Luz e Sombra

Friday, July 29, 2005

Quando era criança gostava muito de contos de fadas de príncipes e princesas encantadas (o meu pai levava-me ao cinema para ver os filmes de desenhos animados do Walt Disney como; “A Branca de Neve” “A Bela Adormecida” e outros); mal eu sabia (só descobri em idade adulta adiantada) que era a representação simbólica de certos conhecimentos ocultos inscritos nas diferentes tradições filosóficas/espirituais do nosso mundo.
Portanto, gostei bastante de escrever esta pequeno texto; onde falo dos espíritos da natureza (os duendes ou elfos de luz), como antigos sábios os designavam, e que são de uma forma simbólica (e que pode ser observado do ponto de vista de uma ecologia profunda) aquilo que a Ciência designa (felizmente cada vez mais minuciosamente nesta e noutras vertentes do conhecimento), por partículas e sub-partículas da substância que compõem “invisivelmente” os Elementos da Terra, da Água, do Ar e do Fogo.

Vou de férias por uns tempos, tão cedo não volto a massacrá-los!?

Quando regressar vou tentar corresponder ao desafio. Não sei conseguirei fazê-lo...

Sonho Em Dia de Verão



A custo chegou finalmente ao topo da falésia. A segurança e a confiabilidade daquele local nunca encontrara em lado algum. Sentou-se tão confortável quanto as pedras duras o permitiam e, com a mesma comoção de sempre, lançou o olhar sobre a majestosa imensidão do oceano; inspirou a serenidade do azul do céu e imaginou-se uma da gaivota voando liberta dos grilhões que a prendiam à terra; o que contrastava com a agitação febril da multidão que se acotovelava na praia, procurando o melhor lugar ao sol, como se desconhecesse o rumo a dar as suas vidas.

Desde que conhecera aquele local, num dos seus passeios de enriquecedora solidão, este, ensinara-lhe, a interpretar no seu quotidiano, os grandes acontecimentos mundiais e individuais, como se os visionasse do cimo da falésia, e não com a visão estreita, de quem olha através de um funil, cuja pequena abertura só permite vislumbrar o limitado e o imediato, sem perceber as causas desses acontecimentos, onde, normalmente, todos, de dedo em riste, apontam culpados, esquecendo que, neste gesto insano, três dedos estão dirigidos para si próprios; sem a noção de que, todos e cada um, neste emaranhado de causas e efeitos, somos co-responsáveis.

Naquele lugar de retiro abençoado, a pouco e pouco, iniciava, uma comunhão solidária com tudo que a rodeava, como se fosse feita da substância do sol, dentro de si ecoassem o murmúrio das ondas, e a cor da sua alma fosse dourada como a luz que a aquecia. Era como se estivesse a descansar no reconfortante regaço de quem a gerara. E, nesta absoluta tranquilidade, mergulhou os olhos na paisagem que a rodeava: - Viu uma mulher na praia angustiada à procura do filho que correra atrás de uma bola, ignorando, que a criança estava um pouco mais à frente; um casal jovem encontrara, num recanto de umas rochas, o lugar ideal para trocar afagos, e, na sua felicidade, nem davam conta que a maré estava a subir; um praticante de wind-surf, ultrapassando o limite do bom senso, desviara-se excessivamente da praia, não se apercebendo, que a mudança das correntes marítimas, uns metros mais à frente, o impediriam de voltar em segurança; um pequena embarcação de pesca artesanal, parou repentinamente a sua faina, num respeito amedrontado, quando avistou um gigantesco porta-aviões que se deslocava quase na linha do horizonte.

Todos estes indivíduos, naquele diminuto universo, passavam por momentos de felicidade, tristeza ou embaraço; desconheciam-se, e, no entanto, o porta-aviões, com os seus sofisticados aparelhos de radar, não abalroaria o pequeno barco pesqueiro; este, poderia salvar o surfista em apuros, e assim, sucessivamente, numa contínua e ininterrupta interacção entre todos estes seres até ao impensável, mas todos, todos, vivificados pela regeneradora energia Solar, como se cada um fosse um raio de luz desse grandioso Deus da Abundância. Então... então...o seu coração quase parou... e toda a Natureza consigo ficou suspensa, com aquela extraordinária descoberta... Os gnomos, expectantes, que esforçadamente trabalhavam a escassa terra que havia no cimo daquele monte rochoso, detiveram-se no seu labor; as ondinas que dançavam sobre as minúsculas lagoas que se formavam quando a maré recuava, suspenderam o seu incessante bailado; as salamandras que estavam prestes a despontar através de uma pequena pedra vidrada sobreaquecida pelo portentoso calor do sol, acautelaram-se; os silfos que compunham a suave brisa que brincava com os seus cabelos, emudeceram; as ervas rasteiras que arduamente brotavam das rochas e, teimosamente queriam ser flores, adiaram esse desejo; os caranguejos que passeavam nas rochas com o seu estranho andar pararam desorientados. Então... então... se o Sol era a Fonte de toda a vida, eram todos pequenas unidades de vida com as suas peculiares formas, cores e sons, dentro daquela Vida Maior! Eram todos Um! Apeteceu-lhe correr ravina abaixo e avisar os que estavam na praia sobre esta verdade revelada para que a fizessem constar... mas estacou... os duendes em coro com os demais, segredaram-lhe que não o fizesse... seria considerada louca... Os homens pensavam-se muito importantes, ainda não estavam preparados para as grandes verdades; eram raros os que estavam dispostos a partilhar algo das suas afuniladas vidas; a transparente evidência que havia uma Vida comum, parecer-lhes-ia maléfica; a noção que eram pequenas e frágeis células, dentro de uma ordem cósmica num Ser Maior sem o seu tolo consentimento, causar-lhes-ia frustração; e a violência, a raiva, a guerra, o ódio, a intolerância recrudesceria. Eram-lhes incompreensível a ideia que constituíam como um todo, uma única Unidade de Vida, que se multiplicara em muitos, devido a uma necessidade misteriosa de origem inatingível; era-lhes por enquanto inacessível a percepção, de que, quando faziam mal ao próximo, faziam-no a si próprios, e quando praticavam o bem, era-lhes igualmente devolvido. Tristemente anuiu.

Mas, a alegria era geral... o coração batia aceleradamente parecendo não aguentar tão prodigiosa revelação. Os gnomos fizeram várias piruetas de contentamento antes de continuarem na terra o seu diligente trabalho; as ondinas num ritmo nunca visto, iniciaram a sua dança interminável sobre as águas; as salamandras retiraram-se para outro local, onde as suas irmãs do fogo andavam muito activas; os silfos do ar, desprenderam-se do seu cabelo, continuando a ser brisa, aguardando para mais tarde a vontade de ser vento; as ervas ficaram mais decididas a um dia ser flor; os caranguejos retomaram o seu andar azarado, em obediência com o que a Mãe Natureza, por ora, lhes reservara; e o Sol imponente, no seu altar de Luz, a todos abençoava com a sua força de vitalizadora sem descriminar, soubessem ou não aqueles entes da sua verdadeira natureza.

Juntou as mãos e fez uma vénia de agradecimento ao Astro-Rei, que declinava no horizonte para ir iluminar outras paragens; tinha-lhe sido proporcionado um venturoso sonho em consciente estado de vigília. Desceu cuidadosamente a ravina de pedra, e, enaltecida por aquela transcendente certeza que desabrochara dentro de si... sabia... sim, sabia... que um dia, todos teremos almas de gaivota e, cada um, no tempo certo, voará em direcção à Infinidade de Ser.


24/Julho/ 2005

Desafio "Crimes Imperfeitos"

Eu sei, eu sei!... Está tudo de férias e a trabalhar muito e isso tudo.
Mas, efectivamente, este blog está a precisar de motivação e novos textos. Por isso deixo aqui um novo desafio. Gostaria que respondessem em massa.

