Luz e Sombra

Monday, November 28, 2005

DT Novembro: Beleza, Equilíbrio, Harmonia; por Silent Child

Olhar Interior

Escalámos altas montanhas
mergulhámos no mar profundo
e auscultámos
o imenso espaço sideral
(até aqui tudo normal...)
mas mal olhámos o mundo
em que a nossa existência
(tem magnificência e onde)
perdura sob um alento imortal.

Estamos rodeados de seres
(e cada um de nós é... mais um)
navegamos num mar de informação
mas... mantemo-nos em comunicação?
Sobrevalorizamos os prazeres
mas... quando paramos
sentimos a sombria solidão.

Se na cega vertigem
a que chamamos viver
nos afastamos do centro
como podemos perceber
tudo o que temos cá dentro?

Na busca do poder e da certeza
encontramos a insegurança,
acabamos por nos perder
e escamoteamos a Beleza.
Perante o fervor
para conseguir triunfar
onde fica o amor?
O que estamos a realizar?

Procuramos ardentemente
no exterior
e vedamos, comodamente,
o Olhar Interior.
Na hesitação em procurar
um ponto de equilíbrio
pensamos andar equilibrados
mas continuamos a marchar
confortavelmente anestesiados.

O que há
para lá desta capa?
Que roupa é esta
que me tapa?
O que teimo
em esconder?
Não haverá um momento
para olhar
com olhos de ver
tudo o que há cá por dentro?

A verdade que eu busco
estará na identidade
que eu ofusco?
A minha identidade
não está no que querem
que eu seja
e que seja fácil
de classificar,
está além do desafio
para que eu seja
capaz de me observar
e sintonizar.

No encalce
do que em si vibra
numa derradeira tentativa
de o observar
no limiar da vida
por abraçar
o Homem resolve matar(-se)
sem saber que asssim
nunca O irá abraçar
e jamais irá libertar-se.

Perante a morte
perdemos o norte.
No suicídio
vemos um martírio.
Face à Vida...
oh, nobreza escondida!
Onde está o tal portal?
Quem somos nós afinal?
Meros seres mortais?
Entregues à sorte aleatória...
oh, ignorância ignóbil!
Enoja-me esta história.
Mostra-me o reverso desta tristeza...
Encontrarei lá a Beleza?

Se os sonhos não são reais
então
deixem-nos ser anormais.
Entre a ilusão
e a (suposta) realidade
aspiramos o (doce) aroma
da eternidade.

A beleza é
tudo o que fica por (querermos) entender
quando julgavamos já tudo
ter pensado e sentido
(de coração aberto).
O equilíbrio é
o ponto no qual quase caímos
e nele caminhamos (e arriscamos) sem hesitar
(de mente alerta).
A harmonia é
o momento em que nos revemos claramente
na pequenez que não ousaramos ver
(e admitimos a grandeza ainda por florescer).
Com os olhos encantados
pela beleza
e os ideais alimentados
pelo equilíbrio
podemos afirmar a vontade
e podemos aspirar à harmonia
da verdade
e ao fogo da sabedoria.

Há muito que nos perdemos
numa vivência oca e vazia.
É tempo de entendermos
O que nós temos cá dentro.

por Silent Child

Friday, November 25, 2005

Can´t take my mind of you..


Imersa num trabalho alucinante, pareço ter desaparecido, mas não...vou escrever, prometo, prometo...agora deixo-vos, a todos, com o que sinto agora, nas palavras do D. Rice: I can't take my eyes off of you...I can't take my eyes off you...I can't take my mind off of you...I can't take my mind off you..

