Luz e Sombra

Wednesday, August 31, 2005

Prémio; 500 palavras para o DCP por Der Überlende

BSO

Ordo Rosarius - Equilibrio In high Heels through Nights of broken Glass (Cocktails Carnage Cruxufixion And Pornography)
Bjork – An echo, a stain (Vespertine)
ou
Cranes – Joy Lies Within (Self-Non-Self)


Prémio

o tempo passa, indiferente
e corta toda a esperança rente
deixando apenas alguns restos
de corpos, sons, faces e gestos
a mim resta marcar o passo
enquanto o tempo aperta o laço
escorrega o nó corrediço
abre a porta do passadiço
deixa entrar a fria aragem
que lava toda a coragem
de homens, crianças e animais
apaga impressões digitais
rasga tudo o que era eterno
despreza o céu e ri-se do inferno
marca a mágoa corta a alma
torna violenta a noite calma
esquece o som, a palavra dissente
entra neste ritmo decadente
entra neste carrossel
assume agora o teu papel
entra na dança segue o som
esquece o que é o mau e o bom
não és mais um ser diferente
és mais outro indigente
marioneta nas mãos do mestre
deixa que a besta te adestre
sê mais um, mais um de tantos
encanta-te com os teus encantos
sorri agora para a foto
enquanto deslizas para o esgoto
sorri outra vez, mas sê honesto
esse sorrisinho que eu detesto
o ódio é o teu melhor amigo
tem-no sempre aqui contigo
o amor é uma ilusão
que não cabe na tua mão
viver é apenas uma charada
crês em tudo, não crês em nada
e à medida que cresces acreditas
nas palavras que te foram ditas
por este, aquela, aquele e ninguém
recolhes ao útero da tua mãe
aninhas-te à espera que tudo acabe
temes que o teu mundinho desabe
te caia na cabeça e te parta os cornos
te despoje do dinheiro e dos adornos
tão úteis que são no ‘outro mundo’
é a isso que te agarras a cada segundo
queres comer, foder e dançar
agarrar na teta e continuar a mamar
até o leite sair escuro e vermelho
e o teu sangue ficar mirrado e velho
e quando pensares que acabaste
ainda agora começaste
e piscas os olhos a olhar para o nada
e onde pensas encontrar a entrada
encontras a saída deste sono profundo
donde rastejas só, aterrorizado e imundo
mas quem sou eu para te condenar
quem és tu para me negar
quem sois vós para esticar o dedo
embrulhados num misto de raiva e de medo
quem és tu para dizer quem eu sou
como ousar negar o que te dou
como podes dizer que não existo
negar-me em nome de um tal cristo
condenar-me a um poço de enxofre e chamas
quando sou tudo aquilo que tu amas
matéria, carne, sabor e orgasmo
aceitas tudo com entusiasmo
não te ouvi queixas enquanto engordavas
nem lamúrias enquanto teu ouro contavas
não me apercebi da tua candura
quando aos teus crimes dei total cobertura
engraçado que agora me peças a soluçar
por amor do outro para te libertar
do compromisso que antes te deliciava
sem te queixares que a tua alma era escrava
é o prémio final do meu investimento
é apenas o início do teu tormento
é a conquista de tudo a que tenho direito
é o prémio merecido do meu crime perfeito


30 de Agosto de 2005,


Der Überlende

Sunday, August 28, 2005

DCP - O Pintainho (por booklover)

Desde que a mamã partiu com o namorado novo que a nossa vida se tornou num inferno. O papá engelhou-se na bebida, todas as noites tenho de lhe dar um banho e enfiá-lo na cama, isto se ele estiver sem forças para me espancar. O seu cheiro a suor, álcool e sexo entranham-se na minha roupa e começo a sentir uma dor agrilhoada nas entranhas a pulsar ferozmente.

A mágoa asfixia-me o peito, tenho os sentidos entorpecidos e as feridas da alma em chagas vivas.

Durante a noite interminável e vazia oiço vozes mordazes que ecoam na minha cabeça até me deixarem louco de raiva, sobressaltado e com medo, muito medo.

Todos os dias sou humilhado e enxovalhado na escola. Quando me chamam maricas, uma raiva incontrolável começa a cozer dentro de mim e metamorfoseia-se numa fístula espinhosa que carrego nos ombros. Observo-os a jogar futebol: a sujidade, o suor enojam-me, recolho-me nos muros que construí em meu redor.

Houve um dia em que ao regressar da escola atravessou-se um pintainho no meu caminho, instintivamente dei-lhe um pontapé. O pinto ainda deu umas voltas estonteantes antes do estertor final: caiu teso no chão. Deitei-me ao seu lado, a minha respiração provocava uma brisa que lhe levantava suavemente as penas. Não sei quanto tempo fiquei deitado ao seu lado, as lágrimas corriam-me pela face até que uma pequenina e bruxuleante luzinha luminosa me começou a aquecer intimamente. Foi assim que uma realidade espantosamente transparente chegou até mim: Eu era Deus. Podia facilmente acabar com a VIDA, tinha acabado de o fazer com o Pintainho!