1 -Criem um texto em que o narrador participante seja alguém que acabou de cometer um crime. Razões, personagens e desenlace ficam por vossa conta e risco. O crime é à vossa escolha, também. Mas tem de ser um texto onde vocês entrem na pele de um criminoso.
2 - Não tem de ser escrito sob a forma de um policial tradicional: pode ser uma história de amor, de terror macabro, um poema, uma história com fundo humano e social, pode ser Dick Tracy meets Miss Marple. Não se acanhem e sejam criativos!
3 - O texto não deve ter mais de 1500 palavras (já é bem grandinho, para poderem espandir-se).
4 - Mandem os vossos textos até 4 de Setembro.
5 - A votação será feita de 5 a 12 de Setembro.
6 - Pedidos de adiamento de prazo devem ser feitos até 3 dias antes do termo.

Queremos sangue, suor e tinta!
Bons crimes.

O Bicho do Ouvido

Wednesday, July 27, 2005

O Grupo – Desafio parte II

Pessoal, sei que vai tarde mas não quis perder mais esta oportunidade e deixar O Berlinde ganhar por falta de comparência do adversário. :)
Está muito grande mas aqui vai: é o derradeiro esforço de uma desesperada.

Saudações literárias!

Earworm

Um segredo incómodo

Miguel...Como um São João loiro, de cabrito sacrificial ao colo, a vítima perfeita dos amores colectivos, sempre; o eterno querubim de altar barroco que Laura, Rita e Dora disputavam num excesso de zelo para com aqueles olhos de orfãozinho de afectos.
Miguel, que ía num instante a casa gamar a garrafa de wiskey manhoso do pai para as noitadas no parque infantil, quando todos se escapuliam de casa, já noite avançada, bicos de pés, cão amansado com subornos de carne, parentela na cama a ressonar sonhos de GTI’s, Totolotos e amantes.
Miguel, que recusava sempre as ganzas que lhe passavam, que saía da cama às quatro da manhã para levar Sérgio a casa, podre de álcool e amargura, a tropeçar em estranhos e soleiras de porta, enquanto chorava ao telefone. Que mentia aos pais da Dora, a dizer que tinha ido com ela ao cinema, quando na verdade a Dora atravessava o rio para ir ter com o seu Xico a Almada.
Miguel, que tratava dos dois irmãos menores e fazia o jantar, quando mãe estava de turno na fábrica. Que apesar das noites mal dormidas ainda arranjava pestanas para queimar com algum mérito, na escola. Que secava lágrimas como ninguém, com cacau quente e dois dedos de prosa, mas que chorava para dentro como as estátuas dos jardins e fingia sorrisos como ninguém.
Não havia quem o detestasse secretamente mais que Eduardo. Naquele dia na praia, quando todos se esforçavam por falar dos pontos fracos do Miguel, Eduardo tinha sido o único a permanecer calado, deixando aos restantes a tarefa oca de lhe apontarem defeitos.
“Nunca chegas cedo a nada.”
“És calmo demais! Não sei como aguentas!”
“Tens de aprender a pedir ajuda e a confiar mais em nós!”, rematava alguém, com um paternalismo nauseante.
Eduardo não. Não precisava de se esforçar por lhe ter uma raivinha de estimação, nunca partilhada com ou por ninguém, porque os anjos sempre lhe fizeram impressão. Não se pode confiar em anjos, na tonalidadezinha âmbar das suas auras de bondade, no seu aparente equilíbrio de marionetes celestiais, na sua santidade lavadinha. Custava-lhe não poder ser honesto, conviver com aquela estranha amabilidade estampada no rosto a cada encontro, sem esperar nada em troca, o que constrangia ainda mais. Mas Eduardo sabia-se incapaz de repudiá-lo. Aceitar um era aceitar todos, como uma horda de irmãos siameses. As raparigas e as suas conversas emancipadas, tolas de tempos a tempos, davam-lhe uma estranha segurança, ainda que se mantivesse em silêncio a maior parte das vezes. Acompanhava-as as compras, arrastado como um perdigueiro, sentia-se protegido com elas.
Já com os rapazes as coisas eram sempre perturbadoras. Assistia aos jogos de futebol sentado no banco, o peito a sobressaltar-se com a violência dos remates, com os gritos de guerra a anunciar passes e fintas de huno, com as pernas deles a tropeçarem umas nas outras, com a carne a tropeçar na carne. O coração a correr-lhe descompassado quando os tipos da sociedade recreativa vinham apagar as luzes do campo, nas noites de sábado, e o suor lhes corria em bica da cara afogueada, das nucas tenras a pingar, dos membros a ferver.
Tinha percebido, finalmente, havia pouco tempo. Não queria dizer que se aceitasse mas tinha entendido e só lhe apetecia espancar-se e emparedar aquele ser estranho que agora encontrava em si, prendê-lo numa cave debaixo de todas as celas e subterrâneos do mundo e esquecer-se para sempre da chave.
Miguel jogava sempre, aos sábados. Mas a carne dele era tenra demais, a aura ofuscava demais, o halo por cima da sua cabeça fazia-lhe sempre lembrar que o rapaz caíra por descuido de um coro de querubins e a voz não tinha a violência feliz da testosterona, os olhos eram demasiado inocentes e certos de alguma coisa que o irritava.
Na véspera da partida de Miguel houve lágrimas e bebida a mais. Estiveram todos no parque infantil, na casinha de madeira onde os putos brincavam aos pais e às mães. Dora chorava agarrada a Miguel; Sérgio, Tiago e Paulo passavam uma garrafa de Macieira entre si, sem se olharem, sentados lado a lado, rostos no chão. Laura não parára de repetir, irritantemente, durante toda a noite, que em Abril os pais lhe tinham prometido uma viagem a Paris, que ía ter com o Miguel em pouco tempo, trazendo saudades de todos.
Eduardo não sentira nada. Constrangia-o não sentir nada. Mas, quando as quatro da manhã bateram, quando todos trocaram abraços e lágrimas e voltaram para casa com o coração apertado e o sentimento de terem deixado para trás uma perna, um orgão vital, um pedaço do passado perdido para sempre numa fotografia de infância esquecida, os últimos a ficarem para trás, estranhamente, foram Miguel e Eduardo.
– Bem... vou andando. Fica bem lá por França, vai dando notícias. – tentou Eduardo, estendendo um aperto de mão.
– Não vás já. Tenho uma coisa para te dizer.
Eduardo estancou e olhou-o, temendo um confronto de anjo para danado.
– Há crise? Passa-se alguma coisa.
– Não há crise nenhuma. Acho que não quero perder a oportunidade de te dizer uma coisa que já tenho entalada há uns tempos.
Eduardo encostou-se ao muro do parque e cruzou os braços. Aquilo prometia. O querubim começou:
– Pensas que passas ao lado de todos, sempre tão discreto, sempre tão calado.... Andaste sempre no meio de nós como um fantasma. Conheço-te há três anos e só há uns meses é que dei conta: ninguém te conhece a sério, pá. Ninguém sabe quem tu és. Ninguém foi a tua casa, ninguém sabe qual é o teu grupo preferido, ninguém conhece os teus pais, não sabem o que fazes longe de nós, se sofres por alguém, ninguém te conheceu namorada...
– Escuta aí, Miguel.... não me parece que deva grandes satisfações e, sinceramente, não faço questão de publicitar a minha vida privada.
– Não vás por aí. Não é um confronto. É para te dizer que sei o que sentes. Sei exactamente o que é isso e também sei que não é fácil.
Eduardo riu, perturbado e confuso.
– Sabes o quê pá? Não inventes!
– Sei o suficiente para perceber que não vibras com mamas e tranças, amigo.
Eduardo ficou em silêncio. Agora o anjinho mostrava as garras de abutre, pensou.
– Estás a chamar-me paneleiro, é?
– Não percebes, pois não?! Não estou a chamar-te nada, estou a dizer-te que sei e percebo o que sentes. Bem demais, até.
– Não sabes nada! NADA SOBRE MIM, CARALHO! Como te atreves a insinuar sequer... Meu filho da puta!
E no meio da raiva, antes mesmo do aperto que já cerrava o punho esquerdo ao Eduardo, antes da espuma do sangue lhe virem à boca, Miguel encostou-o à parede, segurou-lhe a cara contorcida entre as mãos.
– É que eu também gosto de gajos. É fodido, não é? Queria esperar por hoje para te dizer isto, especialmente, por ser o último dia. Não sei se te vejo mais. Podes alardear e contar a quem quiseres para te vingares, caguei para isso. O meu objectivo não é com eles. Não estás sózinho nem és um anormal. Nem sequer tens o previlégio de sofrer mais por isso.
Miguel largou-o e afastou-se dois passos olhando-o de frente.
– Para onde eu vou agora, pode ser que me safe bem sem viver com dez velhos jarretas em cima a chamarem-me bicha, pode ser que viva bem com as minhas escolhas. Se queres que te diga até é um alívio para mim sair daqui. Seja como for, não queria perder a oportunidade.
Miguel agarrou na mochila e pôs-lhe mão no ombro.
– Adeus.
E enquanto o querubim, agora menos âmbar, agora menos etéreo, se afastava, Eduardo ajoelhou-se na areia suja do parque. O choro de uma criança ouvia-se da janela das traseiras de um apartamento. Um carro chiou pneus ao longe.
– Esse não sou eu – repetiu baixinho.