Monday, November 21, 2005

O Covil

«Arranjei o covil e parece que me saí bem. Do exterior vê-se apenas um grande buraco, mas na realidade esse buraco não conduz a parte nenhuma (…) Porém, a uns passos do buraco, abre-se a verdadeira entrada, coberta por uma camada de musgo, que eu posso levantar: se há neste mundo alguma coisa segura é este lugar.»
Franz Kafka - “O Covil”


Que buraco seguro e quentinho que eu arranjei… É o meu abrigo e não há cerco mais sólido, tranquilo e doce que este. Quando o mundo exterior me aborrece, importuna ou consome fujo para este recanto, rodeado por sebes que há muito deixei de podar. Para proteger o meu casebre construí várias armadilhas aptas a deglutir o inimigo num segundo. O pior é que por vezes me distraio na vigia e tropeço nos meus próprios artifícios. Tenho então que lutar para me tentar livrar do covil, de proprietária passo a prisioneira e para conseguir fugir tenho de deitar abaixo os muros que com tanto cuidado e estima construí. Depois quando me apetece regressar há que voltar a reerguer as barreiras para mais tarde as destruir. Trabalho árduo, cansativo e repetitivo...

Oh, I really wish
“Break on through to the other side”

Friday, November 18, 2005

DT Novembro: Beleza, Equilíbrio, Harmonia?

Aviso: Este texto não é inocente. Não o aconselho DE TODO a pessoas mais sensíveis. Não é gore, nem terror ...nem muito óbvio porque faço este aviso...
É apenas um aviso 'à navegação', o lado emerso do iceberg é 9 vezes menor que a parte submersa
agora seguem por vossa conta e risco

Der Überrr


Ritual da Dissolução

I Momentum
Abre a porta da Mente
Liberta os grilhões da Alma
Agora és vulnerável
Oferece o peito à Tempestade que se aproxima

II Momentum
O medo não tem lugar aqui
O amor não tem lugar aqui
A piedade não tem lugar aqui

III Momentum
Observa a Luz que transita
Sente o calor que irradia
Prova o sal das minhas feridas
Estás cada vez mais perto

IV Momentum
O medo não tem lugar aqui
Se sentes medo desiste

V Momentum
O Amor não tem lugar aqui
Se tens amor por ti desiste

VI Momentum
A piedade não tem lugar aqui
Se acreditas que serei piedoso desiste

VII Momentum
Se resististe até aqui já não podes desistir
Eis que chegamos ao Ponto de Não Retorno
Agora começa o Grande Ritual da Dissolução

VIII Momentum
Pão, Carne, Vinho, Sangue
Sémen, Terra, Leite, Mercúrio
No teu peito está a Chave
Para aceder à Câmara Secreta
Onde Ela nos Ilude e Se esconde

IX Momentum
Onde havia calor é agora gélido
Pois eu penetrei nos Seus aposentos
E ela sorriu para Mim
E Ofereceu-se a Mim
E Ligou-se a Mim
E Abandona-te a Ti

X Momentum
Ela dança no Jardim da Eternidade
Ela bebe da Fonte da Imortalidade
Ela controla a Força e a Virtude
Ela é a Luz
Ela saiu da Câmara
E deixou lá o Negro e o Vazio

XI Momentum
Maria chora no seu trono de pedras e espinhos
Ela sabe que a Tempestade chegou aos Céus
E o seu Filho será para sempre impotente
A Guerra pelas Almas dos Mortais está aberta
E uma a uma são colhidas e levadas
Mas o Grande Paraíso está vazio

XII Momentum
Estamos juntos no Jardim da Eternidade
Bebemos todos da Fonte da Imortalidade
A Grande Mãe é a nossa Força e Virtude
Pão, Carne, Vinho, Sangue
Sémen, Terra, Leite, Mercúrio
Não mais vestiremos Carne Mortal

XIII Momentum
É tudo uma Fantasia
Imagens, Formas e Sensações
Tudo Ilusões
Agora dorme
Pois quando acordares estarás completamente só


18 de Novembro de 2005,
Der Überlende

Wednesday, November 16, 2005

D.T. Novembro: Beleza, Equilíbrio, Harmonia; por Earworm

Olá a todos. Já tinha saudades de aqui deixar qualquer coisita. Respondendo ao desafio de Novembro, decidi dar a minha versão (pouco ortodoxa) de Beleza, Equilíbrio e Harmonia. Para a próxima sai melhor. Por enquanto, é isto que estas 3 palavras juntas me fazem lembrar.
Um abraço a todos.


