu foi o do carro que se acabou no muro do prédio, não sem antes mastigar duas motos velhas, como tudo ali. Se é que é um carro aquela coisa arrastada até ao chão, cheia de paneleirices e a emitir um barulho de motor de rega da quinta da avó Ana nos Agostos da minha infância. As cenas de que um tipo se lembra nestas horas. Aquele motor/despertador que me custou uns tabefes no dia em que por meu esforçado engenho não mais despertou.
O pirata já perdeu o boné ridículo, Elisa. Hoje há feira por aqui. É a feira do acerta no pirata. Sim, porque mesmo o sangue que o lava e a posição prostrada do seu braço partido não evitam os golpes de sorte de quem o apanha. Não evitam o lavar da raiva e a ira das noites de corridas sob a janela de um quarto de dormir, não evitam o vingar dos sustos das crianças e das carcaças das motas que nada valem do pouco que valiam.
O pirata tem uma figura patética fora da sua arma potente que se esvaiu contra o muro.

Não Elisa! Não me fales agora. Que mania a tua! Nunca me respondeste às perguntas, mas falas sempre quando não te quero ouvir. Até depois de morta! Não te ouço Elisa, não faço o que queres. Não Elisa, ele está aqui! Este é o meu momento.
Levanto a arma.
Não Elisa, sou eu quem domina agora. Que diferença faz trocar o nosso andar por uma cela? Que diferença faz se já não estás aqui, se já não é o nosso andar?

… … …
… … …
Depois de tudo ainda tropeço no teu prato aqui no chão. Se estivesses aqui passarias agora junto às minhas pernas para que eu te fizesse uma festa, como o meu prémio por ter feito o que querias. Sim, aí entre as orelhas… onde mais?
Fiz o que querias, é sempre assim não é? Agora queria ouvir-te, mas não me falas… já sei! Se calhar nem me voltas a falar, partiste.
Estou de volta ao sofá mas não ligo o automático. Hoje passou-se algo, sim. Ouviram-me. Ouviram-me quando de caçadeira em punho gritei que parassem! Só por ti, Elisa, eu protegeria aquele carrasco de braço partido. Ainda bem que a polícia chegou. Já me tremiam as pernas e os dedos na arma. Tremiam do álcool, ou da minha coragem súbita, ou somente da vontade abafada de meter um chumbo no corpo que protegia.

Mas hoje terminei algo. Fui inepto, eu sei. Mas o miúdo das linhas negras da palma da mão serviu para algo.
Não dei os tiros à televisão, como me preparava para fazer, antes de começar a confusão. Também não dei os tiros ao puto do tunning do braço partido. Mas livrei-me da televisão de qualquer modo! E esse era o meu primeiro objectivo. Acabaram-se as cabras que parecem pessoas e as pessoas que parecem… acabaram-se!
A televisão já não ocupa espaço aqui. Dei umas moedas ao miúdo para que aceitasse a televisão. Aceitou as moedas e a televisão, sem discutir! Sem dizer que tinha direito a mais. Talvez porque eu ainda tivesse a caçadeira…

Ai Elisa, ainda bem que a confusão aconteceu!
Queres saber um segredo? Desta vez não venceste tu e a tua vontade. Não fiz o que querias… O resultado foi o mesmo, eu sei. Mas não foi a tua vontade.
Sabes? É que à última da hora quando ía levantar a arma para o pirata lembrei-me de que os cartuchos caíram dos canos quando a confusão estalou e a caçadeira ainda estava aberta… rolaram para ali para baixo do armário onde já não reina a televisão.
Hoje enganei-te Elisa! Hoje estive à altura da gata astuta que sempre foste…

29 de Maio de 2005,

secret

Saturday, May 28, 2005

DP2: Pressão... (Parte II), por Fryator

Ora bem,

Eu disse que já tinha terminado o DP2?...
Pois, julgava eu que sim, mas hoje recebi mais uma resposta absolutamente fantástica do Fryator.
E terão que concordar comigo... uma resposta destas merece uma "abébia"! :)

Obrigado pelo teu empenho,

Der Uberlende


Pressão... (Parte II)


A vontade que tenho, é a de me levantar e ver o que se passa, não que o objectivo seja o de ajudar, nem sei se alguém precisa de ajuda, nem sei se é arrogância minha pensar que a minha ajuda podia fazer alguma diferença, se nunca fez antes, porque é que mudaria agora, no fim de tudo?
Ainda de caçadeira apontada para o meu já muito debilitado corpo, sim porque ao fim de 35 anos a fumar, os efeitos do tabaco são mais que notórios, levanto-me e dirijo-me para a porta.
Ouço outro estrondo, menos forte é certo, mas nem por isso menos suspeito, e ouço passos a passarem pela minha porta, tão depressa que até tirei o ouvido da porta, pois o barulho dos passos ecoam com tanta força no chão de madeira, já semi-podre, que qualquer passo se ouve, quanto mais alguém a correr pelas escadas acima.
Quando ia a pegar na maçaneta da porta para ver quem subia com tanta pressa em direcção a não sei bem o quê, visto que o meu prédio só têm 3 andares, e dos inquilinos que ainda estavam no andar de cima, um casal relativamente novo, tinha saído no fim de semana passado em lua de mel, tinha reparado pois vi o carro deles normalmente decorado com as normais partidas de casamento, mas assim que fiz força, ouvi outros passos e afastei-me novamente, e desta vez eram acompanhados por gritos de mulher.
- Não, onde vais, não.
Eram gritos de pãnico, gritos horriveis de desepero. Pousei a caçadeira no chão e comecei a imaginar o que poderia ter-se passado.
Comecei a ouvir gritos outra vez, mas desta vez na rua, tinha a janela aberta, era a janela por onde saia a Elisa.
Corri para a janela para perceber o que se passa, e através das traseiras do prédio vi umas raparigas aos gritos a olhar para cima, onde após uma pequena sessão de contorcionismo percebi que o homem que vivia por baixo de mim, estava no parapeito do prédio, ouvia também o seu choro, e o grito de uma mulher que deveria ser a sua. Quando puxei o meu corpo para dentro, o meu coração parou quando reparei que ele acabara de se atirar.
Branco era a cor da minha pele, mas a curiosidade ultrapassou o medo, e meti a cabeça de fora para ver aquilo que os gritos estridentes das raparigas deixavam adivinhar. O corpo do homem tinha caido em cima de umas bicicletas que os filhos da mulher do 2 esquerdo costumavam deixar, estava morto, sem dúvida, e os gritos das raparigas apenas eram ultrapassados pelos gritos da mulher no terraço.
Sentei-me no sofá, e olhei para a caçadeira que tinha colocado perto da porta, liguei a televisão, nem sei porquê, mas fiz-o talvez para perceber que não era um sonho, digo, pesadelo aquilo que acabei de presenciar.
Mas levantei-me, abri a porta, e a os filhos da vizinha espreitavam pela porta, mas de imediato e mãe puxou-os para dentro, aos berros.
Não sei o que me deu, mas corri em direcção ao primeiro andar, onde a porta do 1º direito estava aberta, e entrei, nem hesitei aliás, mas entrei.
Reparei que estava alguém deitado na sala ao fundo, e ao me aproximar reparei que era o filho deles, do homem que acabara de se atirar do cimo do prédio.
Sangue saia pela cabeça do miudo, e tudo indicava que estava morto, perecebi que tinha batido com a cabeça na mesa da sala, que era de vidro, daí o barulho.
Aproximei-me e ao colocar a mão no pescoço do rapaz, percebi que ainda tinha pulso, fraco, mas ainda batia.
Quando me levantei e sai pela porta, a policia tinha acabado de chegar, bem como os bombeiros que devem ter sido chamados por alguém que viu o homem no topo do prédio, pegaram no rapaz, e levaram-no para o hospital.

Soube mais tarde que o rapaz sobreviveu, por pouco, mas sobreviveu, visto que se não fosse assistido pelos bombeiros que tinham vindo salvar o pai, tinha morrido também.
O pai, esse atirara-se pois pensava que tinha morto o filho, e acabou por salvá-lo, sem sequer descobrir que o tinha feito.

Vendi a arma, pois apesar de ter licença nunca tinha ido à caça, e arranjei outra gata, chamei-lhe Matilde.

27 de Maio de 2005

Fryator

Friday, May 27, 2005

DP2 - a versão preferida

Poizé...

Agora a parte que ninguém gosta, a parte da decisão....
Conforme foi definido nas regras, após o período de submissão dos textos segue-se a mal-afamada escolha.
Verdade seja dita, depois de ver publicadas 14 (!!!) diferentes versões, o que mais me maravilhou foi mesmo a vossa enorme disponibilidade e vontade de escrever!

Agora, vamos a votos!

A urna é aqui aberta. Comentem e digam qual ou quais (sim, isto não tem nada a ver com a mofenta e ultrapassada democracia em que supostamente vivêmos! Se gostam de modo igual de 2 ou 3 textos DIGAM-NO! Haja VERDADE e LIBERDADE!!) os vossos favoritos

Para dar tempo para devidamente digerir o que aqui foi publicado, o final das votações será no dia 1 de Junho às 0:00

Então, irei publicar o texto "Pressão..." na sua (nova) versão integral


Agora peço a vossa participação!
É um momento histórico aqui p'ró nosso blog!


Digam de vossa Justiça,

um sentido agradecimento a todos (e não apenas aos que escreveram)

Der Uberlende

AUTORES - DP2

Booklover
Dasha
Der Uberlende
Earworm
Inês em NY
Lua_de_Inverno
Paulo
Perséphone
redbackspider
Shakti
Silent Child
Stela
SweetSerenity
Understandable

DP2: Pressão... (Parte II), por Der Uberlende

Pressão.... (Parte II)

Era Primavera. O Sol brilhava quente numa daquelas tardes divinais de Março. É assim que a velhota se lembra do dia em que aquele casal chegou ao prédio... Já passou tanto tempo...20 anos?!? Lembrava-se como se fosse ontem. “Chegou o casal de engenheiros”, dizia ela. Eram os meninos dos olhos dela, “gente bonita” num prédio enfadonho, fruto da explosão de ganância e mau gosto que espalhou betão pela cidade. A velhota que sempre morou ali (talvez desde o início dos tempos...), descrevia o casal com acuidade:
“Ela era muito vistosa, uma mulher mexida e desinibida. Por onde passava levantava poeira, parecia que tinha o Diabo no corpo, mas era muito boa rapariga, benza-a Deus... Já ele... parecia que nunca estava cá! Era ‘bom dia - boa noite’ e pouco mais, sempre carrancudo e sisudo, parecia que toda a gente lhe devia e ninguém lhe pagava. Aquilo foi uma questão de tempo, sabe... feitios muito diferentes. Ela, uma moça de genica, ele um homem demasiado recatado, e... aqui entre nós... não devia dar ‘conta do recado’. Não tardou 3 anos que ela o deixou, trocou-o por outro mais à laia dela. Olhe, fez bem a pobre rapariga, por muito que ele fosse bem parecido, não lhe dava a atenção que uma moça daquelas precisa...”

Elsa, é o nome da bebé da vizinha do lado. Uma menina linda, faz hoje 5 mesitos. A Elsa vive num mundo muito limitado, entre o berço, o parque e os braços da mãe. Tem problemas de saúde algo graves, parece que nasceu com uma deficiência cardíaca congénita, além de ser extremamente alérgica. Uma vez por outra, era ela um bebé de semanas, deparava-se com a Elisa sentada no parapeito da janela a olhar para ela. Era apenas uma questão de minutos ou segundos até a mãe vir a correr a gritar “raio da gata, a andar daqui p’ra fora, que ainda me faz mal à menina”. A mãe da Elsa detestava gatos, ainda mais os siameses. “Dizem que até se viram aos donos e lhes podem cegar d’uma vista”, dizia ela. Isso para uma siamesa de gema, caprichosa e elegante como a Elisa era apenas um desvario de gente pouco interessante.