Tuesday, July 26, 2005

blogta abaixo!

Então minha gente,

A sugestão para o jantarog é sexta feira dia 29, diria 20:00h

Agora uma coisa é certa, anda tudo sem $$$....
Portanto vamos lá a sugerir sítios e ementas :p

...pois, parece-me que este primeiro blogta-abaixo terá mesmo que ser em Lx

...Mas é só o primeiro!

toca a por o guardanapo no colinho!

chopchop



Saturday, July 23, 2005

*Postcrossing*


Este site foi criado pelo Paulo, um amigo de quem gosto muito, muito. Considero-o um génio da informática. A ideia foi inspirada no bookcrossing e a seu lógica base é muito simples: trocar postais com todas as pessoas do mundo. Ontem recebi o meu primeiro postal do postcrossing e experimentei uma sensação maravilhosa... Entretanto já comprei uma data de postais e preparo-me para enviar dois para Portugal e um para o Brasil. Espero continuar a receber presentes destes na caixinha do correio e claro a enviar para todas as partes do mundo.
Vá lá, inscrevam-se, é muito porreiro!

Thursday, July 21, 2005

Sorteio do livro "A Troca"

Escrevi o nome de todos os participantes em papelinhos, dobrei-os e coloquei dentro do porta-lápis. Os nomes foram,

.J.
Redbackspider
Dasha
Earworm
Stela
Perséfone
sea-gullsoul
Der Uberlende
Lua de Inverno
SweetSerenity

Mexi muito bem, e aleatoriamente tirei um papelinho e a vencedora foi,

Earworm


Por favor envia-me a tua morada por email (hopematches@portugalmail.pt) que segunda já o ponho no correio. Por curiosidade, tirei o segundo papelinho com o nome da Stela e o terceiro com o da Dasha. Abraços

Sunday, July 17, 2005

II DP2 - A última partida; por Der Uberlende

Olá a todos!

Agora com uma imagem mais fresca e desinibida, espero que essa produção aumente, a começar pelas respostas ao II DP2

aqui vai a minha versão

saudações entusiastas,

der Uber


A última partida


7 de Julho, 8:58h. Londres

Acordo em sobressalto com o toque do meu telemóvel. Por muito agradável que seja ouvir Mozart, ser despertado com o som polifónico de “Eine Kleine Nacht Musik”, depois de uma noitada de estudo é o suficiente para ficar com o coração a palpitar.

- César! Acende a TV na BBC ou na Sky news!
- Huh... o que é que se passou?
- Houve uma série de atentados no centro de Londres! Parece que explodiram bombas no metro e nos autocarros!
- O QUÊ?!?!? QUANDO?!? COMO!??
- Ainda ninguém sabe o que se passou realmente, mas tenho a impressão que foi muito grave....
- Que horror...! Vou já ligar as notícias!! Sabes se há feridos?... deve haver certamente... e mortos!?!?!? Ai que agonia... em que sítios é que isso foi?
- Temo o pior, uma das estações de metro onde as coisas aconteceram foi King’s Cross, mesmo ao pé do Colégio...
- Os miúdos! Meu Deus!!
- Calma, já não há aulas. Mas lembra-te que hoje havia reunião de docentes às 10h. Com um bocado de sorte o pessoal só vai mesmo à última da hora, ninguém deve ter sido apanhado... espero. Bem, alguém foi apanhado, quando digo ‘ninguém’ estou a falar dos ‘nossos’, embora... ai que merda, já estou toda a tremer...!
- Irene, ainda estás em casa? Posso ir ai ter?
- Sim, mas tens que vir a pé, está tudo parado e em estado de alerta.
- Ok, em 15 minutos estou ai.

...

9 de Julho, 9:00h. Londres

- Põe mais alto, s.f.f.


Bom dia. Um Português poderá ser um dos autores dos atentados suicidas no metro de Londres.
São conhecidas as primeiras imagens de 3 dos possíveis autores dos atentados suicidas das explosões de Londres. Eram todos provenientes da zona de Leeds, sendo que se tratavam de cidadãos britânicos ou naturalizados, como é o caso do cidadão de origem portuguesa.
O nome do envolvido é Miguel Arruda, filho de um casal de portugueses proprietário de uma loja de conveniência nos arredores de Leeds.
As informações que temos indicam que o jovem de origem lusa converteu-se ao islamismo durante um período de 14 meses em que cumpriu pena de prisão por distúrbios e vandalismo. Todavia, ainda não nos é possível confirmar a sua envolvência com nenhuma organização terrorista.

- Não acredito! Eu conheci-o!! Fazia parte do nosso grupo de amigos, lá na Ericeira...
- A sério? Impressionante!... era teu amigo?
- Sim, éramos muito próximos. Costumava-mos passar o verão na praia a jogar volley, a conversar com os amigos... e as amigas! Ainda me lembro, que havia uma que se chamava ... eeerr.... Joana? ...hummm não! Jacinta! Essa rapariga era vidrada no Miguel. Eram os mais novos e mesmo assim aquilo era uma paixão assolapada. Depois aquilo deu em ciúmes, porque o Orlando gostava dela, e era mais velho, e acabou por causar grande confusão, porque havia outra que gostava do Orlando, é pá...coisas de miúdos, mas que acabou mal... A Jacinta teve um acidente de bicicleta no dia em que foi vista com o Orlando. Dizem que ela vinha muito transtornada e acabou por se meter debaixo de um carro. Foi um momento muito trágico para todos, com acusações a serem disparadas em todas as direcções...
- Mas há quanto tempo foi isso?
- Há uns 13-14 anos...
- Mas o que se passou com esse Miguel?
- Aquilo lá em casa era muito mau, eles passavam muitas dificuldades. Os pais dele estavam desempregados e acabaram por aproveitar um favor dos padrinhos do Miguel para irem trabalhar para Inglaterra. Quem diria no que isto ia dar...
- Tu há 2 anos que estás cá com bolsa de estudo, nunca te ocorreu procurar o Miguel?
- Perdi completamente o contacto com ele... E também já nada sei sobre a maior parte da malta do grupo...
- Talvez fosse boa ideia reunirem-se agora, passado todo este tempo.
- Não sei. Vou fazer uns telefonemas e enviar uns e-mails a ver no que dá... mas já passou tanto tempo

...