Pela primeira vez desde que a mãe partiu senti-me feliz, uma inconcebível alegria e força descomunal apoderaram-se de mim, senti nas minhas mãos um Poder Indestrutível, Inquebrável e Inabalável. Todo o meu medo, fraqueza, angústia e amargura desapareceram repentinamente. Senti-me apaziguado interiormente, agora sabia o que tinha a fazer.

Louco de alegria fui a correr para casa, na mesinha de cabeceira do pai estava a caçadeira que ele tão bem guardava. O cabrão ia agora ver quem mandava, quem era o Rei! Iria sentir toda a minha força e poder, iria olhar-me todo acagaçado nos olhos e reparar que eu era algo mais do que um saco de boxe.
Coloquei Beethoven a tocar no volume máximo, não queria pensar nem distrair-me, tinha uma missão para cumprir. Finalmente tinha um objectivo a atingir, o frágil Jeremias sem metas, desta vez tinha algo a realizar. O pai chegou ao início da tarde aos ziguezagues, ficou atónico e perplexo ao encontrar a casa mergulhada em Beethoven no seu expoente máximo. Ia ter um manjar celestial: uma bala no meio dos cornos misturada com álcool. Nham Nham…

Quando chegou à sala vinha já com o punho cerrado e a espumar raiva mas eu nem lhe dei tempo de levantar o braço: apontei-lhe a caçadeira e aproximei-me até ele ficar de joelhos com o cano no meio da testa. Vi o Terror nos seus olhos e antes de começar a fraquejar da minha missão disparei até acabar com todos os cartuchos.
Olhei para a sua face irreconhecível e interroguei-o: ficas-te agora a saber quem é Deus Todo Poderoso?

Sabia o que me esperava segui… Abasteci-me de balas na cave e parti para a escola. Todos os que se atravessaram no meu caminho foram abatidos, grandes cães. O pânico nos seus rostos estúpidos e anormais excitava-me a adrenalina. Procurei todos os cabrões que me vexaram durante todos estes anos. Colegas, conhecidos, desconhecidos, professores, empregados… não distingui credo, raça, cor dos olhos… foi tudo o que me apareceu à frente: afinal sou Deus e a TODOS amo igual.

Depois perdi os sentidos, quando acordei estava no hospital psiquiátrico de uma prisão de alta segurança. Apanhei prisão perpétua mas desde os incidentes que não pronunciei palavra: tudo o que tinha a dizer foi dito quando arrebentei os miolos a todos! Todos ficaram a saber o que precisavam de saber:
Eu sou DEUS!



Música: Jeremy - Pearl Jam
Livro: Aparição - Virgílio Ferreira
Filme: Bowling for Columbine - Michael Moore

Thursday, August 25, 2005

Desafios 2005/06 (por Silent Child)

Viva cibernautas!

Saúdo-vos como mentes criativas que se querem descobrir, progredir e libertar no espaço-tempo virtual :))

Vou agora lançar-vos não um ... mas, SIM, vários desafios.
E para todo um ano... Preparados(as)?

Bom, a ideia consiste em existir um grande estímulo, diferente, para cada um dos próximos meses. (Independentemente de cada pessoa poder continuar a utilizar este blog para os diversos fins para que foi criado... ou de poderem existir outros desafios... o que é sempre positivo)

Mensalmente, cada um(a) pode participar com vários registos se assim o desejar.
E estes textos/registos podem ser originais ou não. Podem ser em formato de poesia, conto, texto livre, reflexão, desabafo, desenho, foto, etc., podem constituir citações (devidamente especificadas e identificadas, com o autor, a fonte, a página ou álbum, ...) de livros, artigos, frases dispersas, entrevistas, sites, letras de álbuns musicias ou de filmes. É claro que não existem limites para a imaginação e a criatividade! Possam(os) ultrapassar o limiar do (im)previsível e, num relance, olhar mais além ;-)

Ok, aqui estão os temas, entre muitos outros possíveis, que proponho:

> Agosto/Setembro 2005 - tristeza, solidão, dor

> Outubro 2005 - egoísmo, ignorância, maldade

> Novembro 2005 - beleza, equilíbrio, harmonia

> Dezembro 2005 - mentira, hipocrisia, cumplicidade

> Janeiro 2006 - alegria, paz, esperança

> Fevereiro 2006 - ilusão, desilusão, realidade

> Março 2006 - perdão, ordem, liberdade

> Abril 2006 - nascer, renascer, transcender

> Maio 2006 - morte, perda, suicídio

> Junho 2006 - vida, consciência, inteligência

> Julho 2006 - medo, hesitação, culpa, julgamento

> Agosto/Setembro 2006 - amor, entrega, sabedoria

Agora a decisão de concretizar ou não esta ideia é Vossa... o o que pensam disto?