Toda a gente assoma à janela assim que escuta o lamento das sirenes dos bombeiros e da polícia. Alguns esfregam as mãos de contentamento pelo espectáculo gratuito, outros elaboram fantásticas teorias sobre o acontecido mesmo antes de saber a quem aconteceu o quê. A velhota grita para que sejam mais lestos, pois “certamente foi uma desgraça, ai minha nossa senhora, ai que foi aqui uma grande desgraça...!”
Arrombam a porta. Espreitam para dentro da sala de onde ventilava fumo. Deparam-se com uma televisão espatifada, um post-it amarelo sobre a mesa e um trilho de roupas que segue até à janela. Da TV pouco resta. No post-it lê-se “A Fine Day To Exit”. Na janela vê-se um casal de gatos a roçarem-se um no outro, uma siamesa e um gato preto meio escanzelado que parece sorrir.

26 de Maio de 2005

Der Uberlende

Thursday, May 26, 2005

Just a reminder...

...faltam 3 horas e 30 minutos para dar por encerrada a 1ª edição do 'Desafio Parte II'...

escritores de ultima hora, apressai-vos!

Até logo,

Der Uberlende

DP2: Pressão... (Parte II), por Understandable

Ora bem,

Tempus Fugit (onde é que eu já ouvi isto :)... no entanto ainda temos respostas ao DP2!

Aqui fica a participação de uma nossa amiga recente, a Understandable

Até mais logo,


D.U.



Pressão... (Parte II)

E pronto! Um gajo não pode dar um 'tirozinho' que fico logo esta balbúrdia! Viver na cidade é o que dá.
Já ouço as sirenes lá em baixo, o melhor é levantar-me, dirigir-me à porta e dizer que não foi nada.
Que leve sensação tenho, bem upa, já estou de pé e…………………….. continuo deitado. NÃO ESPERA… EU ESTOU DE PÉ, como posso estar deitado? Como posso estar a ver-me?
Sangue, caçadeira, mesa derrubada, televisão no chão ainda a dar o estrume da quinta dos animais.
Cara está desfigurada, só vejo a testa porque tudo o resto foi-se…… Sim senhor vais com um óptimo aspecto para o caixão…
CAIXÃO? Que estou eu aqui a dizer… eu penso, eu falo.. Se morri onde está a Luz? O túnel? São Pedro para me vir buscar?
51 anos e ainda acreditas nas balelas dos contos do além e do catolicismo barato que te meteram pelos olhos, pois sei…. vou buscar uma amêndoa amarga para ver se penso... melhor
Grande problema, trespasso tudo
BUM BUM BUM CRAHS- porta arrombada, policia a entrar em correria. Quem disse que podiam entrar assim NA MINHA CASA? Quem deu permissão? Já não se bate à porta?
Ninguém me ouve, ninguém me vê, pelo menos a mim em pé, porque para mim deitado olham, ou tentam, EHEHEHEHEHEHEHEHEHEH, não dava nas vistas antes mas agora…
Acabei com tudo, ou melhor com a vida…..
Flash de máquina fotográfica, caçadeira dentro de saco com etiqueta, vizinha do lado a chorar desalmadamente. NOJO- nunca falei com ela, e chora por mim, só porque eu….. porque eu….. por ter…… suicidado!!!!
Nada há a fazer, vou tentar encontrar a Elisa, ela não deve ter ido para o outro lado, se é que existe outro lado, sem mim, não ela é uma fiel companheira, ficaria à minha espera.
Saiu do apartamento, desço as escadas, saiu do prédio cheio de reflexos azuis, volto à esquerda, entro na rua estreita e vou ter com o meu destino……..

26 de Maio de 2005,

Understandable

DP2: Pressão... (Parte II), por Dasha

É oficial!

Temos a nossa primeira participante (que eu saiba...) estrangeira! :) (ok, acho que já tivemos um amigo brasileiro, mas esses são 'portugueses do lado de lá do Atlântico' ;)

Apresento-vos a resposta da Dasha, uma estudante russa de Coimbra :)

Esta primeira fornada está quase quase no fim, mas creio que haverão mais oportunidades (já sei de quem esteja a preparar inclusivamente um novo desafio...hehe) para dar asas à criatividade, emoção e imaginação...

Poka!

Der Uberlende


Pressão ... (Parte II)

“O sonoro estrondo ecoou dentro da minha cabeça e senti o cheiro da pólvora invadir as narinas... Não sou capaz ou não quero? Larguei a caçadeira e olhei para o monte deformado que antes era a televisão... os últimos feixes de sol encheram a sala e senti que... de acordo com BI já não existo, deixei de existir há muito tempo... Sou parte destes feixes luminosos que enchem a minha casa no final da tarde, sou o som dos passos silenciosos da minha gata, sou aquilo que me tem inspirado e ajudado viver estes anos todos...

De repente apercebi-me de que estava um corpo estendido no chão da minha sala. Um homem que vagamente me lembrava alguém... Um reflexo... Tentei concentrar-me, recordar, mas os feixes da luz continuavam a encher a sala e a minha cabeça, cada vez mais e esta Luz já estava se tornar insuportável, tal como o som de passos da minha gata que ecoava estrondosamente preenchendo todo o meu ser.

Tenho que sair daqui, mas os vizinhos estão atrás da porta, curiosos e barulhentos, ansiando pela notícia que iriam saborear nos próximos dias, alimentando futilmente as mentes vazias. Tenho que sair... Só me resta um caminho. E deixando para trás o corpo que me recordava alguém, subi o parapeito da janela e vi... a Elisa??? Olhava para mim como se estivesse a sorrir e a dizer: ainda não percebeste? Vim te buscar, despacha-te!
Sorri-lhe e... acordei... um dos gatinhos da Elisa, já crescido, mas ainda sem juízo na cabeça, subiu-me a cama e estava tentar arrancar a minha orelha, pisando-me a cara com pequenas, mas afiadas, garras. O meu espirro fe-lo rebolar para o chão e miar furiosamente. Os seus irmãos ouviram-no e desataram a correr para o meu quarto. Sorri a vê-los juntar-se num monte com riscas e manchas, garras e dentes, brincando e empurrando-se uns contra os outros.

Graciosa e silenciosa entrou a Elisa Segunda e parou, observando o monte vivo de patas e caudas. Olhou para mim e senti que os pesadelos que me têm perseguido são apenas o eco do passado, os medos e memórias enterrados no meu cérebro. Senti que o fio da vida não acaba há milhares de anos e o nosso medo do fim não altera a eternidade dos momentos que vivemos. E parecia que a Elisa estava a sorrir para mim, embora sei que as gatas não sabem sorrir Ou nós não sabemos vê-lo ou não temos paciência para compreender o sorriso deles? A Elisa estava sorrir!”

24 de Maio de 2005,

Dasha

Wednesday, May 25, 2005

Desabafo

É isso mesmo. Peço desculpa, mas tenho de desabafar...estou pela segunda vez e há quase hora e meia a ler os textos do DP2, já fiz vários comentários, mas ainda não acabei. A pergunta que me ocorre, incessantemente neste momento (e desculpem-me a TOTAL franqueza!) é: o que é que andam as fazer "as Margaridas R.P" e os "Paulos C." nos escaparates das livrarias????? Como é que alguém pode sentir entusiasmo com tal literatura "light", "Kleenex", com tanta a gente a escrever tão bem e com tanta qualidade como tenho visto por aqui??? É tão simples quanto isto: os textos que aqui têm sido publicados ultrapassam de LONGE muitos textos ditos de "escritores conhecidos"...como é que num simples blog pode haver tanto talento desaproveitado? Apetece-me ir ali já à FNAC e atirar com uma série de livros pelo ar!!!!
Desculpem o desabafo...:-(

DP2: Pressão... (Parte II), por Paulo

Blah Blah Blah, mas o tipo não se cala?

É impossível ficar calado, estou mesmo 'todo satisfeito' com as vossas participações!! :D

Aqui vai mais uma, de um amigo d'outras guerras,
apresento-os a versão DP2 do Paulo


um adrenalítico e entusiasta cumprimento a todos,

Der Uberlende



Pressão... (Parte II)


O som do disparo ainda ecoa no meu cérebro, enquanto me prostro de joelhos em frente à televisão estilhaçada. As lágrimas escorrem pela minha face, levando no seu sal a pouca dignidade que me resta. Quantas vezes tentei eu acabar este tormento? Quantas vezes falhei no momento crucial de completar o hara-kiri desta minha alma perdida?

Amparado na caçadeira ainda fumegante, levanto-me, seco as lágrimas e despejo mais uma dose de whisky. De volta ao modo “senta-bebe-esquece”, ao esforço patético de continuar vivo, mesmo sem qualquer razão para isso. Depois da Elisa ter saído deste mundo debaixo dum pneumático careca de tantos quilómetros, nada mais faz sentido. As cores parecem esbater-se em tudo o que me rodeia. O tempo corre mais devagar. Devagar demais…

A morte da Elisa não deveria ter sido uma surpresa para mim. Afinal de contas, ela escolheu-me. Posso pensar que foi um acaso do destino tê-la encontrado, uma coincidência. Mas não, ela assim o quis. Ela escolheu mostrar-se apenas a mim e não a qualquer outro. Ciente de que eu a levaria para casa e trataria dela como mais ninguém.

Nunca pensei nisto até ao momento em que ouvi o guinchar dos travões e a pancada surda contra o seu corpo esguio. Só quando já era tarde demais. Aqueles 11 anos resumem a única felicidade que conheci, mas estavam envenenados desde o começo. Agora apercebo-me disso. Finalmente vejo aquilo que sempre esteve à vista, as saídas eram uma forma de preparação para o agora. Maldita sejas por não poderes falar e avisar-me. Maldita sejas por me matares…

Pego na chave do carro, deixo o prédio à pressa e arranco com as luzes da polícia no meu retrovisor. Guio a uma velocidade proibitiva pelas ruelas desta cidade que me consome dia após dia. O barulho ensurdecedor do motor ensombra-me os sentidos, transforma-me num ser amorfo, apazigua a dor. Nem tive tempo de chegar com o pé ao travão…

O som da fechadura da cela a desarmar desperta-me para a realidade…

25 de Maio 2005,

Paulo

DP2: Pressão... (Parte II), por Earworm

E não param de chegar respostas ao DP2! :))

Ainda tou para perceber como é que há tanta gente imaginativa e inspirada?!
....afinal, para um País que tantos dizem ser atrasado, inculto, iletrado e semi-analfabeto....
É verdade que temos problemas estruturais, educativos e pedagógicos terríveis e altamente complexos.
Mas a esperança aumenta quando se "lê" a capacidade, destreza e inteligência dos escritores que contribuem aqui para o nosso/vosso blog!