15 de Agosto, 10:23h. Azenhas do Mar

- Olá Orlando, sempre vieste!
- Oi César! Estás tão diferente... Nem acredito que estamos todos aqui!
- Todos não... – disse a Lola – Falta pelo menos um de nós, o nosso caçula... (as lagrimas insistiam em banhar-lhe os olhos verdes e enormes)
- Que tragédia mais estúpida e inesperada... E que raio de motivo para esta reunião - sussurrava Paco entre bafos de cigarro
- Então malta, devíamos estar contentes por estarmos todos juntos... nem que seja para recordar o Miguel, antes de ele se...
(Raquel, bruscamente) – vê lá o que dizes do Miguel! Tu não sabes o que ele passou naquela prisão, nem o que ele sofreu por se ter ido embora daqui daquela maneira!
(Orlando, tentando evitar um certo desconforto) - Não vale a pena exaltarmo-nos... Eu lembro-me bem do que se passou, até bem de mais. Fui eu que falei com a Jacinta naquela tarde, e que lixei tudo ao dizer-lhe que gostava dela... Esse peso ninguém me tira!
Decidi intervir e cortar o clima que começava a pesar
- Bem malta, agora que estamos aqui temos que apreciar a benesse que é esta oportunidade para nos reencontrarmos.
- Tens razão César, vamos é por a conversa em dia e recordar as coisas boas, que foram tantas...!
(Raquel, levantando-se subitamente e alertando o grupo) – Malta, nem adivinham quem vem lá! É o Júlio e a Marisa!
(Paco, com um ar de espanto) – Julguei que tinhas dito que eles estavam de férias no Brasil e que não podiam vir...
- Então que fazem eles aqui??? Disse com um enorme ar de espanto.
Á medida que se aproximavam da esplanada onde estávamos sentados, senti uma onda revigorante de jovialidade e energia a atravessar o grupo. A ansiedade era grande, e o desejo pelo retorno dos bons velhos tempos era ainda maior.

- Olá gente! Ainda chegamos a tempo? Disse o Júlio com um sorriso malandro de rapazola que vai pregar uma partida.
Tinham terminado as férias mais cedo de propósito para estarem conosco! Era impressionante ver o ar de assombro e alegria desmedida na cara dos presentes, incluíndo na minha.
E eis que para nosso espanto, a Marisa tira a mochila do ombro e saca de lá uma bola de volley.
- E então, o que me dizem a uma partidinha?


17 de Julho de 2005,

Der Uberlende

Template Azul & Branco

O que acham do novo template? Foi escolhido por mim e pelo Der Uberlende. De facto também já andava muito cansada do preto. Agora está mais fresquinho, mais arejado...


ATENÇÃO: ao escolher o novo template os links desapareceram-me todos e como demora um bocadito a fazer novamente as ligações vou tentar ter tudo pronto até ao fim desta semana.


Saudações bloguistas, abraço

Saturday, July 16, 2005

Template do Luz e Sombra

Ora viva!

Não sei se é de eu andar bastante cansado e passar demasiado tempo a olhar para o monitor, mas cada vez considero mais complicado ler o nosso blog. Por vezes custa-me fixar o olhar nas letras brancas que parecem dançar e desfocarem-se no funco preto.
Talvez o contraste 'branco no preto' seja demasiado perturbador para o meu cérebro que insiste em assumir o que está a ver como um negativo do que habitualmente via...

Ao princípio pareceu-me um belo layout, mas cada vez consigo ler menos tempo/texto de cada vez sem ficar com alguma irritação nos olhos...

Será que é um problema meu (e sei que também é da Lua de Inverno)? Mais alguém se queixa? Alguém tem sugestões?

Desculpem lá vir agora com esta cena, mas é que isto começa a ser um problema real...


saudações de olhos trocados

Der Uber

PS: Só para que conste, tenho uma visão impecável, nunca usei óculos e ainda à pouco tempo voltei a fazer exames oftalmológicos em que me disseram que tinha visão para ir para a Força Aérea...

Friday, July 15, 2005

Miriam

Este caso é verídico!

Miriam é uma mulher muito pequenina, franzina, e delicada. Mora a escassos metros da minha casa. Deve ter aí os seus 45 anos. Há um ror de anos que se veste todos os dias da mesma maneira: saia preta travada pelo joelho e uma camisa com aquelas almofadas nos ombros como se usavam antigamente. Miriam é professora de português já há muitos anos, infelizmente nunca foi minha professora. Mas tive amigos que já a tiveram, todos a adoram, faz tudo pelos alunos e entre os professores é reconhecida como uma pessoa brilhante intelectualmente. Não era raro ouvir, na escola, outros professores tecerem-lhe elogios rasgados. Miriam também dá explicações de português e não tem mãos a medir tal é a quantidade de alunos que a procuram. É daquelas pessoas que dá vontade de conversar e abraçar tal é a sua delicadeza com os outros. Sempre que o meu pai me dava boleia para a escola via a professora, fizesse sol ou chuva, com a mala na mão a vir a pé (uma distância ainda bastante considerável) para a escola leccionar. Nunca vi esta mulher chegar de carro à escola! O marido tem um valente carrão mas nunca a levou ao emprego. É porteiro numa escola e o seu aspecto folgazão e bruto contrasta com o de Miriam, mulher delicada e inteligente. Também é muito frequente vê-la com os dois filhos pequenos a fazer compras ou no cinema. Não passa despercebido a ninguém a forma meiga e carinhosa como os trata, a atenção que lhes dispensa. Também não passa despercebido a ninguém as manchas negras da professora Miriam pelo corpo ou quando num dia de Inverno anda de óculos de sol. É muito frequente também vê-la a aparecer a meio da noite na casa dos nossos vizinhos, toda marcada, a pedir cama e a chorar compulsivamente. Este caso óbvio de maus-tratos sofridos do arruaceiro do marido é conhecido por toda a gente, inclusive que fica com o dinheiro todo da mulher para gastar nas suas borgas. Quando pela professora fico sempre com um aperto de coração, gostava de lhe falar mas não sei o que dizer! Como pode uma mulher tão delicada e inteligente continuar presa a um estupor destes? Não precisa dele para sobreviver. A verdade é que ouvir falar das coças consecutivas que leva já não constitui novidade para ninguém, há mais de 20 anos que as suporta, sem nunca ter posto um pé fora de casa. Quando lhe perguntam porque aguenta esta situação a sua resposta é sempre a mesma: “por causa dos filhos”. Mas este ano, depois de uma grande tareia, os professores, colegas de Miriam, insistiram com ela para abandonar o domicílio. Miriam desta vez aceitou. O marido não a deixou levar nem uma única cadeira. Todos os professores se juntaram e contribuíram para mobilar com os objectos básicos (cama…) a casa de Miriam. É muito raro ver colegas de trabalho a fazerem uma acção destas mas isto também dá para ver o quanto a professora é querida por todos. Abandonou a casa com os filhos. O marido começou aquela chantagem emocional básica: “abandonaste-me, vou morrer sozinho…” Miriam com pena tentou voltar para casa, mas foi convencida pelos amigos a não o fazer. Para aliviar a culpa que Miriam diz sentir (o marido adoeceu entretanto) começou a ir todos os dias cozinhar lá a casa para ele e arrumar tudo. É frequente vê-la todos os dias a lá ir fazer o trabalho de escrava. Mas o mais absurdo disto tudo é que o marido, apanhando-a lá em casa continua a dar-lhe coças. Miriam continua na mesma a ir lá todos os dias cozinhar e arrumar a casa. Continua a levar. É esta a sua situação actual. Eu deixei de querer compreender!

And now for something completely different!

Caros bloguistas!

Acho que está na altura de se fazer um jantar de blog. Sim, vamos juntar-nos aos outros malucos todos que se agrupam no Parque das Nações com perfeitos desconhecidos para falarmos dos nossos interesses literários, musicais, cinéfilos, etc. Enfim, proponho que nos juntemos para nos ficarmos finalmente a conhecer cara a cara todos, ou aqueles que puderem!

A minha proposta é que façamos este jantar na primeira semana de Agosto, e devo admitir que é uma sugestão totalmente egoísta, porque eu vou estar em Lisboa nessa altura, e depois volto a partir para a Holanda. É pegar ou largar, meus caros! Proponho que deixem nos comentários a vossa disponibilidade nessa altura, e pela quantidade de pessoas que possa/queira participar, podemos tomar uma decisão. O lugar seria Lisboa... será que ouço rugidos de protesto?... Hmm, bom, digam de vossa justiça. A não poder ser na primeira semana de Agosto, então que seja na mesma, noutra altura qualquer, sem mim, claro. Snif. Mandem fotos, depois... :(

Cumprimentos a todos!