Alea jacta est!

As minhas melhores Saudações,

Silent Child

P.S.: Se quiserem, pode também existir uma votação mensal para eleger o trabalho preferido do mês...

Friday, August 19, 2005

Deep, deeper.... (é um pequeno texto, acabadinho de nascer, enquanto estamos neste "compasso de espera"...)

Quebra-se o espaço nos limites do inimaginável. A escuridão cerca, como um animal feroz e faminto, à medida que o tempo sufoca. Os gritos abafados diluem-se num frágil eco.
Quem está aí? Quem está aí, aí,aí..aí...aí......aí........aí.........aí
Expulsa-se a esperança, o eco surdo do retorno, o espelho da alma, o lugar daquilo que não se é, o espeço de quem não se sente.
Quem está aí? Quem está aí, aí,aí..aí...aí......aí........aí.........aí
Na pele sente-se um ar gélido...a luz cega e os estilhaços dilaceram o copro, cravam-se como agulhas no rosto e os olhos jorram lágrimas de sangue. O grito vem do fundo e rodopia nos ouvidos sem cessar, sem cessar..sem cessar......sem cessar.........sem cessar...............sem cessar
Algo que já não é...é......é...........é...................é......................é.............

Tuesday, August 16, 2005

DCP - Predador, por Der Uberlende (já que não tenho férias...)

Para ler ao som de:

Nick Cave and The Bad Seeds - Stagger Lee
Sister Machine Gun - Strange Days (cover dos Doors)
ou
Cradle of Filth - Mannequin (para quem estiver meeeesmo com stress de quem PRECISA de férias com URGÊNCIA!!)


here it goes...


Predador

Todos sabem quem eu sou.
Desde a escola primária que se habituaram a ser postos em segundo plano perante a minha presença. É natural, os deuses foram benfazejos comigo. 1,85 de homem, cabelo louro e suavemente encaracolado, olhos verdes de matador, um semideus de bronze e ouro, eis como todas elas me vêem. Desde a escola primária que estou acostumado ao arrasar de corações, ao destroçar de esperanças e despertar de paixões, aos gritos e sussurros que prometem todas as facilidades. E eu aproveito-as! Se é isso que elas querem, é isso que lhes dou. 1,85m mais 24cm extra se se portarem bem, e se tiverem o corpo que o mereça.
Eu nem me esforço... é só mostrar-lhes o sorriso perfeito, semicerrar os olhos verdes de matador e conduzir-lhes a mão de modo a tocar-me nos abdominais... e está feito! Depois há os gajos delas, mas com esses posso eu bem. O ginásio dá muito jeito para levá-las para a cama, mas mostra aos imbecis que os posso levar para o coma. É porem-se na alheta enquanto podem e há que deixar o rei banquetear-se. De certo, não faltam ai gajas de sobra para eles, fiquem com as gordas, as freaks, as enjeitadas, as feias, deficientes e os restos, entretenham-se. Ou então esperem que eu acabe de me divertir. Sirvam de consolo, depois de elas perceberem que o carrossel só gira enquanto me apetecer. Entretanto ainda vão andar ali 4 ou 5 dias agarradas ao telemóvel à espera do telefonema que não vai chegar. Se tiverem sorte, e se forem realmente uma boa queca, aturo-as por 2 ou 3 semanas, até elas virem com ideias de apresentações aos amigos e compromissos. O meu único compromisso é entre mim e elas e o método contraceptivo em serviço. Se não usarem nada, podem sempre ir abortar a Espanha ou parir os putos e entregá-los à Santa Casa, tanto me dá!
Esta noite é mais uma das minhas noites, em que vou até à discoteca por onde passeia o melhor gado da actualidade, a ver se saco um petisquito para a ceia.


... – Lá está ela, a loira de cabelos compridos e cigarro na mão, a fingir que não me vê. Só que os olhos dela traem-na, e deslizam demasiadas vezes para o meu peito, a um palmo de distância dos meus anzóis verde-esmeralda... Olha que a amiga também não é nada má..., se calhar hoje temos prato de peixe e de carne... –


Pivot da TVI:
- Mais uma vítima da série de crimes horrendos que tem varrido a noite lisboeta. Não perca já a seguir ao intervalo! –


(Nódoas difíceis como chocolate, azeite ou até sangue já não são problema! Agora com o novo Brankwash™ a sua roupa volta a ficar limpa e fresca. Agora com aroma a essência de pinheiro e eucalipto-do-chile!)