Sem mais 'politiquices' (isto de estar a ver o Socrates a dizer que vai aumentar o IVA para 21% para combater o défice deu-me azia :S )

Aqui vai a versão do nosso bichinho-d'orelha, a Earworm

o meu sincero agradecimento pelo vosso fascinante empenho,

Der Uberlende

Pressão... (Parte II)

É sempre mais fácil ver as coisas a duas cores: preto e branco, anjos e demónios, bons e maus, certo e errado. Em 10 anos que levo nisto de ser polícia, aprendi que me poupo se vir as coisas deste modo. Porque ir para a cama a sonhar com miúdos que sabes irremediavelmente condenados, sonhar com a espuma da raiva e os olhos opacos dos loucos, não me ajuda a passar as noites. Tenho sempre medo de me encontrar lá, longe da redenção e iluminada a vermelho. Não quero perceber o lado de lá, não quero desculpar.
Mas hoje, o treino monocromático que me divide o mundo e a consciência não funcionou, a razão não me entrou em piloto automático. Ia no carro patrulha com o Celestino, quando fomos chamados aos Anjos. Uma velha telefonou para a esquadra em pânico por causa de um vizinho armado. Corremos ao local a tempo de ouvir gente aos berros, o medo nas caras dos vizinhos a espreitarem entre as cortinas de renda, um cão a uivar à esquina da rua. Cinco homens discutiam à entrada do prédio, com vontade de entrar mas com medo de não saírem de lá vivos.
– O que se passa, senhora agente é que o tipo do 3º direito se passou. Está no telhado com uma caçadeira há mais de meia hora. – diz um com cara de magala, pausado.
– Já telefonámos para o 112. Há um rapaz ferido na perna, no segundo andar, o neto da velhota. Acertou-lhe numa perna quando o rapaz tentou desarmá-lo. – informa outro, assustado, de olhos esbugalhados.
Ninguém sabia o nome do homem. Morava por ali há muito mas, espantosamente, ninguém lhe conhece o nome. Um tipo calado, diziam. Tinha ou tem um gato, parece.
Ainda não tinha ouvido um disparo. Atravessei a estrada e olhei para cima, em direcção ao telhado do prédio. À distância, consegui perceber um vulto lá em cima, sentado perto de uma clarabóia aberta.
– Sniper ou suicida? – pergunta o Celestino com voz de aposta nos cavalos.
– Naa! Se fosse sniper já tinha feito estragos. Vou lá acima tentar falar com o homem.
– Não. Tu controlas a situação aqui em baixo, eu chamo reforços e, depois, subo. Não te armes em valente. Os valentes duram pouco.
– Celestino, não discutas! Tenho um feeling com este gajo. Acho que ele não quer fazer mal a ninguém. Além disso, com uma mulher eles acalmam-se mais.
O Celestino mandou toda a gente para casa e evacuou a rua. Dez minutos depois, quando os primeiros colegas chegaram, subimos. À porta dos apartamentos, nos patamares das escadas, portas entreabertas e rostos a aparecer entre eles. Mulheres de bata e chinelos, homens de roupão. Uma figura pequena e magra sai da escuridão para me perguntar:
– Já apanharam o Fernando? Já falaram com ele?
Tranquilizo a velha de voz mansa.
– É assim que se chama o seu vizinho? Fernando? A senhora não se preocupe e feche a porta de casa. Estamos a tratar da situação. Vai resolver-se tudo, vai ver.
– Sim, mas não façam mal ao Fernando – pede a velhota de olhos tristes – tem andado muito em baixo, ultimamente, sabe?
Continuamos em direcção ao último andar. Comecei a trepar pela estreita escada de ferro que leva ao telhado. Celestino agarrou-me a bota.
– Onde julgas que vais, rapariga!? Desce daí que eu vou lá falar com o homem.
– Celestino, eu resolvo isto. Eles têm mais calma com mulheres, vai por mim. Tenho…
– … um feeling, já sei.
Abro a clarabóia. Sentado a dois metros, de costas para mim, está um homem de meia-idade agarrado a uma caçadeira. Nem dá por mim, meia fora e meia dentro. Iluminada pela luz da escada devo parecer uma assombração.
– Amigo... Vamos descer?
Silêncio.
– Amigo… – repito – passe-me a sua arma. Vamos descer. Está toda a gente preocupada consigo lá em baixo… a senhora do 2º Esq….
– Amélia. A senhora do 2º Esq. tem nome: é a dona Amélia. Para vocês a pessoas continuam a ser só números, figurantes, informadores.
– A Dona Amélia está preocupada consigo. Está a assustar as pessoas. Facilite as coisas, vamos! Eu acompanho-o e ninguém lhe faz mal, acredite.
O homem voltou ligeiramente a cara para o lado esquerdo, sem me encarar.
– Acredito. Mas não vou descer. Não tenho nada nem ninguém à minha espera, ao contrário do que diz. Vá-se embora. Volte dentro de meia hora. Talvez daqui a meia hora já tenha alguma coisa para si.
– Não vou fazer isso. Facilite, amigo! Vamos evitar problemas e mais confusão. Vim buscá-lo de propósito. Ninguém lhe toca num fio de cabelo, acredite.
Então ele voltou-se completamente e olhou-me nos olhos. Tinha os olhos mais doces, e desiludidos do mundo. Já não era um homem: era um fantasma por acontecer.
– Como é o seu nome?
– Elisa.
Não, não me apresentei como ‘Agente Machado’. Não sei porquê. Senti-lhe as asas brancas a crescer das costas, soube de repente que ele não ia descer mesmo. Ia subir. Sorriu um sorriso largo e, de repente, ardeu-me tudo por dentro, uma combustão repentina de tristeza há muito não tinha.
– Elisa… Estava à tua espera. Ainda bem que chegaste. Vais me levar para casa.
Levantou-se, atirou a caçadeira, que resvalou e ficou presa no rebordo entre as telhas e o parapeito, encarou o abismo, estendeu-me a mão e disse.
– Anda…
Deu dois passos em frente. Dois passos em falso.
Espero que tenha subido mesmo.

25 de Maio,

Earworm

DP2: Pressão... (Parte II), por Perséphone

Ora viva,

Eu sei que já vos disse, mas nunca é demais salientar, estou maravilhado com o vosso empenho... e criatividade!
A vossa resposta tem sido impagável, e os vossos textos deixam adivinhar dias melhores para as 'letras' portuguesas.
Cada um de nós é único e irrepetível. E isso é transparente nos vossos textos.

Segue a resposta ao DP2 por parte da Perséphone. Não resisto à inconfidência de exprimir toda a minha satisfação por receber uma resposta desta nossa amiga. É sempre motivador contemplar os valores seguros que crescem e se desdobram em palavras por este e outros blogs.

uma enorme e animada saudação para todos vós,

Der Uberlende

Pressão... (Parte II)

Sinto a dor que só aqueles que se precipitam na Morte sentem. Caio nas areias do esquecimento. Não sei quem sou, não me lembro do meu nome, não sei nem de onde venho. Não vejo nada. Não sei onde repouso. Onde é que eu estou? Onde é que vim parar?! … Não entres em pânico! … Parece que afinal sempre há “vida” deste lado… Nunca esperei que fosse assim… Contava que após o premir do gatilho a consciência se dissipasse. A dor encontrasse leito. E o corpo descanso. Os conceitos permanecem, as preocupações também. Ou pelo menos a consciência de que as tinha. O raciocino vive ainda. A memória da minha voz e da minha imagem estão ainda guardadas nas gavetas de madeira grosseiras e lascadas, que por tantos anos me dediquei a manter limpas e organizadas, livres de sentimentos forjados. Os rancores e os ódios, ainda que por vezes exagerados, foram sempre difíceis de limpar. Foi, muitas vezes nos olhos mel de Elisa que descansei os meus, lassos de fadiga e alquebrados de cansaço.
Fazes-me falta Lisinha. Quero lá saber das pontadas lancinantes que me atingem a fronte. Sempre fui capaz de me soerguer sobre dores de ímpeto físico. Agora as emocionais… as que me atingem pungentes no peito… dessas sempre tive dificuldade em recuperar… Mas porque raios ainda me sinto?! É isto a tão afamada Morte? Na minha visão ateísta do Mundo, sempre acreditei que quando se morre, se morre. Será que sempre existe um castigo para os que partem antes do tempo? Nunca acreditei nessas tretas de Purgatório, Paraíso ou Inferno, quem diz ter medo de lá ir parar é porque nunca olhou com olhos de ver a realidade em que vive. No Inferno já nós vivemos. Pelo menos eu.Bem… de qualquer das formas não me posso considerar um desses casos em que por fatalidade do destino temos a infelicidade de sermos reduzidos a nacos de carne duros e putrefactos. Não parti antes do tempo. Parti na hora exacta. Se esta foi a minha vontade, então não deveria ter sido de nenhuma outra forma. Sempre exaltei a independência do Homem, se não pude viver segundo a minha vontade, pelo menos morro pelas minhas próprias mãos. Quando premi o gatilho não estava sob o efeito de narcóticos, não foi uma decisão impensada, muito pelo contrário, o dedo nem tão pouco tremeu. Para mim a imortalidade do Ser revela-se no acto solene de entrega à terra, de entrega ao Mundo. Já tinham sido muitas as vezes que tinha discutido o assunto com a Elisa, ela ouvia-me e confortava-me sempre sem nunca me lançar olhares de recriminação ou miados de gozo, agora que penso nisso e que a imagem dela me transporta novamente para tempos distantes, chego à conclusão de que era precisamente isso que me fazia continuar. O seu carinho sempre me impediu de a abandonar. E agora… Agora que ela, que sempre me segurou por tantos anos se foi… fui votado a permanente desalento. Depois que o puto fanhoso do “tunning”, a arrastou pelo asfalto sem vacilar ao volante, e sem sequer me dirigir um pedido de desculpas ainda que não sentido, que me sinto incrivelmente só. Sinto-me pois… Vazio… Os meus desvarios já não soam a revolta, soam a desânimo e abandono. Preciso descansar… Realmente estes processos de transição são sempre complicados, quer sejam em vida, quer sejam na morte. Morrer é doloroso. Quem pensa o contrário que se desengane.
Será que a minha pequena Elisa passou pelo mesmo? … Será que sentiu as mesmas mazelas que sinto? Como as saudades pesam. Imagino-lhe o corpo sempre quente, e o pêlo cheiroso macio e deixo-me adormecer. Se me entregar ao silêncio, as dores adormecem.





Acordo tomado pela dormência e pelos suores gelados que me descem a espinha e me banham já a roupa. Não sei quanto tempo passou, mas não me parece ter sido muito, sinto-me exausto e saturado tal e qual como quando me entreguei. Isto só pode ser um pesadelo. Será que uma pessoa já não pode morrer em paz?
As dores não demoram a regressar, e ainda que esmorecidas incomodam e levam-me a contorcer de mau estar. Se a memória não me atraiçoa, ouço o que me parece ser uma maçaneta a rodar. Abro os olhos com pesar. À minha frente uma mesinha branca de plástico que tendo em conta o uso que aparenta se encontra incrivelmente limpa, suporta o que me parece ser a merenda do meio-dia. Perfilados sobre a bandeja estavão a canja, o peixe e as batatas cozidos seguidos da bela da maçã assada. Já não percebo nada. Para quem morreu este é um cenário em tudo bizarro. Será que ainda estou a alucinar? Será mais uma etapa do desfalecimento do Homem? Não entendo. Apercebo-me de repente da senhora fardada de branco que se encontra perto da entrada fitando-me de sorriso nos lábios. Não a conheço. Só após ela se sentar com todos os devidos cuidados aos pés da cama e de me dar os parabéns por ser tão grande lutador e ter finalmente acordado do coma é que começo a perceber
as circunstâncias em que me encontro. Ela conta-me como fui encontrado no chão da minha sala, por trás do sofá, voltado para a janela da varanda. Conta-me da fé dos que me socorreram tinham em que me iria salvar e demonstra-se entusiasta das tecnologias que me ampararam da Morte. Sem esperar resposta, saiu do quarto com o mesmo sorriso estúpido nos lábios com que entrou e desejou-me bom apetite. Bom apetite uma ova minha vaca de merda!! O meu sangue fervilha de raiva!! Juro que sinto as bolhas de sangue em ebulição, a arrebentar e a queimar-me as veias! Tudo o que quero é sair daqui pelo meu próprio pé, ver-me livre da piedade e preocupação compradas desta gente! Hei-de sair daqui pelo meu próprio pé e pela minha própria mão hei-de pôr fim à minha vida! Sim, à MINHA vida. Custa-vos assim tanto aceitar que quero realmente morrer?
Eu sei que consigo ser dissimulado… Aprendi com o passar dos anos o ofício da hipocrisia e do cinismo. Sou capaz de manipular. E por isso, manipulo. Só a minha Elisa me sabia desmentir. Se os Homens tivessem a astúcia da minha querida Elisa, nunca conseguiria levar a cabo o meu plano. Como tudo como deve ser, não deixo migalha no prato. Asseguro-me de que toda a gente acredita que desejo restabelecer-me na vida. Não dou mostras de depressão, de desânimo ou do que quer que seja. Mantenho-me à superfície tal como me mantive todos estes anos. Não choro nem rio. Aparento equilibrado e a minha saúde apresenta-se estável.
Deixam-me regressar a casa passada uma semana. Jurei a mim mesmo no dia em que acordei que regressaria a casa pelo meu próprio pé. Assim é. Sem malas nem bagagem, apercebo-me pelo caminho que o aperto que me sufocava o peito sempre que trilhava o caminho da rotina não me asfixia mais. Sinto-me decidido como nunca antes me havia sentido. Não tenho dúvidas quanto ao que estou prestes a fazer. Sinto-me imparável. Capaz de tudo para atingir o meu fim. Não é em casa que vou encontrar os meios para a minha partida. Mudo a minha rota, e sigo direcção ao outro lado da cidade, cruzo praças e deixo as pegadas da que será a minha última caminhada na Terra manchando o caminho dos que se
cruzam por acaso no meu destino.
Entro sem medo na casa que fora dos meus pais, aqueles que sempre fizeram questão de me cuspir para a cara o desgosto e a desonra que trazia à família, sem nunca me explicarem o porquê. Lamento mais a morte do periquito da vizinha que a deles, casal de velhacos sovinas e brejeiros. Escancaro a velha porta de madeira já enfraquecida pelo tempo de um simples pontapé. O cheiro a mofo entranha-se-me nas narinas. Depois de dar umas voltas pela divisão encontro finalmente o que quero dentro de uma caixa fechada a cadeado num armário que as felizes das traças já trataram de arruinar. Deixo a casa mais pobre à medida que me afasto das imediações.
Já está tarde. A Lua já se adivinha no céu. Não faz mal. Até calha bem. Sempre fui mais de noites que de dias. Regresso a casa. Posiciono-me no exacto lugar em que me encontraram da primeira vez, voltado para a grande janela da varanda, lado a lado com a tigela e com a almofada preferida da Elisa.
Esta é a minha última oportunidade, recuso-me a desperdiçá-la. Limpo com calma a pistola, afinal não quero ser relembrado como alguém com fraco sentido de higiene. Levo o cano à boca e com calma posiciono-o bem na direcção do céu-da-boca.