Monday, July 11, 2005

Acerca de música...

A Redbackspider deu o mote com Anthony and the Johnsons.
O que se pretende, caros companheiros de crime, é que respondam às perguntas:
– Qual foi a experiência musical mais mística que já tiveram?
– Essa música/álbum/ópera/concerto/area seria banda sonora perfeita para que situação ou filme?

A minha foi ouvir pela primeira vez o álbum "Agaetís Byrjum", dos Sígur Rós. OK, vocês podem argumentar que os gajos cantam em islandês. Mas se a aurora boreal tivesse uma banda sonora prefeita, seria aquilo.
Agora, digam vocês de vossa justiça.

Não tenho nada para oferecer, mas já percebi que a gente se diverte imenso a trocar estes cromos.

Um abraço a todos.

DP2 - O Grupo; Um desafio da SweetSerenity

Ora viva,

Conforme prometido, e enquanto a silly season se desenrola lá fora, aqui vai mais uma edição do Desafio Parte 2 (DP2).
Esta primeira parte foi escrita pela SweetSerenity

as regras são simples e quase todas conhecidas. Abreviando:

1. Melhor ou pior, a estória tem que acabar na parte 2;
2. Não há limite de palavras para o DP2;
3. Dia 24 de Julho acaba o prazo para enviar os textos;
4. Não estão previstos prolongamentos. Só serão aceites caso seja feito um pedido por parte dos participantes ANTES de dia 20!
5. De dia 25 a 31 vota-se nos favoritos;
6. No caso dos participantes que não fazem parte dos "residentes", enviem as vossas versões para os mails indicados no cabeçalho do blog;
7. Toca a produzir!

saudações entusiastas

der uberlende


O Grupo

Estava uma tarde de calor! O sol reflectia nas suas cabeças e a água do mar molhava-lhes os pés. Pegaram na bola e lançaram-na para a rede de volley. Aquela conversa fizera-lhes bem, foi ali, na areia, junto ao mar, que pela primeira vez desde há muito tempo o grupo se reuniu e falou sobre os defeitos e qualidades de cada um, agora já ninguém poderia ser acusado de hipócrita, tudo o que cada um tinha para dizer, foi dito ali, sem zangas e sem hipocrisia, agora tudo estava esclarecido.
Jogavam volley e pareciam estar mais leves, os segredos desapareceram e a fase má do grupo estava finalmente a desaparecer também.
Tinham sido sempre assim, quando havia algum problema, todos se juntavam para o resolver. Mas naquela época foi diferente e não sabiam porquê. Tinham deixado ir longe de mais, tiveram medo e o grupo por momentos desfez-se.
Tinham-se esquecido dos bons momentos que passaram, das provas de amizade que fizeram, da promessa de nunca se separarem e preferiram deixarem-se levar por pessoas que mal conheciam, fazer novas experiências e foram perdendo a confiança entre eles. Cada um tinha escolhido um caminho diferente e ficaram mal porque já não se conheciam.
Mas, nada disso importava agora. Dava-lhes arrepios só de pensarem no que se tinha passado! Por isso, agora jogavam para esquecer, para se desligarem de tudo e jogavam livres de problemas.
O tempo foi passando e estavam cada vez mais unidos, outra vez, mas eis que surgiu algo que pôr todos de rasto. Miguel, o membro mais novo ia para o estrangeiro. Já há algum tempo que o seu pai estava desempregado e a sua situação financeira era má, mas finalmente, há bem pouco tempo atrás tinha arranjado emprego no estrangeiro. Miguel sabia, todos sabiam que ia ser difícil.
Mudar de escola já tinha sido difícil, separarem-se de todos os seus outros amigos, deixarem a escola de que tanto gostavam, afastarem-se dos seus conhecidos, … Aconteceu o que aconteceu…
Essa dor foi… não vamos dizer que foi fácil de ultrapassá-la… mas… não pode ser comparada à dor que iam sentir por falta do Miguel, porque desta vez, era o Miguel… o mais acarinhado de todos, o mais… enfim, era ele, o original, não havia palavras para o descrever.

Saturday, July 09, 2005

A Dúvida, por Rosa Oliveira

Pois aqui vai mais um texto da nossa sempre presente e estimada Rosa Oliveira,

Sentia-se extremamente enfraquecido; as forças iam diminuindo de cada vez que acordava daquele torpor em que mergulhara nas últimas horas. O cérebro recusava-se a mânte-lo acordado e, quando, contra vontade, fechava os olhos, entrava numa guerra desigual, cujo vencedor era aquela auréola dourada que ia aumentando de tamanho e que, se colocara no tecto da sala de observações do hospital, onde, nos últimos meses, entrava frequentemente, quando o seu estado de saúde se agravava. Mas não...tinha regressado da guerra há muitos anos e a sua mulher estava sentada à cabeceira da cama, estremecendo sempre que ele abria os olhos, apertando-lhe as mãos num afecto tranquilo, pedia-lhe, com suavidade, que adormecesse.
Como poderia deixar de viver? Morrer assim sem glória... deixar aqueles que mais amava e ir para debaixo da terra sem nada mais lhe restar.... Não acreditava nessa patranha da continuação da vida noutras dimensões e, muito menos, na existência de Deus. A evidência da sua inexistência para si, era um facto incontornável desde o momento, em que, os homens, em quase todas as latitudes do Globo, durante séculos, numa atitude de um teísmo redutor, se matavam mutuamente, para afirmar a superioridade do Deus a que prestavam culto.
A recordação mais antiga que tinha de Deus, era de um Ser ameaçador e colérico. Ainda muito criança, quando assistia às tremendas trovoadas que desabavam sobre a pequena cidade rodeada serras onde vivia, a família, ajoelhava-se diante de um enorme oratório que se encontrava no quarto dos pais, pedindo a Santa Bárbara protecção da ira divina. Nunca entrava naquele quarto sozinho; o oratório colocado por cima de uma cómoda de enormes gavetas, ia quase até ao tecto, onde Jesus, pregado de pés e braços numa grande cruz, com a cara ensanguentada motivado por uma coroa de espinhos colocada na cabeça, o assustava, embora, tivesse dó dele. Mas, os santos que o rodeavam, apresentavam um aspecto ainda mais lúgubre; tinha-lhes um verdadeiro pavor, passava defronte deles sempre a correr, não fossem arrebanhá-lo para dentro daqueles gavetões que nunca se abriam, e ficar sem a ver a mãe.
A primeira vez que fora obrigado a confessar-se, andava na escola primária; tivera que revelar as suas mais recônditas “maldades”. As mais punitivas, consistiam, em ir à dispensa às escondidas comer o mel às colheres; a outra, era, a indesculpável curiosidade que tinha em espreitar as primas ou a serviçal da casa quando estas se despiam. Além de cumprir a penitência imposta pelo confessor, tivera que prometer não voltar a cometer aqueles “pecados”, sob pena, de ir para o inferno. Durante muitos anos pensou que seria esse o seu fim, visto que não conseguia cumprir o prometido.
Um dos paradigmas da religião que lhe provocava uma total descrença, era a ideia absurda, de um Deus Pai, justo e misericordioso, dar apenas uma oportunidade aos seus filhos de escolherem o caminho do bem, tendo no final de uma única vida, como certo, a morada eterna do céu ou do inferno; era uma prepotência que não fazia sentido, se os pais pecadores na Terra, ofereciam aos filhos várias oportunidades para que se tornassem homens melhores. Além disso, aquela ideia misógina que a Igreja sustentava, acelerara a sua conversão ao ateísmo.
Sempre o intrigara e atraíra o dom feminino, de no seu interior, conceber e transportar novas vidas; um poder mágico que as mulheres partilhavam entre si impossível desvendar; talvez por isso, as pessoas que mais amara, tivessem sido: a mãe, a esposa e a filha. A mulher com quem casara, em certos aspectos, continuava a ser um mistério indecifrável. Conhecera-a ainda adolescente, cativara-o o seu ar sonhador como quem acredita em fadas. Teimosamente, conseguira persuadi-la de que a amava bastante para esperar que correspondesse com a mesma intensidade. Isso nunca aconteceu. Ela cumpria o casamento como se fosse um sacerdócio; atenta, solícita, fiel, como quem possui um segredo que lhe fora transmitido num passado longínquo e, aquela união, fosse um dever que tarde ou cedo teria de consumar. Por incompreensão a esse devotado destino, nunca fora capaz ultrapassar a bruma que se lhe reflectia no olhar; nem mesmo nas horas de maior intimidade, naquela fusão onde todos os seres procuram completar-se, conseguira tocar-lhe na alma.
Talvez, por uma necessidade psicológica, devido à precariedade da sua saúde nos últimos tempos, a mulher interessara-se afanosamente por entender a doutrina mais interna de várias religiões; há dias atrás, sentenciara com voz solene: - “Compreendi... a Divindade Última, é o Espaço visível e invisível que está muito além daquilo que os nossos sentidos podem alcançar; que abrange desde a mais distante galáxia até às vidas microscópicas que vivem debaixo de uma pedra, em cuja humidade brotam, vivem e morrem; que os homens como todos os entes na imensidão da Natureza são movidos pela busca da perfeição. Depois da morte, todos, periodicamente, embora muitos o ignorem, ressurgem um pouco mais completos, procurando sintonizar-se com um Propósito, onde cada um vai aperfeiçoando o som que lhe é próprio, para que um dia, em conjunto, executemos uma sublime, perfeita e única Sinfonia”.
Fora uma boa companheira, mas apesar da idade, continuava a ser uma imaginativa sonhadora. Estava em grande sofrimento e, sentia-a chorar silenciosamente; percebia que encontrara consolo naquelas ideias bizarras. Era impossível acreditar em semelhantes devaneios espirituais, embora, por vezes se interrogasse, que força sábia era aquela, que mantinha um vastíssimo universo, em tão miraculosa ordem!
Terminara a hora da visita, despediu-se dos familiares semi-inconsciente, mas reparou, que o aro dourado já cobria todo o tecto; instantaneamente, entrou no mesmo torpor. Quando “acordou”, a sala estava imersa numa suave e brilhante luz; uma absoluta tranquilidade vinda do mais íntimo de si comungava com aquela luminosidade que sussurrou: - Vem... Penetrou naquela profunda Paz sem saudades do que deixara.... A plenitude do Amor, da Bondade e da Eternidade de quem era jorrou numa incandescência indescritível.... a dúvida da Origem volatilizou-se... tinha reencontrado Deus.