Pivot da TVI:
- Muito boa tarde. Esta noite deu-se mais um horrendo episódio da série de crimes já denominada “carne fresca”. Crê-se que mais uma vez estamos perante a obra das duas serial killers brasileiras que atraem as vítimas, homens jovens e com perfeita complexão física de preferência, através do convite para situações de intimidade a três. A vítima desta noite chamava-se Gonçalo Santos e Lima e era um conhecido playboy da noite glamourosa de Lisboa e Cascais. O procedimento das presumíveis autoras do homicídio macabro foi semelhante ao que já acontecera antes às suas mãos. A vítima é drogada e é feita a colheita de todos os seus órgãos passíveis de virem a ser utilizados no mercado negro de transplantes, desde as córneas ao coração, passando pelo fígado e rins, e mesmo os pulmões e o pâncreas. Este crime revestiu-se de um véu de atrocidade ainda maior. A informação de que dispomos é doentia e poderá ferir (certamente!) as susceptibilidades dos nossos telespectadores, donde que sugerimos (VEJAM VEJAM!!!) a maior descrição. Junto ao corpo deixado na banheira, quase vazio de entranhas, a polícia fez uma descoberta surpreendente em todos os aspectos. Ao levantar o tampo da sanita, os agentes da autoridade depararam-se com o escalpe do couro cabeludo da vítima, assim como dos seus olhos e os orgãos genitais... –



16 de Agosto de 2005,

Der Überlende


Monday, August 15, 2005

Desculpem!

Não deixei espaços no meu texto!

Peço desculpa! Torna-se difícil ler, desta forma. Ainda não estou adaptada ao (muito giro) novo template!

Um momento de amor nostálgico

Ainda estou a imaginar o meu próximo texto para o blog,
entretanto, gostava de vos deixar com um dos temas mais perfeitos da história da humanidade

continuação de boas férias

d.u.



Nick Cave › Are You The One That I’ve Been Waiting For?

I’ve felt you coming girl, as you drew near
I knew you’d find me, cause I longed you here
Are you my destiny? is this how you’ll appear?
Wrapped in a coat with tears in your eyes?
Well take that coat babe, and throw it on the floor
Are you the one that I’ve been waiting for?

As you’ve been moving surely toward me
My soul has comforted and assured me
That in time my heart it will reward me
And that all will be revealed
So I’ve sat and I’ve watched an ice-age thaw
Are you the one that I’ve been waiting for?

Out of sorrow entire worlds have been built
Out of longing great wonders have been willed
They’re only little tears, darling, let them spill
And lay your head upon my shoulder
Outside my window the world has gone to war
Are you the one that I’ve been waiting for?

O we will know, won’t we?
The stars will explode in the sky
O but they don’t, do they?
Stars have their moment and then they die

There’s a man who spoke wonders though I’ve never met him
He said, ’he who seeks finds and who knocks will be let in’
I think of you in motion and just how close you are getting
And how every little thing anticipates you
All down my veins my heart-strings call
Are you the one that I’ve been waiting for?