ZEN

Tudo aqui é branco; as paredes, as cortinas, o edredão da cama alta e larga onde só eu durmo, as orquídeas japonesas, o tapete de lã virgem, a cama de dossel comprada num antiquário (disseram-me que pertenceu a uma raínha-por-ser, suicida).
Tenho um armário para a roupa de Inverno (que é toda preta), outro para a roupa de Verão (que é toda branca).
Tenho um jardim de Inverno com Aves do Paraíso e begónias e estrelícias e outras flores alienígenas e hera a trepar pelas paredes e aranhas a fazer ninhos entre ela.
E um gato persa que vê fantasmas.
Tenho este espaço todo só para mim. Tenho silêncio. O silêncio é branco, sempre achei, e feito da luz das manhãs de Inverno, quando te enrolas na cama e cegas de tanto sol.
Não como carne nem peixe. Só sementes, como os pássaros. Só vegetais e fruta que caiu dos ramos. Como Newton.
Mas, ao contrário dele, engano a gravidade. Engano os anos. A minha pele é alabastro. Não apanho sol. Não fumo, não bebo, não reparto fluidos, não rezo. (Deus morreu. Deus sou eu.) Prezo muito a minha espitualidade. Cultivo-a como um bonsai. (Vou podando... podando... podando...) Mil cuidados.
Os homens são máquinas movidas a raiva e sangue e sémen. Poluem tudo. Poluem o silêncio. Ocupam espaço. Por isso sei estar comigo. Por isso aprendi a amar-me. O maior amor de uma mulher deve começar nela.
A minha vida é um poema Zen.
A minha vida é caligrafia japonesa: requer todo um ritual, horas de concentração e depois faz-se num só suspiro, numa exalação apenas. O resultado final está sempre a um passo da perfeição, negro sobre o branco. Irrepreensível, organizada. Pontual ao passo dos ponteiros. Uma bailarina numa caixa de música, numa redoma. Virem-me ao contrário, agitem-me e cairá neve.
Branca e silenciosa.

Saturday, November 12, 2005

DT: Novembro - Amor Utópico, por booklover

Aguardo a tua chegada, fervo interiormente para te conhecer, os teus olhos, as tuas expressões, a tua pele, o teu cheiro. Nos primeiros encontros iremos tremer só de estar na presença um do outro, a paixão cegar-nos-á para tudo o resto, só existiremos nós no mundo, nada perturbará a nossa paixão… Passarei noites em branco a pensar em ti, a desejar ouvir a tua voz e em ver a tua face. Vamos amar como nunca ninguém amou. Iremos descobrir-nos aos poucos, reconheceremos os nossos defeitos mas até esses serão insignificantes perante o nosso afecto. Vamos acender as nossas chamas interiores, tudo nos parecerá possível, não haverá obstáculos, afinal temo-nos um ao outro e o nosso amor, inquebrável, resistirá a todas as provações da vida. Banhados pela luz da lua, comunicaremos sem ser preciso falar. Quando não estiveres bem, eu sentirei imediatamente no meu coração sedento da tua presença, triste pela saudade. Suportaremos os momentos afastados com a certeza que os momentos juntos serão intensos, cheios de vida e energia. Como seremos felizes, poderemos viver na mais completa miséria material mas juntos sugaremos a vida até ao íntimo da nossa existência. Meu amor, espero por ti, aqui. Seremos uma só alma, um só coração.