Junho 2005

Friday, July 08, 2005

O lado lunar

Nos 10 tópicos que escrevi a respeito de mim própria penso que não foi "revelado" o meu "lado lunar"...penso que vai agora aparecer sob estas linhas, num excerto de Savater, muito verdadeiro para mim, muito acutilante:

Sobre a felicidade a única coisa que conhecemos ao certo é a vastidão da sua demanda. (...) Não somos capazes de defini-la, não a confundimos com nenhum dos sucedâneos que pretendam substituí-la; mas supomos que seríamos capazes de a reconhecer se finalmente nos acontecesse. O que, no mínino, não parece certo. Talvez o que se passe com a felicidade é que somos incompatíveis com ela. Felicidade é aquilo que brilha onde eu não estou, ou ainda não estou ou já não estou. Para ser feliz teria de separar-me do meu eu. E, contudo, é o eu que quer ser feliz, mesmo que não se ateva a proclamá-lo aos gritos nas ruas do mundo, mesmo que finja resignação ou acomodação à simples sobrevivência, à obrigação da morte. Dizer "quero ser feliz" é uma ingenuidade ou algo de ridículo, excepto quando se trata de um desafio, de uma declaração de independência, de uma forma de proclamar: "afinal de contas, não vos devo nada". Quando deixa de ser um engodo ou uma reconciliação piedosa, a felicidade- por inacessível, por incessantemente furtada- começa a libertar.
F. Savater

Resultados das votações do DBI

Parece que vamos ter de dar por terminado o prazo para as votações.
Feitas as contas e partindo do princípio que não me enganei a contar ( o que é sempre uma possibilidade muuuito real), temos um empate: Der Uberlend e Stela, ambos com 5 votos. Eu e a Dasha "não contamos para o totoloto", como se costuma dizer, pois ficamos com um pontito!!! Acho que vou convidar a Dasha para irmos "afogar as mágoas" numa saudosa noite coimbrã!!! eheheheeh
Bem, fico à espera do vosso feed-back em relação ao desafio que estou "a cozinhar" (hoje estou com umas expressões muito sugestivas!).
Beijinhos.

Zeca

Gostava de partilhar convosco um poema do cantautor maranhense Zeca Baleiro, um dos melhores e mais eloquentes que o Brasil já viu. A mim, esta música comove-me sempre.

MINHA CASA

É mais fácil cultuar os mortos que os vivos,
mais fácil viver de sombras que de sóis.
É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro.
Não quero ser triste
como o poeta que envelhece lendo Maiakóvski na loja de conveniência.
Não quero ser alegre
como o cão que sai a passear com o seu dono alegre
sob o sol de domingo
nem quero ser estanque
como quem constrói estradas e não anda.
Quero no escuro, como um cego, tactear estrelas distraídas.

Amoras silvestres no passeio público,
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas,
tempestades que não param,
pára-raios quem não tem,
mesmo que não venha o trem não posso parar.
Vejo o mundo passar
como passa uma escola de samba que atravessa.
Pergunto onde estão teus tamborins,
sentado na porta de minha casa,
a mesma e única casa
a casa onde eu sempre morei.

Thursday, July 07, 2005

Primeiro aniversário do Luz e Sombra

Pois é, no sábado (9 de Julho) faz exactamente um ano que criei este blog. Alguma vez pensei que aguentasse tanto tempo aqui? Não.

Fui ao meu diário do ano passado e retirei esta passagem do dia 11 de Julho de 2004 (curiosamente só escrevi sobre esta aventura dois dias depois)

“Criei um blog (…) Ninguém sabe, mesmo ninguém. Pretendo escrever sobre os livros que vou lendo, opiniões… enfim, tudo o pouco que sei é fraquinho mas pode ser que ao longo do tempo vá amadurecendo com a minha evolução e aprendizagem (…)”

E depois este pequenino espaço foi crescendo, companheiros de escrita juntaram-se, pequenos textos de 500 palavras foram surgindo, novos desafios… com admiração e espanto vi surgirem links noutros blogs para o Luz e Sombra, comentários extremamente positivos e interessantes aos nossos textos…

A “verdade verdadeira” é que adoro este cantinho de expressão individual, de ver a família (Der Uberlende; Stela; Der Igel; Redbackspider; Earworm; SilentChild) crescer, de iniciar alguns compinchas na arte de bloggar…

Oh Zeus sinto-me velha…

E é neste ambiente festivo que resolvi oferecer um presente para comemorar o primeiro aniversário do Luz e Sombra.

Como não podia deixar de ser, que presente é que podem esperar de mim? Um livro, pois claro J

Foi difícil escolher, teria que ser um livro que tivesse gostado muito mas ao mesmo tempo não tivesse a necessidade de voltar a ler. Escolhi este:

Já o li à bastante tempo e lembro-me que houve partes em que rebentava a rir, li-o de rajada, é um romance divertido e levezinho para estas férias de Verão. Um resumo:

"A Universidade do Estado de Euforia, nos Estados Unidos, uma selva de vidro e betão, e a Universidade de Remexe, na Grã-Bretanha, velha e de tijolo, têm um programa de intercâmbio anual dos seus docentes. Normalmente, as trocas ocorrem sem qualquer história digna de registo.Mas quando o Professor Philip Swallow troca de lugar com o Professor Morris Zapp, os dois académicos vêem-se apanhados num verdadeiro turbilhão, a que ninguém fica imune: estudantes, colegas, mesmo as próprias mulheres, todos são trocados à medida que a tensão cresce."