BANG!




25 de Maio de 2005,

Perséphone

Paisagens da Alma, por Understandable

Bons dias,

Antes de publicar mais uma (fortíssima) resposta ao DP2, deixo-vos com uma pequena e fascinante estória da autoria da Understandable

até ao próximo post,

Der Uberlende


Paisagens da alma

Dia de calor, o sol brilhava intensamente; por cima do riacho via todo o campo a arrastar-se pelo horizonte até ao infinito para se juntar no firmamento do imenso céu azul.
O vento soprava como se uma lufada fosse só para mim, numa tentativa de me sentir bem, que egoísmo da minha parte, mas é isso que penso e quero sentir, uma só vez, pelo menos uma vez na vida algo só para mim.
Viro costas ao riacho, com a água limpa, transparente, pura, fresca sempre na minha memória e desço para os trilhos que me levaram de volta à malfada vida na vila, cheia de casa antigas, calçadas antigas, cheiros antigos, “porque que raio vim eu para aqui fazer?” pessoas amistosas, sempre prontas a ajudar, mas também sempre com vontade da cusquice matinal, nocturna, e que raio fazem mais.
Ainda me lembro a primeira vez que entrei na câmara municipal para a tal entrevista que marcou a minha vida desde à 2 anos, “bela vila” dizia eu, “que ar puro, que vista linda do rio, da igreja matriz, meu deus que calçada linda, tão limpa, nada a ver com o barulho da cidade com os milhares de caros, sem haver parques cobertos de tulipas, rosas, canteiro nascem por todo o lado, como é bom isto aqui”
Penso agora “que saudades tenho das ruas movimentadas, do ser anónimo, do não saber nem ter que saber da vida de A, B ou C ( que é inevitável nesta porra desta vila, toda a gente se conhece!!).
Bolas já me arranhei, silvas por todo o lado, buracos, mais um pé na poça, nem olho para onde vou, descalça a sentir a terra debaixo dos pés vou em direcção à vila, vista daqui é linda, mas lá dentro só me lembro da podridão; ainda consigo vê-la como se fosse a primeira vez, cheia de luz, calma……..
Sento-me não quero ir para lá, quero ficar a observar, começa o entardecer e rapidamente não vejo nada à frente do nariz, mas não me incomodo, quero ficar a observá-la nesta luz, aiiiiiii que picadela, “abelha de um raio que fiz eu??” “não sabes?? Pisas-te a minha flor e agora? Esse néctar era bom”; devo estar com alucinações, de certeza, a falar com uma abelha? Estou louca, só pode.
Corro dali para fora e …. Bolas o que fiz com a abelha faço no meu dia-a-dia, tenho de me mentalizar, começar a analisar tudo o que faço e digo, ando a maltratar e a espezinhar só porque estou revoltada com a vida medíocre de vila que levo porque não consigo, nem sei como dar a volta.
Bem……nova noite, vida nova.

23 de Maio de 2005,

Understandable

"escrito não só a pensar em mim mas em todos os que com ele se identifiquem..." - Vera Fonseca

Hoje escrevo a pensar em mim como reflexo de muitos. E enfrento a cada segundo o medo.O medo de ser diferente, de não ter força, de ceder perante a pressão dos desafios de me esconder do mundo para me abrigar. Porque o fiz, imensas vezes, privando-me de viver, de crescer, de marcar também eu um pouco o mundo. Mas depois entender que não poderia continuar assim, e mudar.Decidi ser diferente, ser eu mesma no meu mistério e singularidade e tentar desafiar os desafios, exigir de mim mas não em demasia e procurar o medo para o combater. Não procurar o que me magoa, mas o porquê da dor que ele provoca, entendê-la e, por assim dizer, apreendê-la como parte da vida, que tal como tudo o resto pode ser mudada e encarada de forma diferente. Como um oportunidade de ser cada vez melhor, de me superar a mim mesma por conseguir ser feliz para além da dor.Pode parecer um pouco idílico, mas acontece.Conter as lágrimas no escuro da noite que tanto relembra o sofrimento, e ser alegre de dia... não por me obrigar, mas porque o meu ser interior assim o deseja. Porque se orgulha de ser quem é... de ter personalidade, força e poder para mudar, para ver o lado brilhante da sombra.Parto assim em busca da perfeição, do amor, da paixão... da Vida, sabendo mais, por saber sofrer, vivendo...

Por Vera Fonseca

Tuesday, May 24, 2005

DP2: Pressão... (Parte II), por SilentChild

Pois bem,

Aqui vai então a segunda contribuição do dia para o nosso desafio, agora o autor é o SilentChild
Ainda bem que prolonguei o prazo!

continuação de boas escritas,
Der uberlende


Pressão... (ParteII)


Fiquei sem saber o que fazer… disparar a arma na ilusão de fugir cobardemente desta vidinha desgraçada em que me tenho mergulhado… ou ir ver o que se passa lá fora. Então pensei: se eu não tenho saída, se não me livro desta pressão, se já nem consigo ajudar-me nem libertar-me de uma lastimosa auto-comiseração, posso ao menos tentar ajudar alguém… se é que me resta alguma dignidade. Larguei imediatamente a espingarda. A medo abri a porta de casa e desci a escada até ao 2º piso.
A D. Clotilde tinha a sua porta aberta e estava muito nervosa no meio do patamar que separa os dois andares. Já tinha uma idade bastante avançada, mas era ainda muito enérgica e empenhada. A gesticular disse-me que já ligara para a polícia e que receava que o vizinho fizesse mal à esposa e à criança. Disse-me ainda: “Faça qualquer coisa senão aquele bêbado ainda mata a Clarisse e a Joaninha!” Eu pedi-lhe para ter calma mas na verdade estava tão ou mais apavorado do que ela. Entretanto ouviu-se mais barulho e gritos de mulher.
De repente, passaram-me pela cabeça mil imagens em catadupa, a um ritmo tão alucinante que eu mal conseguia respirar. Lembrei-me das tareias que levei do meu pai quando era criança, por tudo e por nada. Lembrei-me de como ele chegava tantas vezes bêbedo a casa e maltratava a minha mãe, batia-lhe e chamava-lhe os piores nomes, e eu não era capaz de fazer nada mesmo quando já era adolescente. Encolhia-me, ficava petrificado a olhar, com os olhos marejados em lágrimas e o coração sangrando, estilhaçado, ou fechava-me no quarto e enfiava a minha cabeça em duas almofadas. Gritava com toda a força que tinha mas ninguém me ouvia e aquele pesadelo nunca terminava. Tudo isso me revoltava, revolvia-me os interstícios e fazia-me sentir tão insignificante!
Lembrei-me também, como não podia deixar de ser, do que eu pensava ter enterrado há muito… lembrei-me de ti doce Sílvia e da nossa pequenita Diana… como tu tentaste entender-me Sílvia mas eu nunca te dei grande oportunidade para isso pois não? Nem fui capaz de te dar a atenção e o respeito que tu merecias. Nunca consegui livrar-me dos meus fantasmas e deixei que eles também atormentassem as pessoas que… hoje vejo isso… eu mais amava. Arrependo-me tanto! Quando comecei a beber demais e chegava tarde a casa não era correcto contigo. Tu bem tentaste que eu te ouvisse… mas eu nem queria saber, tão embrenhado estava nos meus problemas, traumas e ódios de estimação. Se era tão mau marido e mau pai como posso ter ficado admirado quando tu saiste de casa com a Diana, ainda ela não tinha dois anos. Comecei a beber ainda mais para esquecer tudo, pensava eu, cego em egoísmo e embalado no meu remoínho sombrio. Quando passados uns dias, sóbrio, tentado a pedir-vos perdão, quis procurar-vos em casa dos teus pais, fui abalroado pela notícia mais brutal que poderia ouvir. Vocês estavam as duas no hospital, em estado grave, após um acidente rodoviário. Acho que voei até lá!
Mas era tarde demais… A morte fora mais forte… Passei três dias e duas noites junto às vossas campas… desfeito em dor, remorso, culpa e arrependimento… até que alguém me levou para casa. Tentei desde então não mais pensar nisto tudo. As rotinas de cada dia-a-dia chato têm-me amparado, a bebida e a televisão têm-me entorpecido a mente e os sentidos… Apenas a Elisa foi um fulgor que me acompanhou sem me questionar, foi a companheira que eu não permiti ter antes, mas ainda assim não bastou para eu aprender a dar-me e ter algum brilho na vida por que me arrasto.
Tudo isto me passou num flash, foram segundos que me pareceram anos… e agora, aqui estava eu, titubeante, algures entre o 2º esquerdo e o 2º direito. Decidi: vou entrar ali! Bati à porta do 2º direito com força. “Vá-se embora, isto não é nada consigo!” Voltei a bater e perguntei o que se passava. “Saia daqui se não quer levar também!” Então passei-me mesmo. O trinco da porta não estava colocado e eu empurrei-a com quanto força tinha… entrei de rompante! No chão havia uma cadeira partida, 2 copos em cacos, vinho entornado, a um canto da sala estava a Joana, que tinha pouco mais de um ano, sentada assustada e a berrar, e sobre o chão estava a Clarisse, com a face bem inchada e um olho vermelho, a implorar ao marido, que empunhava um cinto ensaguentado, que não fizesse mal à bebé e que a deixasse pegar-lhe. Não sei o que me passou pela cabeça… só sei que me atirei àquela besta do Teixeira, encostei-o à parede, vociferei-lhe que ele não merecia a família que tinha nem merecia respirar o mesmo ar que elas, e esmurrei-o até as mãos me doerem. Apeteceu-me matá-lo… era como se me matasse a mim mesmo, … mas a tempo arrepiei caminho e deixei-o no chão a contorcer-se, semi-inconsciente. A Clarisse ainda me pediu timidamente: “Não o mate”, e tinha razão, nenhum de nós merecia tamanha baixeza… Depois ajudei-a a erguer-se e peguei na Joaninha que encostou a cabecita no meu ombro antes de eu a levar ao colo da mãe, já sentada numa cadeira. A D. Clotilde apressou-se a entrar e a abraçar ambas. “Já vem aí a polícia, vai ficar tudo bem”. Ouvi uma sirene ao longe e resolvi sair para a rua. A Clarisse agradeceu-me muito e quando saí pela porta ouvi a voz da Joaninha balbuciar: “Papáaa”. Olhei para trás, era para mim que ela olhava. Eu não era o papá mas juro pelo que é sagrado que me senti como se fosse mesmo.
Saí para a rua. Algo mais forte que eu impelia-me. Estava terrivelmente inquieto… e perdido. Vagueei durante algum tempo por ruas e becos. A certa altura estava numa viela estreita, sem passeios e com prédios dos dois lados, quando ao longe, logo a seguir a um caixote do lixo me pareceu ver uma figura humana… era estranha e havia uma espécie de luz ou chama. Não sei porquê aquela figura atraiu-me. Aproximei-me. Era um homem já de certa idade, com cabelos longos, um olhar simpático e compassivo. Vestia um casaco daqueles bem compridos, tipo capa afasta-pó como aquelas que os cowboys usavam no antigo oeste, com um chapéu a condizer. Numa das mãos tinha uma chama, pareceu-me saída de um minúsculo isqueiro (ou foi o que me pareceu naquela noite). Meio parvo, perguntei-lhe como se chamava e o que fazia ali. “Chamo-me Vigil. Aguardava por ti. Tenho algo para te dizer”. Fiquei estupefacto… “Mas como… e…”, e antes disesse algo mais adiantou: “Estou aqui agora simplesmente porque cada um de nós assim o quis”. Eu cada vez percebia menos… estava para ali a falar com um estranho… “Repara nesta chama, o que te faz lembrar?” “Faz-me pensar em fogo, luz, brilho…”, ocorreu-me. “E vida. Movimento. Nós somos deuses caídos, esquecidos da sua origem. A chama que arde em nós, tal como a chama que pode sair, por exemplo, de um isqueiro, só precisa de impulso, uma faísca, para aparecer.” “O quê? Nós somos deuses?”, perguntei incrédulo. “Sim, mas temos de o descobrir por nós mesmos, precisamos de um espelho. A chama externa é uma mera imagem da vida interior. Como esta pequena chama… se a soubermos reacender e alimentar... pelo afecto e a vontade de fazer melhor. Se a chama se tornar mais forte, já não precisamos de a procurar… cá fora”.
Nesse instante, pareceu-me ouvir um miado do outro lado do caixote. Olhei e vi uma gatinho pequeno que caminhou para mim. Virei-me novamente para o lado direito. O homem desaparecera. Senti-me mais leve mas esquisito... Posso fazer melhor? Fiquei a pensar… e ser vigilante numa selva de ilusões, desilusões, dogmas, medos, sombras, brutalidades, … num mundo impermanente onde se escondem… chamas... Peguei no gatito e mergulhei no seu olhar indigo, da cor do céu quando a noite e o dia se entrelaçam e uma luz que tudo irradia se adivinha tímida mas fortemente por todo o espaço visível, como por magia. Apeteceu-me beber água fresca. “Queres vir para casa comigo?”, perguntei-lhe. Coloquei-o no chão e ele seguiu-me. “Vou chamar-te Vigil”.