“I just want something
I can never have…”

Thursday, November 10, 2005

DT Novembro - Beleza, Equilíbrio, Harmonia - by Stela

Beleza

Duas amigas na praia. O sol já quase se pôs, mas como é pleno Agosto, ainda se vê uma luz púrpura, apesar de já serem quase nove horas da noite. O mar está sereno, e as amigas riem-se.
Passaram um dia bom. Caminharam por sítios únicos, viram bichos e flores. Uma descobriu finalmente a flor que origina o cheiro característico das dunas, que sempre a confortou. A outra finalmente viu e identificou os famosos caimões que sempre quisera ver. «Acho que sim, estou a ver um!! Confirma lá…», pediu à amiga, dando-lhe os binóculos. A outra sorriu. «São lindos, não são?». Depois, cansadas, em passagem pela praia, decidiram parar.
A praia está vazia. Sem estranhos para observar, tiram as roupas suadas e entram no mar, os corpos absorvidos pelo lusco-fusco.

Equilíbrio

A primeira vez que andei de bicicleta, achei que nunca ia conseguir aprender… Aquilo não era para mim. Tinha 4 anos. E a bicicleta tinha rodinhas de lado. A segunda vez que tive que aprender a andar de bicicleta, já não podia pôr rodinhas de lado sem causar gargalhada geral. Tinha 24 anos. Hoje, vou de bicicleta para todo o lado. Mas às vezes ainda perco o equilíbrio.

Harmonia

- Repara bem, hoje é dia 7.
- Sim.
- Do mês quê?
(silêncio)
- Junho?
- Exacto, Junho! Mês 6!! E que ano?
- Oh pá, não me venhas com merdas…
- 2005!!! Já estás a ver?
- A ver o quê?...
- Eu nasci em Maio – mês 5 – de 76! Não é incrível??
- Tu fumaste alguma coisa antes de vires para aqui?
- Não. Quer dizer, sim… Mas isso não importa! É que… tipo… epá… às vezes parece que o universo está todo em harmonia…
- Claro…

Wednesday, November 09, 2005

Autobiografia em Cinco Capítulos

“1) Caminho pela rua.
Há um profundo buraco no passeio
E caio lá dentro
Estou perdido… não sei que fazer.
A culpa não é minha,
Preciso de uma eternidade para descobrir a saída.

2) Caminho pela mesma rua.
E lá está um grande buraco no passeio.
Finjo que não o vejo.
Caio outra vez.
Custa-me a acreditar que esteja no mesmo lugar,
Mas a culpa não é minha.
Ainda preciso de muito tempo para sair.

3) Caminhando pela mesma rua
Há um profundo buraco no passeio.
Vejo que lá está.
Mas caio… Já é um hábito
Tenho os olhos abertos,
Sei onde estou
Mas a culpa é minha
E saio imediatamente.

4) Caminho pela mesma rua
Há um grande buraco no passeio,
E passo ao lado.

5) Caminho por outra rua.”


retirado d' “O Livro Tibetano da Vida e da Morte” - Sogyal Rinpoche

Tuesday, November 08, 2005

is there anybody out there?

...are you there?...

Saturday, November 05, 2005

“Inconvencionalmente” belo; por Vera

“Inconvencionalmente” belo

Tinha-vos preparado um poema muito harmónico e bonitinho mas depois perguntei-me: “A quem é que queres enganar? Não é isso que tu realmente
pensas :) Não há nada mais belo para mim, hoje, do que encontrar beleza em algo que não o sugere...”
Beleza é encontrar equilíbrio em algo sem harmonia:

Luz Palavra Música Cor Alegria
Pétala Beijo Sorriso
Sol Virtude
Confiança
Medo
Chuva ignorância
Folha Insulto Lágrima
Sombra Silêncio Grito Escuro Tristeza


Podia descrever-vos uma bela paisagem, uma romântica história de amor, uma fantástica corrida mágica à felicidade, todas essas imagens convencionais de beleza e todos concordariam... Mas não existiria equilíbrio...
Existe o Outro lado, para mim, o mais Belo e fascinante... Que acentua a beleza do que nos parece tão Harmonioso.
Seria uma palavra tão bela se não soubéssemos o que é o silêncio? Ou um beijo tão apetecível se não conhecêssemos a sua ausência? Como conheceríamos o Belo sem conhecer o Feio? É nesta harmonia que reside a Beleza...