E perguntam vocês a quem o vais a oferecer?
É muito simples: escrevam 10 coisas sobre vocês e deixem aqui na caixa de comentários. De todos os que responderem a este mini-desafio faço depois um sorteio e o vencedor receberá o livro em casa por correio!
Podem ser as coisas mais divertidas e malucas ou mais sérias e profundas, para ficarmos a conhecermo-nos mais um bocadito.

Ora bem, começo eu então (não se assustem!):

1. Tive durante dois anos um pêlo de estimação no braço direito: chegou a atingir os 8 centímetros!
2. Na vista direita sofro de astigmatismo e na esquerda astigmatismo + miopia
3. Música: Epiphany dos Staind
4. O meu pecado mortal e com o qual luto diariamente é a preguiça!
5. Preciso frequentemente do meu espaço de silêncio e solidão senão enlouqueço!
6. Não perco todas as semanas, à quarta, às 21h, a “Juíza”. Sou uma fã devota.
7. Se não ler pelo menos meia hora por dia, no dia seguinte ando cheia de dores de cabeça.
8. Há quase um ano que uma amiga me tenta levar para o ginásio, está quase quase a conseguir… keep on going…
9. Sou a leitora número 365 da Biblioteca Pública de Braga (caraças não é muita sorte?!)
10. Livro: “Cartas a um jovem poeta” de Rilke pela forma sublime como fala da solidão

Se perdermos a capacidade de rirmos de nós próprios, o que seria de nós?
Boa inspiração! eh eh

Monday, July 04, 2005

Votos do Dasafio BI


Pois é...chegou a altura de votar. Apesar de não terem sido muito os contributos gostei bastante (gostei mesmo!) de todos. É claro que é preciso escolher, blá,blá,blá...
É assim: para mim, um empate...
D.Uberlend e Stella.
Gostei, particularmente do estilo, da forma como embrenharam as personagens...
Beijinhos.
(vamos ver se consigo por aqui uma foto para me conhecerem!)

Sunday, July 03, 2005

DBI: Cinderela, por Stela

Custou mas foi! Desculpem lá mas este desafio foi muuuuuito difícil. Aqui fica a minha contribuição.

Cinderela

Mafalda apagou o cigarro com a ponta do sapato. Olhou para o relógio. «Mais cinco minutos…», pensou. Acendeu outro cigarro e calmamente inspirou o fumo, semicerrando ligeiramente os olhos. Eram poucas as coisas que lhe davam prazer na vida. Uma era fumar. Parava-lhe o pensamento, substituía medos por nicotina, angústias por deficiência de oxigénio. Verdade, trocaria qualquer cancro no pulmão por aqueles minutos de silêncio na sua cabeça, enquanto fumava. A outra coisa que lhe dava prazer na vida era dormir. Achava que eram semelhantes, na sua forma narcotizante de existir, e igualmente nos seus sonhos, não havia ideias, nem palavras, nem sentimentos sequer. Nunca se lembrava do que sonhava, embora já lhe tivessem explicado que era impossível que não sonhasse. Fosse como fosse, o sono permitia a Mafalda não existir por uma média de oito horas por dia. Isso agradava-lhe.
Apagou com tristeza o cigarro e voltou para dentro do supermercado. Foi tomar o seu lugar na caixa 15, maquinalmente. «Boa tarde. Tem cartão Maxi?», «bip, bip, bip…», «São 13 euros e 24 cêntimos, por favor».

Fernanda planeara tudo ao pormenor. Iria deixar as iguanas com a irmã, e o testamento já estava com o seu advogado. Disse que ia fazer uma viagem perigosa, que ia à Colômbia por dois meses, famosa por ser o país mais perigoso do mundo, e portanto precisava de fazer estes preparativos todos. No supermercado demorara algum tempo a escolher o vinho certo para misturar com os barbitúricos que comprara. Afinal… havia que ter bom gosto até na morte. Há 14 anos fizera com Eduardo o mesmo trajecto emocional. Tinham decidido suicidar-se, e a razão parecera-lhe tão lógica como agora. Estava profundamente metida em drogas, tal como ele. Os pais, farmacêuticos ricos, tinham-na proibido de voltar a estar com ele, e tinham tentado submetê-la a um tratamento forçado numa clínica de desintoxicação. Sem pensar muito, fugiu. Correu para os braços da droga e de Eduardo, mas depressa se apercebeu de que o caminho que iriam percorrer juntos seria curto. Sem dinheiro, sem ninguém que confiasse neles já o suficiente para lhes emprestar nada, Eduardo pediu-lhe que se prostituísse para terem droga. Ela pôs uma condição. «Ok, eu faço isso… Mas então promete-me que esta é a última vez que nos drogamos». Quando voltou, trazia droga suficiente para se matarem aos dois. Eduardo preparou as seringas em silêncio. «Toma, amor. Desculpa…». Deitaram-se lado a lado e injectaram-se. Enquanto sentia o torpor invadir-lhe o corpo e a consciência a deixá-la, apercebeu-se vagamente de que a mão de Eduardo afrouxava o aperto em que segurava a sua. Acordou ao lado de um corpo frio. “Eu era só uma criança…”, pensava na fila de supermercado. “Uma criança incrivelmente estúpida”. Mas não deixava de ser curioso que a criança que fôra e a adulta em que se tornara tivessem chegado à mesma conclusão: a vida era demasiado dolorosa para ser vivida. Não encontrava razão para permanecer neste mundo. A casa linda em que vivia seria melhor aproveitada por quem sorrisse ao ver nascer o sol sobre a falésia. Para Fernanda, era um desperdício, cada dia um sofrimento, cada minuto uma dor pelo que perdera e pelo que tirara a outros. Por uns anos a carreira de arquitecta ocupara-lhe o tempo, dera-lhe alento. Mas em cada casa que desenhava, via o futuro que não vivera. Ajudar a irmã a pensar na casa dela fora a coisa mais difícil que tivera de fazer. Pensar no quarto para as crianças, na cozinha, no quarto de casal… Estava farta.

«Oh menina, despache-se lá com isso, parece que está a dormir em pé!», resmungava um homem de bigode atrás de Fernanda. «’Tá bem que é bonita, mas porra, assim nunca mais saímos daqui…». Fernanda olhou para o homem, como que surpreendida por verificar que havia pessoas a quem estas coisa ainda importavam. «Está com pressa?», perguntou. «Eh, não é bem pressa, mas não tenho o dia todo!». «Pode passar à minha frente, se quiser. Tenho todo o tempo do mundo», disse calmamente. «Não, deixe estar minha senhora… A senhora não tem de fazer nada, a rapariga é que se devia despachar…Deixe lá, não se incomode…», assegurou-lhe o homem, intrigado por esta mulher de olhos escuros e impávidos. Calou-se, por lhe parecer que não era boa da cabeça. “Com gente doida, é melhor deixá-los estar…”, pensou.
Chegada a sua vez de pagar, Fernanda colocou no balcão a garrafa de vinho tinto alentejano, o seu preferido, e puxou a carteira. Mas quando olhou para a rapariga com a nota de dez euros na mão, encontrou os olhos mais azuis e mais implacáveis que já vira em toda a sua vida. «Eu sei quem tu és.», ouviu. «Tu és a puta que matou o meu irmão.» A cara da rapariga, toda contorcida de raiva, não era agora bonita, mas ainda se viam as semelhanças com Eduardo. O nariz fino e perfeito, os lábios cheios, e aqueles olhos acusadores. Pela cabeça de Fernanda passou a imagem de uma criança tímida e agarrada ao irmão, de olhos azuis iguaizinhos aos dele. Era a lembrança que tinha de Mafalda, daqueles dias conturbados em que a próxima dose era a sua única preocupação. Que ironia do destino, naquele dia em que decidira morrer, a única pessoa que a poderia perdoar aparecia à sua frente.
«Vamos tomar um café, Mafalda? Temos muito que conversar.», disse. O homem de bigode sacudia a cabeça, de espanto e indignação. «Mas o que é que vocês pensam?? Está tudo doido ou quê? Eu tenho que voltar para a minha oficina, caramba! Não sou um desocupado qualquer!» Os olhos vazios de Mafalda dirigiram-se para ele e voltou a calar-se. “Irra, esta também deve bater mal da cabeça…”.
Pelo walkie-talkie, Mafalda pediu que a substituíssem. «Emergência familiar, desculpem.» Ergueu-se e fez sinal a Fernanda para que a seguisse. Em vez de se dirigir à zona dos cafés, Mafalda começou a andar em direcção ao parque de estacionamento. «Onde vamos?», perguntou Fernanda, sem no entanto obter resposta. Entraram num Renault 5 muito velhinho, a precisar notoriamente de arranjo. «Vou-te mostrar o que fizeste à minha vida.», disse Mafalda, ligando o motor do carro. Demoraram meia hora no trajecto, 30 minutos durante os quais Fernanda se questionava aonde iriam, e se Mafalda planeava algum tipo de vingança. Fechou os olhos e apercebeu-se de que não tinha a mínima vontade de se defender. Estava pronta. Mafalda estacionou nas traseiras de um edifício, e saiu do carro. «Anda.»