DCP- Os corredores

Olá, viva!
Tenho andado muito arredada, meio tolhida e sem inspiração. Não tenho o mínimo jeito para escrever sobre crimes...hesitei muito em mandar este texto para o desafio. Está acabadinho de fazer...duvido que interesse, sinceramente. Foi a inspiração de momento. Não li ainda os outros para não me sentir influenciada...vou ler logo que publique o meu texto. Bem, aqui vai...não há-de ser nada.
A música, "Waves become wings"-This Mortal Coil. É o que estou a ouvir desde que comecei o texto.
Foi sem querer! Foi sem querer. Eu amava-a mais do que a mim própria. Foi sem querer! Repito estas palavras para mim mesma, vezes sem conta. Arrasto-me por estes corredores sempre iguais, impecavelmente assépticos. São o lugar mais impessoal do mundo. Tudo aqui é distância.
Não sou só eu que digo foi sem querer. Os médicos, os enfermeiros e todos os que por aqui se arrastam, sussurram-me ao ouvido foi sem querer, foi sem querer.Não te martirizes, Antónia, foi sem querer. Eu sei que foi sem querer. Vão por-te boa aqui, vais ver. Vão por-nos boas aqui, vais ver, diz Carolina, uma rapariga muito nova que envelheceu e se cansou nda vida. Após inúmeras tentativas de suicídio falhadas, passou a arrastar-se por estes corredores com aquela camisa de dormir quase tão branca como a sua esquálida pele. De olhos vazios, rosto magro, lábios gretados, ela sussurra a todos os que encontra pelos corredores : foi sem querer, eu sei que foi sem querer.
Sento-me exausta num dos bancos, algures num dos corredores todos iguais. Solto os ombros, atiro a cabeça para trás. Sinto-me tonta, a desfalecer.
Estes corredores, estes sons arrastados. Sinto dor. Sinto que morro, aqui, aos poucos. Carolina procura, deseperadamente, todos os dias, alguma coisa com que se possa trespassar, definitivamente, enquanto sussurra, de forma absurda a quem passa: eu sei que foi sem querer, eu sei que foi sem querer.
Não sei há quanto tempo estou aqui. Nunca ninguém apareceu. Também nunca tive ninguém. Arranquei ao mundo, com as minhas próprias mãos, quem eu mais amava. Não há mais nada. Oh, meu Deus! Foi sem querer, foi sem querer, repito, repito, repito....
- Segure-a bem, enfermeira Andreia. Tenho de lhe dar outra injecção, bem mais forte. Ela tem de descansar- disse uma das médicas que aparece no meu quarto de vez em quando com uns papéis, uma caneta e aquele ar de quem sabe ler pensamentos. Mas não sabe. Não sabe nada. Ela não sabe.
Eu amava Ana. Amava-a mais do que a mim própria. Ana não compreendeu nunca. Eu não podia permitir que ninguém e, muito menos Ana, brincassem, zombassem com o que eu sentia. Naquela noite eu estava furiosa. A Ana tinha saído para ir tirar umas fotocópias que precisava para terminar um trabalho que tinha de entregar na faculdade. Disse que não demorava nada. Até já!, disse. Regressou 6 horas depois, nos braços de uma colega com quem tinha ido beber "qualquer" coisa. Estava completamente embriagada. Riu-se às gargalhadas quando me viu. Zombou da minha preocupação. Insultou-me. Chamou-me tarada, esquizofrénica e desequilibrada. Disse-me que eu tinha de arranjar urgentemente um namorado. Fiquei transtornada, desvairada. Controlei-me. Tratei dela. Ela precisava de mim. Pu-la no chuveiro, ajudei-a a vestir o pijama enquanto ela continuava a dizer aquelas coisas. Fiz-lhe um chá de ervas. Abri-lhe a cama. Ajudeia-a a deitar-se. Ajoelhei-me ao seu lado. Levei a palma da sua mão esquerda ao meu rosto e beijei-a delicadamente, enquanto sussurrava o seu nome e as lágrimas rolavam silencisamente pela cara abaixo.
De repente, Ana sacudei a mão. Afastou-me bruscamente e chamou-se louca e desequilibrada.
Não sei o que se passou. Algo aconteceu dentro da minha cabeça, do mei peito...enchi-me de uma fúria ofendida, desaveinda, de um orgulho humilhado, de um amor que não conseguia conter e atirei, furiosamente, as minhas mãos para o seu pescoçoe apertei, apertei, apertei, apertei e chorava, choraa, chorava....apertei até o pânico esguichar dos seus olhos vermelhos. Debateu-se, mas não tinha forças. Continuei a apertar, a apetar...larguei. Ana sussurrou qualquer coisa. Fui a correr à secretária, ao fundo do quarto, buscar a minha faca de abrir a correspondência e espetei cada bocadinho do seu corpo. Precisava de sentir o sangue dela na minha pele. Ana! Ana! O que é que eu fiz? Ana! Ana! Desatei a gritar...não sei quanto tempo isto durou..lancei-me a correr pelas escadas abaixo até ao exterior do prédio...lembro-me de correr, correr...o sangue da Ana estava quente, na minha pele...mais nada...Ana, Ana...
Amor, meu amor...foi sem querer...Ana, meu amor...
O tempo parou. Não sei. Quando me lembro de mim, já aqui estou nestes corredores. Não sei o que mais se passou. Não sei onde enterrarram a minha Ana. Não sei onde ela está. Entre o momento em que corri pela rua fora cheia do sangue no meu corpo até ao dia em que acordei aui, não há nada.
Foi sem querer, foi sem querer. Repito incessantemente para mim própria estas palavras. A dor do olhar de Ana, o seu pavor, turvam-me os olhos e as lágrimas pingam sobre o meu orgulho ferido. Não podias, Ana. Não podias ter feito aquilo...Ana, Ana...
- Deixe estar, enfermeira. Está bom. Ela já fica. Amanhã dá-se mais.
- Está bem, Dra. Eu vou ao outro casal.
Ana, Ana...tu sabes que foi sem querer...foi sem querer...