Vera Fonseca

Tuesday, November 01, 2005

DP2 - Cristal; por Der Überlende

o prometido é devido, aqui está a minha versão
O prazo para participar neste DP2 foi estendido até 17 de Novembro
Boas escritas!


Cristal – Parte II

Ela representava os restos mortais de uma linha aristocrática extinta e esquecida. O sangue que lhe corria nas artérias empedernidas pela velhice avançada era o último vestígio dos Khroner, a família maldita que regera aquele pequeno condado durante mais de 500 anos. No entanto, Angela era uma mulher altiva, muito segura de si e que nunca hesitava em fazer-se valer dos seus privilégios de derradeira Duquesa de Khroner. Era a primeira a ser atendida nas lojas da aldeia ou da vila, era-lhe reservado o que de mais fino havia para degustar e o que de melhor recorte havia para vestir ao seu corpo encurvado e senescente. Ela era gentil para quem se dirigisse a ela como Sr.ª Duquesa, admitindo mesmo que por uma vez ou outra se dirigissem a si como Sua Senhoria ou Sr.ª Khroner. Em relação a este último epíteto, o melhor era não abusar, pois mesmo Angela não gostava de ouvir o apelido infame demasiadas vezes, por muito estatuto que este tivesse.

Naquela manhã fria de Novembro, a Duquesa acordara com um solavanco violento que a fez erguer da cama repentinamente. Qual louva-a-deus bêbado, esbracejou inconsequentemente em busca dos óculos enquanto volteava a cabeça para um lado e para outro numa tentativa desesperada de perceber o que se estava a passar nos seus aposentos embebidos na obscuridade da pré aurora. Mas apenas o silêncio ensurdecedor se sucedeu ao tremendo baque abafado... E contudo, Angela sabia que já não estava sozinha... Levantou-se com a calma a que a nobilitas obriga e iniciou o seu ritual diário de toilette. Ao dirigir-se ao espelho de madeira de cerejeira do século XVII que tinha sobre o toucador com igual antiguidade verificou algo muito invulgar. A sua imagem não aparecia nítida e contrastante com o luminar bruxuleante das velas espetadas no tridente de prata brasonado dos Khroner. Ela mal se vislumbrava na superfície de cristal e prata, apenas uma névoa aparecia, e rodopiava no sentido contrário aos ponteiros do relógio, arrastando o tempo consigo para um ponto branco baço que era o centro de toda a actividade. Angela assustou-se e num acto de pânico atirou com o castiçal para o chão. Felizmente, as velas apagaram-se com o embate, não causando maiores estragos. Na penumbra de seu boudoir ela tentava recuperar lentamente o fôlego, quando subitamente lhe ocorreu uma antiga história que seu tio, o venerável Conde de Chambourcy, lhe contara:

O Vaso Eterno

Era um segredo antigo, dos tempos imemoriais que se sucederam à queda do Império Romano, quando os bárbaros saqueavam os despojos de Roma, Antioquia, Mediolanum, Carthago, Lutecia, Londinium... e o mundo civilizado entrava na agonizante primeira fase da idade das trevas, a era Medieval. Era o início da Escola Universal Alquimista, onde sábios romanos, persas, orientais, árabes, hebraicos, gregos, germanos, egípcios, normandos entre outros se uniram pela primeira e última vez. O intuito final era atingir os segredos maiores da magia divina, da alquimia dos soberanos do Universo, o segredo da imortalidade da alma, a pedra filosofal. Numa primeira fase, muitos destes sábios morreram em resultado de experiências mal sucedidas, de misturas mortais de componentes, vítimas de conspirações entre facções...Ah, sim, a humanidade sempre fora pródiga em traição e jogos de poder.
Gaudentio era um patrício romano, filho bastardo de um poderoso senador e da sua amante dalmace, uma digna representante do povo eslavo que tanto sangue e suor romano exigiu em troca do controlo de suas terras a sudeste dos Alpes. Seus antepassados maternos eram artífices do metal, fogo... e cristal. Gaudentio aprendera com sua mãe alguns dos segredos incontáveis de como tratar, talhar e polir cristal, e como curioso inato, aprendera nas ruas e mercados muita da sabedoria antiga dos múltiplos povos que antes enxamearam a gorda e velha Roma. Era um virtuoso da magia prática com seres e objectos, e aquilo que hoje se poderia chamar de um brilhante químico. Sabia quais os segredos que o fogo revelava, quais os elementos que viviam no âmago do cristal, e como os poderia invocar. No seu laboratório trabalhava juntamente com um foragido príncipe nardo e um velho alquimista egípcio. Juntos, trabalhavam o cristal na perfeição e criaram a solução para o tempo de espera que dizimava os clarividentes anciãos que aguardavam e desesperavam pela descoberta da matéria mágica que lhes conferiria vita aeterna, a Pedra Filosofal. Gaudentio, Augutinius e El-Ashmeed construíram um vaso mágico de cristal, onde a alma se poderia refugiar durante séculos ou milénios até que fosse descoberto o segredo da carne imortal. Só então se poderia proceder ao transvase, o acto de passar a alma guardada no vaso para o novo corpo imortal.
O tempo tratou de fazer desaparecer completamente a Escola de Gaudentio e seus pares, e levou consigo o mistério do Vaso Eterno...


Angela sabia que era feita de carne mortal, e sabia que o fim estava próximo. Aquele estranho e insano episódio matinal poderia não ser mais do que um sonho que se arrastou para além do fim da narcose nocturna, mas era sem dúvida um aviso. A Duquesa de Khroner não iria durar muito mais tempo à superfície da terra.

Inspirada na antiga história que seu tio lhe contara, decidiu que era hora de visitar aquele homem tenebroso, aquela criatura que tanto transtorno lhe causava. Era hora de ir bater à porta de Mestre Fausto. Ia confrontá-lo, e perguntar-lhe que segredos guardavam aqueles cacos de vidro glorificado, aquela abonecada resplandecente, aqueles incómodos seres de cristal. Tudo na esperança de encontrar entre a parafernália de bibelôs desalmados uma última morada para o seu sopro imortal. O horror alimentado pelo catolicismo vigente de que um Inferno em chamas a poderia engolir para toda a eternidade fê-la tomar atitudes drásticas, tudo em nome da salvação da última das Khroner.
Mal Angela se aproximou da loja de Mestre Fausto ouviu a pesada porta de carvalho ranger e entreabrir-se. Ela sabia que era esperada, ainda que em mais de 40 anos nunca pusera os pés lá dentro mais do que 2 ou 3 vezes.