23 de Maio de 2005

Silent Child

DP2: Pressão... (Parte II), por Inês em NY

Ora viva,

Mais um dia, mais duas respostas ao DP2
A primeira é da minha amiga Inês em NY.
É-me de facto extremamente gratificante verificar a vossa disponibilidade para participar!
Bem hajam!

Der uberlende



Pressão... (ParteII)

Tudo vermelho, tudo branco, finalmente, tudo negro...

A campainha da porta desperta-me do estado de profunda ausência. A porta, essa barreira que me separa do mundo insensível, indiferente, incomparavelmente injusto, é o meu escudo que me protege deles, mas não de mim. Desta vez, sei-o, não posso ignorar. Esperar que se cansem de tocar e que se vão embora. Lentamente levanto-me e abro a porta. A polícia, claro…

Querem saber o que aconteceu. A vizinhança por trás da autoridade, com as costas quentes, por assim dizer, espreita pela esquina do patamar. A curiosidade mórbida que as levou até lá, desta vez, não vai ser satisfeita. “Matei o mundo. Acabei com tudo.”, “Vamos ter que dar uma vista de olhos!”. Malditos procedimentos, protocolos, predeterminações, procurações. Depois de se certificarem que não havia corpos por identificar ou marcar a giz, apenas uma televisão destruída, tornaram-se um pouco menos ameaçadores. Ainda desconfiados, segue-se uma noite de perguntas inúteis e papeladas. No final, é hora de ir trabalhar – piloto automático on.



Click! A fechadura, de novo… Cá estou eu, no meu mundo seguro. Seguro?! Claro que não! Sem Elisa, sem televisão, o que faço eu agora?... Resta-me a bebida. Bebo directamente da garrafa, enquanto me sento no sofá. Admiro, agora, o estrago. O cheiro a pólvora ainda empesta já viciado ar deste minúsculo espaço que chamo de meu.

Finalmente, decido-me, pego no paralelepípedo com um enorme buraco no meio e carrego-o ao colo, pela escada do prédio. Parece que carrego o mundo nas minhas mãos, o mundo fétido e podre. Degrau a degrau, afundo-me nas profundezas deste Inferno. O primeiro patamar chega, 4° andar, oiço a bebé da vizinha e adivinho-a a espreitar pelo óculo. O som que rapidamente se afasta denuncia o medo e a súbita necessidade que proteger o seu rebento. Esse pequeno, minúsculo, grandioso ser que encerra na sua inocência toda a potencialidade para o mal.

Continuo a descer, sinto-me cada vez mais pesado, 2° andar, a velhota reza pela porta entreaberta, pedindo protecção. Protecção de quem?, pergunto-me, e para quem? Presumo que pede ao seu Deus que a proteja do mal que este velho louco lhe poderá infligir. Sem cinismo, desejaria que pedisse protecção para todos nós – de nós mesmos.

A cada passo, sinto a pele a rasgar-se nos estilhaços, a transpiração a levar tudo da minha alma. Já não transporto o mundo asqueroso ao meu colo. Eu sou esse mesmo mundo. Arrasto-me mais um pouco, tentando não perder o equilíbrio. Finalmente, chego à rua. O grande contentor de lixo, que se encontra à porta do prédio, está cheio. Além de cheio, está rodeado de sacos de plástico mal fechados, de onde saem todos os despojos da existência humana. Caio de joelhos e deposito o monstro ferido no local onde pertence. Sem forças, deixo-me ficar prostrado…

De repente, uma gota de água cai no meu pescoço. Em menos de 5 segundos, abate-se uma tempestade como nunca vi nestes 51 anos. Deixo-me molhar, deixo que a chuva leve tudo. Deixo que penetre nas minhas feridas que, em breve, começam a arder. Chego a um estado de dormência em que já não me sinto molhado. Não sinto o frio. Não sinto as feridas.

Dou por mim, novamente em casa, e abro todas as janelas. Demoro ainda algum tempo para o conseguir, uma vez que todas, excepto a da cozinha, se mantinham fechadas há vários anos. Agora posso sentar-me no sofá e assistir a este espectáculo da primeira fila. Enfim fecho os olhos completamente, as pálpebras juntam-se como por magia e adormeço profundamente.

Acordo com o sol na cara. Não sei quanto tempo passou. Apenas sei que a primeira coisa que vejo é um gato com cerca de 3 meses sentado no chão a olhar para mim. É o Tomé…

24 de Maio de 2005,

Inês em NY

Monday, May 23, 2005

DP2: Pressão... (Parte II), por SweetSerenity

Ora viva

Não caibo em mim de contente! O DP2 está a correr maravilhosamente bem! Estou extremamente entusiasmado com a vossa resposta, embora em nada me sinta verdadeiramente surpreendido, pois já estou acustumado à enorme qualidade dos textos destes e de outros autores da blogosfera mais próxima.

Por motimos maisomenos óbvios, não irei comentar publicamente nenhum dos vossos textos, pois não pretendo causar quaisquer tipos de desvios ou indiciar nenhuma espécie de favoritismo. Por muito que me custe não expôr a minha opinião, vou-me conter, tentando manter uma distância ética mínima.

E, sem mais demoras, aqui vai mais uma resposta a este 1º DP2, agora na voz da SweetSerenity
Obrigado pelo teu entusiasmo!

saudações entusiastas a todos vós,

Der Uberlende


Pressão... (ParteII)