Subiram umas escadas e foram dar à entrada principal do edifício. «Instituto Português de Oncologia», leu Fernanda num painel. Mafalda entrou sem hesitação, sempre seguida por Fernanda. Sabia onde ia, tinha feito aquele trajecto muitas vezes, em todas as estações do ano, com todos os estados de humor, desde o mais esperançado ao mais conformado, passando pelos ocasionais dias de raiva. Chegaram a uma ala onde estavam 15 camas, todas ocupadas por pessoas em estados terminais de algum tipo de cancro. «Aqui a minha mãe passou os últimos 4 meses da vida dela. Morreu o ano passado. Esta era a cama dela», disse, monocórdica, apontando para uma cama colocada junto à janela, agora ocupada por um senhor idoso e cadavérico. «Ela só resistiu tanto tempo porque me tinha a mim. O meu pai não me teve em tanta consideração e quando o Eduardo morreu, deixou de se preocupar consigo mesmo. Acho que morreu de desgosto, embora todos me digam que foi atropelado. Ele não se importava se vivia ou morria.» Fernanda sabia disto. Amigos de outros tempos contavam-lhe de vez em quando o que se passava com a família de Eduardo. Nunca teve coragem de ajudar, nunca teve coragem de olhar com os próprios olhos para o seu legado.
«Olá, Mafalda! Por aqui?» Uma enfermeira nova sorria-lhes, com ar preocupado. «Passa-se alguma coisa?» Mafalda começou a chorar, a imagem da mãe cheia de tubos, amarela e esquálida, tomada por dores, veio-lhe à cabeça sem o poder evitar. A enfermeira segurou Mafalda pelos ombros e encaminhou-a para a porta. «Assim, não, querida, estás a perturbar os pacientes…Anda lá, vamos tomar um chá. Quem é a senhora? Não importa, venha também.» Fernanda seguiu novamente Mafalda, entendendo que nenhuma vingança viria daquela alma triste.
«Esta rapariga nunca vai ser feliz, assim… Teve uma vida super lixada, diga-se de passagem… Ai, desculpe…» A idade da enfermeira traía-a no seu discurso. «E tão gira, era de esperar que tivesse montes de rapazes a correr atrás dela, mas não, mal eles dão de caras com aqueles olhos, percebem logo que ali não há calor, não há nada. Parece que perdeu a alma, ou sei lá o quê… A senhora conhece-a de onde?»
Mafalda bebia o seu chá em silêncio, sentada a um canto e a enfermeira Paula («Paula Mendes, ao seu dispôr!») tentava entabular conversa com aquela mulher estranha, curiosa para perceber qual era a ligação entre aquelas duas e o porquê de Mafalda ter voltado ao IPO tanto tempo depois da mãe morrer. Não era invulgar os familiares de pacientes voltarem ao IPO, para fazer voluntariado, por exemplo, mas Mafalda tinha desaparecido totalmente. E parecia ainda pior do que da última vez que a tinha visto.
«Eu sou a responsável pela solidão dela. A Mafalda tinha um irmão. Ele…» Foi interrompida pela voz de Paula. «O Eduardo! Sim, eu lembro-me da mãe da Mafalda falar nele… Mas porque é que diz que é responsável pela solidão dela?!», perguntou a rapariga, entusiasmada como se se tratasse da telenovela das oito. «Ele morreu por minha causa. Eu era namorada dele e nós…» Foi novamente interrompida. «Ah! Sim, ele morreu de overdose e você sobreviveu e deixou as drogas! Então você é que é a arquitecta?! Ah, estou a ver…» Fernanda sentiu-se um pouco chocada por ver a sua vida resumida assim, mas estas eram as vantagens da TV Guia, um drama ficava explicado em três frases. Sentiu que a rapariga não estava a perceber o alcance da sua tragédia, da tragédia de Mafalda, de Eduardo, daquela família. «Ouça… não fale assim destas coisas… É muito sério. Se não fosse o meu envolvimento com o Eduardo, ele não teria…» Outra vez, Paula tomou a dianteira. «Morrido? Oh, não seja parva! Sabe lá. A verdade é que quando as pessoas têm dentro de si o potencial para se auto-destruir, às vezes só precisam de um empurrãozinho, mas esse empurrão pode vir de qualquer lado, sob a forma até de uma coisa positiva. Às vezes não há nada mais ameaçador que a felicidade...» Uma sombra passou pelos olhos da enfermeira. «Além disso era tão provável que fosse ele a morrer como você, ou não? Olhe, a senhora pura e simplesmente não sabe. Se nos culpássemos sempre pelo que acontece aos outros, então ninguém teria responsabilidade pelas suas acções, não é? Não invente coisas… O melhor que temos a fazer é andar com a nossa vida para a frente. Assumir as nossas responsabilidades, sim, mas de forma útil e não andar a carregar pesos que não foram feitos para pessoas carregarem. Veja a Mafalda. Ela carrega com ela o peso de toda a família. Quem sabe não se culpa a si própria pelo irmão e o pai não a terem amado o suficiente para se agarrarem à vida. Estas coisas não são fardos para crianças carregarem… e veja bem que ela é uma mulher agora, mas no fundo, no fundo, ainda é uma criança…»

As palavras directas de Paula deixaram Fernanda a sentir-se ainda mais miserável. Apercebeu-se de que morrer seria uma escolha cobarde. Mafalda estava ali. Viva e a sofrer. Aproximou-se da rapariga. «Mafalda?» Os olhos azuis ergueram-se para ela do abismo da dor. «Se me deixares… eu gostava de poder tomar conta de ti.» Por uns momentos parecia que Mafalda voltara a ter raiva dentro de si e que ia bater em Fernanda. Mas Fernanda acariciou com a mão os cabelos de Mafalda e trauteou «Então, bate bate coração, louco louco de emoção… a idade assim não tem valor…». E outra memória tomou lugar nas suas cabeças, de uma tarde de Agosto na casa dos pais de Mafalda, dos três a fazerem a sesta depois de uma sardinhada, Mafalda com a cabeça pousada na barriga de Fernanda, enquanto esta acariciava os cabelos encharcados em suor da menina, e as duas trauteando a canção do Carlos Paião, apenas para irritarem Eduardo que detestava a canção. «Daqui a bocado a Cinderela leva mas é um sopapo…», dizia ele ensonado. As duas riam-se e calavam-se. Trocavam olhares cúmplices e logo tornavam a cantar baixinho «Eles são duas crianças, a viver esperanças, a saber sorrir…».

Friday, July 01, 2005

DBI: vale a pena continuar à espera?

Ora viva

prazos à parte, quem é que ainda QUER participar no DBI?

Eu sei que é uma altura dificil, eu próprio nem tenho tido tempo para ler os posts que foram ultimamente lançados

mas afinal digam lá..

quantos são, quantos são?!?! :)))

se mais ninguém tiver vontade, interesse, etc para continuar o DBI passamos para a próxima.

...se mais gente quiser escrever, continuamos´

agora sim, tem até segunda à noite para dizer se QUEREM participar!

bom fim de semana

D.U.


 

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