Thursday, August 11, 2005

DCP - Palácio Eterno por Lua de Inverno

Mensagem da Lua de Inverno

Aqui vai a minha participação no desafio que lançaram no Luz e Sombra - "Palácio Eterno".
O tema de fundo que sugiro é "Stein um Stein" dos Rammstein, principalmente por causa da letra. Espero que gostem ;)

Ah,é verdade... O texto tem aproximadamente 500 palavras, parece que o tamanho me serviu para os vossos desafios :P
Beijinhos,
Lua de Inverno


Palácio Eterno

Tão linda, meu amor, tão linda! Como descrever a beleza dos teus cabelos atados à pressa, das tuas mãos cruzadas como asas atrás das costas, das pernas juntas como o tronco de uma árvore que te prendem ao chão para não voares… Como explicar o temor que se apodera de mim quando te vejo tão bela? Ah, o receio de me saber dono da jóia mais valiosa do Mundo! És tão linda, tão linda no teu medo, no teu pânico… A tua boca num sorriso rasgado pelo pano que te impede de falar, os teus olhos rebolando nas órbitas em busca de ajuda… Mas não precisas de mais ajuda, pois não minha querida? Eu sou tudo o que tu precisas… E vou proteger-te do resto do mundo, não tenhas medo…

Oh, não chores, não tenhas medo, minha pequenina. Ninguém te vai conseguir atingir no castelo que vou construir para ti… aí ficarás segura, ficarás longe das garras maquiavélicas dos abutres que constantemente sobrevoam a tua cabeça, ficarás longe dos fantasmas que se alojaram debaixo da tua cama, esperando o momento certo para te levar com eles. Terás o teu próprio palácio, minha princesa, serás dona e senhora do teu domínio e ninguém te tocará…

E sabes quem te vai construir o palácio, meu amor? Sou eu… Eu colocarei pedra sobre pedra até ter uma fortaleza que te imunize do mal do mundo, que te esconda da maldade e da impiedade dos homens que te vigiam de noite e de dia, que te cobiçam mesmo quando caminhas a meu lado no parque, que te desejam mesmo quando me beijas. O que é isso que queres dizer? Porque abanas essa cabecinha linda e dourada que reluz ao sol? Achas que não? Pensas que eu sou cego? Pensas que eu não vejo como eles te querem? Não, não tentes gritar, ninguém te vai ouvir… E quando estiveres no meu palácio, no meu castelo, na minha fortaleza – oh, deliciosa antevisão! – podes gritar o que quiseres… As paredes serão grossas, nenhum som perpassará, nenhum lamento será ouvido! Para mais, construirei o teu castelo aqui, mesmo ao lado da minha casa, para estares sempre ao meu lado. Vês algum vizinho? Vês?! Não… bem me parecia… apenas os pinheiros como testemunha, não é minha querida?

Agora fica quietinha, por favor, não te quero magoar… Os primeiros tijolos nem custam nada se não tentares mexer as pernas. Vês?! Já comecei… pensa nisto como um manto de ferro que te protege das armas dos inimigos, como um escudo, como uma redoma, está bem? Vês, meu amor? Esse teu corpinho sedutor já está quase tapado, já só te vejo a cabeça…

… deixa-me beijar-te uma última vez, antes de te enviar para o exílio da tua segurança… O quê? Não queres?! Mas eu só quero o teu bem! Não me deixas beijar-te? Queres enfurecer-me? Ah, não deixarei nenhuma janela, não deixarei nenhum buraco por onde possas soprar esse vento venenoso que só me vem atormentar!

Adeus, minha princesa, goza esse palácio eterno onde te venho enterrar!

11 de Agosto de 2005

Lua de Inverno


Wednesday, August 03, 2005

DCP - A Modelo por Der Überlende

proposta de temas de fundo

Nine Inch Nails - Something I can never have (versão OST Natural Born Killers)
ou
Marylin Manson - I put a spell on you (OST Lost Highway)
ou, se estiverem particularmente bem dispostos
Kraftwerk - The Model



A modelo

Desde criança que idealizava este dia,
juntando pedaços de sonho e fantasia,
o acto sublime da criação,
transformação da ideia em carne, tecido e cabelo,
da minha boneca, a minha modelo

Pele macia como a de um querubim
quero-a toda, quero-a só para mim
prende-la dentro do meu coração
cheirar sua carne, sorver com sevícia
amar com violência cada beijo ou carícia

Vou perseguir a sua boca, roubar cada beijinho
Juntar o seu fôlego dentro de um frasquinho
E não contar a ninguém do meu tesouro
saber que ela vive porque o permito
movendo seu corpo de ardor e delito

Observo-a a sair da porta da escola
de ar confiante, transportando a sacola
cheia de lápis de cor e inocência
Agora morde o lábio, ata o sapato
eu aguardo cá fora pelo momento exacto

O tempo voa para ti, minha menina adorada
O tempo mata-me a mim, facada a facada
e deixa-me morto, alma imaculada

Eu lembro-me de ti, ainda nem tinhas nascido
recordo como era meu coração partido
e do cheiro das longas noites em branco
das visitas crueis de amor paternal
das cicatrizes na minha alma imortal

Também eu boneca, fui divertimento
nas mãos de quem esperava alimento
somente descobri mais e mais sofrimento

E quando me sento em casa a ver a TV
é a tua carinha que em cada mulher se vê
repetida vezes sem conta, vezes sem conta...
e desperta o desejo numa espiral sem fim
de te fazer só minha, só para mim