- Aproxime-se Sr.ª Khroner, estava à sua espera – Disse Fausto, com a sua voz seca e profunda como a caverna da Alegoria.
- Salve velho diabo, fostes vós quem andou a zombar de mim com partidas infantis para me despertar do meu sono? –
- Não fui eu, mas sou capaz de saber que tenha sido. Ela passou por mim esta noite para me cumprimentar e disse que ia a tua casa. –
- De quem falais? – Disse Angela tentando-se passar por mais surpreendida do que de facto estava.
- Da Ceifeira, daquela que a todos visita pelo menos uma vez. –
- Um dos seus bonequitos assustadores, é isso que me estais a insinuar? –
- Vossa Senhoria viu do que falo, quando se mirou ao espelho, quando sentiu o seu sopro gélido ao despertar, quando ouviu o cabo de sua gadanha a bater no solo carcomido de térmitas de seu quarto. –
- Fantasmas? Pensais que me assusto assim tão facilmente? Não sou nenhuma catraia para me impressionar com estorietas de tigres e traças e outras assombrações para tirar sono a crianças, ficai sabendo...-
- Não diga mais nada Sr.ª Duquesa. Não é a primeira vez que tenho um Khroner na minha loja a tentar convencer-me que seus intentos são outros dos que o cá trouxeram. Quereis ver uma peça em particular, um artefacto arcaico do tempo das primeiras trevas, um pequeno e delicado objecto, um vaso. –
- Não.... Sim,... como sabeis?!?
- Foi vosso tio quem mo deixou à guarda, com o aviso de que mais tarde a Sr.ª Duquesa o viria buscar. Pois aqui está ele, este pequeno vaso de cristal antigo. É vosso, para fazerdes dele conforme seja vosso desejo.-
Angela olhou para o vaso, surpreendida com o desfecho excessivamente rápido de sua visita. Aparentemente era apenas um vaso de cristal, simples e translúcido, sem nada que o denunciasse como mágico ou com poderes para enganar a eternidade. Fausto sorria tranquilamente, permitindo a seu corpo magro e alto alguns momentos de descanso num velho cadeirão de veludo carmim.
- Mas estais seguramente a gozar com a minha pessoa. Para que quero eu isto? É alguma piada, estais a divertir-vos às minhas custas, é isso, não é? –
- Adeus Angela, a nossa conversa terminou! –

Naquela manhã fria de Novembro, a Duquesa acordara com um solavanco violento que a fez erguer da cama repentinamente. Qual louva-a-deus bêbado, esbracejou inconsequentemente em busca dos óculos enquanto volteava a cabeça para um lado e para outro numa tentativa desesperada de perceber o que se estava a passar nos seus aposentos embebidos na obscuridade da pré aurora. Mas apenas o silêncio ensurdecedor se sucedeu ao tremendo baque abafado...
Angela ergueu-se e lentamente compôs-se do susto. Acendeu o castiçal de prata brasonado e aproximou-se do espelho de madeira de cerejeira do século XVII. Mirou-se e viu a sua cara pálida e ainda trémula do susto que a despertara. Tinha a cabeça pesada, como acontece quando temos um sonho demasiado intenso e perturbador. Estava tudo no seu lugar, tudo na mesma... ela procurava por perturbações e parecia que nada se tinha alterado. Mas não era bem assim. Sobre o seu toucador, na intimidade de seu boudoir, havia agora um pequeno vaso de cristal que luzia com a primeira claridade do dealbar frio. Angela aproximou-se dele, primeiro com receio, depois, lentamente, com uma sensação de esperança e desafio. Ela estava pronta a fazê-lo, a tocar no vaso eterno e a saltar para dentro deste, e para sempre iludir a morte. Era o momento, ela estava convencida de que era isso que desejava, e nada a iria demover. Adeus carne fraca, a eternidade de Gaudentio seria o jardim de sua alma. Angela soluçava e seu corpo tremia de antecipação. Mas a sofreguidão paga-se cara, e, num gesto de amplitude desmedida fez cair o candelabro no chão, onde a chama das velas foi encontrar pasto para progredir sobre o tapete persa do Século XVI. Em menos de 3 minutos todo o boudoir estava em chamas, ardendo como se fosse o dia do juízo final para a Duquesa de Khroner. Em menos de nada estava tudo acabado, toda a casa reduzida a escombros e cinzas...

Só no dia seguinte é que a polícia e os bombeiros poderam começar à procura dos vestígios mortais da Sr.ª Khroner. Encontraram apenas os restos calcinados de seus ossos e alguns vestígios do que antes foram os seus pertences. Pouco havia para reconhecer: os suportes da cama antiga, o espelho quebrado com a prata enegrecida pelo fumo e um curioso pequeno vaso de cristal, que dava a ilusão de ter no seu interior uma ténue luz branca a pulsar.

31 de Outubro de 2005,

Der Überlende


 

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