Sei-o apenas. Agora está tudo em silêncio, o estrondo foi ensurdecedor e o efeito nos meus ouvidos demorou uns longos minutos a desaparecer. O choro da bebé continua, prolongando-se em gritos estridentes e incomodativos. Começou a pancada na porta num barulho um pouco abafado acompanhado da campainha. Sei que é a vizinha. Sempre se preocupou muito comigo e eu sempre achei que era pura cusquice. Sabia tudo de toda a gente e aborrecia-a o facto de eu ser muito calado. Explodia em perguntas de cada vez que me via regressar do trabalho. Respondia-lhe às duas primeiras e apressava-me a subir as escadas e a entrar em casa. Não suportava o interrogatório. No entanto, nunca fui antipático; a simpatia sempre me correu nas veias e não gosto de desrespeitar ninguém, portanto, respondia-lhe com um sorriso na cara e com um beijo rápido numa das suas bochechas pálidas e rugosas que a silenciava por momentos. Porém, os seus frescos, mas experientes 76 anos adivinhavam-me o cansaço no sorriso e mal ouvia a minha porta bater, fechava a sua logo de seguida. “Que velha chata e coscuvilheira!” – disse eu várias vezes depois de entrar em casa estafado do trabalho com a paciência a roçar o chão. Enganava-me redondamente, felizmente havia alturas em que me apercebia disso.
E lá estava ela do outro lado da porta a gritar o meu nome. Sentia-lhe uma preocupação enorme e uma tristeza aterradora na voz, interpelada por soluços e inspirações mais fundas. Resolvi-me a abrir-lhe a porta antes que lhe acontecesse algo. Era uma senhora fresca e cheia de energia, mas a saúde de alguém daquela idade nunca é para brincadeiras. Mal abri a porta vi-a a descer as escadas agarrando-se fortemente ao corrimão. A polícia tinha chegado e ela foi-lhes mostrar o caminho. Sai do apartamento e decidi esperar no hall do meu piso, encostado ao corrimão a olhar as escadas enquanto ela conduzia dois polícia à minha casa, tentando explicar-lhes o que ouviu e tentando não tropeçar nos degraus.
Chegaram e nem me viram. Após alguns segundos a olharem a porta, a velhota, como que iluminada, começou a esgravatar num vaso que tinha ao lado do meu tapete de entrada. “Ela sabe onde eu tenho a outra chave!” – surpreendi-me. Entraram rapidamente no apartamento e limitei-me a olhá-los com espanto por nem sequer me dirigirem o olhar. “A preocupação era assim tão forte para não repararam em mim?” Sentei-me nas escadas à espera que saissem do apartamento. Não entrei porque não tinha a mínima vontade de ver dois estranhos mexer nas minhas coisas. Sabia que também não os poderia impedir, por isso, esperei. Demoraram o que me pareceu serem 20 minutos, até que por fim sairam com a caçadeira num saco e um cartucho vazio igualmente embalado. Aí lembrei que há uns minutos tinha primido o gatilho. Levei, instintivamente, a mão à cabeça e senti algo molhado e mole. “Não pode ser sangue. Não pode ser sangue.” – repetia constantemente na ansia de fazer com que a sensação desaparecesse. Olhei a mão com receio, mas não vi nada estranho. Admirei-me e levei repentinamente a mão à cabeça novamente. Sentia apenas o cabelo (ainda que pouco), mas nenhuma superfície molhada e mole. Estupefacto, pensei tratar-se de excessivo cansaço e, esquecendo aquelas três presenças que, agora, desciam as escadas, de olhar posto no nada, entrei lentamente em casa e os meus pés conduziram-me mecanicamente até ao sofá onde me deixei cair. Fechei os olhos e adormeci.
Acordei de sobressalto de um pesadelo. Sonhei com aquele estrondo ensurdecedor e sonhei ter morrido. Porém, no sonho, só me apercebi de tal quando um grupo de pessoas desconhecidas vieram ter comigo dizer-mo. Foi assustador e tudo muito confuso. Mas rapidamente essas imagens se dissiparam da minha mente mal acordei, deixando apenas uma sensação muito estranha. Tentando esquecer todo este episódio esquizo, levantei-me e com determinação sai do sofá, do apartamento, do prédio... Estava na rua. Parei a olhá-la. Uma brisa fresca arrepiava-me a pele, mas as folhas das árvores permaneciam imóveis. Achei estranho, mas nada comparado com a quantidade de pessoas desconhecidas que passeavam na rua. Costumava pensar que conhecia praticamente toda a vizinhança nem que fosse de vista. Puro engano. Comecei a caminhar em direcção ao parque. Necessitava estar perto da Natureza. Tinha a esperança de encontrar alguma calma. Atravessei a estrada e quase fui atingido por um carro, cujo condutor nem se dignou a olhar para trás. Lembrei-me de imediato da Elisa. Aquele carro, aquele verde do parque, aquele ar de fumo misturado com o perfume das flores que costumava estar impregnado no pêlo dela, tudo me fez viajar nas memórias. Sentei-me no banco mais longe da estrada, bem no centro do parque. Queria um sítio propício ao divagar. Onde ninguém me interrogasse, onde pudesse respirar, onde os sons do quotidiano não me atingissem. As lágrimas, uma a uma, lentamente começaram a formar-se e a descer pela minha face. Os momentos felizes e infelizes passeavam na mente a uma velocidade estonteante. Via e revivia a minha vida em pouco tempo. As emoções acumulavam-se no meu peito. Um ardor subia-me até à garganta. Era uma dor forte. Muito forte! O peito parecia quebrar-se. “Basta!” – gritei interiormente. Levantei-me e numa corrida meia dissimulada dirigi-me ao apartamento. Entrei no prédio e achei deveras estranho a Dona Amélia não abrir a porta de casa para me interrogar. Era fim-de-semana, mas isso nunca a impediu de o fazer. Não pensei mais nisso e comecei a subir as escadas. Uma fita amarela, própria da polícia, vedava a porta da minha casa. “Como é que isto veio cá parar e como é que não me apercebi quando sai?!”. A minha cabeça começava a latejar. A confusão era tal que pensei que fosse desmaiar. O sangue subia-me à cabeça e esta latejava ainda mais. Comecei a ficar com muito calor e o suor escapava pelos poros. Arregacei as mangas da camisa e limpei o suor da cara, passando as mãos pela cabeça. “Outra vez não!” Aquela sensação da cabeça havia voltado. Um arrepio percorreu-me toda a espinha. Olhei as mãos repentinamente, mas, de novo, nada de estranho havia nelas. Porém, a sensação desta vez não passou. Na cabeça continuava a sentir uma superfície molhada e mole e as mãos pareciam estar molhadas, apesar de as ver secas. Corri a descer as escadas e a bater à porta da Dona Amélia. Não me a abria. “Mas ela está sempre em casa!”. Um gato começou a roçar-se nas minhas pernas. Era extremamente parecido com a Elisa. Peguei-lhe e acariciei-lhe o pêlo. Sempre me acalmou passar os dedos no pêlo da Elisa. O gato virou-se nos meus braços e percebi que, afinal, era uma gata. Rapidamente a olhei nos olhos. Sentia-os a lerem-me, tal como a Elisa fazia. Um conforto invadiu-me. Aquele olhar aquecia-me, acalmava-me. “Só podes ser tu, Elisa!” – dizia-lhe com uma alegria imensa na voz. Por momentos, a confusão havia-se dissipado, mas rapidamente me apercebi que não podia ser possível. A Elisa tinha morrido e eu bem tinha visto, infelizmente. Estava mais confuso que antes. Entretanto, a Dona Amélia abriu a porta, vestida para mais um dos seus passeios habituais de Sábado. Não me olhou e limitou-se a dar as 3 voltas à chave na porta. Com a gata ainda nos braços, aproximei-me dela e perguntei-lhe qual a razão de não me olhar. Não me respondeu e o seu olhar fixava-se nas caixas do correio. Continuei a tentar com que falasse para mim, interrogando-a sobre o que se passava, sobre o porquê da fita amarela na minha porta e o de não me falar... Mas ela, já de folhetins de publicidade na mão, abriu a porta do prédio e saiu sem nunca olhar para trás. Deixei-me cair no chão encostado às caixas a afagar a gata que para mim continuava a ser a Elisa. E, nem 2 minutos depois, entrou o Sr.Júlio do 2ºfrente e também ele não me olhou. Levantei-me repentinamente, pousando a Elisa no chão, e corri para ele. “Boa tarde Sr.Júlio.”. Mas nada. “Como vai Sr.Júlio?” – disse mais alto. Continuava a não me falar. Toquei-lhe no ombro com a intenção de o fazer parar, mas este apenas parou para tirar as chaves que tinham ficado presas no bolso. Num acto de desespero gritei-lhe, “É cego e surdo seu antipático emproado?!”. Este, com a mesma expressão com que entrou no prédio, entrou em casa e fechou-me a porta na cara. Sentei-me nas escadas e comecei a chorar. As lágrimas lavavam-me a cara e a cabeça começou a latejar uma outra vez. Já não aguentava aquele equívoco. Sentia-me tão perdido, tão dorido. Porque razão ninguém se dirigia a mim? Porque razão era ignorado por todos? Um aperto formou-se no peito e alastrou até à garganta. A dor da cabeça juntou-se à dor de tanto chorar. Estava um caco. A Elisa bem se roçava em mim como quem me tenta acalmar. Mas até ela estava errada em todo aquele cenário. Baixei a cabeça e fechei os olhos. “Meu Deus...” – murmurei, limpando as lágrimas da boca. Nunca fui muito religioso, mas naquela situação só me consegui lembrar dele. De repente e estranhamente, uma ideia do meu falecido avô veio-me à memória. Relembrava os momentos animados que passei com ele, as histórias que ele me costumava contar, os “peixinhos” que jogámos, as gargalhadas que as suas macaquices me causaram... Abri os olhos e olhei em frente. Parado em frente ao elevador estava ele. Olhava-me com uma ternura tal que não contive um pequeno sorriso e mais umas lágrimas. Não me assustei. A sua imagem não era propícia ao susto, apesar de a situação, aparentemente, o ser. Levantei-me e fui ter com ele. Abracei-o e ele a mim. Pareceu-me uma eternidade aquele abraço. Quando nos afastámos, depois de limpar as lágrimas, bombardeei-o de perguntas. Ele, imóvel, apenas sorria. Após uns segundos de me ter calado, fez-me um festa na cabeça e pediu-me que olhasse as minhas roupas, mas que olhasse mesmo bem. Com estranheza, obedeci. O meu coração pareceu parar de bater por uns momentos. Apalpei as roupas para lhes sentir a textura; estavam cobertas de sangue. Levei as mãos à cabeça e consegui sentir um grande buraco. As mãos estavam, agora, cheias de sangue. Entrei em pânico. Recuei e tropecei caindo no chão. O meu avô, calmamente, colocou uma mão na minha testa e com a outra ajudou-me a levantar. Abraçou-me com força para que eu não lhe fugisse dos braços e, numa voz extremamente suave, junto ao meu ouvido, confirmou que eu me tinha suicidado e explicou-me que o facto de não me falarem, da polícia ter vedado o meu apartamento, de sentir a brisa e as árvores não se mexerem, de quase ser atropelado sem ser notado, de poder ver a Elisa, tudo isso era porque estava morto. Explicou-me também que não via o sangue nas mãos e nem sempre sentia o buraco na cabeça porque aquele que está morto só vê e sente o que quer. Tudo começou a fazer sentido e comecei a acalmar. A presença dele ajudava-me. Sempre foi o meu melhor amigo e depois da sua morte, só a Elisa tinha aquele efeito calmante em mim. Afastei-me dos seus braços. “E agora?” – perguntei-lhe. “Agora anda comigo. Esperei que pedisses ajuda. Quem pede é acudido, não te esqueças. Eu fui-te enviado para te ajudar. E agora que o equívoco foi desfeito, podes afastar-te deste lugar e continuar a tua viagem espiritual.” – respondeu-me numa voz tão pacífica que me fez depositar toda a minha confiança nele. E de sorriso desenhado nos lábios, amarrei-lhe a mão e com a Elisa atrás de mim, saimos do prédio e caminhamos na rua até algum lugar que eu ainda estava por descobrir.

23 de Maio de 2005,

SweetSerenity

Sunday, May 22, 2005

DP2 - Extensão do tempo

Ora viva,

A pedido de vários bloggers que demonstraram interesse em participar na primeira edição do DP2, o prazo de submissão de Partes II do Texto "Pressão..." extende-se agora até às 0:00 de sexta-feira dia 27 de Maio.

Vou então repetir aqui as regras com os devidos ajustes.

Continuação de boas escritas,

Der Uberlende

1. O texto que se segue representa a Parte I de uma estória em dois actos (apenas dois)
2. O que eu sugiro é que cada um de vós escreva a Parte II, que tem que ser a parte final
3. Cada pessoa escreve a sua versão da Parte II, ao seu estilo, à sua maneira, com o final que entender. Esta primeira parte está em formato D500, mas é apenas porque eu gosto de escrever neste formato, mais nenhuma razão.
4. Às 0:00 horas de sexta feira dia 27 de Maio termina a primeira edição deste desafio e eu publico a minha versão, apenas por devoção. Não se trata da versão correcta nem da melhor versão. Será apenas isso, a minha versão!
5. Será publicada uma mensagem onde, através dos vossos comentários, será votada a vossa versão favorita.
6. No dia 30 é publicada a versão integral, com a Parte II escolhida por todos
7. Para publicar a vossa versão da Parte II enviem um e-mail para hopematches@portugalmail.pt ou para ngoli12@yahoo.com.br
8. Posso contar convosco?

Pressão... (parte II)

Aqui vai a minha versão da parte II. Obrigada, Der Uberlende, por mais um desafio interessante! E meteste toda a gente a escrever!



Não sei porquê tanto alarido… A única coisa que fiz foi eliminar alguém que não merecia estar vivo. Claro, o mesmo também se pode aplicar a mim, mas eu tenho a mania que cada coisa tem o seu tempo, e que a hora da nossa morte é algo que não nos cabe decidir. Tal como Elisa não decidiu encurtar a sua vida, mas alguém a ceifou inesperadamente. Injustamente, sim, mas é assim a vida. Aceito agora essa ideia. Mas então quero contribuir com a minha parte de injustiça neste mundo. Por isso apontei a arma a um desses putos do “tunning”. Passam a vida a roçar o cú pelos assentos do automóvel, sem um único objectivo na vida que não seja acelerar, e melhorar o carro para acelerar ainda mais. Enquanto ele polia o “chassis” da sua amada viatura, enfiei-lhe um balázio certeiro na cabeça. Acertei-lhe na bochecha, vejo daqui da janela, ficou totalmente irreconhecível. Acodem pessoas desesperadas, a namorada histérica, a mãe lívida, desmaia ainda à porta do prédio, ao ver de longe o seu filho ensanguentado. Os traunseuntes estão chocados, verdadeiramente chocados, e olham para cima, para tentar perceber de onde veio o tiro. O bébé da vizinha continua a chorar, talvez também ele com pena do puto do “tunning”, ou simplesmente incomodado no seu sono. Sei que a polícia vem aí. Não faço nada para esconder as provas do meu crime, isso já não me importa. A prisão não me assusta, sempre seria uma novidade relativamente ao rumo que a minha vida estava a tomar. E pelo menos sei que a minha existência serviu para alguma coisa. Menos pessoas perderão as suas “Elisas”, porque há menos um “tunner” à solta. E tenho a certeza de que arranjei assunto para a vizinhança comentar durante umas boas semanas. Talvez meses. Quem sabe não aparece aí também um repórter da TVI, para registar a ocorrência. Então é que era a maravilha para esta gente.
Oiço os agentes da PSP baterem-me à porta. Desloco-me lentamente, parando primeiro para acabar a minha bebida, antes de abrir a porta, tal como estou. De caçadeira na mão.
«Boa tarde…» As boas tarde ficaram-se por ali. Um olhar para a caçadeira e imediatamente puxaram das armas que trazem ridiculamente à cintura e que devem usar uma vez cada década. «Vire-se contra a parede! Pouse a arma no chão!! Pouse-a!» Que caralho aconteceu às boas maneiras, pergunto-me? Obedeço, no entanto. Estou dócil, reparo, como um cordeiro estúpido que sabe que vai morrer e ainda assim bale alegremente no caminho para o matadouro. Domesticado. Será que Elisa se sentia alguma vez assim? Domesticada… Não creio. Nem quando me saltava às pernas para que lhe desse de comer, e eu me ria condescendentemente daquela brincadeira, ignorando a dor atroz das unhas dela fincadas na minha carne. Ela no fundo sabia que era selvagem. Com este pensamento, deixei que os polícias me conduzissem para o carro, sob o olhar reprovador e enfurecido dos meus vizinhos. Não acredito que nem um esteja verdadeiramente triste com a morte do idiota, porque todos se queixavam da barulheira que o carro dele fazia. No fundo, estão aliviados porque fui eu que perdi as estribeiras e não eles. Aqui nos subúrbios, somos todos bombas à espera de explodir.
O carro da polícia arranca, com a sirene ligada, e eu sinto-me feliz. Adeus, vida minha. Não deixas saudades.