E penso e repenso em como faze-lo
moldar-te a ti, a minha modelo
feita de carne, pele, osso e cabelo

A manhã nasce, sem deformidade ou defeito
E eu abro os olhos, encho o peito
do ar frio e seco sorvo o éter
e sei que nem me devo atrever a levantar
nem ir ao portão da escola por ti esperar

Hoje o dia é para na cama ficar
e deixar a demência lentamente arrastar
esfumar os sonhos da infância que não o foi
do papá que amava seu menino adorado
e do sexo carnal de amor decepado

Lembro-me de ti, do primeiro sorriso
deste-me tudo o que era preciso
agora quero mais, o que posso e não posso
moldar-te a face, quero tocar-te,
quero sentir o que é amar-te

vejo um corpo que agora floresce
teu peito, teus lábios, tudo em ti cresce
ao ritmo que a minha saninade senesce

E ver-te perfeita, corpo de bailarina
recordo outra vez a minha menina
de como ela era, de como ela é
aproximo-me agora, com novo alento
prepara-te boneca para o teu tormento

Adoro esse sorriso no colo do papá
ver-te abraça-lo quando ele te dá
um beijo terno nas faces rosadas
na minha mente recordo outros episódios
de dor, tortura, esgares e ódios

É por isso que agora te amarro e te conto
o que te vou fazer, ponto por ponto
explicar-te maninha o que é sofrer
talhar tua face, cortar teu cabelo,
fazer de ti a minha modelo


2 de Agosto de 2005,

Der Überlende


Decadência Literária?

Enveredei por atalhos diferentes como leitora. Posso passar o dia inteiro a ler mas já não devoro freneticamente todos os livros como antigamente, sempre num desassossego debilitante de passar ao próximo. Não. Hoje em dia já não é assim. Já não leio ou aceito tudo o que me vem parar às mãos. Pelo contrário, rejeito-os ou abandono-os logo de início. Ao entrar nas livrarias sinto-me esbofeteada por todas as novidades recém-chegadas, causam-me náuseas, enjoam-me. Perdi a vontade de ler as contracapas ou mesmo de lhes dispensar o mínimo de atenção.
Após cada leitura concedo muito tempo a pensar no que acabei de ler. Talvez por isso as minhas leituras sejam extremamente fleumáticas e obstinadas. Mas fazem-me sentir bem, fazem-me pensar que talvez esteja a aprender alguma coisa realmente importante. Lancei-me há dias na literatura grega. Depois de uma pesquisa sobre Ésquilo, comecei a ler o "Prometeu Acorrentado". Durante o período lectivo, todos os dias ao chegar à Universidade do Minho sou recebida pela estátua de Prometeu logo à entrada. Há três anos que passo todos os dias por ele e só agora começo a conhecer e compreender o seu significado. Porquê perder tanto tempo em romances e historietas de ‘chacha’ que apenas conduzem à completa inércia e letargia mental? Hoje olho para a minha lista de leituras do último ano e reparo que, salvo raras excepções, sempre me agarrei ao mais fácil e imediato, leituras para embalar antes de adormecer…. Não quero mais isto! Se temos acesso ao que de melhor há em literatura para quê ler as frivolidades mais baixas e primárias? Tenho vindo a aprender a desperdiçar livros que não me interessam para nada.
Resta-me dizer que toda esta modificação se começou a produzir depois de um manjar substancial: "Walden ou a vida nos bosques" - Thoreau.

ps - regressei de férias, como estou por casa sem fazer um chavo vou começar a responder ao desafio crimes perfeitos

Desafio Crimes Perfeitos - dar som ao DCP

Olá a todos

Tenho uma sugestão:
Quando comentarmos qualquer dos textos publicados no âmbido do DCP deviamos indicar qual a trilha sonora indicada para o texto em questão.

um exemplo:

"Hoje matei-me" da Sweet Serenity para mim lê-se ao som de "Hurt" dos Nine Inch Nails ou então "Alone" dos This Mortal Coil


boas escritas,

d.u.

Tuesday, August 02, 2005

Desafio Crimes Perfeitos - Hoje Matei-me por Sweet Serenity

E está aberta a primeira sessão do DCP (Desafio Crimes Perfeitos poixtáclaro!)
A primeira a subir ao palco é a Sweet Serenity

aqui vai um abanão para agitar esta silly season

enjoy

d.u.

- Hoje, matei-me -

É hoje que me mato.