Pressão... (Parte II); por Shakti

Recebemos mais um texto para o desafio Parte II. Obrigado Shakti

No seu mundo não havia espaço para si.
As sirenes ouvem-se, estridentes, cada vez mais perto. Há água por todo o lado, o tiro havia sido certeiro: nos canos instalados por debaixo do lava-louça.
A vizinha estava histérica, apavorada, endiabrada. Espumava, gritando, enfurecida e saturada por ter de morar no mesmo edifício daquele lunático, dizia.
Ele, imóvel, ainda de espingarda na mão, apontada para baixo, olhava fixamente para os tornozelos cobertos de água e o chão de destroços. O estrago era grande.
Nos segundos que se seguiram ao disparo, toda a sua deplorável existência passou-lhe alucinadamente por entre os dedos. Perante a confusão permaneceu impávido e sereno como se esperasse pelo mais absoluto silêncio. Até que por fim o conseguiu, e num momento completamente banido de tudo e de todos, só, no seu próprio vazio, sozinho, no seu espaço caótico, apenas acompanhado pelo turbilhão de vozes que lhe martelavam o espírito, atravessa um deserto de profunda catarse e chora duas horas sem parar. É então que, quase sem dar conta, exorciza um a um, todos os seus demónios e ensurdecedoramente berra para toda uma vida sem sal, cheia de medos e receios, sem riscos, sem coragem, sem atitude nem reacções, uma vida despercebida, vulgar, insignificante, comezinha, conformista.
Elisa, a sua gata, era o seu espelho, e na feliz convivência de 11 anos, revia-se nela todos os dias como um ser supostamente feliz. Mas não era. Nunca foi. Porque não foi ousado, curioso, audaz, porque se acomodou a um quotidiano banal, mesquinho, cobarde, desinteressante, solitário, agrilhoado ao cliché de se arrepender do que não fez. Toda a sua vida se resumia a uma conjunção condicional: “Se”. “Se tivesse casado...”, “Se tivesse filhos...”, “Se tivesse amado...”, “Se tivesse sido assim e assado...”, “Se tivesse feito isto e aquilo, nesta e naquela altura...”. Ele era um imenso “SE”!
Passou um mês. No balcão recolhe o bilhete e segue caminho para a porta de embarque. Para trás não olha porque deixa tudo o que não quer, nem precisa: a casa, o trabalho, o que foi mas nunca quis ser, e o mais importante: o “se”. Finalmente conseguiria apagar aquelas duas destruidoras letras. Até da sua roupa se viu livre. A única bagagem que segue consigo, para além da sua carteira com os seus documentos, é o atlas que havia aberto na semana passada, completamente ao acaso, a fim de ditar o seu destino.
Terra do Fogo. Não sabia nada acerca desse lugar de nome curioso, nem sequer tinha ouvido falar, mas fez questão de tentar não saber. Preferia chegar assim, despido de qualquer tipo de informação, à descoberta. De si, dos outros, de coisas, lugares, pessoas, situações, momentos, mas essencialmente daquele que havia enterrado uma mera conjunção que condicionara toda a sua vida.
Não tinha 51 anos, tinha 15. O Mundo era seu.

Shakti

Pressão... (II parte); em forma D500, por booklover

Tinha apontado a caçadeira para a testa, as garras tremiam-me, gotas de fadiga escorriam pelo rosto, fechei os olhos: o meu último desejo era expirar na ignorância. Mas no último milionésimo de segundo uma força oculta desviou-me o canudo da testa. Bum. Fragmentos de cal caíram-me em cima.

A desordem instalou-se, em menos de uma rajada de bafo já tinha a policia a bater-me à porta. Apático das ideias permaneci deitado, ainda me tentei levantar mas os músculos não me obedeciam. A campainha não parava de tocar: um som cáustico e agonizante entrava pelos ouvidos e fazia ressonância por todo o corpo que tiritava como se estivesse a ser electrocutado. Até que a policia derrubou a porta, encontraram-me espraiado no chão, coberto de pó como uma aparição.

Quando recuperei os sentidos estava deitado numa cama do hospital psiquiátrico. A quantas horas ou dias estava ali, não sei! Diagnóstico reservado: depressão profunda com tendências suicidas fundamentada pela perda de um ente querido. Deram-me alta passado uma semana.

Ao regressar a casa fui recebido com uma intrépida prenda: Abaixo-Assinado por todos os inquilinos do prédio a pedirem para eu abandonar o apartamento logo que me fosse possível pois deixaram de se sentir seguros com a minha presença.

Sem o mínimo de discórdia, peguei nas minhas coisas e abandonei a casa nesse mesmo dia. Não havia mais nada que me prendesse àquele espaço, a Elisa tinha partido, ao abandonar tudo o que me recordava a sua presença iria aguentar menos dolorosamente a sua falta. Enganei-me, ao partir a dor aumentou mais. O sofá onde passei horas intermináveis com ela, o parapeito onde ela gostava de se aninhar… tudo ficou para trás… apenas a tigela vazia me acompanhou.

Dormi a primeira noite num banco do jardim, decidido a procurar casa no próximo dia. Estava de baixa no trabalho, não tinha com que me preocupar. Acontece que o tempo foi passando, as horas arrastando-se, e eu acostumando-me a viver na rua. Chegou o dia em que deixei de querer uma casa para viver, não fazia sentido, ter um sofá para ver televisão sozinho, sem a companhia da Elisa, seria pavoroso chegar a casa todos os dias e não encontrar ninguém à minha espera. Perdi a conta ao tempo, passei a deambular pela cidade e a ir comer duas vezes por dia a um centro de caridade governado por Frades da paróquia.

Sempre que um gato se atravessava no meu caminho entrava numa imbecilidade intensa, comecei a ter delírios: a Elisa acompanhava-me para todo o lado e era tão real quanto eu próprio. Enquanto fazia as minhas caminhadas habituais conversava com ela, afagava-lhe o pêlo, ouvia-a a contar as suas aventuras. As pessoas começaram a olhar-me com um ar desconfiado e mais tarde via-lhes ódio nos olhos. Mas isso não me importava, desde que tivesse a Elisa ao meu lado. Formávamos um ser uno, cada um de nós era metade do outro e sempre que eu me deitava deixava-a enrolar-se nos meus pés.
Finalmente era Feliz!

Saturday, May 21, 2005

Desafio Parte II: Pressão... (Parte II) por Lua de Inverno

Caros amigos,

É com prazer e muita emoção que vos apresento a resposta da Lua de Inverno a esta primeira sessão do DP2 (Desafio Parte II, poistáclaro!)
A nossa amiga lunar está a viver um eclipse algo complicado e doloroso, mas, como é apanágio deste fenómeno celeste, quando as dificuldades de apartarem, o seu brilho retornará ainda mais ofuscante e poderoso.

Que a sombra não tarde mais em te cobrir

Os nossos melhores desejos de melhoras,

Der Uberlende

agora o texto, e ainda por cima em formato D500 :)

Pressão... (Parte II)

Maldito destino… ah, maldito, maldito destino! Tinhas 40 anos. Idade suficiente para ter uma família e uma vida arranjada. E escolheste-me entre inúmeros gatinhos deixados intencionalmente num caixote perto de tua casa. Senti o calor do teu olhar e senti que esse calor era só meu, de mais ninguém. Terás percebido então que eu era mais do que uma simples gata? Terás percebido então que havia mais em mim do que pêlo e olhos sedutores? Porque dirigiste a tua mão a mim e não a algum dos outros?
Vejo-te agora, talvez com o mesmo calor no olhar. Talvez porque estás tão abandonado como eu estava quando me tiraste do caixote. O bebé da vizinha continua a berrar e o carro da polícia já enche a rua de clarões azuis, frenéticos como o sangue que jorra impaciente da tua cabeça. O copo meio-cheio (ou meio-vazio?) de uma qualquer bebida permanece ao teu lado. Bem como a caçadeira. Nunca imaginei ver-te assim. Sem uma ponta de dignidade, vencido pela minha ausência e pela tua morte antes do suicídio. Sim, porque já tinhas morrido. E não suportaste estar morto e vivo ao mesmo tempo, muito menos sem mim.
Terás percebido como eu te amava? Como desejava poder arrancar o pêlo e sair de lá, mulher castigada pelo destino, e abraçar-te até à eternidade? Terás percebido que a minha vida fora da tua (nossa?) casa não era mais do que um escape? Como odiava estar contigo – amar-te e estar aprisionada dentro do corpo de um animal. Por isso fugia. Por isso corria desenfreadamente. Por isso me precipitei naquele dia para baixo de um carro e nunca mais pude voltar para junto de ti. Agora vejo-te aqui de cima, deste limbo, e espero-te numa forma que poderás agora compreender. E (quem sabe?) amar.
Não tinhas que ter feito isto, sabes? Eu continuaria a acompanhar-te nas madrugadas de insónia, continuaria a acarinhar-te como merecias e a aceitar-te na tua perfeita imperfeição. Só tu não te aceitavas. Agora tenho de me concentrar na tua imagem destroçada e puxar a tua alma para mim (virás para o meu lado?), tenho de te dar força para não morreres completamente.
Maldito destino… ah, maldito, maldito destino… fora eu mulher e teríamos sido felizes até aos 100 anos. Sem exigir mais, sem pedir mais, porque sempre chegámos e nunca sobrámos um para o outro, e assim seria até ao fim das nossas vidas.
Tens 51 anos… Pareces ter o dobro. E sentias-te velho desde a minha morte. Quem me dera ter mudado isso. Quem me dera ter aberto as tuas pálpebras teimosas para a beleza do mundo, para a insignificância da minha ausência física. Quem me dera que tivesses encontrado uma mulher que te conseguisse dar o comprimento certo de trela (nem demasiado curta, nem demasiado longa) para que te sentisses completo. Eu seria feliz por te ver feliz. Mas tu nunca encontraste, porque só eu te estava destinada…
Devias ter sabido… eu era tua… serei sempre tua… Ah!, maldito, maldito destino!

21 de Maio de 2005,

Lua de Inverno



Estranhas Doçuras: sangue novo para um blog - Understandable

Ora viva meus caros!

è com prazer que publico o primeiro texto da Understandable neste blog que é de todos nós, dos residentes, dos que comentam, dos que visitam, de todos quantos quiserem nele deixar a sua marca ou apenas passear os olhos pelas avenidas de letras que desfilam por entre o código HTML.

Sem mais conversa da treta,

seguem-se "Estranhas Doçuras"

Bom Fim de Semana,

Der Uberlende


Estranhas Doçuras


Saiu à rua já de noite, a lua cheia mostrava tudo a seu redor. Caminhava com uma postura recta, agarrada ais livros que trazia junto ao peito, com passos firmes e largos.
Virou na rua e desceu a calçada velha chegando junto à porta da família que se tinha dizimado. “Como chegaram a esta calamidade?, não entendo, como foi possível?”
Lembrava-se do seu amigo Manelito com os olhos azuis cor do céu, o seu cabelo louro como a seara de trigo com os raios de sol do entardecer.
Adorava brincar com o Manelito, rapazito simpático que fazia o contraste com ela de olhos verdes como esmeraldas e cabelos pretos como o manto da morte.
À porta da família domingos tinha sempre a curiosidade de entrar na casa para ver pela última vez a casa onde tinha brincado tanto com o seu amigo. Assolavam-lhe às ideias o sangue, as armas, os corpos, tentava não imaginar, mas era impelida a pensar tal, num repente viu-se dentro da casa , arrepiada olhou em volta tentando perceber todos os objectos, todos os recantos.
Olhou com nostalgia para a lareira onde a mãe do Manelito fazia questão de passar algum tempo a cuidar das suas lãs e dos seus afazeres, de repente tudo se tornou tão claro, parecia que tinha voltado a trás no tempo e viu/sentiu o seu amigo a puxar-lhe a mão, a pedir para brincar, tentou ouvir e ver melhor e tudo se desvaneceu.
Saiu a correr da casa e ainda se deteve a olhar para a porta, olhou para o início da rua e viu um par de olhos vermelhos a observá-la, olhou para a lua, cheia, brilhante, (dançante), olhou novamente, os olhos aproximavam-se, aterrada e inerte não conseguia emitir uma única ideia, um som, o corpo imóvel, o cérebro a não funcionar como ela gostaria.
Com esforço deu um passo a trás, tentando encostar-se à parede, agarrada aos seus livros como estes a pudessem salvar de alguma tentativa daqueles olhos vermelhos que tomavam um contexto.
Um lobo, lindo, majestoso, altivo no seu porte a caminhar para ela, com passos firmes e quase…… quase com um sorriso, “não, credo, como podem eles sorrir?, eu bem que gosto deles, mas….. e se ele ataca-me ? que faço? Como??”
Sente uma corrente, um calafrio, não vê nada a mexer, nem mesmo as folhas que estão no chão, aquelas noites quentes sem brisa não traziam semelhante sentimento corporal.
Olha para a frente, enfrentando o seu “inimigo” e …“onde? Para onde foi ele?” Quando se move sente novamente o calafrio, vai de encontro até onde vem essa brisa, anda e fica à porta do cemitério, entra e segue a brisa até que chega à campa de alguém, coberta de folhas, cheia de musgo, sem haver se quer algo que evidencia-se quem seria, ajoelha-se e limpa com a mão todo o que tapa o retrato, perplexa olha, as lágrimas caiem-lhe duas a duas pela face macia, que outrora morena fica lívida, deita os livros ao chão, coloca as mãos na cara e chora como nunca chorou na vida, nem pela morte de seu pai.
Retrato de Manelito no dia em que tinha dado o seu primeiro beijo…………..

21 de Maio de 2005,

Understandable

Wednesday, May 18, 2005

Pressão...(Parte II)

A inépcia de sempre. Sem querer (como aliás me acontecem as coisas na vida!), disparo. Acerto em cheio num vaso que está num canto da sala. Lá se vai o vaso. Terra, flores no chão e gritos histéricos no prédio. De repente, um frio percorre-me o corpo...era junto daquele vaso que Elisa costumava tirar uma preguiçosa sesta. Eu poderia ter morto Elisa!! Eu poderia ter morto Elisa!!
O barulho da caçadeira pôs tudo em alvoroço. Agora não é só a bebé da vizinha que chora, mas também a empregada do sr. Costa, do 3ºDto, aos gritos e a gesticular de forma perfeitamente ridícula. Continuo aturdido pelo pensamento da gata...a ideia de que eu a poderia ter morto por pura inépcia, descontrolo, falta de atenção...como o puto asqueroso do tunning?? Não! Recuso tal comparação!!! Jamais!
A polícia chega naquele alarido que as circunstâncias exigem. Galgam as escadas. Sim, já chegaram tarde e não vá o elevador tecê-las. Vêm quatro agentes!!Tantos?! O que será que eles julgam que vêm fazer?
Sinto-os nas escadas...galgam-nas de forma espalhafatosa. Eu fico quase imóvel, de caçadeira nos joelhos, sentado no sofá e com a cabeça entre as mãos. Bolas! Agora vão-me aborrecer! Batem à porta. Esperam que eu vá abrir. Não era suposto, era? Batem outra vez! Será que não sabem para que serve a campainha? O que será que eles estão a pensar? Inimaginável!
Abro a porta. Questionam-me sobre o tiro, escrevem, escrevem ( o relato da ocorrência, como gostam de chamar a essa delicada operação!), entram, olham à volta, vêem a caçadeira, olham para mim e, em vez de perguntarem alguma coisa de útil, ajustada à situação delicada (sim, não é suposto andar-se aos tiros dentro de casa, certo?), pedem-e a licença de porte de arma. Não tenho.Nunca gostei de licenças. Detesto pedir autorização para o que quer que seja. Considero isso um atentado à minha liberdade. Gosto de trangredir.
Esboçam um sorriso vitorioso e algo irónico acrescentando que vou ter de pagar uma multa. Aconselham, também, para uma "próxima vez", a não incomodar os vizinhos...fabuloso. Uma multa. Estou mais preocupado com o vaso. A Elisa adorava dormir à beira daquele vaso. A Elisa, essa, ninguém a traz de volta. A multa não tem importância nenhuma.
3 dias depois...
Não me reconheço no espelho. Estas olheiras e este aspecto desleixado não são eu. Não são. Bem, já me habituei a este aspecto meio esquisito e é mesmo com ele que agora vou sair para ir pagar a multa.
Desço as escadas. Sinto a cabeça latejar a cada degrau. Continuo sem dormir. As dores de cabeça são quase insuportáveis. Mal consigo abrir os olhos e sinto a pernas a fraquejar...fecho a porta da rua atrás de mim, meto as chaves no bolso e tento ajustar os olhos à luminosidade. Está um sol intenso. Vou a pé. É relativamente perto, apesar da eternidade que no outro dia os polícias levaram a chegar ao prédio!!! Também não me sinto em condições de conduzir.
O sinal para os peões está vermelho. Não suporto estar aqui à espera. Sinto-me um palerma de pé a olhar não sei para onde, de modo a evitar os olhares de reprovação que me chegam do lado de lá da passadeira. Olho de soslaio para ambos os lados. Atravesso. Não vou ficar aqui à espera do verde...o barulho dos travões é estridente, as pessoas que estão no passeio gritam...sou arremessado para o ar...uma dor imensa alastra da cabeça às costas...sinto o sabor do sangue na boca, a sua textura...os olhos turvam......caio uns bons metros bem mais à frente, no chão.O barulho torna-se longínquo...cada vez mais, cada vez mais...
Não foi um puto asqueroso do tunning. Não foi o assassino de Elisa. Foi uma comum mãe de família, pelos seus trinta e picos que ia (apressadamente, diga-se!) levar o filho ao colégio. Não pode parar a tempo. Ia depressa demais e, afinal, o sinal estva verde para ela.
Sim, sou eu que ainda vos falo. Vejo Elisa...Elisa! Elisa!, grito. Vejo o meu corpo estirado no chão, cheio de sangue...amontoam-se as pessoas, chega a polícia (será que me vão querer multar?!), INEM, que confusão...
Eu pairo e afasto-me lentamente...vejo Elisa, a minha Elisa junto de mim a lamber-me o rosto cheio de sangue e logo a Elisa, que não era menina para tantos mimos! Dá-me as boas vindas- Aconchega-me. Mostra-me que sempre estivera lá sem eu a ver, sem eu dar por ela. Deita-se ao meu lado. Aconchega o seu focinhito altivo no meu pescoço.
A cabeça deixou de doer...tudo se tornou inexplicavelmente límpido...sinto-me leve. Sinto-me vivo agora. Sim, agora sinto que estou vivo...com Elisa, como Elisa...
4 dias depois...
O meu apartamento é "profanado"...virado do avesso. Os meus sobrinhos acotovelam-se para levar os meus pertences para suas casas. Ficam as fotos. Duas minhas e uma da Elisa. Sim, eles não as querem. Os mortos, para eles, não existem. Agarram nelas e deitam-nas ao lixo, mas eu e Elisa estaremos sempre lá...Elisa está junto do vaso a dormir a sesta...eu estou no sofá a ler. A noite cai. A preguiça estica-se. O sono embala-me.

Um novo desafio! - A Parte II

Ok,
Está na hora de um novo desafio!
É o seguinte:


1. O texto que se segue representa a Parte I de uma estória em dois actos (apenas dois)
2. O que eu sugiro é que cada um de vós escreva a Parte II, que tem que ser a parte final
3. Cada pessoa escreve a sua versão da Parte II, ao seu estilo, à sua maneira, com o final que entender. Esta primeira parte está em formato D500, mas é apenas porque eu gosto de escrever neste formato, mais nenhuma razão.
4. Na próxima 3ªf (dia 24 de Maio) eu publico a minha versão, apenas por devoção. Não se trata da versão correcta nem da melhor versão. Será apenas isso, a minha versão!
5. No dia 25 será publicada uma mensagem onde, através dos vossos comentários, será votada a vossa versão favorita.
6. No dia 29 é publicada a versão integral, com a Parte II escolhida por todos
7. Para publicar a vossa versão da Parte II enviem um e-mauil para hopematches@portugalmail.pt ou para ngoli12@yahoo.com.br
8. Posso contar convosco?


Atenciosamente,

Der Uberlende



Pressão... (Parte I)


O som da fechadura a desarmar desperta-me para a realidade. Finalmente cheguei a casa. O piloto automático que todos os dias me reencaminha do trabalho apaga-se, dando lugar ao modo “senta-bebe-esquece”, o meu estado favorito.

De acordo com o BI tenho 51 anos, mas a dor de cabeça que me estala os ossos do crânio insiste em informar que me devo andar a arrastar à séculos pelo peso que sinto sobre mim.
Lembro-me vagamente do que era estar vivo. Lembro-me vagamente do que foi ser feliz e empreendedor. Lembro-me, muito vagamente de me olhar ao espelho e gostar do que via...

Na cozinha, uma tigela vazia no chão lembra-me da companhia da Elisa. Durante 11 anos da minha incipiente vida fui abençoado com a gata mais carinhosa do mundo. Não era aquele tipo de bichano que vive enrolado nos pés do companheiro humano (só fala na palavra ‘dono’ quem nunca teve um gato...) ou que se desfizesse em mimos por tudo e por nada. A Elisa ‘lia-me’ com uma transparência e detalhe que jamais alguma mulher logrou alcançar. Ela sabia confortar-me sem exigir quase nada em troca, sem insistir que eu tinha de mudar, de crescer , de maturar, de ser mais empenhado, menos agressivo, mais homem, menos criança, mais isto, menos aquilo... E era com todo o prazer que eu lhe retribuia o gesto, afagando-a gentilmente no espaço entre as orelhas e o cachaço, deixando-a aninhar-se junto a mim, enquanto viamos televisão pela madrugada.

Frequentemente, a Elisa dava o seu passeio pela rua, saltando da janela da cozinha para o quintal, e daí para o mundo. Ia explorar, descobrir, socializar, andar por ai. Tinha a sua agenda, os seus encontros, a sua vida. Ia e voltava para mim, para o seu companheiro humano. Ia e voltava sempre. Há três meses atrás deixou de voltar. A roda de um carro desenfreado dum daqueles putos asquerosos do tunning, com o seu bonézinho patético e as argolas à pirata nas duas orelhas que separavam o espaço morto e atascado de diarreia onde deveria haver um cérebro e uma alma fez com que a Elisa não voltasse para mim.
Agora, quem me iria acompanhar de madrugada? Sobrava a televisão.

Desde que ela morreu que não durmo, apenas pairo no limbo etílico da minha inconsequente ausência. Arrasto as pálpebras vagarosamente, uma de encontro a outra, mas pelo meio sempre sobra um rasgão de íris e retina que insiste em sobrar para me fustigar com os ásperos fotões do mundo que ruge e brama pela minha alma.

E o que me oferece a televisão? Morte, espectáculo, negligência, sexo fácil e intimidade falsa, porcos e cabras a viver numa quinta, mas que quase parecem pessoas, notícias falseadas, aclamadas, comentadas, esmiuçadas, detalhadas, deturpadas...
Não aguento mais. Pego na caçadeira, calmamente. Carrego os canos...

No andar de baixo instala-se a confusão. Após um sonoro estrondo a bebé da vizinha começou a berrar em pânico e a velhota do 2ª esquerdo corre a ligar para a polícia.

(continua...)

18 de Maio de 2005,

Der Uberlende


 

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