Falta-me pensar numa forma de o fazer. A ideia dos compridos associo-a a uma morte indesejada com o objectivo de chamar a atenção. A ideia de me atirar para debaixo de um comboio não me satisfaz; é demasiado rápida, não se sente a dor como se deveria. Quero sentir a vida esvair-se do meu corpo. Quero sentir as picadas da morte roçarem a minha carne até aprofundarem a ferida da dor. Quero morrer de dor! Há quem diga que ninguém assim morre, mas eu quero. E como é hoje que o quero, vou contrariar os instintos que se apoderaram de mim por todos estes anos fétidos e vou ter iniciativa. Sim. Vou começar algo e vou acabá-lo. Vou ter a força de vontade para elevar o meu espírito e materializar uma ideia, escapando assim do mundo ilusório em que sempre vivi; um mundo de pensamentos, teorias, intenções, suposições…! Vou construir algo. E vai ser algo que vos vou poder mostrar. A seu tempo tudo se irá compor. Hão-de ver a minha energia numa criação minha. Numa criação minha, minha! Eu vou fazer algo… nem acredito nisto. Não posso perder tempo novamente com divagações.

Vamos ao que interessa: a forma de me matar. Será uma criação vermelha, pintada com o meu sangue. A ideia de cortar os pulsos não me sai de mente, mas não é original, vão desprezar a minha criação por ser repetida. Como me mato então? Algo que doía muito. Tem que ser com dor! Não pode ser de outra forma porque é de dor que quero morrer. Já o disse e repito.Posso escrever Dor bem fundo na barriga e deixar o sangue escorrer até o corpo secar. Assim alio o desejo de morrer de dor à vontade fatal de escrever. A escrita da morte em mim. Eis uma ideia bonita. A navalha está já ao meu lado, juntamente com os meus outros instrumentos: a caneta e o papel.

Tenho o cenário perfeito! Um chão frio de cimento carregadamente cinzento e nada e ninguém ao meu lado exceptuando o meu consolo: os meus instrumentos. Mato-me com o que mais gosto. Mato-me da maneira que quero e realizando um desejo velho que havia guardado há já um tempo na gaveta dos pendentes.Deixei as roupas à porta de entrada. Sempre gostei da arte do nu e é assim que me vão fotografar quando me encontrarem. Vai ser tão belo... Espero poder apreciar esse momento do outro lado, como lhe chamam. Vão me encontrar na posição em que nasci, escondendo a Dor em mim, assim abraçada pelos meus braços, guardando-a bem junto ao peito que deixará de respirar em breve. Sim, vai ser a minha criação final, mas vai ser a melhor que alguma vez terei feito. Duvido que conseguisse, algum dia, fazer alguma que superasse esta que estou prestes a começar. Assim, despeço-me deste esterco numa beleza jamais vista por mim e pelos que me conhecem. Estou ansiosa por ver as expressões nas caras deles. Não que isso seja muito importante, mas quero
ver reacções; é sempre bonito.

Inspiro fundo… não por receio, mas por ansiedade. Não paro de repetir mentalmente que vou, finalmente, iniciar e finalizar algo com as minhas próprias mãos. Pego na caneta para desenhar as letras da Dor na minha barriga. Uma letra seguida da outra com espaço suficiente para não se atropelarem, para se distinguirem maravilhosamente umas das outras. A tinta sinto-a fria e é um primeiro sinal de que a minha criação começou. O papel ao meu lado está preenchido como há muito já não estava. Este dia é meu! A caneta já não treme nos meus dedos, está firme e desenha. A minha caneta desenha! Já não me lembrava de tal coisa. Estou prestes a emocionar-me, mas tenho que continuar, tenho que combater os meus instintos por mais fortes que eles aparentem ser. Pego na navalha com cuidado para ter a certeza que não me engano em nenhum passo. Levanto-a, agarro-a com firmeza e começo a desenhar com determinação. Já dói… Dói e os meus lábios erguem-se num ligeiro sorriso. O D está desenhado e sangra. O o ganha vida e seguidamente o r. O sangue escorre lentamente da barriga para as virilhas e daí para o centro de fertilidade. É tempo de me deitar… A caneta ensanguentada está sobre o papel que agora vive. Deito-me, abraço-me e fecho os olhos a metade.
A dor torna-se aguda e invade-me o corpo como nunca. Sinto as feridas abrirem-se como quem se encontra no processo de nascimento. Gostava de poder descrever esta dor por que tanto ansiei, mas é demasiado real para a retratar só com palavras. A dor é tanta que de mim e dela já não há linha separadora. Somos uma. Unidas para a morte que se avizinha. Aos meus olhos o cinzento carregado, nos meus ouvidos o zumbido do silêncio e do escorrer do sangue. Sorrio… eu sorrio! Olho-me o melhor possível para que possa fechar os olhos e ficar com a imagem da minha criação gravada nas pálpebras.


Sei que a minha expressão facial é a de alguém que dorme tranquilamente um sono de satisfação. Consegui finalmente… Quem me achou incapaz de fazer algo por mim? Mais cedo ou mais tarde todos acabam por encontrar o seu momento de felicidade. Eu encontrei-o hoje.


18 de Junho de 2005

Sweet Serenity


 

referer referrer referers referrers http_referer